O LUME
Agora, de inverno, no campo, as noites são asperas e hostis. Toda a natureza está impassivel e entorpecida, esperando a fermentação violenta das seivas. As arvores erguem os braços nús, miseraveis e supplicantes. E as aguas, que no outono estavam quietas e pallidas, e que em maio faziam claras murmurações, tão melodicas como o rythmo d'um idyllio latino, teem agora vozes vingativas e más. O vento é rouco e lento como um canto catholico d'officios: as chuvas cáem de cima, como escarneos triumphantes e ruidosos.
Ás vezes, vem a lua—não aquella immaculada lua côr d'opala, d'onde se exhala um nevoeiro magnetico que faz a alma docemente doente, mas uma lua metallica, fria e livida, como a face dos corpos finados, nas legendas catholicas.
Então, o homem sente a sua pequenina e inutil alma afundar-se no tedio, silenciosamente, como um navio roto n'uma calmaria, e vae, por instincto, dar-se á intimidade consoladora da lareira, das brazas e do fogo. E, emquanto a força vital se dissolve n'uma somnolencia fluida, elle sente aos seus pés uma pequena voz, alegre, inquieta, clara, que lhe falla como n'um extase profano:
«Sou eu—diz a voz—eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o teu velho Deus mysterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que ha em ti de grande e de justo—a familia e o trabalho. A minha historia é triste, luminosa e terrivel, immunda e meiga. Eu fui o teu companheiro das noites da India, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch das religiões da velha Africa, ensanguentado e tragico: e sou agora o escravo a quem tu mandas mover as machinas.
«Sempre escondido e silencioso, occupando a um canto o mais pequeno espaço da casa, eu venho todo jovial e radioso quando tu me chamas, e fico, nas tuas horas negras de dôr e de miseria, calado ao pé de ti, lambendo-te os pés como um cão. Na India, lembras-te? durante as noites primitivas, eu fui o bom Agni que te allumiava, que espantava os chacaes e as onças, e protegia, como um templo, os teus amores religiosos e simples. Escondia-me nas pedras, e nos paus seccos: assim, para onde tu fôsses, ou solitario ou em bando, encontravas-me sempre aos teus pés, bom e humilde. Foi ao pé de mim que tu creaste a trindade humana da familia.
«Era ao pé de mim que tu descançavas dos teus barbaros trabalhos, no principio, quando a vasta natureza te combatia. E eu era o amigo unico, o alliado radioso. E eu tive a confidencia dos teus primeiros beijos. E eu sabia as tuas dôres e os teus medos.
«Tinhas em redor de ti a hostilidade dispersa: a grande floresta tenebrosa, que depois foi para ti berço, lenha, morada, navio, defeza e força, era então a tua sepultura imminente. Quando saías de ao pé de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te só, entre os sêres implacaveis—o mar que te ladrava, a vegetação espinhosa que te mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sudarios. Tudo, sob a pressão doentia do sol, era para ti força inimiga ou fórma resplandecente do mal. E só quando voltavas, encontravas o teu bom lume que te enxugava, que te allumiava, que te dava o pão, a força ou a fé. Eu e a mulher, a minha companheira celeste e silenciosa, ficavamos em casa, esperando os teus cançaços. Ella fiava, limpava o chão da cabana, tirava a agua fresca, e adormecia o filho no seio branco como n'um leito espiritual: eu estava quieto e attento, combatendo a sombra e a noite, vencendo a humidade traiçoeira, fazendo um docel de vida e de luz para o teu somno, dando á cabana a serenidade tepida, e ás tuas fadigas um paraiso de socego, de silencio e de calor.
«Em volta de mim, creou-se a familia. Eu era o purificador da tua natureza. Era o Deus presente e bom, que fecunda as almas, fortalece os braços, e ampara na hora das dôres.
