XIII
D'ahi a doze dias, a condessa e o conde voltavam no paquete da India a Gibraltar. O conde partia triste: Mademoiselle Rize ficava, e o Chiado esperava-o! De mais, o estar só com a condessa embaraçava-o: as melancholias d'ella, as suas lagrimas inexplicaveis, a sua pallidez apaixonada, toda a incoherencia do seu caracter, que aquelle excelente libertino explicava pelo nervoso e pelo histerismo, davam-lhe uma certa fadiga enfastiada, e, como elle dizia, embirrava com romantismos. A condessa, essa, partia resignada: Rytmel depois da sua convalescença iria para a Italia, para aquecer as forças ao sol de Napoles, e mais tarde em Paris, e depois em Lisboa, teriam alguns mezes livres, para, como diziam os antigos poetas, os tecerem d'ouro, seda e beijos.
Foi com saudade que os vi embarcar. Eu ali ficava para cumprir um dever melancholico: acompanhar a Cadiz aquella infeliz Carmen, ainda ha pouco de uma belleza tão radiante, e agora vencida pelas amargas penitencias.
Lord Grenley, que ia para Cadiz dentro de quatro dias, tinha-nos offerecido, a Carmen e a mim, o seu yacht. Aceitei com alegria. Era um transporte commodo e livre, e lord Grenley uma companhia symphatica, porque me assustava a idéa de ver durante uma longa viagem no mar, a debilidade de Carmen estiolar-se ao meu lado. Emfim uma tarde partimos.
Era ao escurecer, o ceu estava nublado, quasi chuvoso. Carmen ia profundamente doente. Magra, transparente, livida, sem poder suster-se, sem dormir, alimentando-se quasi só de chá, a sua vida parecia estar a todo o momento a passar os limites humanos. Não erguia os olhos dos seus livros de orações. Aquella exaltação a que faltava a terra procurava febrilmente todos os caminhos do ceu.
Foi com uma grande tristeza que vi Malta sumir-se nas brumas da noite. Nunca mais tornaria a ver aquella branca cidade. Não fôra ali feliz. Mas amamos todos aquelles logares em que por qualquer sentimento ou por qualquer idéa a nossa natureza palpitou fortemente. E ali tinham ficado lagrimas minhas.
Logo no primeiro dia de viagem, Carmen esteve expirante. Havia um forte balanço. O mar era grosso, e nós receavamos mau tempo quando nos avisinhassemos das correntes do golpho de Lião.
Carmen quasi sempre queria estar na tolda, ao ar, ao sol, vendo o mar. Arranjava-se-lhe uma cama, e ali ficava, olhando, scismando, soffrendo, e conversando com o capellão de lord Grenley, velho cheio d'uncção, que tinha um encanto singular fallando das cousas do ceu. Aquella scena era profundamente triste, sobretudo de tarde; o sol cahia, a immensa sombra começava a cobrir o mar: Carmen fallava baixo: nós, em redor, escutavamol-a, ou, calados, seguiamos o correr da maresia, olhavamos o fim da luz. Um marinheiro escossez vinha ás vezes cantar as arias das suas montanhas, cantos de uma tristeza suave e larga como a vista de um lago.
Ao terceiro dia de viagem, Carmen, subitamente, teve um grande accesso de febre e quiz confessar-se. O medico disse-nos que ella não chegaria a ver as montanhas da Hispanha. Que horas dolorosas! Não imagina, senhor redactor, que intensidade têem, na vasta extensão das aguas, as dôres humanas! Junta-se-lhes o sentimento da immensidade, e não sei que terrivel instincto do irreparavel.
A confissão de Carmen foi longa. Quando terminou quiz fallar-me.
—Adeus! disse-me ella, vou morrer.
Disse-lhe que não, quiz dar-lhe esperanças ephemeras.
—Não, não, respondeu ella, nada de enganos. Tenho coragem. Quem a não tem para ser feliz? Chame lord Grenley.
Começou então diante de nós a fallar da sua vida. Disse-nos qual fôra a sua mocidade, os desvarios do seu coração, a exigencia das suas paixões, e fallou-nos da sua ligação com Rytmel, com elevação, como de um sentimento quasi legitimo. Não teve uma queixa, uma saudade, um desdem. As ultimas palavras da sua vida eram dignas. Depois tirou um rozario do seio.
—Veiu de Jerusalem, disse-me, dê-lh'o a ella.
Eu tinha os olhos humedecidos, Carmen, entretanto, empallidecia terrivelmente.
—Levem-me para cima, quero vêr o mar, quero vêr a luz.
