+Á MEMORIA

DE
ALFREDO LOPES+

Viver! O que é viver! Arrastar a existencia
No vasto labyrintho onde só reina a dor;
N'um pouco de materia é guia a consciencia
Quasi a perder-se a força, a faltar o valor.

Morrer! Passar além! Da lucta repousar,
Deixar por uma vez do mundo as agonias;
Descer á terra mãe, os lyrios fecundar,
Servir de refeição aos vermes nas orgias.

Mas coisa alguma nasce e coisa alguma morre.
Transforma-se a materia em mil combinações:
Seiva, no vegetal as hastes lhe percorre;
Sangue, faz palpitar os nossos corações.

Tu então não morreste; apenas d'esta lida
Immensa, em que mostraste o fulgido talento,
Descanças. No teu corpo ha ainda essa vida
Que palpita da terra ao proprio firmamento.

A vida da materia. Então bellas, formozas,
Por cima d'essa campa onde agora repouzas,
Hão-de brotar de ti as lindas flores viçosas
Na vaga poesia harmonica das cousas.

Rosas a recordar teu risonho futuro,
A tua juventude os cravos em botão,
O martyrio o finar na dôr tão prematuro,
O cypreste a lembrar teu grande coração!

Angra do Heroismo, 9-9-88