XIX

O Carlos, que voltára, apressou-se, offerecendo flôr de laranja, perguntando se sua excellencia estava incommodado...
—Cansadote, disse.
Tomou o Popular de sobre a mesa, e alli ficou, sem se mexer, abysmado nas columnas do periodico. O Carlos tentou fallar da politica do paiz, depois dos negocios d'Hespanha, depois dos perigos revolucionarios que ameaçavam a Sociedade, depois da deficiencia da administração do concelho de que era agora um adversario feroz... Debalde. Sua excellencia grunhia apenas monosyllabos soturnos. E o Carlos, emfim, recolheu-se a um silencio chocado, comparando, n'um desdem interior que lhe vincava de sarcasmo os cantos dos beiços, a obtusidade soturna d'aquelle sacerdote à palavra inspirada d'um Lacordaire e d'um Malhão! Por isso o Materialismo em Leiria, em todo o Portugal erguia a sua cabeça d'hydra...
Batia uma hora na torre quando o conego, que vigiava a Praça pelo canto do olho, vendo passar Amelia, arremessou o jornal, sahiu da botica sem dizer uma palavra e estugou o seu passo d'obeso para casa do tio Esguelhas. A Tótó estremeceu de medo ao vêr de novo aquella figura bojuda apparecer á porta da alcova. Mas o conego riu-se para ella, chamou-lhe Tótósinha, prometteu-lhe um pinto para bolos; e mesmo sentou-se aos pés da cama com um ah! regalado, dizendo:
—Ora vamos nós agora conversar, amiguinha... Esta é que é a pernita doente, hein? Coitadita! Deixa que te has de curar... Hei de pedir a Deus... Fica por minha conta.
Ella fazia-se ora toda branca ora toda vermelha, olhando aqui e além, inquieta, na perturbação que lhe dava aquelle homem a sós com ella tão perto que lhe sentia o halito forte.
—Então, ouve cá, disse elle chegando-se mais para ella, fazendo ranger o catre com o seu peso. Ouve cá, quem é o outro? Quem é que vem com a Amelia?
Ella respondeu logo, atirando as palavras d'um fôlego:
—É o bonito, é o magro, vêm ambos, sobem p'r'ó quarto, fecham-se por dentro, são como cães!
Os olhos do conego injectaram-se para fóra das orbitas:
—Mas quem é elle, como se chama? O teu pai que te disse?
—É o outro, é o parocho, o Amaro! fez ella impaciente.
—E vão p'r'ó quarto, hein? lá p'ra cima? E tu que ouves, tu que ouves? Dize tudo, pequena, dize tudo!
A paralytica então contou, com um furor que dava tons sibilantes à sua voz de tisica,—como ambos entravam, e a vinham vêr, e se roçavam um pelo outro, e abalavam para o quarto em cima, e estavam lá uma hora fechados...
Mas o conego, com uma curiosidade lubrica que lhe punha uma chamma nos olhos mortiços, queria saber os detalhes torpes:
—E ouve lá, Tótósinha, tu que ouves? Ouves ranger a cama?
Ella respondeu com a cabeça affirmativamente, toda pallida, os dentes cerrados.
—E olha, Tótósinha, já os viste beijarem-se, abraçarem-se? Anda, dize, que te dou dois pintos.
Ella não descerrava os labios; e a sua face transtornada parecia ao conego selvagem.
—Tu embirras com ella, não é verdade?
Ella fez que sim n'uma affirmação feroz de cabeça.
—E vistel-os beliscarem-se?
—São como cães! soltou ella por entre os dentes.
O conego então endireitou-se, bufou outra vez com o seu grande sôpro d'encalmado, e coçou vivamente a corôa.
—Bem, disse, erguendo-se. Adeus, pequena... Agasalha-te. Não te constipes...
Sahiu; e ao fechar com força a porta exclamou alto:
—Isto é a infamia das infamias! Eu mato-o! eu perco-me!
Esteve um momento considerando e partiu para a rua das Sousas, de guardasol em riste, apressando a sua obesidade, com a face apopletica de furor. No largo da Sé, porém, parou a reflectir ainda; e rodando sobre os tacões, entrou na igreja. Ia tão levado que, esquecendo um habito de quarenta annos, não dobrou o joelho ao Santissimo. E arremessou-se para a sacristia—justamente quando o padre Amaro sahia, calçando cuidadosamente as luvas pretas que usava agora sempre para agradar á Ameliasinha.
O aspecto descomposto do conego assombrou-o.
—Que é isso, padre-mestre?
