IV

As palavras do allemão acabavam de lançar no meu espírito a luz subita de uma revelação que me obrigava a meditar.

O que se passava por mim, o mysterio que me cercava, o cadaver que vira, a presumpção—ainda que vaga—da concorrencia de um ou mais amigos meus envolvidos n'este acontecimento, tudo isto era tão extraordinario e tão grave que eu não ousava referil-o ao homem desconhecido que o acaso me deparava por visinho.

Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente saber qual era a rua e a casa em que estava; não me occorria porém um pretexto plausivel para levar o allemão a dizer-m'o, sem que eu o interrogasse de um modo ambiguo, que poderia levantar sobre a situação em que me acho suspeitas talvez perigosas para a segurança das pessoas compromettidas n'este negocio. Contentei-me pois em allegar o incommodo a que me obrigava a posição em que estava, e dei as bôas noites ao meu visinho. Elle despediu-se batendo no muro tres pancadas espaçadas por pausas eguaes ás d'aquellas com que eu primeiro lhe despertára a attenção. Lembrou-me que poderia ser mação aquelle homem, e que nas circumstancias em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome de juramentos reciprocos e de compromissos communs. Dei-lhe então uma letra, elle respondeu-me com outra e assim construimos successivamente a palavra da senha.

Salut, mon frêre! exclamou elle.

—Segredo! disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro ao sinal que me déra.

Fechei em seguida o armario, cheguei a cama para o logar d'onde a tinha removido, e deitei-me vestido.

Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer.

N'esta casa, debaixo d'estes mesmos tectos, está morto um homem, moço, elegante e bello, que entrára aqui, cheio talvez de esperanças, d'alegrias, de projectos no futuro, e que de repente caiu para todo o sempre, envenenado por mão mysteriosa, ignorado, desconhecido, só, longe de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da familia que o acarinhou em pequeno, longe dos logares saudosos que o viram nascer, da mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pae angustiado que em nome da humanidade lhe lançasse a derradeira benção.

Desventurado rapaz! quem sabe as torturas por que passou o teu espírito para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o seu corpo inerte, impassivel, mudo como a interrogação de um enigma posto anonymamente no meio de uma pagina branca? quem sabe os pensamentos que a morte immobilisou no teu cerebro? quem sabe os affectos que ella enregelou no teu coração, onde ha pouco tempo ainda golphava abundantemente a fecunda seiva d'essa mocidade esterilisada e extincta agora para sempre?

Pobre moço! tão digno de lastima como és, merecedor talvez de profundas saudades, ahi estás adormecido no teu somno eterno, vestido de baile, coberto com uma manta de viagem, estirado n'um sophá, insensivel para sempre ás alegrias e ás amarguras d'esta vida miseravel; e não haverá por ventura uma só lagrima que commemore, na historia breve da tua passagem na terra, este praso tão pungentemente melancolico em que os mortos estão esperando dos vivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade póde dispensar áquelles que mais présa e que mais ama: a doação da cova em que reside o esquecimento!

Os olhos d'aquelles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo somno tranquillo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão por ventura fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz cantarolando a ultima valsa que o baile te deixou no ouvido, vêr-te finalmente apparecer, descuidado, risonho e feliz.

Coitados!… Os passos d'aquelle que ainda hoje talvez se despediu da vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais á voz que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o fitavam; os seus labios não voltarão outra vez a approximar-se dos labios que se collavam nos d'elle!

Eu não choro a tua memoria, porque não te conheço, porque nunca nos encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dôr que adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes insepulto, em quanto alguem te espera vivo no mundo.

Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite escrevendo-te estas longas paginas, que de certo estimaremos ler um dia, em disposição de espírito bem differente d'aquella em que ambos nos achamos hoje.

Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o silencio que me envolvia, cortado apenas pelo fremito da minha penna no papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados fallando baixo no aposento que atravessei antes de entrar n'aquelle em que estou. Tinha terminado o paragrapho anterior a este quando o mesmo rumor se repetiu, e tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Approximei-me da porta e collei o ouvido ao buraco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo natural que os nossos aprisionadores estejam ás escuras, é provavel que haja um corredor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquelle em que eu me acho e o quarto proximo em que elles fallam. Não podia perceber o que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar esta carta, quando um levantou mais a voz e eu ouvi distinctamente estas palavras:

—Mas as notas de banco, 2:300 libras em notas! Não as trazia elle?

—Sei que as trazia, dizia outra voz.

