A VOLTA

I

Porém que vejo agora?.. Empavezada,

Sobre as ondas azues, e panda a véla,
Do mar e das tormentas alquebrada,
Vem subindo rasteira caravela!

II

Avança a panno largo, e com vontade;

Na praia, atroam vozes retumbantes;
Tocam sinos nas torres da cidade;
É louvado o Senhor dos Navegantes!

III

Aos pontos altos, prestes e ligeira,

Acode, a mais e mais, a multidão;
Tremúla, á brisa, o regio pavilhão
Sobre o Tejo, nos Paços da Ribeira.

IV

Que gentil! que bem segue a caravela,

Embalada nas aguas crystallinas!..
Tem toda a gente os olhos postos n'ella!
Vão salvando, na borda, as columbrinas!

V

Das naus respondem salvas redobradas:

No castello o canhão tambem resôa;
Por boas vindas dar, alvoroçadas
Ostenta quantas galas tem, Lisboa.

VI

A barca é d'oiro!.. Que deslumbramento!

Envolve-a toda, luminoso alvôr!..
É a barca do eterno Encantamento;
Vem das Ilhas do grande Encantador!

VII

Em que espaço, em que ceus andou voando?

Nunca d'antes, ninguem no Tejo a viu!
Pomba perdida, não pertence ao bando,
Que ha muito tempo do pombal saíu.

VIII

Nave extranha, que o Tejo não conhece,

Traz cruz em pendão branco, por signal;
—Mas traz, tambem, o que a ninguem parece—
Traz a gloria maior de Portugal!

IX

Gloria, que a especie inteira nobilita,

E não sómente o nome portuguez!
Grande empreza, phantastica, inaudita,
Que outra maior jamais alguem a fez!

X

E a barca vae seguindo, rio em frente;

Branca visão, que nada apagará!
Sobre a esteira de espuma reluzente,
O sulco aberto, aberto ainda está!

XI

E a barca vae seguindo, rio acima;

É seu condão a eterna mocidade!
Traz o sopro vital que tudo anima,
Traz o genio immortal da humanidade!

XII

Traz aquelles, que os mares ignorados,

Passaram, com assombro, e sem pavor;
Os que foram ao longe ouvir os brados
E as funestas visões do Adamastor.

XIII

Que sulcaram do mar a immensidade,

Nas azas intangiveis da chimera,
Os sonhos transformando na verdade,
De polo a polo completando a esphera!

XIV

Os que viram as luzes do Cruzeiro,

Dos tropicos na noite a scintillar,
Depois de terem visto o céu primeiro,
Com todo o norte, descaír no mar.

XV

Esses, de quem os astros repetiam,

Ao vel-os persistir na sua empreza,
Quando já nenhuns olhos os seguiam:
«Vae ali a fortuna portugueza!»

XVI

Os que os astros ouviram perguntando,

Na torrente de luz, que d'elles cáe:
«Quem deu ser a taes homens? como e quando?
D'onde vem esta gente, e aonde vae?»

XVII

Os que os astros ouvindo, responderam,

Sem desalento algum no coração:
«Ó astros, que jámais nos conheceram,
Á India vamos; dae-nos vós a mão!»

XVIII

Esses, de quem as ondas murmuravam,

Sob as quilhas pesadas das galeras,
Quando as proas altivas as rasgavam:
«Vão as portas abrir de novas eras!»

XIX

Os que viram, primeiro, o nunca visto,

E o foram demandar, a tempo e azo,
Na luz confusa de um saber previsto,
Mas não levados pela mão do Acaso;

XX

Do velho mundo, os immortaes pioneiros,

Em mundos novos demandando ingresso;
Missionarios do Bem e do Progresso;
Missionarios... e não aventureiros.

XXI

Os que foram, do caso conscientes,

Quebrando sellos, descobrindo lousas,
Perturbar em remotos continentes,
A quietação dos homens e das cousas.

XXII

Esses, de quem os povos assombrados,

Viram a altiva gente cavalleira,
Por mares nunca d'antes navegados,
Desenhando os confins da terra inteira.

XXIII

Esses, que em nova e pertinaz cruzada,

—Povos inertes evocando á vida,—
Foram, sempre, deixando a patria amada,
Pelo mundo em pedaços repartida.

XXIV

Esses, que foram longe, raça dura!

Sondar o negro abysmo, sem receio,
Desvendar os mysterios da natura,
Meio mundo ensinando a outro meio.

XXV

Esses, que abandonando os deuses lares,

Na mais ousada empreza de gigante,
Para o seu curso dirigir nos mares,
Uma estrella do céu não foi bastante!

XXVI

Os que a patria exaltaram portugueza,

E quebraram, com brava galhardia,
A maritima força de Veneza,
E a fortuna da grande Alexandria.

