LXIX
O que decorreu depois d'isto, não sei.
Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante. Sentia abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo peso das aguas. Por fim, esqueci tudo; entendi que morria.
Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabeça em fogo. Abri os olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo, desde a cabeça aos pés, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois amigos observando-me. Fallei, e elles abanaram a cabeça. Veio um homem, e tomou-me{143} o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a tremer. Isto durou muitos dias.
Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem sentidos, nas margens do Sena, com a cabeça envazada no lôdo. Buscaram-me as algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e, guiados por ella, me trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e tiveram-me em conta de doido. Estava-o, realmente.
Fanny, porém, ignorante de tudo, admirada de me não vêr, veio uma manhã; mas o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e contou-lhe o que sabia. «Quiz afogar-se—disse elle—e agora está doido»—Ella, porém, não quiz crêr no suicidio, e supplicou a entrada. N'esse dia, um abatimento sem nome, semelhante ao dos cadaveres prostrados em seus sepulchros, me tinha como pregado pelas costas ao leito, com os braços alquebrados e os olhos abertos. De repente, devisei na porta, que se abriu ao pé do meu leito, uma fórma humana, de pé e quieta.
Não atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vêr moribundo, adornada de trajos de estio tão elegantes e frescos, com braceletes nos braços e flôres no chapéo: tambem não entendi por que chegava com ambas as mãos o seu véo branco ao rosto. Os meus amigos tinham-se retirado para o fundo do quarto, afim de respeitar, quanto fosse possivel, um segredo que não queria ser penetrado. A mulher adiantou-se até á minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do vestido. Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o véo. Como que senti refrigerar-se-me{144} a alma, de vêr sobre o meu rosto aquella face viçosa cheia de graça, e como perfumada de saude.
Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braços. Fanny abaixou-se a soluçar sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecêl-a; levei-lhe á face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando furioso «sai d'aqui!» Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se chorando; mas com um resto de força que a raiva me déra, bati-lhe no hombro, e, ao lançar-me fora da cama, cahi por terra aos pés d'ella.