REFERTA DE TIGRES E LEÕES
Este arrojado troço de feras humanas premunidas com lanças e espadões, ascunhas e alabardas, facas e mosquetes investiu no Rocio com rude e selvagem ousia contra a infrene multidão. Ia travar-se agora uma luta de tigres e leões.
Nem a surpresa nem o medo conseguiram afugentar as mulheres ou as crianças. As mulheres gritavam e rugiam como pantheras, as crianças, em corridas vertiginosas arremessavam pedras e calhaus, os velhos sentiam refluir-lhes o sangue da juventude e serviam para animar[{140}] os brios dos mais novos. Uma destemida populaça e uma horda fanatica de soldados lidavam e combatiam, como em liça de musulmanos contra christãos, com egual coragem e com o mesmo furor.
Decorreram breves minutos e já se via, como na manhã seguinte de uma noite de batalha, o chão alastrado de corpos ensanguentados e moribundos. Mais de quinze cadaveres, não memorando a desastrada hecatombe dos feridos e contusos, eram já os tristes despojos e as victimas infelises da contenda.
O ruge-ruge, a voseria, a confusão e as cutiladas pareciam todavia cada vez mais longe do seu fecho. Mas, predispondo-se a restabelecer o socego, um personagem de altivo porte e animo resoluto á semelhança dos paladinos da idade media, rompeu com bravura por entre o populacho e a soldadesca proferindo em voz sonora: basta, basta!
Depressa foi reconhecido o campeão e, sendo-lhe franqueada a passagem com todas as demonstrações de respeito, ergueu-se o grito geral de—viva sua altesa! viva o senhor infante![{141}]
O infante Dom Luiz desembuçou a capa de veludo, mostrou ao povo o seu rosto sympathico e com serenidade lhe fallou assim:
—Ordem, ordem! El-rei deseja e estima a vida dos seus vassallos. Não quer que elles vertam o seu sangue de tal sorte. Cobrai tento e socego, meus amigos!
Entretanto um dos mais inquietos e terriveis contendores foi pouco a pouco recuando com a espada em punho até se aproximar do infante. Não recuava de susto ou por impulsos de fraquesa, que nunca o seu espirito fôra abalado pelo medo nem os nervos do seu braço jámais affrouxaram nas conjuncturas do perigo.
—Debalde gastaes a paciencia e o tempo, lhe segreda. Esta corja infrene e rebelde que nem de filhos de Satanaz, decerto vos não obedece nem respeita.
Não lhe sobejou ensejo de alongar o discurso. Um troço de aggressores armados de alabardas e espadas, de picos e ascunhas investiu contra elle ao grito diabolico de—morram os hereges, morram os traidores![{142}]
—Morram, morram os judeus e os hereges! conclamaram logo de todas as partes.
O infante, desnudando a espada, enrostou com a massa dos aggressores. Elles porém, demovidos pelo respeito e pela estima que todos professavam pelo irmão de el-rei, suspenderam o passo.
—Ousareis porventura, lhes disse, erguer armas contra o irmão de el-rei?
—Não queremos offender vossa altesa, responderam do meio dos aggressores. Queremos só esse herege e esse criminoso que ahi está. Esse buscamos, buscamos esse só.
—Que me quereis então? proferiu com sobrecenho e desassombro aquelle que indigitavam.
—A vossa cabeça. A vossa cabeça de traidor para a ponta das nossas lanças e o vosso corpo de herege para a fogueira do Santo Officio.
—Rapases, retorquiu o infante com asedume, a el-rei sómente incumbe o castigo. Não vos é dado justiçar por vossas mãos. Se ha ahi algum criminoso, os juises de el-rei o tem de punir segundo as leis e usos do reino.[{143}]
—Diz bem o senhor infante, concordaram alguns dos representantes da populaça.
—Ide-vos em boa paz então. Restabeleça-se a ordem e haja por toda a parte socego.
—Mas quem nos responde pelo herege? Quem nos responde por elle?
A estas interrogações dos mais exigentes, accrescentaram ainda algumas voses:
—Sem castigo não deve ficar. É de justiça, é de justiça que seja punido...
—Será feita justiça, retorquiu o infante. Prometto-vos debaixo de minha palavra de Prior do Crato e, o que não vale menos, de leal cavalleiro, que o levarei á presença de el-rei para que se faça justiça rigorosa.
Seguidamente pela Bitesga e outras ruas dispersou-se pouco a pouco a sediciosa turba. O infante Dom Luiz acompanhado pelo badage, esses meteram pela rua da Palha em direcção aos paços da Ribeira.
—Decerto cumprirá vossa altesa a sua palavra? inquire o badage a meio do caminho.
—Sinto, meu amigo, que me reservasses o[{144}] officio de carcereiro. Mas confio que meu irmão e senhor não deixará de vos tratar bem.
—Alimenta vossa altesa mais esperanças do que as que eu nutro. Do animo generoso de el-rei pouco espero. Desconfio que precisa a guela d'aquelle serenissimo sapo de mais uma doninha...