LVI

Fanny retirou-se sem parecer notar em mim turvação alguma. Depois que sahiu, mil recordações uma apoz outras, como vagas d'um mar silencioso cumulavam-me o espirito. O porte de Fanny pareceu-me agora mais que nunca incomprehensivel.

—Esta mulher é a mais extraordinaria ou a mais vil das mulheres!—Disse, e repassei na memoria quanto sabia d'ella. Mas, outra vez ainda, tudo me pareceu contradictorio em sua indole.—Por que defendia o meu rival quando eu ignorava as suas violencias? Por que o accusou depois? Por que impallidece agora se me ouve reprovar as acções do homem que a ultraja? Oh! é possivel supporte tamanhos despresos, vexações tão aviltantes, e conserve a minima affeição a um homem que a tortura e humilha!! Indecifravel enigma. Ama-me ella? Ama o marido? Que ha ahi de commum entre essa mistura de seres, de sentimentos, de calculos, de{112} transações, e o amor, esta paixão absoluta, intolerante, e exclusiva? Deste modo ajuntava, separava, e confundia todos os factos da nossa existencia commum sem poder desinredar o inextricavel fio da meada. Cada facto, por seu turno, vibrava-me no ouvido, como um som agudo; e, á maneira d'um clamor synistro, estrondeando por sobre tudo, rugia incessante aquella palavra da consciencia de Fanny, proferida, um dia, para meu supplicio:

—Eu mentiria se dissesse que o não estimo.