A LADAINHA DA DOR

(AO SNR. A. A. TEIXEIRA DE VASCONCELLOS)

O musico Berlioz, ao voltar das bandas molles da Italia e das ilhas da Grecia de lividos escarpamentos, sem serenidades idyllicas e sem myrthos—recebeu nas ruinas das Sorveiras, junto de Nizza, onde elle trabalhava na sua symphonia de Harold, toda cheia do mar, esta carta vinda de França:

«O pintor Lyser voltou da Bohemia com a sua doidice elegiaca. Pedi-lhe o retrato de Paganini como tu querias, mas elle disse-me, em segredo, que fôra o diabo que lhe guiára a mão n'aquelles traços, e queria conservar essa lembrança do diabo, um velho amigo. Tem esse cartão n'uma pasta, entre um desenho do velho Claudio Loreno e um retrato de Dante.

Hontem, ao cair da tarde, estavamos ambos sentados juntos da janella. O ar entrava todo emmaranhado nos cordões verdes das trepadeiras: nós estavamos calados e abandonados á doçura divina das cousas.

O pobre Lyser, com os seus grandes cabellos caídos, tomou o retrato de Paganini e desenhou, em volta, toda a sorte de entrelaçamentos, de folhagens, de penumbras delicadas, de dissipações de nuvens: e, entre aquellas efflorescencias, escreveu os nomes de Dante, de Hamlet, de Romeu e de Sancho Pansa, dizendo com a sua voz dolente: «Paganini tinha alguma cousa de todos estes homens». Depois, no cimo do cartão, desenhou a figura de Ophelia levada pela corrente, e um morcego, com as azas dobradas, olhando tristemente, d'entre as cannas debruçadas sobre o rio, o corpo branco sumir-se, levado serenamente como no seu elemento, e os grandes cabellos louros emmaranhados nos limos da agua: e por baixo escreveu: «Duvída, Ophelia, do meu amor, da verdade luminosa das estrellas, dos coloridos das folhas, da luz branca do sol». E depois, com a voz séria: «Paganini, sobretudo, era um morcego...»

É assim aquelle pobre Lyser com a sua triste loucura. Sabes que lhe morreu a irmã? No dia do enterro, Lyser acompanhou o corpo com a sua rabeca debaixo do braço e fustigando com o arco as hervas molhadas. O dia estava nublado. «Minha pobre irmã, disse elle, que nem póde levar presa no seu lindo vestido uma restea de sol!» Sabes a religião que Lyser tem pelo sol. Passa dias inteiros deitado entre as frescuras dos caminhos, sob a grande luz sonora do sol. N'essa noite em que a irmã foi enterrada, foi sentar-se junto da cova tocando as velhas árias de Lully, e de vez em quando compunha as dobras de um chale que tinha lançado sobre a sepultura. Assim esteve perdido n'uma saudade mais dôce que a lua, e mais profunda que a noite. Como o ceu estava nublado, elle dizia, de vez em quando, á morta: «Não tenhas pena, cá fóra nem estrellas ha.»

Foram-n'o buscar de madrugada, e elle vinha lento, dependurando-se do fato do coveiro como uma creança, a quem assustam os uivos dos cães e o chiar dos carros.

Dias depois voltou ao cemiterio e o coveiro não o deixou entrar: o pobre Lyser ficou junto das grades com os olhos cheios de lagrimas. «É uma cousa de pressa que tenho a dizer a minha irmã» affirmava elle com a voz passada de supplicações. O coveiro estava dentro fallando com uma mulher de cabellos côr de vinho: e como a quizesse prender n'um abraço barbaro e rijo, a rapariga, ao fugir-lhe, caíu sobre uma sepultura toda coberta de violetas; o coveiro ergueu-a, sacudiu-lhe a terra dos vestidos, e deu com o pé rude na terra da sepultura, resmungando: «Malditos tropeços!»

Por fim, veiu abrir a grade enferrujada ao pobre Lyser e com uma grande voz: «Vá, que já são horas de entrar sem licença.» Lyser sumiu-se entre os cyprestes, debruçou-se sobre a cova e escreveu na brancura da pedra: «Luiza, se lá em cima encontrares a estrella Vesper, pergunta-lhe de que tintas se faz a côr de rosa da tarde e os seus reflexos de rôxo pallido; preciso sabel-o. Hontem dei o teu chale branco a uma pobre: dize-me se queres que te traga alguns dos teus vestidos. Olha, se passares de noite por estas alamedas, não te approximes da casa do coveiro; vive lá uma má mulher.»

