CAPITULO LVII

Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho, em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso, que veio a soccorrer seu filho.

Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja corregida do que compria para sua defensão, leixando em ella fronteiros, e assi nos outros Lugares e Villas Dalentejo veio-se para Santarem com a gente que de continuo trazia comsigo, e alguma pouca mais, porque a outra ficava repartida pela frontaria dos Mouros, e estando assi o Ifante D. Sancho em Santarem Almiramolim Emperador antre os Mouros Rei de Marrocos, vendo o grande danno e estrago que os Mouros tinham recebido del-Rei D. Affonso Anriques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de toda a terra se lhe mandavam desso cada vez mais agravar, foi movido a fazer guerra a Portugal, e juntou muitas gentes infieis, dáquem, e dalém mar, e segundo diz uma Chronica, que foi achada em Santa Cruz de Coimbra, não era em memoria até aquelle tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, El-Rei Albojaque de Sevilha, e El-Rei Albozady, e El-Rei de Grada, e El-Rei de Fês, e outros Reis Mouros, que por todos eram treze, cujos nomes se não acham escritos, e vieram pelas partes Dalentejo a entrar na Estremadura, passando o Tejo um Domingo, dia de S. João Bautista, sete dias por andar de Junho, era do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos; os Mouros logo em esse dia foram sobre o Castello de Torres Novas, e destruiram-no, e á Segunda feira vieram poer seu arraial em um lugar que se chama o monte de Pompeo, e á Terça feira se ajuntáram todos na Redinha, e á Quarta feira, se vieram a Orta lagoa, e alli sentáram seu raial, e esta conta da entrada, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na Coronica, como quer que um letreiro dos que estão no Convento de Thomar, desvaire algum tanto, e diz que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o primeiro dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e que trazia comsigo quatrocentos mil de cavallo, quinhentos mil de pé, poderia passado o Tejo de tanta multidão apartar-se muita gente, poer este cerco, e fazer outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, e deixa-lo posto.

O Ifante D. Sancho que estava em Santarem, como dissemos, não tendo comsigo gente, que com rezão podesse peleijar com tanta multidão de Mouros, meteo-se a correger a Villa o milhor que pode para se haver de defender, e segundo achamos escrito ainda então a maior parte de Santarem era arrevalde, nem havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra de Alfam, até Alfanja, o Ifante despois de correger os muros, e ordenar a defensão saio-se fóra ao arravalde, e tomou uma parte delle, para o abairreirar de cubas, e portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em que podessem estar para defender, mandando derribar todas as casas de redor, e então repartio sua gente, e elle poz se com sua bandeira onde lhe pareceo haver de ser mór pressa, e ao outro dia pela menhã Quinta feira vinte e oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. Paulo abalou Almiramolim com toda sua gente, e chegou a Santarem, segundo conta aquella Estoria achada em Santa Cruz, como já disse, e em chegando, tanto que soube que o Ifante o esperava assi naquelle palanque houve por desprezo, e fez logo dar ás trombetas, e mover toda sua gente, e combater o palanque.

Foi o combate tão forte, que morreram e foram feridos muitos de uma parte e da outra, em quanto uns peleijavam, destroiam os outros todo o arravalde de fóra do palanque até torre Lavinha, por fazerem aos Mouros maior praça, e despejo, para combater. Tanto que veio a noite, que partio o combate, o Ifante poz guarda no palanque, e fez agazalhar e repousar outra gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta sofreram os Christãos assi cinco dias arreio, porque os Mouros eram tantos, que mui folgadamente se renovavam cada vez muitos aos combates, desde pela menhã até noite; e segundo conta a dita Estoria, quando El-Rei D. Affonso soube que Almiramolim vinha sobre o Ifante seu filho, ajuntou a mais gente que pode, e abalou tanto á pressa, que aos tres dias desque o Almiramolim chegou a Santarem, foi El Rei a Porto de Mós. Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. Affonso não leixáram por esso seguir com maior afronta seus combates, cada dia, como antes faziam, e ao quinto dia foi o Ifante e os seus tão afincados dos Mouros, e postos em tanto aperto, que o palanque foi roto por algumas partes, e muitos dos Christãos mortos, e feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com todo mui esforçadamente se defenderam, e sostiveram aquelle dia, que não foram entrados, e já não tinham modo de defensão, se não desemparar o palanque, e acolher-se ácerca; mas o Senhor Deos, que é poderoso em todalas cousas, quando se os homens em ellas não sabem, nem podem valer, então acode elle com sua ajuda, porque se então mais conheça, e poz tal medo e receo nos Mouros, com a vinda e chegada del-Rei D. Affonso, que começaram a dezemparar os combates que faziam, e ir-se poucos a poucos, a mais andar, como desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e desmandar-se, quando se menos póde reger, e os Christãos vendo os raiaes dos Mouros mover se, e partirem-se de onde estavam, saio gente de pé do Ifante contra elles, e os Mouros se afastáram para um Lugar, que se chama monte de Abbade, e nisto appareceo El-Rei D. Affonso com sua gente, de que o Ifante e os seus foram mui ledos, e pozeram-se logo todos a cavallo, e juntos com El-Rei déram nos Mouros, fazendo nelles grande estrago, e mortindade, de que morreram alguns dos Reis que alli vinham, e grande parte dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido Almiramolim, e feito assi nelle, e nos seus tão grande desbarato.

Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimento, e prazer de todos os seus, e acháram no Arraial dos Mouros grandes despojos de ouro e prata, e tendas armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cousas com pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e muitos Mouros cativos, entráram na Villa mui ledos, dando muitas graças e louvores a N. Senhor. Estos Mouros, que assi iam fugindo com quanto iam desbaratados, porém por ainda ficarem mui muitos de tanta multidão foram poer arraial acerca Dalanquer, e tiveram-na cercada alguns dias, combatendo-a rijamente sem lhe poderem empecer, e depois se alçaram dali, e foram-se a Aruda, e destruiram-na toda por terra, e dali se foram cercar Torres Vedras, e estiveram sobre ella onze dias, e vendo que a não podiam tomar, houveram Conselho de se ir volta de sua terra, achando que eram dos seus muitos mortos, e perdidos, e assi muitas riquezas que trouxeram, e então se partiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu grande Emperador Almiramolim das muitas feridas que houve na batalha.