—O que é? exclamou o conego de golpe, é a maroteira das maroteiras! É a sua infamia! é a sua infamia!...
E emmudeceu, suffocado de cólera.
Amaro, que se fizera muito pallido, balbuciou:
—Que está vossê a dizer, padre-mestre?
O conego tomára fôlego:
—Não ha padre-mestre! O senhor desencaminhou a rapariga! Isso é que é uma canalhice mestra!
O padre Amaro, então, franziu a testa como descontente d'um gracejo:
—Que rapariga!? O senhor está a brincar...
Sorriu mesmo, affectando segurança; e os seus beiços brancos tremiam.
—Homem, eu vi! berrou o conego.
O parocho, subitamente aterrado, recuou:
—Viu!?
Imaginára n'um relance uma traição, o conego escondido n'um recanto da casa do tio Esguelhas...
—Não vi, mas é como se visse!—continuou o conego n'um tom tremendo. Sei tudo. Venho de lá. Disse-m'o a Tótó. Fecham-se no quarto horas e horas! Até se ouve em baixo ranger a cama! É uma ignominia !
O parocho, vendo-se pilhado, teve, como um animal acossado e entalado a um canto, uma resistencia de desespero.
—Diga-me uma coisa. O que é que o senhor tem com isso?
O conego pulou.
—O que tenho!? o que tenho!? Pois o senhor ainda me falla n'esse tom!? O que tenho é que vou d'aqui immediatamente dar parte de tudo ao senhor vigario geral!
O padre Amaro, livido, foi para elle com o punho fechado:
—Ah, seu maroto!
—Que é lá? que é lá? exclamou o conego de guardasol erguido. Vossê quer-me pôr as mãos?
O padre Amaro conteve-se; passou a mão sobre a testa em suor, com os olhos cerrados; e depois de um momento, fallando com uma serenidade forçada:
—Ouça lá, senhor conego Dias. Olhe que eu vi-o ao senhor uma vez na cama com a S. Joanneira...
—Mente! mugiu o conego.
—Vi, vi, vi! affirmou o outro com furor. Uma noite ao entrar em casa... O senhor estava em mangas de camisa, ella tinha-se erguido, estava a apertar o collete. Até o senhor me perguntou «quem está ahi?» Vi, como estou a vêl-o agora. O senhor a dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que o senhor vive ha dez annos amigado com a S. Joanneira, á face de todo o clero! Ora ahi tem!
O conego, já antes esfalfado dos excessos do seu furor, ficou agora, áquellas palavras, como um boi atordoado. Só pôde dizer d'ahi a pouco, muito murcho:
—Que traste que vossê me sae!
O padre Amaro então, quasi tranquillo, certo do silencio do conego, disse com bonhomia:
—Traste porquê? Diga-me lá! Traste porquê? Temos ambos culpas no cartorio, eis ahi está. E olhe que eu não fui perguntar, nem peitar a Tótó... Foi muito naturalmente ao entrar em casa. E se me vem agora com coisas de moral, isso faz-me rir. A moral é para a escóla e para o sermão. Cá na vida eu faço isto, o senhor faz aquillo, os outros fazem o que podem. O padre-mestre que já tem idade agarra-se á velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena. É triste, mas que quer? É a natureza que manda. Somos homens. E como sacerdotes, para honra da classe, o que temos é fazer costas!
O conego escutava-o, bamboleando a cabeça, na aceitação muda d'aquellas verdades. Tinha-se deixado cahir n'uma cadeira, a descansar de tanta cólera inutil; e erguendo os olhos para Amaro:
—Mas vossê, homem, no começo da carreira!
—E vossê, padre-mestre, no fim da carreira!
Então riram ambos. Immediatamente cada um declarou retirar as palavras offensivas que tinha dito; e apertaram-se gravemente a mão. Depois conversaram.
O conego, o que o tinha enfurecido era ser lá com a pequena de casa. Se fosse com outra... até estimava! Mas a Ameliasinha!... Se a pobre mãi viesse a saber estourava de desgosto.
—Mas a mãi escusa de saber! exclamou Amaro. Isto é entre nós, padre-mestre! Isto é segredo de morte! Nem a mãi sabe de nada, nem eu mesmo digo á pequena o que se passou hoje entre nós. As coisas ficam como estavam, e o mundo continua a rolar... Mas vossê, padre-mestre, tenha cuidado!... Nem uma palavra á S. Joanneira... Que não haja agora traição!
O conego, com a mão sobre o peito, deu gravemente a sua palavra d'honra de cavalheiro e de sacerdote que aquelle segredo ficava para sempre sepultado no seu coração.