Dias depois chamou-me e disse-me: «Sabe? começo a acreditar que minha irmã morreu. Por isso, peço-lhe uma cousa: quando tiver alguma camelia não a esmague, talvez seja feita do seio da pobre rapariga.» E afastou-se, arrastando os seus sapatos como se estivessem pesados de agua: mas de repente, voltando-se e com a voz cheia de supplicações, accrescentou: «Nem as violetas: talvez sejam feitas dos olhos d'ella!» Então, tomou-me pela manga e levou-me para entre arvores onde havia o sol, o côro das colmeias, os cheiros de feno e os coloridos frescos dos fructos: elle ia com a face toda tomada pela côr quente e fecunda da vida.

«Não sabe? dizia-me o pobre Lyser com a sua voz dôce e lenta como um escorrer de mel: não sabe? Muita rapariga, que dizia as cantigas das eiras e dançava debaixo dos platanos, morre nos frios de fevereiro. Ha-de ter visto por esse tempo os pobres namorados que andam chorando sobre as covas com os cabellos caídos. Então aquelles corpos das raparigas desfazem-se. Alguem, que sabe e que vê, aproveita aquellas fórmas e aquelles coloridos: da pelle do seio fazem-se petalas de camelia, dos olhos tristes fazem-se violetas, da côr dos labios fazem-se os rainuculos, dos halitos perdidos fazem-se os cheiros bons, e do olhar, da meiguice, do desejo d'ellas faz-se a primavéra, o dôce ar das madrugadas de maio. De modo que de noite as flôres que estão nos vasos, na sombra das alcôvas, conversam das suas existencias passadas; fallam das danças ruidosas á guitarra; d'aquella manhã em que a ponta do seio veiu espreitar, pela abertura do vestido, os olhos do namorado; d'aquella tarde em que a face se vestiu de côr de rosa para receber a visita de um bigode louro; d'aquella noite em que as palpebras castas acudiram aos olhos, que estavam perdidos e quasi a dizer sim. E se uma noite espreitar as flôres que estão nos castos paraizos das alcôvas, ha-de-as vêr saír dos vasos, entrelaçarem as fórmas e os coloridos e fazerem na sombra a vaga similhança de um corpo feminino.»

É assim o pintor Lyser. Fez-se noite n'aquella alma, e por isso ella tem todas as qualidades da noite: o sombrio, o vago, o negro, o azul, o languido, o estrellado.

Agora deseja morrer e ser enterrado n'uma paisagem casta, assoalhada, murmurosa, para se julgar protegido e coberto pela alma errante do seu amigo Claudio Loreno.

Quando a luz do sol se retira, prende-se, como um manto de seda que se arrasta entre hervas seccas e ramagens, ao dorso de uma onda, á prôa de uma barca de pesca; assim aquelle espirito, ao retirar-se d'aquelle corpo, se prende ainda a tudo o que na vida é superior, e elevado, e meigo—ao amor, á melancolia, á compaixão, á arte.

Quando cheguei do Baltico, soube que Paganini se retirára de França: tive a respeito d'elle grandes conversações com o rabequista Sica, que pensa em fazer, para o verão, uma peregrinação pela Syria.

Estavamos horas debaixo das tilias, fallando do chimerico espirito de Paganini, até que as estrellas appareciam, contemplativas e augustas. Sica contou-me toda a legenda idyllica e barbara de Paganini: os seus amores em Verona, aquella cantora enfezada, de mãos macias e sentimentos velados, envolta em grandes sedas, e aquelle abbade de fivelas luzentes, com quem ella ia debaixo dos velludos silenciosos, n'um entrelaçamento de braços, em doce e azulada viagem pelo paiz de Cythera. Depois contou-me toda a sua trabalhosa odysseia de prisões e de degredos: aquellas noites em que elle, poderoso e solitario, entrava na confidencia dos negros soluços do mar: noites dolorosas de lagrimas, em que aquelle tragico homem, enroscado nas palhas do seu carcere, olhava ao longe o mar Mediterraneo amollecido por aquella mollesa que escorre dos astros e da voluptuosidade da noite desconhecida e fecunda.

