CAPITULO XLIII

Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama.

Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por aquelles lugares, que ganhára aos Mouros, provendo-os das couzas, que lhe compriam para sua defenção, como fossem governados em justiça, e estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e cinco annos (1165) havendo já El-Rei setenta e um de sua idade, veio recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e Castello eram mui fórtes, filhou-a por força, e desque teve a Villa socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella, e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons Cavalleiros, e alguma gente de pé, e besteiros, e chegando a Palmella, e estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e sessenta mil de pé, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christãos. Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que eram com elle tanta gente, começáram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra Dazeitão, e tomassem em ella algum lugar fórte para se deffenderem, até ir recado aos do arraial.

El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multidão dos Mouros; porém esforçando-se no poderio de Deos ser maior que o dos homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos seus em esta maneira: «Que esmaio é este amigos, ou que nova desconfiança do Senhor Deos, nem que vedes vós agora de novo, para tanta torvação; estes muitos, que vedes são os que vós muito menos, dos que ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos nós peleijando, e vencendo, á cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perdermos, certo que ouvindo-vos, o que ouço, se vos a todos não conhecera, podera mal cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no campo Dourique, e em outros lugares, não ponhaes ante vós meus amigos, quantos mais são, que nós, mas quanto no poder, e querer de Deos, por quem peleijamos, são muito menos que nós; o medo, em que os Deos já poz para nós maiormente se dermos nelles de sobresalto, fará que lhes pareçamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforço contra nós. Ora havei Cavalleiros, que mingua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço, mal concorda no coração de Christão esmaio com ardideza, mal no Christão desconfiança com fé, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos, poucos são os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em seus corações, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo, haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem não ficará destroço, nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que como prezentes ante si não ponham, este de agora, que com a graça de Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos venham por sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o contrario, e pois por tantas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso poder, por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser a elle impossivel, não devemos nada temer, vamos logo com sua graça, que nos sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus ordenou para mostrar mais seu gram poder, com tão poucos me aqui acertasse, eu determino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou de morto me não partir do campo».

Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle tão grande confiança, e determinação, todos mui esforçados com suas palavras, e esforço, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes não faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem logo nelles. Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam mais que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com grande coração, e esforço, e todos com elle, em se mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir nos primeiros tão rijamente, que logo muitos delles foram derribados, antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo, que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe, que seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, que começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande coração, e esforço ajudado por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava. Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam. Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que lá ficaram, que logo fossem todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela boa andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tristes, por se não acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o desbarato dos seus Mouros, e os Christãos juntos contra si, tendo perdida a esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve dello, e assi houve a Villa de Palmella.