XXVII

Acabei, para grande vergonha minha, por acceitar tacitamente aquella situação. Mas, d'ahi em diante,{52} havia entre nós alguma coisa, que não podia já mais obliterar-se: um pensamento constante e unico, que, mutuamente, nos atormentava os corações. Embora cerrassemos os labios para o não deixar sahir em palavras, no intimo o sentiamos sempre como dôr aguda que, a revezes, nos desentranhava imprecações. Um só grito bastava então para incendiar uma explosão subita, e eu, principalmente, esquecia os protestos de meu orgulho por dar livre curso á tristeza que me devorava. Não queria fallar do meu rival, e fallava d'elle sempre. Era um nome que me alanceava a memoria, e se me estorcia entre os labios, como um aspide. Proferido apenas, mil perguntas incendiarias se embaralhavam tumultuosamente em minha boca. Eu queria conhecel-o melhor ainda. Queria saber tudo o que elle era, tudo que fazia, tudo que dizia. Fanny formalisava-se então; meditava largo tempo antes de responder-me, para não se desmentir, depois dava indicios de impaciencia e carregava o sobr'olho.

Os homens são insaciaveis—dizia ella, com grande espanto meu—Não podes contentar-te com ser amado? Por que te occupas incansavel no que se passa em minha caza?

Apoz estas contendas, separavamo-nos tristes, e, passados oito dias, esperava-a furioso, exasperado pela raiva, com a boca cheia de sarcasmos, decidido a romper brutalmente com ella. Mas só de vêl-a, toda a minha cholera se exhalava como fumo, ajoelhava-me aos pés d'ella, e comprimia-a convulsivamente ao meu coração.

O que muito me espantava e irritava acremente{53} era a docilidade com que ella, sem murmurar, a tudo se submettia. A ausencia, os obstaculos, as difficuldades, não podiam nada com ella. Vêr-me, não me vêr, era tudo o mesmo. Sempre serena aquella phisionomia. Dava-se ares de victima, e não dizia palavra.

«E se eu me matasse?» exclamei eu, um dia.

Fanny encolheu os hombros.

«E se algum incidente imprevisto nos separasse?»

—Que queres que eu te faça!...—disse ella, e em seguida entrou a chorar.

Não podendo viver com ella, eu queria ao menos governar-lhe a vida, de modo que as suas menores inspirações lh'as désse eu. De sobra comprehendia ella a minha intenção, e mostrava-se; mas não me cedia nunca em pontos de delicadeza que ella converteu em pontos de honra. E dizia-me:

«Eu sou obrigada a soffrer a posição que me deu a sorte. Devassar-lhe os segredos, de que monta? Affliges-te se fallo, affliges-te se me callo... Tracta de esquecer as causas dessa tristeza, meu Roger.

Eu de mim esqueço-as sempre que venho aqui.

Outras vezes dizia meio risonha e meio motejadora:

«És muito egoista! Pelos modos eu não devo amar senão a ti!»

Impellido, porém, pela minha idea fixa, e sem admittir que ella anteposesse a sua vontade á minha, astuciava com ella, impetrando-lhe exclusivamente a piedade, e descia, por derradeiro, a tal degrau de baixeza, que, irritado por ser eu só a penar, empregava toda a minha influencia para exigir d'esta{54} desgraçada mulher que seguisse uma norma de proceder deametralmente opposta á que seu marido lhe traçára. Bem sabia, eu, com isto, que a sua casa, até ahi pacifica, ia tornar-se um inferno, e isso queria eu: Durante alguns dias, por cansaço, seguiu ella docilmente os meus conselhos, e assim se viu intallada entre seus dois senhores, como o ferro amollentado pelo fogo entre a incude e o malho. Ambos nós, sem treguas, lhe flagellavamos o coração.

Espicaçada, emfim, pela tortura, e tambem por uma especie de espirito de inteiresa, disse-me:

«Roger, tu aconselhas-me muito mal, por que me obrigas a perturbar-lhe o repouso.»

Fiquei consternado, e cessei de empregar aquelle novo genero de martyrio, por que era para mim cruelissima mortificação vêl-a erigir-se em defensora de seu marido. Fanny, além disso, parecia fatigada d'essas disputas aviltantes e penosas.—Tenho medo de infastial-a—disse-me eu um dia.