Dizia-me Sica que Paganini lhe contava, que sempre ás horas escuras via as fivelas do abbade luzirem na noite. «Ás vezes o remorso, affirmava elle, é bondoso, encarna-se em cousas que têm uma vida, uma carnação, um sangue, uma mollesa, que se podem abrandar, a quem se póde supplicar; mas aquellas fivelas metallicas, inertes, rigidas, eram um remorso frio, surdo, inflexivel, faziam-me subir ao rosto o suor do antigo Josaphat.»

Dizia tambem Paganini, que uma das suas grandes torturas, no carcere, fôra assistir, pela visão, á decomposição fria do corpo da pobre cantora Marietta. Elle via aquelle corpo sem oleos, nem sacramentos, debaixo das terras limosas e tumidas de seiva, esverdear-se entre as ossadas. Via de noite, perto de si, aquella terrivel decomposição das carnes, aquellas brancuras inertes, aquellas molles curvas sugadas pela terra. Via, aterrado, os cardos, as papoulas, as gramineas, os cyprestes serenos comerem a sua bem-amada fria, muda, esverdeada e inchada!

Então, alli, tomou odio á natureza: elle atravessava sempre as frescas fecundidades, as searas, todas as verdes fórmas da vida, os campos e as granjas, com um horror judaico e mystico. Só perdoava ao mar: e ás vezes, depois, na Dinamarca, ia para junto das aguas do mar do Norte tocar na rabeca as velhas cantigas scandinavas e as balladas runicas; e desejava que, depois de morto, o seu corpo pudesse andar, durante a eternidade, nos verdes embalos da agua.

Foram terriveis todos aquelles annos de prisão.

O rabequista Sica contou-me depois todas as viagens de Paganini com os estudantes da nova Allemanha, indo pelos burgos, pelos povoados, pelas cabanas de lareiras somnolentas, cantando ás estrellas e dizendo, na sua rabeca, sob a lucidez do ceu do Norte, as velhas balladas da Thuringia.

Contou-me o amor da duqueza de Weimar por Paganini; e como uma noite de concerto em duas cordas da rabeca elle disse o dialogo mysterioso de duas vozes que se fallavam debaixo do arvoredo, depois entre sedas de cortinas, ao fresco ar d'um balcão, e depois ainda na terra, debaixo das raizes dos cyprestes, e, por fim, indefinidas, tenues, luminosas, entre o encruzamento sagrado dos raios dos astros.

Era uma allusão desconhecida, que encheu de lagrimas a duqueza de Weimar.

Aquelle homem, ultimamente, tinha o peito cheio de mortos. D'elle retirára-se o elemento humano: já não tinha a compaixão, o riso, o amor, a indignação, a paternidade, a emoção.

Lento, com os seus cabellos caídos, livido, com as terriveis rugas da face semelhantes aos f f d'uma rabeca, com as mãos transparentes, cheias de agilidade e de deslocações, com os seus grandes casacos escuros de pregas hieraticas, atravessava os povoados, os silencios, as scenas resplandecentes, poderoso e solitario, procurando sempre, aos pés, uma cóva onde não se esfolhassem arvores, onde não nascessem hervas, sem saber que na noite, na humidade, nas choças, nas pedreiras, nas estradas, nas costas, ha uma raça que soffre, e que ha beiços lividos da fome, e que ha febres silenciosas e amores desertos, e suores d'angustia, e apodrecimentos de honras, e uivos d'almas afflictas, e lentos e frios esvaecimentos de pudores e de bellezas.

Sica contou-me tambem o grande poder musical de Paganini e a sua attitude nos concertos, cheia de abaixamentos e servilidades: e contou-me tambem, meu amigo, aquella noite gloriosa e flammejante em que se tocava a tua symphonia de Romeo e Julietta, e em que elle veiu, entre os applausos e as vozes de corôação, ajoelhar e beijar-te as mãos, dizendo com os olhos cheios de agua:—Sois outro Beethoven!

Ultimamente, como sabes, tinha uma doença de garganta que o emmudeceu: trazia então um livro branco em que escrevia o que pensava nas conversações da noite; aquella doença não o vergou mais; elle tinha já o silencio—estoicismo da alma, e refugiou-se na mudez—estoicismo do corpo.