«Eu tenho ainda por ti aquelle amor servil e adulador, que se glorifica quando abdica, que tem um extase quando se dá a uma humilhação. Quando te afastas, quando me deixas, fico triste, amorteço-me, toda esta grande alma de chamma, que te quer tão bem, se definha, e apenas ficam as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas já inertes, e cheias de negro—justamente como o corpo d'um amor abandonado.
«Mas quando vens para mim, quando me estendes a mão, como para um affago, quando me revolves—desperto, revivo, canto psalmos de luz, requebro-me como uma mulher que se abandona, tenho vivacidades que são gritos de fogo, scintillações que são beijos; e como n'uma rapariga, para quem o inconstante bem-amado volta, toda a tristeza se desfaz em rir, em mim, mais infeliz, que não tenho o riso, aurora sonora dos labios, toda a minha dôr e o meu abatimento se vae desfeito em fumo!
«Por ti tenho feito o mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, João Huss, tantos santos, e tantos martyres, e tantos hallucinados de Deus! Fui eu que queimei, nas cidades mysteriosas de Africa, as creanças e as virgens no altar de Moloch.
«Por ti, eu que sou a paz, fui a devastação. Estou fatigado. Durante os tempos tenho sido o camarada, o amigo, o servo, o vigia, o cão, o confidente, o pão, o calor, a vida! Não queiras que eu seja o carrasco! Podia ir comtigo, insensivelmente—lareira, se era o teu amor que me assoprava, incendio, se era a tua colera—no tempo em que tu eras uma força inconsciente e fatal. Mas hoje és uma consciencia. Comtigo só me alliarei para ser fé, consolação e paz. Sendo paz e fé, é que eu te tenho consolado das servidões dolorosas.
«No tempo das cathedraes, quando tu nada tinhas, nem o amor, nem o pão livre, nem a voz, nem o somno, nem a esperança, eu dei-te o que mais agrada ao escravo—o direito de mandar. Em volta de mim, a familia ajoelhava á tua voz, resava ao teu olhar, erguia a hostia do amor ao teu coração. Eras servo e tinhas estas grandezas: era eu que t'as dava. Como? Pela fé, pela paz, pela consolação, pela união. Para ti, eu tenho representado a essencia humana. Eu tenho advogado a causa da vida.
«A minha irradiação lenta e amorosa dissipou o mysticismo. Eu sou o bem. A familia, o trabalho, a educação, esta trindade mysteriosa da vida, tudo está em mim. Toda a felicidade humana canta, ama, ora, no circulo da minha luz. Tudo para além é sombra—sombra na parede, e sombra na alma. Procuras o ideal na religião, na conquista, na arte; debalde! Trabalhas, adoeces, morres, apodreces: vida inutil! Os unicos momentos verdadeiros e sãos fôram aquelles em que estiveste ao pé de mim, olhando castamente a mulher, ensinando a lêr a creança. Então realisaste o ideal, o symbolo—Deus, que as religiões esboçam e as criticas dissipam.
«Lembras-te da India?
«Alli tinhas uma cabana, a tua mulher, branca e mais doce que a lã dos novilhos, e o filho, encarnação mysteriosa do amor das almas, e a minha doce presença. Trabalhavas, aquecias-te, amavas, dormias. A alma vivia em ti no estado de presentimento.
«Depois d'isso, tens tido uma vida legendaria de luctas, de creações, de religiões, de conquistas, de descobertas, d'ideaes.
«O que augmentaste em ti? Nada: apenas a tristeza, o desfallecimento, a dôr e o mal.
«Eras puro e são: estás morbido e enfraquecido. Eras forte: estás rachitico. Eras sereno: estás torturado. O teu bom riso é uma triste ironia: o teu largo olhar é uma aspera desconfiança.
«Tinhas por inimiga a natureza. Vencestel-a? Não. Absorvestel-a. E tudo o que ella tinha de terrivel e de doloroso, tudo hoje tu tens: a independencia desesperada do mar, o mysterio doentio da floresta, o chôro afflicto das aguas, a inquietação do vento, a barbaridade das feras, a escuridão supersticiosa dos astros, tudo hoje está em ti, com surdas irritações, com rebelliões formidaveis. Ahi está. De cada vez que te apartaste de mim, do socego do meu calor, voltaste trazendo uma chaga.
