XII

—Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, senhor parocho! exclamou Amelia rompendo n'um chôro nervoso.
—Não chore, disse elle tomando-lhe suavemente a mão entre as suas, muito tremulas. Escute, abra-se commigo... Vá, esteja socegada, tudo se remedeia. Não ha banhos publicados... Diga-lhe que não quer casar, que sabe tudo, que o odeia...
Esfregava, apertava devagarinho a mão d'Amelia. E subitamente, com voz d'um ardor brusco:
—Não se importa com elle, não é verdade?
Ella respondeu muito baixo, com a cabeça cahida sobre o peito:
—Não.
—Então, ahi tem! fez excitado. E diga-me, gosta d'outro?
Ella não respondeu, com o peito a arfar fortemente, os olhos dilatados para o lume.
—Gosta? diga, diga!
Passou-lhe o braço sobre o hombro, attrahindo-a dôcemente. Ella tinha as mãos abandonadas no regaço; sem se mover voltou devagar para elle os olhos resplandecentes sob uma nevoa de lagrimas, e entreabriu devagar os labios, pallida, toda desfallecida. Elle estendeu os beiços a tremer—e ficaram immoveis, collados n'um só beijo, muito longo, profundo, os dentes contra os dentes.
—Minha senhora! minha senhora! gritou de repente, n'um terror, a voz da Ruça, dentro.
Amaro ergueu-se d'um salto, correu ao quarto da entrevada. Amelia estava tão tremula, que precisou encostar-se á porta da cozinha um momento, com as pernas vergadas, a mão sobre o coração. Recuperou-se, desceu a acordar a mãe.
Quando entraram no quarto da idiota, Amaro ajoelhado, com a face quasi sobre o leito, rezava: as duas senhoras rojaram-se no chão; uma respiração accelerada sacudia o peito, as ilhargas da velha; e á medida que o arquejo se tornava mais rouco, o parocho precipitava as suas orações. Subitamente o som agonisante cessou: ergueram-se: a velha estava immovel, com os bugalhos dos olhos sahidos e baços. Expirára.
O padre Amaro trouxe logo as senhoras para a sala;—e ahi a S. Joanneira, curada, pelo choque, da sua enxaqueca, desabafou, em accessos de chôro, recordando o tempo em que a pobre mana era nova, e que bonita era! e que bom casamento estivera para fazer com o morgado da Vigareira!...
—E o genio mais dado, senhor parocho! Uma santa! E quando a Amelia nasceu, e que eu estive tão mal, que não se tirou de ao pé de mim, noite e dia!... E alegre, não havia outra... Ai, Deus da minha alma, Deus da minha alma!
Amelia, encostada á vidraça na sombra da janella, olhava entorpecida a noite negra.
Bateram então á campainha. Amaro desceu, com uma vela. Era João Eduardo, que ao vêr o parocho áquella hora na casa,—ficou petrificado, junto da porta aberta; emfim balbuciou:
—Eu vinha saber se havia novidade...
—A pobre senhora expirou agora mesmo...
—Ah!
Os dois homens olharam-se um instante fixamente.
—Se eu sou preciso para alguma coisa... disse João Eduardo.
—Não, obrigado. As senhoras vão-se deitar.
João Eduardo fez-se pallido da coléra que lhe davam aquelles modos de dono da casa. Esteve ainda um momento, hesitando—mas vendo o parocho abrigar a luz, com a mão, contra o vento da rua:
—Bem, boa noite, disse.
—Boa noite.
O padre Amaro subiu:—e depois de deixar as duas senhoras no quarto da S. Joanneira (porque, cheias de terror, queriam dormir juntas), voltou ao quarto da morta, despertou a vela sobre a mesa, accommodou-se n'uma cadeira, e começou a lêr o Breviario.
Mais tarde, quando toda a casa estava silenciosa, o parocho, sentindo o somno entorpecel-o, veio á sala de jantar; reconfortou-se com um calix de vinho do Porto que achára no aparador; e saboreava regaladamente o cigarro, quando ouviu na rua passos de botas fortes que iam, vinham, por baixo das janellas. Como a noite estava escura não pôde distinguir «o passeante».—Era João Eduardo que rondava a casa, furioso.