Passava então com o rabequista Sica horas inteiras, tocando rabeca ou guitarra. Ultimamente, preoccupava-o muito o ter de deixar a sua rabeca só, depois de morrer; e escrevia no seu livro: «Quando eu estiver para morrer, pensar que a hei-de deixar aqui, entre as mulheres d'aço, estes jornalistas lividos e os agiotas calvos, no meio d'esta multidão esfomeada de materialidades! que se ha-de encher de pó a um canto, ella, cheia de alma e de legenda!»

No emtanto, elle acreditava que, no dia em que morresse, a sua rabeca havia de estalar e os pedaços, apodrecidos na terra, ir-se-iam confundir com o corpo d'elle nos átomos das arvores, ou das estrellas, ou das aguas. E escrevia então: «Que felicidade poder ter a mesma folhagem, dar a mesma luz, lançar a mesma espuma!»

Mas, por fim, olhava para a rabeca com um ar triste e descrente; ás vezes tomava a guitarra e ia tocar n'ella para junto da rabeca, com um gesto de caricias brandas, com um lento correr de dedos, como se estivesse vestindo as cordas com a harmonia viva que tirava da alma; elle queria pôr todos os seus interiores divinos n'aquelle gemer de guitarra, para fazer morrer de ciúmes a sua velha rabeca abandonada.

Por esse tempo, um dia que elle estava com Sica, escreveu assim: «Já me não fio na minha rabeca; acredito que ella não ha-de lamentar a minha morte. Não morre, não! Ha-de dar-se ao primeiro que a tomar nos braços; ha-de dar-se com suffocações lascivas, e dizer-lhe os mesmos segredos, mysticos, voluptuosos e illuminados, que me dizia a mim... Que importa á rabeca que o pobre musico apodreça debaixo da terra?!»

Ultimamente o musico Sica necessitou ir á costa normanda, porque tinha lá seu pae, velho marinheiro, morrendo junto das aguas; e quando voltou, coberto de lutos e soluços, disseram-lhe que Paganini tinha partido para o sul.

Adeus, não te demores em Nizza. Acaba depressa a tua symphonia do Harold, e recommenda-me ao nosso velho amigo—o Mar.»


Tempo depois, o homem, que tinha mandado esta carta, recebeu est'outra de Berlioz:

«Estou ainda todo frio das visões d'esta noite. Sabes que móro nas Sorveiras, que são umas ruinas junto do mar, pedras bem conhecidas por toda a populaça do ar: abrigam-se alli, como n'uma pousada, os viajantes sombrios da atmosphera, que são as chuvas esguedelhadas, os ventos uivadores, os granizos, as molles brumas e os nevoeiros. Em redor estão espalhados os casebres dos pescadores, todos conchegados, como as ovelhas quando anda temporal no monte; a costa é terrível e, no emtanto, o mar tem, ás vezes, serenidades só similhantes ao calmo olhar d'um idiota.

Este povo trigueiro de pescadores sáe, logo de madrugada, para os balouços da agua nas suas lanchas esguias, carunchosas, todas cheias de legenda e do cheiro das pescas: logo na alvorada se sente em baixo, junto da voz da maresia, aquellas cantigas fortes de deitar redes, robustas como calabres e sãs como o sol. É uma bella vida! Durante o verão, nas séstas silenciosas do mar, todos andam na pesca, os velhos, as creanças rotas, resplandecentes e sujas, e as mães de forte seio—estas bellas mulheres da costa da Italia, que eram tão desejadas pelos marinheiros gregos e phenicios, que tinham visto Mileto, Abydos e Corintho.

Agora que o outono começa, esta pobre gente deixa as redes rasgarem-se ao vento, e vae para o interior dos povoados juntar-se nos campos á outra pobre gente curvada, que lavra e que semeia.

Hontem fui, n'uma barca de pescador, até ao ponto em que o Var desagua. Sabes que é n'este tempo que as pombas emigram para o sul; reunem-se em bandos gemedores e vão, por cima do Mediterraneo, fazendo nodoas brancas pelo ar azulado. Quando voltei, o sol descia: o barco vinha levado de um modo silencioso e casto pelos serenos embalos ondulosos. O mar tinha uma serenidade olympica.

