CAPITULO XXXVIII
Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos milagres que Deos por elle fazia.
Querendo ainda o Senhor Deos segundo a grande avondança de sua infinda benificencia, mostrar por mais maravilhas quanto lhe tinha aprazido, o serviço deste Cavalleiro Anrique, appareceo á cabeceira de sua sepultura uma palma semelhante áquella que trazem os Romeiros de Jerusalem em suas mãos; assi começou em verdecer, e deitar folhas, e crecer sobre a terra, em sua altura juxta. El-Rei, e todos vendo tão grande, e famoso milagre, louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alli vinham tomar palma, e deitavam ao colo logo eram sãos a essa hora, de qualquer infermidade que tivessem, e outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida bebiam della aquelle pó, e assi mesmo se achavam logo sãos das dores que tinham, e tanta foi a continuação da muita gente que vinha tomar daquella palma, que a pouco tempo não ficou nada della sobre a terra, até por não porem boa guarda nella, vieram alguns de noite, e a arrancaram de todo, levando o que ficava sobre a terra. Por estes milagres, e outros que N. Senhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que alli morreram, tinha El-Rei nelles mui grande devação, que se sentia em si algum abalamento de doença deitava-se em oração sobre seus jazigos, e achava-se logo remediado.