—É atroz então!

Estas palavras, unicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes calcular!

É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho consagrado a entrevistas d'amor, como eu primeiro suppuz. Das hypotheses do prussiano é absolutamente necessario acceitar uma: isto ou é uma casa de jogo ou uma loja maçonica. Assim o provam convincentemente os ruidos que se ouviam na morada contigua. N'um retiro de paixões ternas não se escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que telinta nas mezas. A referencia dos vultos mysteriosos feita pela visinhança permitte a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mesmo aspecto do boudoir em que estivemos não consentem duvidar-se que esta casa é uma caverna de jogo e de orgia.

As palavras que ha pouco ouvi suggerem-me sobre estas supposições a mais tenebrosa suspeita.

O desgraçado que jaz ahi dentro podia ter sido victima de um homicidio, premeditado com o intuito de roubar-lhe a quantia que elle trazia comsigo.

Occorre uma contradicção: na suggerida hypothese para que foram buscar um medico? Explicam-n'o as palavras que ouvi. Os criminosos, que tinham propinado opio á sua victima com o intuito de a roubarem, encontram illudido este projecto com o desapparecimento das notas que lhe suppunham na algibeira. N'esta conjectura sobrevem-lhes um recurso extremo: procurar um medico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o opio, e quererem por esta prova de zelo, de solicitude, de confiança na sua innocencia, affastar de si a presumpção do crime, e crear as difficuldades de um mysterio! É possivel que eu não attinja exactamente a verdade do que se passou. O indubitavel porém é que o desapparecimento já constatado da somma que o assassinado trazia comsigo não póde adunar-se dentro d'esta casa com a probidade e com a honra.

Depois d'isto é quasi escusado dizer-te qual é a determinação que vou tomar. O meu visinho prussiano é um homem um tanto phantastico, mas parece-me sincero e honrado. Vou fechar esta carta, subscriptal-a e pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facilmente meio de a passar para o quarto d'elle. Se conseguir arrombar completamente, sem que me presintam, o tapamento que serve de fundo ao armario, passarei eu em vez de expedir a carta. No caso contrario, apenas se abrir aquella porta, precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e abrirei o meu caminho como todo o homem de bem que em sua consciencia delibera passar por cima de meia duzia de miseraveis.

Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos ámanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas depois não souberes de mim, escreve a Frederico Friedlann, posta restante, Lisboa. Elle te procurará no logar que indicares e te dirá onde estou.—Adeus.—F

* * * * *

Nota.—Juntamente com a carta publicada achavam-se as seguintes folhas de papel escriptas pela mesma lettra das cartas do medico, anteriormente publicadas n'esta folha:

F… não appareceu. No mesmo dia, dois dias e tres dias depois de haver recebido a extensa carta que elle me dirigiu e de que enviei logo a primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos os meios ter noticias d'elle. Foram inuteis todos os esforços que empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao correio e soube que ainda ali se achava a carta que lhe dirigi e na qual lhe aprasava uma entrevista.

Estou vivamente inquieto, sobresaltado, cuidadoso.

F… é um homem arrebatado, irascivel, pundonoroso até o delirio. Receio do seu caracter e da violencia das suas determinações uma explosão que teria podido talvez ser-lhe fatal.

Apresso-me porém a declarar-lhe, senhor redactor, que discordo completamente da opinião d'elle emquanto á qualidade moral das pessoas com quem estivemos reunidos na casa onde encontrámos o cadaver.

O mascarado alto, com quem tive occasião de fallar por mais tempo, não póde ser uma assassino cobarde. F… demorou-se pouco tempo comnosco, não pôde attentar nos individuos que o rodeavam. Ouviu apenas uma phrase, que para mim proprio é ainda inexplicavel e terrivel, e baseou n'ella a sua indignação e o seu odio.

Eu tratei apenas com um d'esses homens—o mais alto—mas com este fallei incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe os movimentos da physionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos, scintillantes. Ouvia-lhe a voz metallica, pura, clara, vibrante, obedecendo naturalmente, na modulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo dos sentimentos.

Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos incidentes que acompanharam o inquerito de A. M. C., escutei-lhe sempre com interesse, com sympathia, algumas vezes com admiração, a palavra sincera, facil, despresumida, espontanea, original, pittoresca sem litteratismo, eloquente sem propositos oratorios,—limpido espelho de uma alma energica, integra, perspicaz e sensivel. Tinha arrebatamentos enthusiasticos, indignações convictas, concentrações melancolicas, que se via provirem d'esse fundo de lagrimas, que todas as naturezas priveligiadamente boas e honestas têem no intimo da sua essencia. Pareceu-me finalmente um coração leal e honrado, e não é facil enganar-se por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquella em que nos achámos, um homem com a minha experiencia do mundo e a minha pratica dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principaes considerações que do principio logo me impediram de tornar publico o nome do meu amigo violentamente retido em carcere privado. F… é um homem conhecido, é quasi um homem celebre; em Lisboa ninguem ha que não conheça o seu nome entre os escriptores mais applaudidos, ninguem que não distinga a sua figura altiva, esmerada, picante, entre os vultos extremamente uniformes dos passeios, das salas e dos theatros.

Se eu communicasse á policia o desapparecimento do meu amigo, é quasi seguro que ella encontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto a denunciar simultaneamente como criminosos o mascarado alto e os seus companheiros que eu todavia considero innocentes?

A carta de F…, apesar da revelação que encerra sobre o desapparecimento das 2:300 libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho.

Na carta de F… encontra-se o seguinte periodo:

* * * * *

«Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio: bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.»

Ora o relogio a que n'estas linhas se allude, se bem lembrado está, é exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse periodico, o mesmo que usava o mascarado que ia sentado defronte de mim na carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fóra da algibeira do collete, suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F… ao quarto em que elle se acha preso, é effectivamente um amigo d'elle, intimo e particular.

Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebrecerão talvez a minha vida com uma sombra eterna, denunciar á policia uma particularidade, um nome, uma circumstancia positiva, que a ponha no encalço d'este crime e no descobrimento das pessoas, innocentes ou culpadas, que circulam fatalmente em torno d'elle?

As mesmas noticias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anonymo, me vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a severidade incorruptivel, despreocupada e fria dos homens de bem, uma traição aos imprescriptiveis deveres da amisade, um aggravo á inviolabilidade do sigillo, uma offensa a esse culto intimo que se baseia na delicadeza, no melindre, no primor,—culto que para as almas honradas constitue uma parte dos principios supremos da primeira das religiões—a religião do caracter?

Mas podia tambem calar-me? ficar mudo, impassivel, inerte, neutro, diante d'este successo obscuro mas tremendo? Podia acaso acceitar na impassibilidade e no silencio a responsabilidade terrivel de um homicidio tenebroso, do qual sou eu a unica testemunha com iniciativa, com liberdade, com faculdade de acção?…

Decidam-no as pessoas que por um momento quizerem imaginar-se nas circumstancias excepcionaes e unicas em que eu estou.

Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstaculos em que me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um unico momento que perder, uma só cousa me occorreu, possivel, clara, solvente: publicar anonymamente o que me succedera, entregar por este modo á sociedade a historia da minha situação e esperar dos outros, do publico, a solução do problema que eu não sabia resolver por mim.

Nem uma palavra de conselho, de analyse, de critica!

Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de liberdade. Não posso ficar eternamente immovel, como um condemnado, com o pesado fuzil de um segredo soldado a um pé.

Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei partido para fóra do paiz. As ambulancias do exercito francez precisam de cirurgiões. Vou alistar-me como facultativo. O meu paiz dispensa-me, e eu, como todo o homem na presença dos infortunios irremediaveis, sinto a doce necessidade de ser util. Fica sabendo o meu destino. Um dia saberá o meu nome.

Despedindo-me—seguramente para sempre—dos seus leitores, cuja attenção tenho largamente prendido com a narrativa d'este caso lugubre, seja-me permittido acrescentar uma derradeira palavra:

A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por extenso n'esta pagina, A. M. C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo quanto em contrario quiz allegar o amigo d'elle que sob a letra Z. veiu defendel-o n'este mesmo logar, A. M. C., quaesquer que sejam as causas que o levaram a intervir nas circumstancias que rodeiam o crime, conhece-o interiormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar.

Se estas linhas chegarem aos olhos d'esse moço, uma coisa lhe peço em nome da sua honra e da sua dignidade, em nome da honra e da dignidade das pessoas envolvidas em tão extranho successo. Procure no correio uma carta que lhe dirijo n'esta mesma data. N'essa carta verá quem eu sou, onde poderá enviar as suas cartas ou vêr-me e fallar-me pessoalmente. Se a sua idade, se as condições da sua posição na sociedade, se os interesses da sua carreira, a tranquillidade da sua familia, a incompetencia da sua auctoridade, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este acontecimento até á ultima das suas consequencias, arrancando a um tal mysterio a secreta verdade que elle envolve, dirija-se a mim, collaboraremos juntos n'essa obra, que tenho por meritoria e honrada. Eu acceitarei clara e abertamente para todas as consequencias e para todos os effeitos a responsabilidade que d'ahi provenha, e terei meio de salvar o seu nome, a sua pessoa e a sua honra de qualquer suspeita que o ensombre ou o macule.

