VII

Eça de Queiroz tinha, por essa epoca, a mesma exhuberancia e originalidade de phantasia em verso: porque sentia muitas vezes a necessidade de metrificar,—quasi que o mesmo genero de necessidade de som e rythmo que o fazia com frequencia cantarolar, em voz baixa, pequenas phrases musicaes, quasi sempre erradas, mas sempre impregnadas das mais patheticas inflexões.

Os versos que compunha tinham um enorme relevo pela originalidade da concepção e das imagens, e conservavam ainda a fluencia romantica, apaixonada, phantastica, dos primeiros escriptos, quando já elle a havia quasi inteiramente eliminado da sua prosa realista. Mas teve sempre grande difficuldade em comprehender e sentir os processos technicos da metrificação.

São exactamente do periodo dos escriptos colligidos no presente volume as linhas seguintes que deviam, na intenção do author, ser versos alexandrinos:[35]

Oh Satan tenebroso, tragico fulminado,
Tu vencerás em mim o intimo Deus bom
Não com as armas biblicas com que bateste os astros,
Mas vindo unicamente vestido á Benoiton.

Mas é de pouco depois a seguinte admiravel poesia, mais tarde publicada com a assignatura de C. Fradique Mendes:[36]

Serenata de Satan ás estrellas

Nas noites triviaes e desoladas,
Como vos quero, mysticas estrellas!...
Lucidas, antigas camaradas...
Gotas de luz no frio ar nevadas,
Podesse a minha boca inda bebel-as!
Não vos conheço já. Por onde eu ando!...
Sois vós, mysticos pregos d'uma cruz,
Que Christo estaes no Céo crucificando?
Quem triste pelo ar vos foi soltando
Profundos, soluçantes ais de luz!
Oh viagem nas nuvens desmanchadas!
Doces serões do Céo entre as estrellas!
Hoje só ais, ou lagrimas caladas...
Ai! sementes de luz mal semeadas,
Ave do Céo, podesse eu ir comel-as!

Triste, triste loucura, oh flor's da cruz,
Quando vos eu dizia soluçando:
—Afastai-vos de mim cardos de luz!—
Podesse eu ter agora os pés bem nus,
Inda por entre vós i-los rasgando!


Hoje estou velho, e só, e corcovado;
Causa-me espanto a sombra d'uma estola;
Enche-me o peito um tedio desolado:
E corro o mundo todo, esfomeado,
Aos abutres do Céo pedindo esmola.
Eu sou Satan o triste, o derrubado!
Mas vós estrellas sois o musgo velho
Das paredes do Céo deshabitado,
E a poeira que se ergue ao ar calado,
Quando eu bato com o pé no Evangelho!
O Céo é Cemiterio trivial:
Vós sois o pó dos deuses sepultados!
Deuses, magros esboços do ideal!
Só com rasgar-se a folha d'um missal,
Vós cahis mortos, hirtos, gangrenados.
Eu sou expulso, roto, escarnecido;
Mas a vós já ninguem vos quer as leis
Oh! velho Deus, oh! Christo dolorido!
Lembrae-vos que sois pó enegrecido
E cedo em negro pó vos tornareis.[37]

Dois episodios mostrarão o seu então quasi permanente desejo de improvisação poetica:

Uma noute, no verão de 1867 ou 1868, depois de cear, o Eça de Queiroz, o Salomão Saragga e eu, fômos de passeio, conversando, até Belem.

A noute estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia.

Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos á praia da Torre.

Quasi varado na areia, havia um barco. Mettemos-nos dentro. A maré enchente fez-nos fluctuar.

Ahi continuámos a nossa conversação até que o dia appareceu e o sol se levantou por detraz da casaria e dos altos de Lisboa.

Desembarcámos então e dirigimos-nos para Belem, com fome, em busca d'uma Taberna ou Restaurante. Queriamos almoçar alli mesmo, continuando, á beira do rio, a nossa discussão. Mas conheciamos os nossos tres apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que elle apenas pagaria um insufficiente repasto.

Que fazer?

—Tenho uma ideia, disse o Eça de Queiroz,—fazendo o gesto consagrado de bater na testa.—Tenho uma ideia genial,—accrescentou, erguendo tremulamente os braços ao Céo:—Sigam-me.

E negro, esguio, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse, com passos largos e rythmicos, que pareciam saltar obstaculos invisiveis, a sombra da figura esguia e immensa, projectada pelos raios horizontaes do sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção á calçada que leva de Belem á Ajuda.

