VANTAGEM DE DOUS CONTRA UM
Preparava-se o badage para se escapulir do carcere quando o homunculo, em attitude de lhe embargar a passagem, desfechou das suas guelas herculeas uma estridente cascalhada de riso.
—Meu fidalgo, regougou elle, julga que eu seja de animo tam simplorio que lhe favoreça a escapula sem primeiro arrecadar no bolso os mil ducados promettidos por vossa senhoria? Pardés que me rio com vontade, meu fidalgo!
—Fallas com prudencia e siso. Quem deve, paga. Eu, em troca da minha liberdade, devo dar-te 1:000 escudos. Devo-te portanto 1:000[{116}] escudos em ouro ou prata. Mas esse dinheiro, embora seja em perolas de Ceylão ou em ouro de Ophir, difficilmente se arrecada no bolso do gibão.
—Pois, meu fidalgo, teremos o contracto desmanchado... Demais, quasi estou repeso do que fiz. As más acções produsem o effeito da ferrugem nos metaes: fasem mossa na consciencia. Porventura merecem os meus amos que os atraiçoe? Pagam pouco, é verdade. De que valem 150 crusados? De que valem elles? Uma ninharia que não chega para a cova de um dente e não é preciso que o dente seja de elefante. Mas emfim sempre me pagam...
—Percebo, percebo. Sabes que mais val um passaro na mão do que dous a voar. Dá cá, toma lá. Não é isso? Pois eu vou satisfaser os teus desejos.
O badage pediu um tinteiro e sobre meia folha de papel escreveu com letra maiscula o seguinte bilhete:
«Dona Catharina de Austria, rainha de Portugal, entregará ao portador a quantia de mil ducados em ouro ou prata. Do cárcere da inquisição[{117}] do Rocio, aos 29 de desembro de 1553. Pedro, o pagem.»
—Toma, disse depois ao homunculo. Este bilhete vale bem o teu dinheiro. Ficas satisfeito?
O carcereiro empolgou a meia folha de papel e com soffreguidão o perpassa duas veses em frente dos olhos. Quando lhe cresceu tempo de o ler, curvou a cabeça em testemunho de respeito e contrictamente resmoneou:
—Meu fidalgo, bem adivinhava eu a estirpe de vossa senhoria! Tem relações com sua altesa serenissima Dona Catharina de Austria, um coração de bondade como não ha outro mais protector dos pobres e dos infelises. Que immensa gloria, que felicidade a minha em topar com tam boa e poderosa gente! Beijo-lhe as mãos, meu rico infantão. Agora sim. Para tudo quanto precise tem ás suas disposições o servo mais humilde e mais dedicado. Prompto, meu amo! Logo ou ámanhan, agora e já, sempre e sempre me disponho a servil-o. Palavra de homem honrado: quer partir já? quer que se bote o fogo a esta casa maldita? quer que se espatife[{118}] com um cutelo a cabeça do snr. Simão Rodrigues? Eu obedeço como deve sempre obedecer o servo, o escravo. Ordene, meu fidalgo!
—Muitas veses nos arrependemos da maxima confiança. Sou de aviso que primeiramente recebas o premio dos teus serviços. Vai e volta depois. Porventura não receias que te engane?
—Meu amo, replicou o alcaide ao mesmo tempo que rasgava com nobre desinteresse o seu papel de 1:000 escudos, de hoje por diante ficarei sempre ás ordens de vossa senhoria illustrissima. Ja pouco me importam os meus ducados. Podemos partir quando queira, meu nobre senhor...
Ouviu-se então uma voz dissonora como a furia do vendaval.
—Não partireis! trovejou Simão Rodrigues ao assomar com passo grave no portal do sombrio ergastulo.
Infelizmente para elle, o jesuita commettera um acto de rara imprudencia. Vinha só. Affeito á cega obediencia de um numeroso exercito de clerigos e alabardeiros, confiadamente se apresentou[{119}] á porta do carcere sem soldados nem sequito.
O badage e o carcereiro ficaram com o espirito indeciso. Ambos conheciam até que ponto alcançavam a sagacidade e jurisdicção do jesuita. Bastar-lhe-hia um gesto ou uma palavra para todos á porfia executarem immediatamente as suas ordens. Por isso não deixava de ser melindrosa a situação. Mas depressa o badage e o carcereiro comprehenderam a vantagem que levavam ao jesuita: dois contra um é sempre uma vantagem.
Simão Rodrigues entrou no carcere e o homunculo adiantou-se para a umbreira da porta. A porta era solida e perra; mas o pulso vigoroso do homunculo fel-a girar nos gonzos sem difficuldade e logo em um abrir e fechar de olhos lhe correu com a chave a lingueta da fechadura. Depois, tomando a prevenção de esconder a chave no bolso das calças, foi augmentar o grupo do jesuita e do badage.
O jesuita fallava assim:
—Pagem, quiz ganhar de el-rei o vosso perdão. Mas el-rei nosso amo não quiz perdoar os[{120}] vossos crimes e vós, convicto do crime de heresia, no primeiro domingo do Advento padecereis como christão novo o supplicio da fogueira. Encommendai a vossa alma a Deus...
O badage, desfechando uma risada, em bom genio redarguiu:
—Não careço do teu perdão, meu padre. Agora na minha presença deixarás de ser o provincial Simão Rodrigues: és simplesmente um reptil, um covarde, um malvado... Queres ainda lutar comigo? Braço a braço, esmago-te!
—Assim, assim, meu valente! Esmague-me essa vibora! jarrete-me esse verdugo!
Apenas o carcereiro desprendera das fauces tam rudes imprecações, o jesuita impallideceu como um cadaver. Comprehendeu o conluio; adivinhou que se trocaram os papeis. Em vez de mandar e ser obedecido, restava a Simão Rodrigues o papel de obedecer como escravo. Lance desesperado para o seu orgulho!
—Estranho o vosso procedimento, desabafou emfim. Insensatos que sois! Por ventura me faltareis á obediencia? Por acaso attentareis contra a minha vida? A minha vida pertence á[{121}] igreja e a Deus. Cautela com a maldição de Deus!
De nada, porém, valeram os argumentos. Carcereiro e encarcerado abafaram com um lenço a boca de Simão Rodrigues, por detraz das costas amarraram-lhe os braços com um pedaço do sambenito despido pelo badage e, como se faz a uma rez no matadouro, jungiram-no pela gorja a uma das argolas do carcere.
—Vamos deixar-te agora, proferiu o badage. Ficarás ahi, filho de Torquemada, entregue ao arrependimento e ao remorso dos teus crimes. Não teve força nem coragem el-rei Dom João III para reprimir as tuas ambições e castigar os teus delictos. Pois desempenho eu os deveres do rei! Para bem do povo e desaggravo da humanidade faz-se mister que desappareças da face do mundo e que tambem desappareça comtigo essa ordem de viboras e de tigres que para desdita nossa introdusiste de Roma nos reinos de Portugal. Adivinhas o que te vai succeder? Adivinhas por acaso? Desapparecerás para sempre, Simão Rodrigues. Antes de meia[{122}] hora será o teu corpo um esqueleto e esse esqueleto se redusirá a um punhado de cinzas!
Em seguida desprendeu dos pilares da abobada uma lanterna e com a chamma do pavio incendiou as roupas talares do jesuita.
Começando então de atear-se uma labareda fumegante, logo os dous companheiros a passo lesto se dirigiram para o umbral da porta e assim sem saudades abandonaram aquella horrenda masmorra.