Emquanto a ti, meu querido e meu honrado F…, não creio que sejas victima de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu unico perigo está, a meu vêr, no teu impaciente melindre, nos teus delicados escrupulos, no teu valor, finalmente, e no teu brio.

Que te matassem cobardemente no carcere clandestino que ha pouco tempo ainda tu illuminavas com a tua pachorra e a tua alegria, não póde ser. Que a esta hora tenhas sido obrigado a jogar a tua vida trocando em desaggravo de honra uma estocada ou um tiro com algum dos teus mysteriosos commensaes, isso acho logico, e é possivel.

Punge-me não sei que vago e triste presentimento… Meu pobre F…! Se estará destinado que não nos tornemos a vêr! Se o dia fatal em que regressámos ambos de Cintra, descuidados, contentes, suspirando com as nossas alegrias, sorrindo com os nossos infortunios, terá acaso de ser o ultimo d'essa doce convivencia que por tanto tempo nos juntou!…

E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam envolvidos no turbilhão implacavel e terrivel da crua solidariedade humana!

Que remedio?!

Se a vida é isto, aceitemol-a corajosamente como ella é, e ávante! aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz!

+Segunda carta de Z+

Senhor redactor.—Acabo de vêr publicada na sua folha de hoje uma carta em que o doutor…, com uma insistencia malevola, torna a inculcar, como cumplice no attentado de que elle se fez o historiador voluntario, o meu pobre amigo A. M. C.

Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia com o auxílio unico da minha coragem e da minha astucia, pôr-me ao serviço da curiosidade de todos, procurando penetrar e desfiar a tenebrosa historia que ha mais d'uma semana, vem todos os dias successivamente, no folhetim do seu jornal, apresentar deante d'um publico attonito um quadro mysterioso e lugubre.

Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatorios, visitas aos logares, tudo foi inutil. A historia perde-se cada vez mais n'uma nevoa que a afoga: e o meu pobre M. C. lá está ainda—não sei se n'um retiro voluntario, se n'uma sequestração forçada.

Na impossibilidade de descobrir, physicamente, por essas ruas, a verdade, resolvi ir buscal-a ás mesmas cartas do doutor. Analysei-as, decompul-as palavra por palavra. E sem contar os processos, apresento os resultados.

O Mysterio da estrada de Cintra é uma invenção: não uma invenção litteraria, como ao principio suppuz, mas uma invenção criminosa, com um fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos d'esta invenção:

Ha um crime; é indubitavel; é claro. Um dos cumplices d'este crime é o doutor ***. Elle está envolvido no anonymo: não tenho por isso duvida em apresentar esta accusação formal. Se o seu nome fosse conhecido, se as suas cartas estivessem assignadas, eu, só com provas judiciarias, me atreveria a escrever esta grave affirmativa.

Sim, o doutor *** é o cumplice d'um crime: o meu pobre amigo M. C. é um desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer recahir as suspeitas que se possam ter já, e as provas que mais tarde venham a juntar-se. Este crime, que existe, apparece-nos envolvido nas roupas litterarias d'um mysterio de theatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos.

É possivel que n'uma cidade pequena como Lisboa, em que todos são visinhos, amigos de tu, e parentes, o doutor *** que parece ser um homem notado na sociedade, vivendo n'ella, frequentando as suas salas e os seus theatros, não conhecesse nenhum d'estes quatro mascarados, que pelas suas indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás, escutam a mesma musica nos mesmos salões e nos mesmos theatros?

Uma mascara de velludo preto não basta para disfarçar um conhecido. O seu cabello, o seu andar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as suas mãos, a sua toillete, são bastantes para revelar, trahir o individuo. O doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão galantes, tão distinctos, governam tão bem as suas parelhas, fallam tão bem as suas linguas, pareciam tão ricos, e o doutor *** um medico, um homem relacionado, um velho dilletante de S. Carlos, nunca os viu, nunca os percebeu, n'esta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de lama do Chiado! E F… tem um amigo intimo entre os mascarados, diante de si, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos olhos, pelo corpo, pelo silencio até! Comedia!

