LX
Mas o meu ciume, esse não estava morto, nem se quer entorpecido: apenas tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, já não podia soffrer por causa de uma partilha que não existia; mas os menores sentimentos que Fanny{118} me deixava adivinhar, inquietavam-me. Afóra os filhos, e a mãe que ella via ás escondidas, eu não lhe consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo nos tyrannisavamos mutuamente.
Um dia, quando eu lhe tirava o «corpete», uma carta grande e quadrada—lhe fôra entregue quando saía de sua casa—escorregou-lhe do peito e caiu aos meus pés. Levantei-a. Tinha o sêllo de Londres. Encarei Fanny, que, pallida, estendia a mão tremula a tomal-a.
«Teu marido escreve-te?» disse-lhe eu, entregando-lh'a.
—Que pergunta!—disse ella.
—Escreve-te regularmente?—ajuntei eu, depois d'um momento de silencio, durante o qual eu sentia as garras do meu antigo furor atassalhar-me o espirito.
—Pois então!... disse ella—todas as semanas.
«Porque te escreve elle?... Separados por tão violenta discussão, parecia que os corações deviam separar-se para sempre.
Fanny olhou-me com espanto e ficou pensativa. Mas, como eu esperasse resposta, replicou:
—Espantam-te sempre as mais singelas coisas. Não é natural que meu marido me diga dos seus negocios, e me falle dos seus filhos?
«É justo... Eu não tinha pensado n'isso—murmurei.
Fallou-se de muitas coisas; mas, a sós commigo, reflexionei immenso.
«Respondes ás cartas de teu marido?{119}
Fanny fez-se livida, hesitou, e deu signaes de impaciencia. Depois simulou um ar de indifferença, respondendo:
—Escrevo-lhe raras vezes;
—Sim? e, diz-me cá, que lhe escreves?
—Não sei. Escrevo-lhe friamente. Falla-se de negocios. Isto não te interessa nada.
Fiquei um tanto inleado; mas não pude reprimir-me.
—Como é que nunca tiveste a idéa de mostrar-me as cartas de teu marido?
Roger! Roger!—exclamou sorrindo contrafeita—eu creio que estás louco! Uma mulher póde por ventura confiar a alguem, principalmente áquelle que ama, o segredo dos negocios de seu marido?
—Tambem é verdade—murmurei eu.
Fanny quiz logo aproveitar a vantagem que obtivera.
—Feliz seria eu, disse ella, podendo mostrar-te essas cartas que te dão tanto que pensar. Provar-te-iam que é uma sem-razão recear alguma coisa. Sabe, pois, espirito desconfiado, que não se póde viver em menos união do que eu vivo com meu marido.
—De certo!
—Como podes suspeitar o contrario depois que te confiei as minhas amarguras?
—D'antes, tambem me confiavas o segredo dos negocios domesticos: não esqueças isto, Fanny.
—Oh! hoje é muito differente.
—Porque?
—Porque... cá me entendo.{120}
Isto fez-me reflectir novamente. Fanny levou as mãos ao céo com piedosa expressão; eu estava como involto nas sombras da morte. E assim nos contemplavamos. Era-me impossivel a quietação. Agitava-me d'um para outro lado.
—Se dizes a verdade, Fanny, por que me não mostras as cartas que lhe mandas?
—Não é possivel. Quem lêsse uma, comprehenderia as outras.
—Não obstante, eu bem quizera conhecer o tom das tuas cartas. Porque lhe não escreves agora, mesmo aqui? Falla-lhe de tudo menos do que não quizeres que eu comprehenda. Eu mesmo levo a carta ao correio. Supplico-te, Fanny... Se nada temes de ti, dá-me esta prova de confiança, para me tranquillisar que eu soffro muito.
—Não é possivel—redarguiu ella, com signaes de offendida.
A raiva que me devorava o coração estalou desassombrada:
—Que lhe escreves tu que não queres que eu saiba? Juraste matar-me? Falla, se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como um algoz!
Fanny ergueu-se, pegou-me da mão e disse brandamente:
—Roger, eu não queria magoar-te.
—Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu és mulher de duas caras; eu nunca fui amado por ti!
A esta phrase injusta, lançou-se-me ao pescoço, abafando-me com beijos as palavras. Eu continuei:{121}
«Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel contestação, ficaste despeitada com teu marido?
—Sê rasoavel: uma mulher póde ficar despeitada com seu marido?
«Pois que?—exclamei furtando-me aos braços d'ella—tu perdoaste-lhe?
—Rigorosamente não—disse ella, sentando-se quebrantada—mas foi-me preciso acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, está tu certo que não esquecerei mais os ultrages passados.
«Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!—Bradei, de pé em frente della, que olhava para mim assombrada—Não tens, pois, dignidade alguma? Não te sentes das injurias? És assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah! isto é que eu não acreditaria nunca!
Fanny continuava a ouvir-me silenciosa.
«Diz-me cá: por que me occultaste tanto tempo que elle te insultava?
—Não queria deshonral-o. Se tivesses mais alguma experiencia, não te espantarias do que succede. Em summa, eu não quero fallar mais n'isto. Seja-te bastante saber que se me elle restringe a liberdade, ou diz arrebatado coisas indignas, tem pesar do que faz e diz, passada a colera. Affirmo-te que o julgas mal. É possivel que eu exaggerasse os factos no primeiro momento da indignação.. mas.
«Calla-te!—bradei eu—se tens pudôr, calla-te! Ha uma coisa que parece passar-te desapercebida, e é que, á proporção que vaes fallando, não sei que idéa peçonhenta lucta, em mim, com o meu amor.{122} Não accrescentes uma só palavra. Acceito ainda isso, por que sou vil, por que sou um fraco, por que te amo muito, por que não posso dissuadir-me de te amar; mas sabe tu que maior mal não m'o podias fazer. Supplico-t'o—não digas mais nada.
E lançando-me a seus pés, exclamei:
«O despresares-te a ti propria, seria, sobre tudo, cruelissimo!