XXVII

Os que o globo da terra devassaram,

E dando um mundo novo ao mundo velho,
Das columnas herculeas ao Vermelho,
O negro continente recortaram.

XXVIII

Os que tendo arrancado ao fero Islam,

Arzilla, Tanger, Ceuta e Azamor,
Hão de agora affrontar-lhe a gloria van,
E, em mar remoto, enchel-o de terror.

XXIX

E assim terão cumprido, heroicamente,

Duas vezes, a épica missão,
Os pendões abatendo do Crescente,
Ante as glorias do symbolo christão.

XXX

Os que viram no céu diversos astros;

Aquelles para quem o mar do Sul,
Nos topes accendeu dos rijos mastros,
Do Santelmo divino a chamma azul.

XXXI

Os que viram mil cousas portentosas,

O sobre-natural, o sobre-humano;
Descer do céu as trombas sequiosas,
Bebendo em sorvos largos o Oceano.

XXXII

Os que investiram frias espessuras,

Onde escuro docel a noite eleva,
E demandando antarcticas alturas,
Chegaram quasi ás regiões da treva.

XXXIII

Os que affrontando a propria natureza

Foram a prima gente que sulcou,
Altos mares, de infinda profundeza,
Onde sonda nenhuma o fundo achou.

XXXIV

Os que tendo no peito a palpitar,

De raça mais que humana o coração,
Iam, á raça humana abrir o mar,
Findando aquella eterna solidão.

XXXV

Os que foram, nas azas da vontade,

Á India, refulgente de oiro e luz,
Ver o berço da nossa humanidade,
Como os Magos o berço de Jesus.

XXXVI

Os que foram do Tejo ao Malabar,

Levando no regaço a paz e a guerra,
Chamar á vida, despertar a terra,
Do somno seu, profundo e secular.

XXXVII

Os que viram surgir a India ardente.

Acenando, de longe, á lusa armada,
Huri, rainha e fada do Oriente,
Das torres de saphyra debruçada.

XXXVIII

Esses, que para erguer a patria historia,

Foram tentar emprezas immortaes,
D'onde se volta pela mão da Gloria,
Ou d'onde nunca se voltou jamais.

XXXIX

Esses, que emquanto andavam completando

Não vistos feitos, épicas acções,
Já o céu lhes estava destinando
A lyra inimitavel de Camões!

XL

Os homens grandes, cuja obra immensa,

Deviam memorar, no tempo alem,
—Refulgente prodigio de Arte e Crença,—
As naves portentosas de Belem!

XLI

Os que, salvos por Deus,—humilde gente,—

Nos riscos tormentosos, que correram,
Sepultaram no mar, piedosamente,
Tantos, tantos irmãos que lhes morreram!

XLII

Lá vae a caravela, rio acima!

É ella a sombra da primeira armada!
A nova que em si traz, é quem a anima:
«Foi descoberta a India abençoada!»

XLIII

É isto o que ella clama e vae dizendo;

É isto, o que ella a todos annuncía;
O sol da Meia Idade vae descendo,
O alvor desponta, já, de um novo dia!

XLIV

Mas, vendo-a, mal suppõe a multidão,

Sobre a tolda contando a pouca gente,
Que da gloria da humilde embarcação,
Viverá Portugal, eternamente.

XLV

Agora, a nave, as ancoras largou;

Içou, no mastro grande, o vellocino!
A patria em boas mãos depositou
A espada, a cruz, e todo o seu destino.

XLVI

Bemvindos sois ao berço hospitaleiro,

Romeiros da romagem do Ideal!
Pois fez, o esforço vosso, verdadeiro
O sonho que tivera Portugal.

XLVII

Cumpristes um gigante pensamento;

No mundo, o vosso nome, eterno sôa;
Trouxe-vos Deus a porto e salvamento,
A vossa obra foi bemdita e boa!

XLVIII

E, largo tempo,—esplendida visão!—

Se ha de ver, Tejo acima, a caravela,
Como um barco de lenda, panda a véla,
Bordada a cruz de Christo em seu pendão!

XLIX

E um dia chegará,—dia jocundo!—

Em que, no Tejo, que hoje aos pés vos corre,
Hão de armadas estar, de todo o mundo,
Saudando a caravela, que não morre!

L

Monarchas hão de vir de imperios novos,

Em convivio fraterno, doce e amigo,
Unindo n'um só laço, os reis e os povos,
Saudar, em honra vossa, o reino antigo.

LI

E só por vós, se a mente me não erra,

Vós, que fostes do Gama os companheiros,
Marinheiros virão de toda a terra,
Á patria dos mais rudes marinheiros.

LII

Sonhados impossiveis conseguistes,

Vós, raça aventureira, omnipotente!
Se muito foi, que a Portugal servistes,
Mais servistes, ainda, a extranha gente.

