XLII

Depois de uma discussão em que, mais uma vez, eu expozera aos olhos d'ella as minhas angustias, Fanny veio de moto proprio a devassar d'um pensamento que eu não ousara nunca deixar-lhe vêr.

—Não fui esperta—disse ella. Eu devia fingir-te a minha vida. Por muito improvavel que fosse o que eu te contasse, tu acreditarias tudo, por que iria no acredital-o o teu interesse. Não fui esperta, mas é que eu nunca soube mentir.{82}

Esta confissão foi para mim uma subita revelação, suppuz logo que ella á semelhança d'outras mulheres, orgulhosa de ser feliz, escondia vaidosamente a um tempo, vicios e dôres, e, desgraçada, queria que a suppozessem feliz. Esta suspeita inquietou-me oito dias; mas a esperança que me ella gerava no coração não podia durar. Instei Fanny, facilitando-lhe recursos para desmentir-se e patentear-me tudo de sua vida. Admirando-se de eu duvidar d'ella, Fanny confirmou glacialmente o que me havia dito e tornou-me á desesperação.