I

Senhor Redactor.—Dirigindo-lhe estas linhas, submetto-me á sentença de um tribunal de honra, constituido para julgar a questão levantada perante o publico pelas cartas do doutor *** estampadas n'essa folha. Obriguei-me a referir quanto se passou por mim como actor d'esse doloroso drama, e venho desempenhar-me d'este encargo. Possam estas confidencias, escriptas com o mais consciencioso escrupulo, conter a lição que existe sempre no fundo de uma verdade! A existencia intima de cada um de nós é uma parte integrante da grande historia do nosso tempo e da humanidade. Não ha coração que, desvendado nos seus actos, não offereça uma referenda ou uma contestação aos principios que regem o mundo moral. Quando o romance, que é hoje uma fórma scientifica apenas balbuciante, attingir o desenvolvimento que o espera como expressão da verdade, os Balzacs e os Dickens reconstituirão sobre uma só paixão um caracter completo e com elle toda a psychologia de uma época, assim como os Cuviers reconstituem ja hoje um animal desconhecido por meio d'um unico dos seus ossos.

* * * * *

Sabem que sou natural de Vizeu. Criei-me n'uma aldeia encravada entre dois montes da Beira; açoitado de quando em quando por meu pae, quando lhe esgalhava alguma arvore mimosa do quinteiro; abençoado por minha mãe como a esperança dos seus velhos annos; coberto de prophecias de gloria, como o pequeno Marcello da freguezia, pelo reitor, o qual algumas vezes depois de lhe ajudar á missa, aos dez annos de idade, me argumentava na sachristia as declinações latinas. Era escutado este prodigio por um auditorio composto do sachristão e do thesoureiro, que com os chapeus debaixo do braço, coçavam na cabeça e olhavam para mim arregalados e attonitos. A um recanto, minha mãe sorria, com os olhos banhados de ternura, do fundo da caverna formada em redor do seu rosto pela côca de uma ampla e poderosa mantilha de panno preto.

Fiz depois os estudos preparatorios no lyceu da cidade, e vim finalmente matricular-me em Lisboa na escola de medicina.

Vivo pobre, humilde e obscuramente, tenho a minha existencia adstricta a uma pequena mezada, á convivencia de alguns companheiros de estudo e ao trato de duas senhoras velhas e pobres, irmãs de um capitão reformado, antigo aboletado de meu pae, em cuja casa de hospedes eu tenho por modico preço a minha moradia na capital.

A unica luz que atravessava a sombra da minha vida de desterro, de desconsolo e de trabalho, era a lembrança de Therezinha…

Therezinha! a doce, a meiga, a querida companheira, á qual eu consagro principalmente estas paginas, que são o capitulo unico da minha vida que ella não conhece, a confissão sincera, a historia completa do unico erro de que posso accusar-me perante a sua innocencia, a sua bondade, e o seu amor!

Therezinha! adorada flôr escondida entre as estevas dos nossos montes, que ninguem conhece, que ninguem viu, de quem ninguem se occupa, e que no emtanto inundas ineffavelmente a minha mocidade e a minha vida com o sagrado perfume de um amor casto, puro, imperturbavel e calmo como a luz das estrellas.

Se tu as entenderás, minha innocente amiga, estas palavras!

Se me perdoarás, tu, a enfermidade passageira e mysteriosa, cuja historia eu ponho confiadamente nas tuas mãos, pedindo-te, não o balsamo da cura para uma chaga que está fechada para sempre, mas o sorriso da benevolencia e do perdão para a vaga e sobresaltada melancolia do convalescente ajoelhado aos teus pés!

Como quer que tenha de ser, minha noiva, eu entendo cumprir perante a minha consciencia um dever sagrado contando-te, sem omissões e sem reticencias, tudo, absolutamente tudo, quanto se passou por mim. A verdade é que te amo! que te amo, e que te amarei! Outra imagem, incoercivel, vaporosa, vaga, perpassou por mim, mas esvaiu-se como a sombra de um sonho doentio, varada sempre pelo teu olhar candido que atravez d'ella se fixava e se embebia constantemente no meu.