Eu havia-me abandonado ás mollesas da tarde, e, todo estirado á pôpa, via o ceu cobrir-se d'uma côr rosada, como d'um rubor de castidade. As estrellas começavam a apparecer. D'onde vinham ellas? E d'onde é que vem a noite de tão longe, que parece suada de luz? Eu via-as tremer, e pensava que ellas deviam ter frio e medo, lá em cima, nas solidões, sem deuses. A'quellas horas tambem apparecem as ondinas na agua; quem sabe se as estrellas são mulheres de um elemento desconhecido, que vêm de noite em teorias sagradas, celebrando um rito elegiaco? Quem sabe se são arvores agitadas por um vento, que deixam cair estes negros fructos—a melancolia, o amor, a sensualidade?

Depois ri-me d'estas imaginações; mas nas aguas do Mediterraneo, ao anoitecer, n'um barco de pesca, vendo ao longe as linhas molles da costa de Italia, e sobre os montes os fogos dos pastores, não podia vêr as estrellas como nas verdades e nos positivismos modernos, e esqueci Arago, Berthelot e o velho Laplace.

E depois pensava como desejava morrer, que era nos braços da bem-amada, sol da minha natureza, sem dôres mordentes, sem febres silenciosas, e ir assim, entre as fulgurações do desejo, e os deslumbramentos da alma, e os beijos vermelhos e transfiguradores, e os entrelaçamentos divinos, sob o seu olhar santo, ir, n'um lento desmaio da carne, para a frialdade da terra e alli sentir-me, lentamente, dissolver pelas humidades fecundas, pelas seivas brancas, pelas espumas das nascentes, pelas raízes das florescencias!

Ora quando assim vinhamos, vi, na linha escura e aspera da costa, uma massa de arvoredos e, por entre a sombra, uma luz elegiaca.

—Que luz é aquella, meu velho?—disse eu, da pôpa.

O pescador suspendeu as rijas ondulações dos remos, que ficaram direitos, escorrendo, todos esverdeados das algas.

—Aquella luz, senhor, é a casa das Serenas. A estas horas está alli, abandonado, um pobre homem que morreu lá hontem. Tinha chegado aqui ha pouco, e era mais amarello que a cera do altar; até na costa diziam os velhos que elle se vendera ao diabo! Deus me perdôe por fallar assim n'isto, de noite, em cima das aguas! Ah! senhor, diziam que tocava na sua rabeca maldita que nem no ceu... Chamavam-lhe Paganini.

E o pescador metteu os remos na agua, cantando n'uma melopeia dolente:

Altra volta gieri biele,
Blanch'e rossa com'un fiore.
Ma ora nò. Non son piu biele
Consumata dal'amore.

E depois, voltando-se e com a voz ensurdecida pelo clamor das marés, continuou:

—E os padres agora não lhe querem cantar as suas ladainhas e enterral-o em terra santa. Se fosse meu parente e tal succedesse, ia para o fundo do mar. Debaixo da agua anda muito corpo de patrões e pilotos: elles não morreram, não; andam ainda vivos; e quando um pobre homem que tem mulher e filhos deita as suas redes, em dia de vento, quando o peixe anda arredio, elles costumam afugentar a pescaria com ramos de coral para as bandas da rede!...

O pescador fallava assim, lentamente, com a voz pesada da religião das legendas.

Eu levava os olhos rasos de agua e pensava que nunca tinha ouvido tocar o triste Paganini: sempre que elle deu os seus concertos, eu estava longe da França.

Entrei nas Sorveiras com o peito cheio de friezas e de mortalidades. Quiz trabalhar, mas sentia-me dissolvido na pesada materialidade das cousas.

Tomaram-me uns molles cansaços e fiquei sem pensamentos, sem desejos, inerte e silencioso como um pombal d'onde fugiram todas as pombas. Sentia apenas o miar dos gatos lascivos e o uivar dos cães que andam de noite na praia, esfomeados. O mar estava pesado de gemidos sob a noite lenta e mystica.

Ora quando assim estava, ouvi, distante, como vindo das alturas hieraticas das nuvens e das vias-lacteas, o gemido de uma rabeca.—Quem é que, áquellas horas, n'uma costa aspera de ventos furiosos, quando os pescadores dormem nas frialdades da cinza da lareira, enrodilhados nos farrapos dos mantéos—tocava assim rabeca junto do mar?

