XLIV
Quando o publico soube o desastre do marido de Fanny, soubera eu que em Pariz circulavam boatos deshonrosos para elle. De ser rico e altivo grangeou muitos inimigos. Deviam de ser calumniosos os ditos{85} que sahiam de bôcas invejosas. Não os desmenti por prudencia, mas fiz nota d'elles. Bem sabia eu que um dia me serviria d'elles para vingar-me.
Esperava eu, exasperado pelo furor, que uma palavra, provocando-me de novo, me desculpasse a crueldade. Ella, porém, de astucia não fallava, adivinhando que eu interpretaria á feição de minha raiva tudo que me dissesse. Assim ficamos ambos immoveis, callados, ella, esperando o golpe final, eu reunindo as minhas forças todas para descarregal-o.
Decidi-me em fim: e, com uma só phraze cortante como gume de espada, attacando o mais sagrado da honra do meu rival, repeti as infamias em que eu não cria.
A resposta foi prompta e terrivel. Isso é indigno!—exclamou ella erguendo-se hallucinada, escarlate, com uma expressão de colera e indignação que me assombrou.
Não quero que se rosse na honra do chefe de familia! Não quero que se deshonre aquelle cujo nome eu trago! Por isso que o trahi; por isso que conspurquei a parte de sua honra que elle me confia, é que eu prohibo que se ultraje a outra... e principalmente ao snr!... Envergonhe-se!... Se acreditou essas calumnias, competia-lhe defendel-as commigo, pois foi commigo que...
Interrompeu-se. Eu immudeci, e ella proseguiu: Fallou-me ahi na indelicadeza de coração das mulheres; e eu fallarei do orgulho dos homens. Não é só do amor das mulheres que carecem para estrado... Querem tudo o que ellas prezam, tudo o que respeitam: estima do mundo, familia, filhos, repouso,{86} e até a honra de seus maridos. Tudo lhes é mister para desvirtuar e rediculisar essa honra. Estou de mais castigada por ter crido que podia impunemente amal-o! Fui prudente; e por isso não é meu marido ultrajado que castiga a minha culpa; mas—castigo mil vezes mais cruel—é o meu amor. Mereço esta pena... e é o snr. que me pune!
Continuei callado: e ella, com a boca a trasbordar sarcasmos, proseguiu:
É como todos! O que ahi ha é orgulho. Não sabe amar!
Desta vez, respondi turvado:
«Não sou desculpavel por aggredil-o?
—Aggrida-o como homem. Não tem tantas causas para o fazer?
«Por Deus que o farei!
Furioso, com os olhos injectados de sangue, os dentes cerrados, avancei para Fanny, mas ella suspendeu-me a tres passos com um olhar glacial que eu nunca lhe vira. Depois vagarosamente embrulhando-se no chale, da cabeça aos pés, como a sacerdotiza antiga, sombria, feroz, desesperada, deixou cair sobre mim outro relancear de olhos despresador, e sahiu.{87}