XLVI
Seriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o céo carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a nevoa opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os passageiros davam-se pressa para fugir á tempestade que trovejava surdamente ao longe. As estrellas brilhantes das lanternas, aqui e além, corriam, cruzavam-se e desappareciam. Nuvens de pó sacudido pelo vento subiam diante de mim e toldavam o espaço. A meio-caminho, quasi entre Rond-Point e o «Arco do triumpho» parei.
Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei. A meus pés era a passagem das carruagens que vão do portal á avenida. Sobre a porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma só lampada, por certo, illuminava o recinto, por que a claridade que translusia dos vidros{89} escassamente brilhava como um clarão duvidoso. Nenhuma sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa está vasia—pensei eu—e todavia Fanny não está em Chaville por que a sala tem luzes.
Estalou, neste momento, mais forte a trovoada.
Relampaguearam os coriscos. Um bulcão rugiu na ramagem dos alamos da avenida, remoinhando turbilhões de folhas e terra. Então vi uma sombra de homem chegar á ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as mais tarde. Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas vidraças mais tensa e viva: havia-se accendido uma segunda lampada.
E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no céo de todo negro, eu em pé debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro janellas lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha.
De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou ao pé de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos.
—Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da estrada. Um coupé vasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos sacões; depois uma grande carroça de viagem tirada por quatro cavallos, voltou de repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois batentes da porta-cocheira. Remirei a carroça com assombro. Ao fundo estava um homem, que eu bem conheci—era elle. Ao seu lado uma mulher que lhe fallava: era Fanny. Entre elles, sobre os joelhos, e nos braços,{90} tres meninos de cabellos louros. Foi uma visão rapida. Não sei se me viram. A carroça desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os dois pezados batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com estrondo lugubre e cavernoso.
Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava como senhor em sua casa.