LIII

Pois da aguia, que os reis d'outr'ora viram,

Na terra inteira, as azas extendendo,
As aguias, d'hoje em dia, andam colhendo
As pennas, que das azas lhe caíram!

LIV

D'este povo, o passado causa espanto!

O que teve! o que pôde dividir!..
Cada um dos pedaços do seu manto
Dá hoje a um povo inteiro, que vestir!

LV

Quem havia de ver, o que se viu?

Agora, é Prometheu acorrentado,
Por famintos abutres devorado,
Na montanha da Gloria, a que subiu!

LVI

Venham, pois, ver a nave abençoada,

Do Tejo sobre as vagas diamantinas!
Nave eterna!.. Na pôpa leva as quinas,
E a figura do Gama, na amurada.

LVII

Que vejo?.. Quem tal quadro antecipou?

Desusado fragor no grande rio!..
Vinte esquadras, que o mundo aqui mandou,
Abrem alas ao fulgido navio!

LVIII

Em cada pôpa, um pavilhão ondula;

Vistosas cores, alegrando os ares!
Vêm ver, ainda, como audaz tremula
O pavilhão que os precedeu nos mares!

LIX

Monstros de ferro, enormes couraçados,

Venham aqui, de toda a terra, ovantes,
Pousar no Tejo, que sustinha d'antes
Sobre o seu dorso, galeões sagrados!..

LX

Naus d'alto bordo, carregadas d'oiro,

A mór riqueza, que se viu outr'ora!
Dizêl-o ouvimos,—não hajaes desdoiro:—
«São bem mais leves estas naus de agora!»

LXI

E o Tejo, aberta a sua larga foz,

Com justo orgulho, vos recebe e chama!
Almirantes! sabeis, que honrar o Gama,
É honrar o maior de todos vós!

LXII

Lá vae a caravela, altiva e calma

No meio do bramir da artilheria!
Não é sonho da nossa phantasia;
É nitida visão que temos n'alma!

LXIII

Da justiça reluz o dia, a hora;

O premio do serviço, emfim, chegou!
Mil bandeiras, que o mar conhece agora,
Vêm saudar a primeira, que o passou!

LXIV

Mas vós, povo indolente e descuidado,

Que a patria tantas vezes esqueceis,
Sêde digno, em memoria do passado,
Das honras, que ao presente recebeis!

LXV

Não tem direito, ninguem tal o diga,

A abandonar-se n'um dormir profundo,
Quem, tão grande passado, a tanto obriga,
Quem tal papel desempenhou no mundo!

LXVI

Um povo que se preza, não descança

Nem á sombra dos loiros conquistados;
A gloria é grande, mas pesada herança:
Mantel-a pura, deve dar cuidados.

LXVII

O preceito deixámos esquecido,

Embalados em vagas illusões;
Hoje vemos um céu de inquietações,
Por sobre as nossas almas extendido.

LXVIII

A gloria é armadura reluzente,

Que veste os peitos e rebrilha ao sol;
Não é fria mortalha, nem lençol,
Que o corpo envolva d'um heroe jacente.

LXIX

A gloria é um deposito sagrado;

Quem o deixa fugir, por mal seguro,
As maldições merece do futuro,
Mostrando ser indigno do legado.

LXX

Ainda o mesmo genio em nós palpita,

O mesmo sangue, em nossas veias, corre;
Somos o rijo povo, que não morre!
Pois, se morto parece, resuscita!

LXXI

E a raça, que ascendeu a tal grandeza,

Não póde figurar entre as nações,
De mãos ligadas, amarrada e presa,
Á columna das proprias tradições.

LXXII

Tem de viver no tempo indefinido,

Em voz alta affirmando o seu direito
De povo, que entre os povos escolhido,
Aos povos, seus irmãos, impõe respeito.

LXXIII

E tu, que és mãe bondosa, patria amiga,

Sê madrasta cruel, altiva e dura,
A todo o filho que de ti mal diga...
Nem descanço lhe dês de sepultura!

LXXIV

Pois não merece a luz que o allumia,

E que o berço lhe veste de esplendor,
Quem o nome de patria pronuncia,
Sem, lá no fundo, estremecer de amor!

LXXV

Lá vae a barca d'oiro, enfeitiçada!

Lá vae a deslumbrante caravela!
Leva o Gama, de pé, junto á amurada,
E uma cruz escarlate em cada vela!

LXXVI

Lá vae a Barca-Sonho, rio em frente!

Pobre quem, dentro d'alma, não a vir!
Se leva a gloria do passado ingente,
Leva, tambem, a esperança no porvir!

Acabou de imprimir-se
Aos 24 dias do mez de agosto do anno
M DCCC XCVI

NOS PRELOS DA

PARA A
COMMISSÃO EXECUTIVA
DO

CENTENARIO DA INDIA