Então apertaram ainda uma outra vez affectuosamente a mão.
Mas a torre gemeu as tres badaladas. Era a hora de jantar do conego.
E ao sahir, batendo nas costas de Amaro, fazendo luzir um olho d'entendedor:
—Pois seu velhaco, tem dedo!
—Que quer vossê? Que diabo... Começa-se por brincadeira...
—Homem! disse o conego sentenciosamente, é o que a gente leva de melhor d'este mundo.
—É verdade, padre-mestre, é verdade! É o que a gente leva de melhor d'este mundo.
Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranquillidade d'alma. Até ahi incommodava-o, por vezes, a idéa de que correspondera ingratamente á confiança, aos carinhos que lhe tinham prodigalisado na rua da Misericordia. Mas a tacita approvação do conego viera tirar-lhe, como elle dizia, aquelle espinho da consciencia. Porque emfim, o chefe de familia, o cavalheiro respeitavel, o cabeça—era o conego. A S. Joanneira era apenas uma concubina... E Amaro mesmo, às vezes agora, em tom de galhofa, tratava o Dias de seu caro sogro.
Outra circumstancia viera alegral-o: a Tótó adoecera de repente: o dia seguinte ao da visita do conego, passára-o soltando golfadas de sangue: o doutor Cardoso, chamado á pressa, fallára de tisica galopante, questão de semanas, caso decidido...
—É d'estas, meu amigo, tinha elle dito, que é trás... trás...—Era a sua maneira de pintar a morte, que, quando tem pressa, conclue o seu trabalho com uma fouçada aqui, outra além.
As manhãs na casa do tio Esguelhas eram agora tranquillas. Amelia e o parocho já não entravam em pontas de pés, tentando esgueirar-se para o prazer, despercebidos da Tótó. Batiam com as portas, palravam forte, certos que a Tótó estava bem prostrada de febre, sob os lençoes humidos dos suores constantes. Mas Amelia, por escrupulo, não deixava de rezar todas as noites uma salve-rainha pelas melhoras da Tótó. Ás vezes mesmo ao despir-se, no quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um rostinho triste:
—Ai, filho! até me parece peccado, nós aqui a gozarmos, e a pobre pequena lá em baixo a luctar com a morte...
Amaro encolhia os hombros. Que lhe haviam elles de fazer, se era a vontade de Deus?...
E Amelia, resignando-se á vontade de Deus em tudo, ia deixando cahir as sáias.
Tinha agora d'aquellas pieguices frequentes que impacientavam o padre Amaro. Em certos dias apparecia muito murcha; trazia sempre algum sonho lugubre a contar, que a torturára toda a noite, e em que ella pretendia descobrir avisos de desgraças...
Perguntava-lhe ás vezes:
—Se eu morresse, tinhas muita pena?
Amaro enfurecia-se. Realmente era estupido! Tinham apenas uma hora para se verem, e haviam d'estar a estragal-a com lamurias?
—É que não imaginas, dizia ella, trago o coração negro como a noite.
Com effeito as amigas da mãi estranhavam-na. Ás vezes durante serões inteiros não descerrava os labios, pendida sobre a sua costura, picando mollemente a agulha; ou então, muito cansada mesmo para trabalhar, ficava junto da mesa fazendo girar devagar o abat-jour verde do candieiro, com o olhar vazio e a alma muito longe.
—Ó rapariga, deixa esse abat-jour em paz! diziam-lhe as senhoras nervosas.
Ella sorria, dava um suspiro fatigado, e retomava muito lentamente a sáia branca que havia semanas andava abainhando. A mãi, vendo-a sempre tão pallida, pensára em chamar o doutor Gouveia.
—Não é nada, minha mãi, é nervoso, passa...
O que provava a todos que era nervoso eram os sustos subitos que a tomavam—a ponto de dar um grilo, quasi desmaiar, se de repente uma porta batia. Certas noites mesmo, exigia que a mãi viesse dormir ao pé d'ella, com medo de pesadêlos e de visões.
—É o que diz sempre o senhor doutor Gouveia, observava a mãi ao conego, é uma rapariga que necessita casar...
O conego pigarreava grosso.
—Não lhe falta nada, resmungava. Tem tudo o que precisa. Tem de mais, ao que parece...
