OS MORTOS

Hontem foi o dia dos mortos. Os mortos são felizes. Emquanto nas dolentes celebrações da Igreja, ao pé dos altares luzentes, deante do Jesus rôxo e descarnado, os tristes e os simples rezam pelos seus queridos mortos, elles andam dispersos pela grande natureza, pelas florestas esguedelhadas, pelas espessuras sonoras, pelas uberdades da seiva, pelos sulcos fecundos, por todas as verduras d'acre cheiro.

A sua carne soffreu, empallideceu com os medos, emmagreceu com as febres, engelhou-se com os frios; mas agora anda, repousada e sã, pelas frescas vegetações, pelos fructos coloridos, na luz selvagem e vital do sol, nos átomos da noite constellada e suave.

Os que morreram nos apodrecimentos das febres desfizeram-se no seio da terra planturosa, foram sugados pelas raízes e, confundidos com a seiva, vêm outra vez para o sol, em fórma de fructos, de corollas, de ramagens ondulosas.

Os que morreram sobre as aguas do mar, desfazem-se entre as verdes profundidades, entre as areias, os coraes, as conchas, os rochedos, e vêm depois, sob a fórma d'ondas, embalar-se serenos ao sol, ou de noite estirar-se ao peso da mollesa que escorre dos astros, ou de madrugada, cantando com barbaridades de rainhas e doçuras de santas, acalentar o povo dos pescadores, silencioso e trigueiro.

Os que morrem sobre os montes, como os pastores contemplativos, são consumidos pelo sol; e andam dissipados pela luz hieratica das estrellas, pelos vapores molles das nuvens, pelas auroras; são os átomos de luz, serenos, fecundos, consoladores e purificadores.

Assim os mortos são felizes.

Nós outros andamos ruidosos e nocturnos, gordos ou empallidecidos, esfomeados de materialidades, calcando as Margaridas, perdidos nos deslumbramentos da carne; celebramos as religiões, esboçamos Deuses, riscamos sociedades no ar; e, nervosos, desconsolados, derrubadores, no meio d'esta forte vitalidade—como um lavrador que suspende a enxada e se fica, todo amarello, a pensar na velhice sem pão e sem lume—estamos sempre a sustar as nossas alegrias alumiadas e sonoras, para pensarmos, aterrados, nos esfriamentos lugubres do tumulo.

E entretanto os mortos, que são os paes, as irmãs, as bem-amadas, as mães, estão pela natureza, pelos montes, pelas aguas, pelos astros—serenos e immaculados. E porque tememos a morte? Que instincto tenebroso ou sagrado nos faz amar tanto esta fórma humana, estes cabellos, estes olhos, estes braços enrodilhados de musculos? As arvores, as florescencias, as hervas, as folhas, são tambem fórmas da vida, santas e cheias de Deus. Por toda a parte, pelas familias das constellações, pelos planetas, pelas arvores, pelos lividos interiores da terra, pelas aguas, pelos vapores, pelos prados fecundos, escorre a seiva, o átomo santo, a alma universal! Por toda a parte ha attracções, amores, antagonismos, repulsões, polarisações, alegrias, estiolações, pollens, alma, movimento—vida. Porque ha de então ser esta fórma, que tem braços e cabellos, e não aquella, que tem ramos e folhagens?

A vitalidade é a mesma, cheia dos mesmos instinctos negros, sagrados, luminosos, bestiaes, divinos.

Por isso os mortos são felizes, porque andam longe da fórma humana, onde ha o mal, pela grande natureza santa, onde só ha o bem, na pureza, na serenidade, na fecundidade, na força.

Bemaventurados os que vão para debaixo do chão, porque vão para uma transfiguração sagrada. Mal cáem sobre elles as ultimas pazadas de terra e o canto dos padres, barbaro e dolente, se perde com o fumo dos cirios, o corpo fica só na plenitude da noite e do silencio, perante a grande vegetação esfomeada; elle vae dar-se alli como pasto ás boccas sinistras das raizes: elle amollece entre as humidades da terra e desfaz-se em podridões: então as raizes começam a sugar e a comer: a podridão transforma-se em seiva: a seiva sobe pelos troncos, estende-se pelos ramos, palpita dentro da arvore, engrossa, fecunda, arredonda-se nas exhuberancias dos gomos, e abre-se depois em folhagens, em florescencias e em fructos: e o corpo transformado vê outra vez o sol, as grandes poeiras, e sente os orvalhos, e ouve as cantigas dos pastores, e vive sereno, repousado, na floresta immensa.