«Foste crear o mysticismo: vieste com a nostalgia incuravel. Quizeste crear os Direitos do Homem: trouxeste um mal divino chamado Liberdade, que vae sempre fugindo de ti, e só ás vezes se volta de repente, para te borrifar de sangue! Quizeste ir construir a adoração do corpo e da materia exclusiva: trouxeste o elemento dissolvente da força e o egoismo brutal. Não tens dado um passo de mais para o bem. As tuas obras ahi estão immensas, accumuladas, contraditorias e inuteis. Tens uma complicação infinita de azas que te impede o vôo.
«A mim, abandonaste-me.
«Eu não me apaguei. Durante as revoluções e as luctas, andei errante, miseravel, sobrecarregado d'infamias, e, para viver, vendendo-me ao carrasco!
«Mas conservei sempre a minha chamma, casta e familiar, para o dia em que quizesses vir, tristemente, enxugar-te ao meu calor do sangue dos teus irmãos.
«Vem para junto de mim. Eu sou completo. Correspondo a todos os teus instinctos luminosos, ou sagrados, ou materiaes, ou lascivos. Eu dou-te o pão, o calor, a fortaleza, dou-te as visões que são a poesia do movimento na alma, dou-te a sensualidade somnolenta que exhala amor, dou-te a serenidade que dispõe para a contemplação, e a força que prepara para o trabalho. Eu sou a cura, intelligente e boa, do mal natural. Eu allumio-te nas vigilias dolorosas. Quando estás entorpecido na doença, eu, pequenino e encolhido, tremo ao pé de ti. Quando morres e a tua alma vae partir, eu allumio-lhe o caminho de Deus. Eu cerco Christo nos altares para que tu o vejas bem. Quando andas no mar, eu sou junto das praias o grito de luz que te chama.
«E o que fazes tu em paga d'este amor que se dá, que cria, e que purifica? Esmagas-me. Fazes-me o escravo das machinas. A mim que embalava as almas, fazes-me mover os aços. Embalo que era amor, movimento que é força: os dois termos da tua vida—pureza e putrefacção! Eu que vivia, allumiava, creava em liberdade, estou encadeado e martyrisado na tarefa brutal das industrias. Fazes-me o motor da miseria. Nas fabricas, as creaturas doentias, as creanças estioladas, as mulheres definhadas e soluçantes são as minhas victimas. Sou o collaborador dos martyrios que lhes infliges. Tu, homem, tomas o fogo, o ser sagrado, por ajudante de execuções! Dás-me por salario a infamia. Fazes de mim explosão. Obrigas-me a devastar na guerra!
«Eu sou a pureza, o trabalho, a familia, a paixão casta: levas-me a ser o mal, a viuvez, o pranto e a dôr! Tenho um cortejo d'ambulancias e de macas, eu que era o firmamento dos berços! Não! maldita seja a arvore que consentir em ser forca, e o fogo que consentir em ser explosão!
«Não quero que na minha vegetação de luz haja um orvalho de sangue. Não quero que o vento, ao embalar-me, faça soltar os gritos e os choros que se tivessem aninhado em mim. Tu, homem, sê piedoso e justo. Eu allumio o mais que posso as egrejas, mas parece-me que tu não vês bem a Christo. Não, deixa-me ser a pureza, a graça, a familia, a intimidade casta e o bem. Peço-t'o, rojando-me como um mendigo. Oh homem, oh meu velho camarada das choupanas da India! não me faças ser explosão, morte e devastação, para que eu no dia de pureza e de castidade, quando estiver allumiando e aquecendo os beijos, as orações e os berços—não sinta entre as minhas chammas bailarem espectros!»