Uma noite, ha dois mezes, recolhendo-me por volta das nove horas a minha casa, que fica situada em um dos bairros excentricos de Lisboa, encontrei parada uma carruagem de praça, cujo cocheiro altercava grosseiramente com uma senhora, que estava em pé junto do trem, vestida de preto e coberta com um grande veu de renda. Esta senhora trocou algumas palavras com outra mais idosa que a acompanhava e disse ao cocheiro com uma voz singularmente fina, tremula, delicada, musical, como nenhuma até então ouvida por mim:

—Onde quer que lhe mande pagar?… Não trago mais dinheiro.

—Importa-me pouco isso, respondeu o cocheiro. Quem não tem dinheiro anda a pé. Já lhe disse á senhora quanto é que me deve pela tabella. Se não paga o resto, chamo um policia. Se não traz dinheiro, dê-me um penhor.

Ella então bateu impacientemente com o pé no chão, ergueu a parte do veu que lhe cobria o rosto, e principiou a descalçar convulsamente uma luva. Suppuz que iria tirar um annel. O cocheiro apressou-se a passar as guias pela grade da almofada e apeou. Tinha-me no emtanto approximado, e no momento em que elle dava o primeiro passo, impellido por uma forte commoção nervosa, estendi-lhe com as costas da mão uma bofetada que o fez cambalear e cair de encontro á parelha. E dando-lhe em seguida uma libra, que trazia no bolso:

—Ahi tem pela bofetada; contente-se com o que lhe deram pela corrida.

Diria que alguem por traz de mim suggerira estas palavras romanticas, a tal ponto ainda hoje pasmo de as ter eu mesmo inventado como solução d'effeito oratorio, para similhante contingencia!

O cocheiro levantou a moeda, examinou-a á luz da lanterna, subiu outra vez á almofada, e partiu dizendo-me:

—Boa noite, meu amo!

Eu, atarantado, confuso, tirei machinalmente o chapeu, e titubiei algumas palavras vagas, não sabendo como despedir-me da pessoa que tinha ao meu lado.

Era a primeira vez que me achava perto de uma d'essas formosas senhoras da sociedade, tenra, fina, delicada, como nunca vi ninguem! Tinha uma carnação lactea e aveludada, como a petala de uma camelia,—prodigio de mimo só comparavel ao de uma outra mulher que não conheço, e que uma noite passou por mim no salão de S. Carlos, encostada no braço de um homem e envolta em uma grande capa branca de listas côr de rosa.

Aquelles que as conhecem, que as vêem e lhes fallam todos os dias, é possivel que se não impressionem com o aspecto d'estas creaturas transcendentes. Para quem as encontra de perto pela primeira vez em sua vida não ha cousa no mundo que mais perturbe. Homens habituados a arrostar com as mais violentas commoções, a olharem denodadamente para o perigo, para a desgraça ou para a gloria, tremem diante d'esta simples coisa: o primeiro contacto de uma mulher elegante! D'ahi vem o velho prestigio magnetico das rainhas sobre os pagens, das castellãs sobre os menestreis. É uma sensação unica. O ser humano bestificado converte-se por momentos n'um vegetal que vê.

Eu ficara immovel e mudo.

Ella correu-me de cima a baixo com um olhar rapido, e dizendo-me obrigada com uma commoção tremula, estendeu-me d'entre a nuvem negra das suas rendas a mão de que tinha descalçado a luva.

Entreguei a minha grossa mão a essa mão delicada, magnetica, convulsa e fria, e senti percorrer-me todos os nervos um estremecimento electrico despedido do shake-hands que ella me deu de um só movimento sacudido, fazendo tinir os elos de uma grossa cadeia que lhe servia de bracelete.

Obrigado a dizer alguma coisa, soltei instinctivamente as palavras monstruosas de uma formula que se usa em Vizeu, mas que estou bem certo nunca até esse dia haviam sido ouvidas por tal creatura, e que certamente lhe produziram o effeito do grito stridulo de um animal selvagem, escutado pela primeira vez entre mattos desconhecidos.