E no emtanto, junto d'aquelle corpo, que soffreu a metempsycose do bem, foi enterrado outro, n'um caixão de chumbo, entre pedra e cal, hirto e embalsamado. Entre a enorme palpitação diffusa, emquanto em redor se vae operando a lenta transformação da semente, onde já estão em germen as folhas, os troncos, os fructos, as flores, os ramos que mais tarde o vento atormentará, entre as raizes fortes e retorcidas dos arbustos, entre as ondas da seiva, entre as uberdades e as voluptuosidades creadoras da terra fecunda, o cadaver embalsamado alli está, inteiro, hirto, rijo, feio, livido. Elle inveja os átomos livres e soltos, que sobem e descem no encruzamento das vitalidades, que se deslocam e escorrem, como grãos d'um sacco, desde as constellações e os cometas, até ás espumas castas das fontes: alli, sequestrado á natureza, não se póde dissolver na eterna materia forte: não tornará a vêr o sol, as noites amollecidas de orvalhos, os soluços lascivos do mar... Que estranha fatalidade pesava sobre elle, que nem a morte o libertou?

Oh! possamos nós todos ter sempre em vida a religião do sol, da belleza e da harmonia; movermo-nos na atmosphera serena do bem e da liberdade; ter a alma limpa e transparente, sem sombras de deuses e de tyrannos; sentir o enlaçamento divino dos braços da bem-amada—e depois, ó santa Natureza! toma os nossos corpos para fazer d'elles arvores cheias de sombra e ramos resplandecentes!

E ao menos, durante a vida, convivamos com a natureza. Quando entramos n'uma floresta, parece que a luz do sol, que escorre abundante e fecunda, nos enche todo o interior, despertando alli, como faz nas madrugadas de maio, os córos de passaros: e depois ha um responso sagrado, como se todas as iras, e as amarguras, e os desalentos, e os terrores, se curvassem na mesma humildade, ao elevar-se na alma uma hostia mysteriosa.

Durante o dia ha, nas florestas, uma santa celebração: as arvores estão graves como sacerdotes: as flôres incensam: a luz do sol é a alva flammejante e serena que a floresta veste: e ella murmura um canto dolente e sacro, acompanhado pelos passaros religiosos, e d'entre as ramagens eleva-se uma paz viva, fecunda e consoladora, como uma vaga hostia: e, ao fim da missa, as arvores, balançando os ramos, parecem lançar ao povo curvado das plantas, das hervas, e das relvas, a sua benção soberba.

Ora quando passamos entre estas celebrações, tristes, humildes, purificados, de entre a folhagem que se aninha, inquieta, no seio do vento, sáe, para nós, toda a sorte de vozes, de saudações e de confidencias.

São os nossos queridos mortos que nos fallam; e então toda a materia tende a elevar-se, a desfazer-se em vapores e orvalhos, a ir pousar, com suavidade e doçura, nos seios da folhagem, que já foram seios amados...

E depois a natureza tem immensos perdões e reconciliações formidaveis; todos os odios tragicos, todos os corações ferozes se fundem divinamente na promiscuidade sagrada da terra. Ella não escolhe; tudo lhe é bom; as raizes das rosas pastam a podridão dos tyrannos; e dos homens que na terra ensanguentaram, dilaceraram, profanaram, faz carvalhos austeros e cedros religiosos.

Ella é mais dôce que as religiões: nas Escripturas Judas atraiçôa Jesus, e no emtanto ha muito tempo que os dois corpos—o do homem luminoso e o do homem escuro—andam enlaçados e dissolvidos nas mesmas auroras e nas mesmas corollas.

Ella acolhe, indifferente, todos os ritos, todas as religiões: as mesmas oliveiras, que na Grecia encobriam, serenas, as choreias núas dos ritos de Baccho, cheios de ondulações lascivas, encobriram depois, agitadas por um vento feroz, sob a luz irada das constellações, o pobre Jesus, gemendo, arrastando-se na rocha e nas silvas, suando sangue, bradando afflicto na noite das Agonias.

Ás horas em que acabo estas linhas, vae o dia a declinar: agora, lá ao longe, nos campos, lembra-me que anda o semeador erguido sobre os sulcos, roto e sereno, espalhando o grão com gesto augusto: e parece-me vêl-o d'aqui, entre as transparencias morbidas do anoitecer, distribuindo a vida: são os corpos dos seus avós, que elle assim espalha pelos sulcos fecundantes: são elles que se tornaram seáras e que lhe hão de encher o celleiro; são elles que lhe dão a comer a sua carne e a beber o seu sangue. Sagradas transfigurações!

Assim, é na natureza que devemos ir procurar as consolações, estremecer com os amores mortos, chorar no seio das maternidades passadas. É na natureza que se deve procurar a religião: não é nas hostias mysticas que anda o corpo de Jesus—é nas flôres das larangeiras.