CAPITULO XV

Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso Anriques, posto na Cruz como padeceo por nós.

Quando foi contra a tarde depois que o Princepe fez poer as guardas em seu arraial, o Irmitão que estava na Irmida, que acima dissemos, veio a elle, e disse-lhe: «Princepe D. Affonso Deos te manda por mim dizer, que pela grande vontade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas ledo, e esforçado, elle te fará de menhã vencer El-Rei Ismar, e todos seus grandes poderes, e mais te manda por mim dizer, que quando ouvires tanger uma campainha que na Irmida está sairás fóra, e elle te apparecerá no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores». (E já antes desto elle tinha feito, e dotado com grande devação o Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, á honra da morte e paixão que N. Senhor recebeo na Cruz, pelo qual é de crer que lhe quiz Deos assi apparecer, porque por onde cada um mais merece, por hi o mais honra, e alevanta) Des que se partio o Irmitão, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, e disse: «Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que todalas creaturas obedecem, sogeitas a teu poder, e querer, a ti só conheço, e tenho em mercê os grandes bens e mercês que me tens feito, e fazes em me mandares prometer tão grande cousa, como esta, e tu Senhor sabes que por te servir, passei muita fadiga e trabalho contra estes teus imigos, com os quaes, por serem contra ti, eu não quero paz, nem os ter por amigos, e pois em quanto viver, me não heide partir de teu serviço á tua infinda piedade peço que me ajudes, e tenhas em tua santa guarda; porque o imigo da linhagem humanal não seja poderoso para torvar teu santo serviço, nem fazer que os meus feitos sejam ante ti aborrecidos».

E desde que esto disse com outras muitas devotas palavras, encomendou-se a Deos, e á Virgem gloriosa sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando foi uma hora, ante menhã tangeo-se a campa, como o Irmitão disséra, e então o Princepe saio-se fóra da sua tenda, e segundo elle mesmo disse, e dentro em sua Estoria se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo que disséra o Irmitão, e adorou-o mui devotamente com lagrimas de grande prazer, confortando-se, e animando-se com tal elevamento, e confirmação do Espirito Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver antre outras palavras falado alguma sobre coração, e espirito humano dizendo: «Senhor, aos Ereges, aos Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma duvida creio, e espero em ti firmemente». Esto mesmo não é para leixar de crer, o que tambem se afirma que neste apparecimento foi o Princepe D. Affonso certificado por Deos de sempre Portugal haver de ser conservado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora sua virtude, e merecimentos eram taes para lho Deos prometer. E mais se afirma que por ser esta a vontade de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S. Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que nos tempos passados, e em nossos dias, Deos seja louvado, se vio muito grande mostra desto atégora, e será para sempre; tudo é para crer que N. Senhor queria, e faria a Princepe tão virtuoso, sobre que fundava Reino, e Reis tão virtuosos, para tanto seu serviço, e da santa Fé Catholica, e por suas cousas andarem por culpas dos tempos em mui falecida lembrança de escritura quiz Deos, segundo parece, que ficassem algumas em confirmada fama.