Fui, amedrontado, ao meu antigo balcão gothico e olhei pelas transparencias doentias da noite. Nada. As ondas choravam o seu chôro mystico e as estrellas estavam na sua immobilidade de onde se exhalam religiões. Cerrei as portadas e voltei, com o peito sacudido por um soluço de medo, para junto do brazeiro: então ouvi de novo aquelle som triste da rabeca estender-se lentamente pelo mar como uma nevoa sonora. Fiquei todo tomado de tremores e de frios: e ouvi então, distinctamente, com os ouvidos da carne, a musica de uma rabeca, acompanhada, surdamente, pelo mar.

Ao principio foi uma melodia de fresca serenata, que a agua acompanhava com um marulho humido e alegre: e ao mesmo tempo, ao longe, havia o gemer rythmico do vento.

Então, durante uns momentos, eu ouvi uma musica estranha de rabeca, acompanhada pelo mar, onde havia gemidos, dilacerações, e vozes pesadas de lagrimas, e melodias tragicas com dôres da natureza, e sempre, por entre os sons alegres e meigos, uma tristeza surda e lenta corria, como a agua corre, lodosa, entre os juncos e os cannaviaes.

Havia vozes de rabeca, afflictas e barbaras: e ás vezes, dôces mugidos sinistros do mar pareciam presos por uma melodia da rabeca, delgada, tenue, clara como um fio de som. Eu não te sei dizer o que era aquella musica sobrenatural, elegiaca, selvagem, tragica, suave e escarnecedora!

Por fim, de repente, toda aquella orchestra poderosa se calou, como um bando de abutres e aves de noite gritando afflictas, com tragicas palpitações de azas, que vêm pousar, n'um silencio, sobre um rochedo das aguas. Então senti, de entre aquella amontoação apocalyptica de harmonias, desprender-se, solitaria, a voz da rabeca, e vir, de leve, tocar junto do meu balcão com meiguice, com mollesa, com volupia—as variações do Carnaval de Veneza.

Ninguem me póde tirar do coração, que foi a alma de Paganini que deixou o seu corpo na natureza solitaria das Serenas, e veiu dizer o adeus da musica ao seu velho amigo.

Adeus, meu meigo artista! Soffre e transfigura-te pela dôr: eu aqui estou, cheio de saudades da nossa dôce França, junto das aguas tristes do Mediterraneo.

Creio que, depois da noite de hontem, nunca mais terei o riso sonoro e são. Adeus! dei os teus recados ao Mar, que te manda, como voz de saudação, o terrivel temporal que agora vae na costa.»

O homem a quem esta carta foi escripta, era um artista, um pintor como Lantara, vivendo descuidado na bohemia errante das miserias, das jovialidades e das primaveras. Mas a alma não se maculou com os contactos do corpo: no meio d'aquellas loucuras esteve sempre como uma pomba adormecida. Aquelle pobre rapaz vivia n'uma trapeira, onde trabalhava sem sol, n'aquellas alturas silenciosas e castas, onde vivem e crescem as flôres do bem: depois enlouqueceu e foi recolhido a um hospital: e alli era sagradamente velado por uma enfermeira dôce, delicada e branca como uma virgem de oiro fino de um livro de legendas: o pintor, que, como o seu amigo Lyser, ainda depois de doido desenhava, pediu um dia á enfermeira a sua touca engommada e lisa, e com um lapis desenhou alli, como um agradecimento d'alma, toda a sorte de delicadas imaginações—azas abertas, corôas de folhagens, ondas que vinham beijar um pé branco, corôações de caridades.

Uma noite, a enfermeira ouviu um gemido, e veiu encontrar o pobre pintor com as mãos postas diante d'um retabulo alumiado; a dôce rapariga cuidou, no seu coração, que elle se encommendava á Virgem; escutou: o pobre rapaz doido estava rezando ao seu velho amigo Claudio Loreno. Quando sentiu a enfermeira, voltou-se e disse-lhe, quasi a chorar: «Deixo o meu corpo aos rios, ás arvores, ás abelhas, aos montes, ás searas, a toda a mãe Natureza.» Depois curvou-se, beijou a orla do vestido da enfermeira, e ficou-se enroscado no chão, frio e inerte.

A enfermeira pousou a luz do retabulo junto do corpo, tirou a toalha da Virgem e estendeu-a sobre a face pallida do triste, transfigurado pela belleza sagrada e espiritual da morte.


Ao outro dia de madrugada, quatro homens que riam de farças de taverna, e cantavam más cantigas, levaram aquelle branco corpo á valla dos pobres.