E o menos conhecido, o menos celebre dos rapazes de Lisboa, mascara-se no carnaval de Turco, enche-se de barbas, cobre-se de plumas, veste-se de Mephistopheles, de Ci-devant, ou de Melão, e não ha ninguem que no salão de S. Carlos, não diga ao passar por elle: lá vae fulano! E é de noite, ás luzes, e as mulheres olham-nos, e estamos distrahidos, e não estamos n'uma estrada, de dia, surprehendidos e violentados! Tanto nos conhecemos todos! Comedia! Comedia!

E aquelles mascarados, são tão innocentes, tão ingenuos, que vão procurar, n'um momento tão perigoso, o homem que pelas suas relações, pela sua posição, pela sua intelligente penetração, mais facilmente os poderia reconhecer.

Se lhes era repugnante serem descobertos, para que procuraram aquelle homem? Se lhes era indifferente, para que se mascararam?

E depois, para que era um medico? Era para verificar a morte? Para acudir? Para salvar? N'esse caso então que homens são esses, que em logar d'ir á botica mais proxima, a casa do primeiro medico rapidamente, logo, logo,—vão em socego mascarar-se nos seus quartos, para irem ao crepusculo, para uma charneca, a duas legoas de distancia, representar os velhos episodios de floresta dos dramas de Soulié?

Suppunham por ventura que elle estava morto? Para que era então um medico, uma testemunha? E se não receavam as testemunhas para que punham nos seus rostos uma mascara, e nos olhos dos surprehendidos um lenço de cambraia? Comedia! Comedia sempre!

Veja-se o doutor *** diante do cadaver: não ha ali uma palavra que seja scientifica: desde a serenidade das feições até á dilatação das pupillas, tudo é falso n'aquella descripção symptomatica.

E que homens são, o doutor *** e o seu amigo F… que na rua d'uma cidade, dentro d'uma casa, com os braços livres, não deitam a mão àquelles mascaras? Como é que, sendo generosos e altivos supportam certas violencias humilhantes? Como é que, sendo honestos e dignos, acceitam pela sua attitude condescendente uma parte da cumplicidade?

E A. M. C.! Como o representam ali, pueril, nervoso, timido, imbecil e coacto! Elle d'uma tão grande força de temperamento! d'uma tão energica coragem! d'um tão altivo sangue frio! Como se póde acreditar n'aquella astucia infantil, com que o doutor *** o envolve?

—O que admira é que não deixasse vestigios o arsenico!

—Mas foi o opio! responde M. C., segundo conta o doutor ***.

Qual é a imbecil ingenuidade do homem que possa descer a esta simplicidade lôrpa?

E emfim, que mulher é aquella, que ahi se entrevê? Porque a quer o mascarado salvar? Que roubo é aquelle de 2:300 libras? Sejamos logicos: dado o typo do mascarado, cavalheiroso e nobre, como é que elle, vendo que o crime teve por origem o roubo, procura salvar e tem considerações por uma mulher que mata para roubar?

Se elle suspeita que o crime commetido por essa mulher teve por mobil a paixão, como explica o roubo?

Demais, se desconfiava que ella estivesse envolvida n'aquelle facto, se estava tão ligado com ella que a queria salvar, por que a não procurou logo, por que a não interrogou, em logar de ir surprehender gente para as estradas, e vir fazer tableau em volta d'um cadaver?

Ah! como toda esta historia é artificial, postiça, pobremente inventada! aquellas carruagens como galopam mysteriosamente pelas ruas de Lisboa! aquelles mascarados, fumando n'um caminho, ao crepusculo, aquellas estradas de romance, onde as carruagens passam sem parar nas barreiras, e onde galopam, ao escurecer, cavalleiros com capas alvadias! Parece um romance do tempo do ministerio Villele. Não fallo nas cartas de F… que não explicam nada, nada revelam, nada significam—a não ser a necessidade que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa ôca, nas columnas d'um jornal honesto.

Deducção: o doutor *** foi cumplice d'um crime; sabe que ha alguem que possue esse segredo, presente que tudo se vae espalhar, receia a policia, houve alguma indiscrição; por isso quer fazer poeira, desviar as pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar, enlear, e em quanto lança a perturbação no publico, faz as suas malas, vae ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui!

O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o.

Senhor redactor, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas inverosimeis invenções.—Z.