Salomão Saragga e eu iamos atraz, famelicos, murmurando.

Seriam quasi 5 horas da manhã.

Junto da Egreja da Memoria o Eça de Queiroz dirigiu-se a uma casa baixa, de janellas cerradas, e bateu.

Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus somnos.

O Eça de Queiroz explicou-nos:

—Móra aqui o Mancilia a quem vamos dár um tiro. Só elle nos póde salvar, n'este deserto.

E continuou a bater durante minutos.

Por fim ouviu-se fallar dentro da casa. Alguem abrio a porta resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho, e uns olhos, entre terriveis e risonhos, sob uma grande trunfa de caracoes desordenados. Era o Lourenço Malheiro.

—Menino, contou o Eça de Queiroz, estamos esfomeados após muitas horas de incalculavel creação romantica. Jurámos não morrer antes de produzirmos 3 obras de genio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar. Mas olha lá... Communicámos toda a noute, espectralmente, no Restello, com as armadas portuguezas que d'alli fôram ao descobrimento da India e do Brazil: Dá-nos pois dinheiros antigos e suggestivos,—sequins, dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos...

O Malheiro foi dentro e trouxe tres moedas de cinco tostões.

—Ouvirás fallar da tua generosa dadiva, Mancilia,—disse o Eça de Queiroz apertando-lhe as mãos com commoção e solemnidade.

Voltámos a Belem.

E, emquanto na cosinha da Taberna, onde bebiam marinheiros e uma guitarra gemia phrases do Fado, se preparava a pescada com batatas e a caldeirada que encommendáramos, o Eça de Queiroz e eu, n'um quarto do primeiro andar, organisavamos o seguinte problema cuja glosa e solução seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:

Christo deu-nos o amor,
Robespierre a liberdade;
Malheiro deu-nos tres pintos:
Qual d'elles deu a verdade?

O Salomão Saragga fez-nos uma sabia dissertação sobre a prosa rythmica dos livros hebraicos e declarou-nos que, como Semita puro, não pudera jámais fazer versos,—mas comporia, para o caso memoravel, um Psalmo penitenciario sobre a vaidade da pescada cosida e das caldeiradas humanas.

Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em 4 decimas, cantadas alli logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a ouvir-se gemer na cosinha ao rés-do-chão.

Perderam-se estas decimas que com effeito sobrescriptámos para o Lourenço Malheiro, e duas das quaes, escriptas pelo Eça de Queiroz, eram d'uma graça scintillante.

D'outra vez dois dos nossos amigos,—o capitão João de Sá e o Zagallo,—convenceram-nos a irmos com elles a uma espera de touros.

Na volta, de madrugada, abancámos a cear n'uma tasca ao Arco do Cego. Eramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Appareciam amigos, conhecidos, desconhecidos. Nós, expansivamente, iamos convidando. Elles iam comendo, bebendo, desapparecendo. Quando rompeu o dia e quizemos nós mesmos partir, descobrimos que haviamos gasto, em bacalhau e Collares, um dinheirão que não tinhamos na algibeira.

Comeramos n'um pateo onde havia gallinhas, perto d'uma horta com couves e uma parreira. Ao lado, dava para esse pateo uma casa estreita, sem vidraças, onde se guardava fructa, legumes seccos e feno.

O Eça de Queiroz e eu, já somnolentos, resolvêmos esperar alli, até á tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagallo nos viessem desempenhar com o dinheiro necessario a pagar as nossas dividas.

Cerca do meio dia acordavamos sobre os mólhos aromaticos do feno, rodeados por gallinhas e pombos familiares. As paredes da casa onde dormiramos eram caiadas. Então,—depois de almoçarmos ainda a credito,—com dois lapis, comendo fructa, começámos a cobrir as paredes com um longo poema, indeterminado, lyrico, humoristico, tristissimo e hilariante, mixto, como genero, do Childe Harold e D. Juan de Byron, do Mardoche e Namouna de Musset, do Intermezzo de Heine, e da Fabia de Francisco Palha. Este exercicio durou por 4 ou 5 horas. Duas das paredes da casa ficaram, até á altura de homem, cobertas de versos.

Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do Eça de Queiroz n'esta collaboração extravagante. Lembro-me nitidamente de que havia n'ella trechos espantosos pelas imagens originaes, pela phantasia, pela graça, pelo inesperado.