Vergonha eterna para mim! essas palavras, que eu desgraçadamente conservara no meu ouvido de provinciano e que a minha bocca deixou bestialmente cair, foram estas:

—Para o que eu prestar estou sempre ás ordens.

E dizendo isto, tendo-o ouvido com horror a mim mesmo, voltei rapidamente costas, e affastei-me a passos largos. Ia vexado, envergonhado, corrido, como se houvesse proferido uma obscenidade sacrilega. Dava-me vontade de me metter pelas paredes ou de me sumir pela terra dentro! Não me atrevia a olhar para traz, mas parecia-me que ia envolto em gargalhadas phantasticas, que não ouvia. Figurava-se-me que tudo se ria de mim, os candeeiros, os cães noctivagos, as pedras da rua, os numeros das portas, os letreiros das esquinas, os aguadeiros que passavam uivando com os seus barris, e os caixeiros que pesavam arroz sobre o balcão ao fundo das tendas.

Entrei precipitadamente em casa, subi as escadas, fechei-me por dentro e puz-me a passear ás escuras no meu quarto.

Nas trevas appareciam-me illuminadas por um clarão satanico essas duas mãos que pela primeira vez acabavam de se apertar na rua—a minha e a d'ella—uma trigueira, aspera e quente, a outra branca, nervosa e gelada. Depois entravam a reconstruir-se á minha vista os vultos completos das pessoas.

Ella, de uma pallidez eburnea, com o perfil melancolico de uma madona a que tivessem levado dos braços o seu bambino, movendo-se mollemente entre rendas e setim com uma ondulação de sereia.

Eu, inteiriçado e embasbacado diante d'ella, não sabendo como segurar o chapeu e a bengala, na mais flagrante e minuciosa ostentação dos meus defeitos e da minha pobreza incaracterisada e burgueza. Ao lado de quanto n'ella havia ideal, transcendente, ethereo, ia eu vendo, enormemente avultado e saliente, quanto o meu aspecto offerecia mais baixo e mais vil: o casaco comprado ao barato n'um algibebe; as botas de duas solas torpemente desformadas e orladas de lama; as calças com umas joelheiras que me dão ás pernas na posição vertical o desenho das de um homem que se está sentando; os punhos da camisa amarrotados; e a ponta do dedo maximo da mão direita sujo de tinta de escrever!

Eramos verdadeiramente os antipodas um do outro, postos na mesma latitude pela estupidez do acaso, e separados logo para sempre por aquellas palavras terriveis que me zuniam nos ouvidos como os prenuncios de uma congestão:

«Para o que eu prestar estou sempre ás ordens!»

Não sei que extranha attracção amarrava o meu espirito á lembrança da mulher que eu acabava de ver! Não era indefinida sympathia, não era occulto desejo, não era um vago amor. Interrogava-me detidamente, e o unico movimento que encontrava no meu coração—sinceramente o confesso—era o do odio. Odio áquella mulher, odio inexplicavel, monstruoso, como aquelle que imagino ser o de um engeitado á sociedade em que nasceu!

A distincção aristocratica, a elegancia da raça d'aquella gentil creatura aviltava-me, enfurecia-me, revolvia no meu interior esse fermento de rebellião demagogica que todo o plebeu traz sempre escondido, como uma arma prohibida, no fundo da sua alma.

Aquella mulher tinha certamente, um espirito menos culto do que o meu, uma rasão menos firme, uma vontade menos forte, um destino menos amplo. Para compensar estas depressões assistia-lhe uma superiodade repugnante, inadmissivel: a que procede da casta. Um berço de luxo, uma constituição delicada, um leito de pennas, a infancia resguardada na sombra, entre estofos, sobre tapetes, ao som de um piano,—isto basta, para que fique ridiculo, miseravel, desprezivel ao pé d'ella um homem que se creou ao clarão do dia, á luz do sol, tendo por tapetes a aspereza das montanhas, e por melodias o roncar das carvalheiras e o gemer dos pinhaes!

