LXXIII

Se, porém, julgando-a, me não compadecia d'ella, era-me impossivel pensar em mim, sem padecer em todas as fibras do meu ser. Quanto amor eu tinha, quanta affeição filial, ternura piedosa, e veneração, exhalava-se de mim como vapores, e dissolvia-se em lagrimas amargas, que eu tragava, sobre a cruz onde a sorte immisericordiosa me cravára. Estorturava-se, este amor, como joven robusto que saboreou a vida e não quer morrer. A affeição de filho, que eu naturalmente lhe dera, por causa da differença de nossas idades; a piedosa ternura que ella me inspirava, como um bem suavissimo; a veneração, em summa, que lhe era a ella um incenso grato, isso tudo, o melhor de minha existencia, desfazia-se em meu coração, e evaporava-se lentamente em caricias de effluvios e perfumes. Qual viajor, surprehendido, ao despertar, nas steppes infinitas{157} da Asia, por um turbilhão fluctuando raso com o chão, tal eu me sentia perplexo nas minhas revoluções, prudencia, e coragem. Em redor de mim tudo se movia vagarosamente, derramando-se em fórmas confusas: fugia tudo; memorias queridas, votos superfluos, ternos desejos, pezares, aspirações, tudo se esvahia nas distancias do meu sonhar, e me deixava, sósinho, n'um grande espaço. E desse turbilhão nevoento de sensações, vontades, e habitos; densas oscillações impalpapeis de penas, prazeres, e esperanças, prolongadas até ao extremo limite que meus olhos viam, surdia emfim um phantasma enorme que subia, subia até ao céo, tristemente involvido em pallida mortalha. Este phantasma reconheci-o na amargura que tinha impresso na face assombrada, no atrophiamento da sua attitude, na sua mudez, no rir amargo que lhe circuitava os labios descorados. Ah! uma vez o tinha eu já visto crescer para mim, e me sentira estalejar com elle nas dobras de seu sudario. Vinte annos tinha eu. Foi quando perdi minha mãe, e da sepultura d'ella, revolvida de fresco, sahia e me aferrara nos braços a glacial SOLIDÃO.

Eu chorava. Tudo estava em redor de mim fallando-me d'ella. Todo o mal que me fizera, esqueci-o. Mil vestigios deixára Fanny n'aquelle quarto que eu preparava amorosamente para recebel-a. N'aquelle tecto que lhe cobrira a cabeça, nos tapetes pisados por ella, nos moveis que tocaram suas roupas, em tudo me apparecia serena e consoladora. Aqui me abria os braços de veludo, a poltrona onde ella se assentava tantas vezes; ali a molle{158} pegada do seu sapato, no coxim em que ella descançava os pés; acolá, resequidas, nos vazos chinezes, desfolhando-se tristemente, as flôres que ella amava; além, as cortinas que ella tantas vezes levantava com sua mão timida; ali, se move ainda o pendulo do relogio, para o qual ella estava olhando sempre; aqui, o véo d'ella, aqui as cartas, seus dôces reflexos; além, o pente embalsamado com o perfume dos seus cabellos; e acolá, finalmente, frio e cerrado como um tumulo, o leito onde tantas vezes chorávamos.

Agora, me assoberbava a memoria, tudo o que dissemos, pensamos, e esperamos. Como longinqua musica, trazida na viração do mar, soava-me nos ouvidos o cantar de suas palavras; como emanação de flôres que se evapora com o orvalhar das noites, deliciava-me o olfacto, o perfume de sua cutis olorosa; como bafejo de primavera, perpassavam-me nos labios os effluvios de seus beijos. Ardia-me a mão que ella tocara; ardia-me a fronte que ella afagara em seu seio; ardiam-me os olhos que ella adorara, a boca em que a sua apremara nas vertigens da paixão, o peito que ella duplicara com o seu peito. Oh! que prazer me era sorrir-lhe ao retrato, e remecher nas cartas d'ella! Affigurava-se-me ouvil-a ainda; esperal-a ainda, como nos dias passados; vêl-a chegar assustada, como a cerva dos bosques, a esconder-se em meus braços. Mas, ao mesmo tempo, não sei que vaga essencia se desprendia de mim em soluços e gemidos. Quebrantava-me uma tristeza profunda; uma lethargia sem nome paralisava todas as minhas idéas. Meditativo,{159} como póde sêl-o o homem no leito da morte, eu dizia commigo:—Acabou tudo! não nos tornaremos a vêr, nós, que tanto nos amamos!...