Era uma manhã nebulosa e triste. O mar estava mais sereno. Collocámos Carmen cuidadosamente sobre almofadas e mantas, voltada para Malta. Lá tinha ficado a sua vida. Esteve muito tempo calada, com as mãos cruzadas.
—Que terra é aquella? perguntou mostrando com a mão tremula, uma linha escura no horisonte.
—A Africa, respondeu lord Grenley.
Ella ficou olhando vagamente:
—Fui uma vez a Tanger, disse com uma voz lenta, era nova então! Era feliz! Estava um dia lindo… Era em maio…
Calou-se. E voltando-se para mim:
—Faz agora mezes que passámos n'esta altura, lembra-se? E aquelle punch a bordo do Ceylão? Quando eu cantei uma habanera! Eu cantava então… O que é ser alegre! Tudo acabou, nunca mais! nunca mais!
E como fallando comsigo mesma:
—Tanta paixão, tanta inquietação! E aqui está: venho morrer só, no meio d'este mar. Pobre de mim! E no fim, se eu em nova, em solteira, o tivesse encontrado, a elle… Eu pedia pouco então: um coração leal. Tive gostos simples sempre. As loucuras vieram depois… O marinheiro que canta as arias escocezas, onde está? Chamem-n'o. Não, não o chamem que me vae fazer chorar.
Nós escutavamol-a; a sua alma fallava como um passaro canta ao morrer. As nuvens desfaziam-se, o azul aclarava, ia apparecer o sol.
—Vejam isto, continuou ella. Em nova diziam-me és bonita, amo-te! E agora que morro aqui, quem se lembra de mim? Os que me conheceram onde estão? Uns mortos, todos esquecidos. Estão agora alegres, amam outras, vão para os theatros. E eu estou aqui a morrer. E elle? lembrar-se-ha de mim? Tambem não. Choro, choro, quando penso que o não vejo, que não está aqui, que morro e que elle se não lembra de mim!
E soluçava, com a cabeça escondida no travesseiro.
—Rytmel é uma alma nobre. Estima-a, creia…
—Mas esquece-me! dizia ella suspirando e limpando os olhos. De resto, de mim ninguem se lembra. Eu não sou uma mulher de quem se seja enfermeiro. «Estás boa? estás alegre? amo-te». «Estás a morrer? Vae-te fazer enterrar para outro sitio!» É bem triste este mundo!
Lord Grenley, com os olhos rasos d'agua, mordia convulsamente o seu cachimbo.
—Guarde bem os meus cabellos, sim? dizia-me ella. Diziam que eram bonitos. Se eu por acaso não morresse, haviamos de ir todos a Sevilha. Que lindo que é Sevilha. Á tarde, nas Delicias, todo o mundo traz um ramo de flores.
De repente abriu demasiadamente os olhos como deante d'uma cousa pavorosa; levou as mãos á face, gritou:
—Meu padre, meu padre, tenho medo. Não é já o castigo, não? Se cáio no inferno, meu Deus!
—O inferno é uma visão, minha pobre senhora! dizia o capellão. Os castigos de Deus não são feitos com o fogo.
—Tem razão, tem razão. Sinto-me morrer, venham todos. Lembrem-se de mim, sim?
Alguns marinheiros tinham-se approximado. O capellão ajoelhou: todos tiraram os barretes, resavam baixo. Lord Grenley ficara de pé, descoberto, immovel. Grossas nuvens escuras corriam outra vez no ceu. O vento começava a assobiar.
—Adeus, disse-me ella. Dê-me a sua mão. Bem. Fui uma boa rapariga, por fim… Um pouco estroina, talvez… Lord Grenley, obrigada. Que tristeza, ter morrido alguem no seu yacht!… Que é aquillo, além, ao longe? É a terra? São nuvens. Ah! meu querido Rytmel! ah! meu amor, ouve-me, onde estás tu?
Duas grandes, tristes lagrimas, correram-lhe na face: teve ainda força para as enchugar. Depois sorrindo:
—Olhem, não pensem em mim com tristeza. Sómente ás vezes, quando estiverem juntos, e elle estiver tambem, lembrem-se d'esta pobre rapariga que para aqui morreu no mar… E digam: pobre Carmen! ahi está uma que sabia amar devéras!
E dizendo isto, estremeceu, fallou desvairadamente em Malta, em Sevilha, em Rytmel, e, dando um gemido profundo, morreu.
O sino de bordo começou a tocar lentamente, Lord Grenley curvou-se, beijou-lhe a testa, e cerrou-lhe os olhos. Eu chorava.
Então um velho marinheiro approximou-se, e sobre aquelle corpo, que fôra
Carmen, estendeu a bandeira ingleza.