E entre mim e ella será isto perpetuamente uma barreira.

Ella ficará sempre bella, dominativa, seductora por natureza, instinctivamente captivante, querida, amimada, estremecida, dentro da sua zona de aromas, de veludos, de cristaes e de luzes!

Eu, entre a minha estante de pinho adornada com um boneco de gesso e a minha cama de ferro coberta de chita, ficarei sempre tenebroso e inutil,—desgraçado quando não quiser tornar-me tão ridiculo, e irrisorio quando tiver a vaidade de não querer ser desgraçado!…

Accendi as duas torcidas do meu candeeiro de latão e tentei estudar. Impossivel. As letras de um livro que tinha aberto diante de mim percorri-as com a vista pelo espaço de tres ou quatro paginas, machinalmente, sem comprehender o sentido de uma só palavra. Deixei o livro e fiquei por algum tempo inerte, estupido, neutro, com a vista fixa nas orbitas ôcas de uma caveira que tinha sobre a mesa, e que se ria para mim com o escancellado sarcasmo que trazem da cova os esqueletos desenterrados. Aborrecia-me a vida. Apaguei a luz, despi-me e deitei-me.

Tinham-me feito a cama n'esse dia com dois d'esses lençoes de folhos engommados, com que minha mãe enriquecera liberalmente o meu bahú de estudante. Estes lençoes tinham a aspereza do linho novo e o cheiro caracteristico do bragal da provincia.

—Pobre mãe, coitada! pensava eu, deitado e embebido n'essa longinqua exhalação olphactica da casa paterna. Coitada de ti, que na simplicidade dos teus juizos julgaste dotar-me com um luxo que faria commoção em Lisboa, orlando-me dois lençoes com esta enorme renda longamente trabalhada por ti mesma nos teus bilros infatigaveis! Se soubesses que este paciente lavor das tuas mãos em dois annos de applicação consecutiva, ninguem aqui o admirou, ninguem o viu, ninguem attentou n'elle, a não ser a criada, que esta manhã me perguntou, entre risadas sacrilegas, se os padres na minha terra se embrulhavam nos meus lençoes em dias de missa cantada! Que importa porém que o não apreciem os outros?… Toda esta gente é má, corrupta, perversa! Agradeço-t'o eu, minha obscura, minha velha amiga. Nos arabescos d'esta renda, que eu estou apalpando na mão e que tu me consagraste, figura-se-me sentir o correr caprichoso e ondeado das lagrimas que choraste emquanto o vento ramalhava nas arvores, a saraiva estrepitava nas janellas, e tu desvelavas as tuas noites de inverno, resignadamente ajoelhada junto do berço em que rabujava o teu pequeno. Quando sinto no rosto o aspero contacto dos teus eriçados folhos bordados, beijo-os piedosamente, beijo-os eu, como se fosse um anjo bom que me tocasse com a ponta das suas azas purificadoras e brancas!

Mas além do cheiro do bragal, que me envolvia como um afago mandado de longe, havia na minha cama outro perfume que contrastava singularmente com este. Era o que aromatisava a pelle d'aquella mulher desconhecida, e que me ficara na mão que ella apertou. Respirei-o com uma curiosidade irritante, que me pungia e me dilacerava. Ai de mim! collei os labios na mão aberta sobre o meu rosto, e principiei a sorver esse mysterioso respiro de um paraiso ignoto e longinquo.

É monstruoso, infernal, o turbilhão das idéas que esse aroma extranho, penetrante e cálido, me revolveu na cabeça.

Sentia os fogachos, as palpitações, a hallucinação da febre.

Quando pela manhã me levantei, sem haver dormido em toda a noite, tinha o travesseiro inundado em lagrimas…

Perdôa-me, Therezinha! minha Therezinha, perdôa-me…

Não foi pensando em ti, meu puro anjo, que eu chorei tanto n'essa noite!