MIGUEL LOPES FERREIRA
AO LEITOR
Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal começo a satisfazer a promessa de dar ao prelo todas as Chronicas dos nossos Reis, que até agora se conservavam manuscritas. Esta do fundador glorioso do Imperio Portuguez tem mais de dous seculos de antiguidade, porque seu Author Duarte Galvão falleceu na Ilha de Camarão a 9 de Junho do anno de mil e quinhentos e dezasete. A authoridade de quem a escreveu não é menor, porque o Pai deste Chronista foi Ruy Galvão, Secretario, e Escrivão da Puridade de El-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares tão grandes, e tão immediatos á Magestade, que suppõem illustre a quem os exercita. Duarte Galvão seu filho foi do Conselho dos Reis D. João o II e D. Manoel, Chronista Mór do Reino, Alcaide Mór de Leiria, doutissimo nas Letras humanas, e Embaixador a França, e Alemanha, e ultimamente ao Preste João, levando em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da Corte do Abexim tinha passado á de Portugal, vencidas, e compostas as injustissimas duvidas da sua verdade. O irmão deste Chronista foi D. João Galvão, que depois dos maiores lugares da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, sendo Bispo da mesma Cidade, lhe fez mercê El-Rei D. Affonso V do Titulo de Conde de Arganil, que até agora se conserva nos seus Successores, e desta Mitra passou para a de Braga. Nesta Historia se acham alguns pontos encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve de attribuir a malicia do Author senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradição, que havia entre nós mal fundada no principio, e peior continuada na boca dos que a passavam a outros, em que como é natural, cada dia se vai desfigurando, e perdendo a sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente o Doutor Fr. Antonio Brandão na Terceira Parte da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade no segredo dos Cartorios, em que estava sepultada. Algumas pessoas me aconselhavam, que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outras, que assentáram, que como esta Chronica se imprimia para os que sabem, elles não ignoram pela lição de Fr. Antonio Brandão, o que é tradição errada. Sahe pois a Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques da sórte que a escreveu Duarte Galvão, e lhe fiz o beneficio de lhe ordenar um Index para utilidade de todos. Agradeça o leitor o meu cuidado, que brevemente lhe darei impressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nossos Reis, e entre ellas a de El-Rei D. João o II que escreveu Ruy de Pina, tão rara como desejada.
Vale.