CAPITULO XLV

Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar as maldições dos pais, e mãis aos filhos.

O pezar que me faz, e a todos fará vendo este dezastre del-Rei D. Affonso Anriques, me faz falar contra as maldições dos pais, e mãis, que ameude se lançam com pouco tento e resguardo, devendo-se escuzar com muito, vendo, e sabendo todos, que com nome de filhos nos reconciliou Deos para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o adorassemos, com o nome em que se conclue, e encerra a maior obrigação e ajuntamento de reverencia, e amor que póde haver, antre nós, nem de nós para elle, por onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais, e mãis, segundo por Deos lhe é distintamente mandada escuzar de os provocar a semilhantes maldições, antes recea-las muito, e teme las, por injustas que sejam, como se diz das excommunhões, que desprezando-as haverá por ventura lugar de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males de que mal peccado andamos acompanhados descote, e ante Deos desmerecemos, porque tanto quiz Deos, que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo ordenou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Julgador, sofreo ter injustamente julgado, por injustos, e perversos julgadores, por terem na terra o cargo, e presidencias por elle ordenadas, o que tanto mais devem os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mãis, quanto a lei de justiça, e ordenança de Deos, lho devem ainda por grande obrigação de natural reverencia, e amor.

E os pais muito mais de seu cabo devem a meu juizo escuzar semelhantes maldições, quanto mais idade, e entender tem, concirando que são homens, e pais de homens, e que elles poderiam já fazer outro tanto a seus pais, e mãis, maiormente que os erros dos filhos não podem ser tão danosos, que muito mais não sejam as maldições dos pais, lançando-se sempre por humano defeito da sanha vendicativa, a qual se decega em desenfriada ira, não procedesse, não haveria lugar contra o sobejo amor dos pais, e mãis, sendo sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem ao filho: «Má morte te mate», vendo-lhe algum mal muito menos de morte se culpam, e matam por elle, e Deos manda, que das nossas injurias, e danos, leixemos a vingança a elle. Dessas pessoas lhe devemos mais leixar de que aos outros devemos tomar que são pais, e filhos, os quais toda a rezão obriga, que antre si mais se comportem, e hajam em suas cousas paciencia, pois Deos que as fez a quem se ainda mais nesso erra, ha com elles paciencia, e assi escuzaram os filhos a culpa tão crime como é desobediencia aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como é aos filhos, que lhe deu, por benção, fazerem filhos de maldição, a qual por esto só tambem por injusta que fosse abastaria pela ventura, para fazerem por pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste mundo, em que bem podemos padecer por culpas, e peccados alheios, assi como filhos por pais, e servos por senhores; ainda que no outro não possamos, se não pelos proprios nossos, e da verdade deste caso prouvera a Deos que tiveramos em outra parte a prova, e exemplo mais longe, e estrangeiro, e não del-Rei D. Affonso, que sendo tão virtuoso, e todos seus feitos sempre com virtuosa tenção, e de serviço de Deos, não leixou maldição de mãi, mais madrasta que empecer a este Rei, na pessoa, na fazenda, e na honra, a filho tão virtuoso.