Era com effeito a idéa do conego, que a rapariga (como elle dizia só comsigo) «andava-se a arrasar de felicidade». Nos dias em que sabia que ella fôra vêr a Tótó, não se fartava de a estudar, cocando-a do fundo da poltrona com um olho pesado e lubrico. Prodigalisava-lhe agora as familiaridades paternaes. Nunca a encontrava na escada sem a deter, com coceguinhas aqui e alli, palmadinhas na face muito prolongadas. Queria-a em casa repetidas vezes pela manhã; e emquanto Amelia palrava com D. Josepha, o conego não cessava de rondar em torno d'ella, arrastando as chinelas com um ar de velho gallo. E eram entre Amelia e a mãi conversas sem fim sobre esta amizade do senhor conego, que decerto lhe deixaria um bom dote.
—Seu maganão, tem dedo!—dizia sempre o conego quando estava só com Amaro, arregalando os olhos redondos. Aquillo é um bocado de rei!
Amaro entufava-se:
—Não é mau bocado, padre-mestre, é um bom bocado.
Era este um dos [grandes] gozos d'Amaro—ouvir gabar aos collegas a belleza d'Amelia, que era chamada entre o clero «a flôr das devotas». Todos lhe invejavam aquella confessada. Por isso insistia muito com ella em que se ajanotasse nos domingos, á missa; zangára-se mesmo ultimamente de a vêr quasi sempre entrouxada n'um vestido de merino escuro, que lhe dava um ar de velha penitente.
Mas Amelia, agora, já não tinha aquella necessidade amorosa de contentar em tudo o senhor parocho. Acordára quasi inteiramente d'aquelle adormecimento estupido d'alma e do corpo, em que a lançára o primeiro abraço de Amaro. Vinha-lhe apparecendo distinctamente a consciencia pungente da sua culpa. N'aquelles negrumes d'um espirito beato e escravo, fazia-se um amanhecimento de razão.—O que era ella no fim? A concubina do senhor parocho. E esta idéa, posta assim descarnadamente, parecia-lhe terrivel. Não que lamentasse a sua virgindade, a sua honra, o seu bom nome perdido. Sacrificaria mais ainda por elle, pelos delirios que elle lhe dava. Mas havia alguma coisa peor a temer que as reprovações do mundo: eram as vinganças de Nosso Senhor. Era da perda possivel do paraiso que ella gemia baixo; ou de mais medonho ainda, d'algum castigo de Deus, não das punições transcendentes que acabrunham a alma além da tumba, mas dos tormentos que vêm durante a vida, que a feririam na sua saude, no seu bem-estar e no seu corpo. Eram vagos medos de doenças, de lepras, de paralysias ou de pobrezas, de dias de fome—de todas essas penalidades de que ella suppunha prodigo o Deus do seu catecismo. Como em pequena, nos dias em que se esquecia de pagar á Virgem o seu tributo regular de salve-rainhas, temia que ella a fizesse cahir na escada ou levar palmatoadas na mestra, arrefecia de medo agora, á idéa de que Deus, em castigo d'ella se deitar na cama com um padre, lhe mandasse um mal que a desfigurasse ou a reduzisse a pedir esmola pelas viellas. Estas idéas não a deixavam, desde o dia em que na sacristia peccára de concupiscencia dentro do manto de Nossa Senhora. Tinha a certeza que a Santa Virgem a odiava, e que não cessava de reclamar contra ella; debalde procurava abrandal-a, com um fluxo incessante de orações humilhadas; sentia bem Nossa Senhora, inaccessivel e desdenhosa, de costas voltadas. Nunca mais aquelle divino rosto lhe sorrira; nunca mais aquellas mãos se tinham aberto para receber com agrado as suas orações, como ramos congratulatorios. Era um silencio sêcco, uma hostilidade gelada de divindade offendida. Ella conhecia o credito que Nossa Senhora tem nos concilios do céo; desde pequena lh'o tinham ensinado; tudo o que ella deseja o obtem, como uma recompensa devida aos seus prantos no Calvario; seu Filho sorri-lhe á sua direita, o Deus-Padre falla-lhe á esquerda... E comprehendia bem que para ella não havia esperança—e que alguma coisa medonha se preparava lá era cima, no paraiso, que lhe cahiria um dia sobre o corpo e sobre a alma, esmagando-a com um desabamento de catastrophe. Que seria?
Cessaria as suas relações com Amaro, se o ousasse: mas receava quasi tanto a sua cólera como a de Deus. Que seria d'ella, se tivesse contra si Nossa Senhora e o senhor parocho? Além d'isso, amava-o. Nos seus braços, todo o terror do céo, a mesma idéa do céo desapparecia; refugiada alli, contra o seu peito, não tinha medo das iras divinas: o desejo, o furor da carne, como um vinho muito alcoolico, davam-lhe uma coragem colerica; era com um brutal desafio ao céo que se enroscava furiosamente ao seu corpo.—Os terrores vinham depois, só no seu quarto. Era esta lucta que a empallidecia, lhe punha pregas d'envelhecimento ao canto dos labios seccos e ardidos, lhe dava aquelle ar murcho de fadiga que irritava o padre Amaro.
