CAPITULO III

Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo.

Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha del-Rei de Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz mui esforçado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da sua terra, e a quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pedindo-lhe que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho grande, e fermoso, que não podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo com as pernas tão encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam que nunca poderia ser são dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso Senhor de mil noventa e quatro.

Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou á pressa, e veio-se a Guimarães onde o Conde estava, e pedio-lhe por mercê que lhe desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha prometido. O Conde lhe respondeo que não quizesse tomar tal carrego; porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D. Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: «Senhor, antes cuido eu que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja»: E o Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria, de o encarregar em semelhante criação, por causa da aleijão da criança, com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criança tão fermosa, e com tal aleijão, houve mui grão dó della, e confiando em Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, não com menos amor, e cuidado como se fora são.

E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já o Menino de cinco annos, lhe appareceo nossa Senhora, e disse: «D. Egas dormes». Elle a esta voz, e visão acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». Ella disse: «Eu sou a Virgem Maria, que te mando que vás a um tal lugar,», dando-lhe logo os sinaes delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que em outro tempo foi começada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger a Imagem e a Igreja feita á minha honra; esto feito farás hi vigilia poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecerá, e será são de todo, e não menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos da Fé».

Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre, como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda aleijão, como se nunca tivera nada della.

Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando, e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade, que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei ser seu nacimento como disse.