—Mas que tens tu, que parece te espremeram o succo? perguntava-lhe elle quando aos primeiros beijos a sentia toda fria, toda inerte.
—Passei mal a noite... Nervoso.
—Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente.
Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam, repetidas agora todos os dias. Se tinha dito a missa com fervor? Se tinha lido o Breviario? Se tinha feito a oração mental?...
—Sabes tu que mais? disse elle furioso. Sêbo! E esta! Tu pensas que eu sou ainda seminarista, e que tu és o padre examinador, que verifica se cumpri a Regra? Ora a tolice!
—É que é necessario estar bem com Deus, murmurava ella.
Era com effeito a sua preoccupação, agora, que Amaro fosse um bom padre. Contava, para se salvar e para se livrar da cólera de Nossa Senhora, com a influencia do parocho na côrte de Deus: e temia que elle por negligencia de devoção a perdesse, e que, diminuindo o seu fervor, diminuissem os seus meritos aos olhos do Senhor. Queria-o conservar santo e favorito do céo, para colher os proveitos da sua protecção mystica.
Amaro chamava a isto «caturrices de freira velha». Detestava-as, por as achar frivolas—e porque tomavam um tempo precioso, n'aquellas manhãs da casa do sineiro...
—Nós não viemos aqui para lamurias, dizia elle, muito sêccamente. Fecha a porta, se queres.
Ella obedecia,—e então aos primeiros beijos na penumbra da janella cerrada, elle reconhecia emfim a sua Amelia, a Amelia dos primeiros dias, o delicioso corpo que lhe tremia todo nos braços, em espasmos de paixão.
E cada dia a desejava mais, d'um desejo continuo e tyrannico, que aquellas horas escassas não satisfaziam. Ah! positivamente, como mulher não havia outra!... Desafiava a que houvesse outra, mesmo em Lisboa, mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices, sim, mas era não as tomar a sério, e gozar emquanto era novo!
E gozava. A sua vida por todos os lados tinha confortos e doçuras—como uma d'estas salas onde tudo é acolchoado, não ha moveis duros nem angulos, e o corpo, onde quer que pouse, encontra a elasticidade molle d'uma almofada.
Decerto, o melhor eram as suas manhãs em casa do tio Esguelhas. Mas tinha outros regalos. Comia bem: fumava caro n'uma boquilha d'espuma: toda a sua roupa branca era nova e de linho: comprára alguma mobilia: e não tinha, como outr'ora, embaraços de dinheiro, porque a snr.a D. Maria da Assumpção, a sua melhor confessada, lá estava com a bolsa prompta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma pechincha: uma noite em casa da S. Joanneira, a excellente senhora, a proposito d'uma familia d'inglezes que vira passar n'um char-á-banc para ir visitar a Batalha, exprimira a opinião que os inglezes eram herejes.
—São baptisados como nós, observára D. Joaquina Gansoso.
—Pois sim, filha, mas é um baptismo para rir. Não é o nosso rico baptismo, não lhes vale.
O conego então, que gostava de a torturar, declarou pausadamente que a snr.a D. Maria dissera uma blasphemia. O santo concilio de Trento, no seu canon IV, sessão VII, lá determinára «que aquelle que disser que o baptismo dado aos herejes, em nome do Padre, do Filho e do Espirito, não é o verdadeiro baptismo, seja excommungado!» E a D. Maria, segundo o santo concilio, estava desde esse momento excommungada!...
A excellente senhora teve um flato. Ao outro dia foi lançar-se aos pés d'Amaro, que em penitencia da sua injuria feita ao canon IV, sessão VII do santo concilio de Trento, lhe ordenou trezentas missas de intenção pelas almas do purgatorio—que D. Maria lhe estava pagando a cinco tostões cada uma.
Assim, elle podia ás vezes entrar na casa do tio Esguelhas com um ar de satisfação mysteriosa e um embrulhosinho na mão. Era algum presente para Amelia, um lenço de sêda, uma gravatinha de côres, um par de luvas. Ella extasiava-se com aquellas provas da affeição do senhor parocho; e era então no quarto escuro um delirio d'amor, emquanto em baixo a tisica, sobre a Tótó, ia fazendo «trás... trás...»