AS GUERRAS MEDICAS

Sublevação dos Gregos da Asia-Menor.—Quando a Persia, na expansão do seu ingrandecimento, attingiu os seus limites naturaes na Asia, só lhe restava aberto o lado de noroeste (isto é, a Europa) para a dilatação das suas fronteiras.

Começou por incontrar as ricas cidades gregas disseminadas pelas ilhas e pelo littoral do Mediterraneo, e submetteu-as. Mileto intregou-se sem resistencia; outras oppuzeram-se tenazmente ao jugo, mas porfim todas foram absorvidas pelo colosso asiatico. Annexadas ao imperio, carregadas de impostos, conservaram, no emtanto, uma tal ou qual autonomia sob a auctoridade absoluta de chefes escolhidos pelo vencedor no partido aristocratico de cada uma, responsaveis pela obediencia e fidelidade dos seus concidadãos e dependentes do satrapa da respectiva provincia.

Isto durou pouco mais de meio seculo. Porém, no tempo de Dario, manifestou-se uma sublevação geral contra o poderoso imperio.

Histieu, principe de Mileto, estava em Suza, capital da Persia,—e deixára Aristágoras, seu genro, com o governo da cidade. Parece que este, humilhado pela altivez do governador{34} da Asia-Menor, e receoso do castigo com que os Persas procurariam punil-o, por ter aconselhado e dirigido uma impresa contra Naxos, que a facção aristocratica queria intregar aos Persas afim de se apoiar n'elles para consolidar a sua preeminencia, quiz experimentar a sorte das aventuras provocando uma revolta entre os Gregos descontentes. Sublevou a Jonia (501),—e a sublevação propagou-se como um incendio por toda a costa da Asia, desde a Caria até Chalcedonia sobre o Bosphoro.

Os revoltosos mandaram pedir soccorros a Esparta e a outros Estados poderosos da mãe-patria; mas só Athenas e a pequena cidade de Erétria na Eubéa inviaram um pequeno numero de navios. Ao principio as vantagens foram todas do lado da sublevação; os Gregos conquistaram e incendiaram Sardes, capital da Asia-Menor. Mas dentro em breve a sorte das armas mudou: o exercito nacional grego foi derrotado em Epheso pelo governador persa; e porfim a desproporção das forças, a falta de unidade entre os confederados, e a traição, lançaram-n'os outra vez sob o jugo que pretendiam sacudir. Em 494 foi destruida Mileto. Dos Milesianos foram uns passados á espada, outros levados captivos para o Tigre inferior. Aristagoras fugiu para os Thracios da margem do Strymon, onde foi morto. Histieu, que, voltando á Jonia, se tinha ligado com os revoltosos, morreu crucificado; a Caria e a Jonia foram reduzidas e severamente castigadas; e Dario jurou tirar uma vingança cruel das duas cidades, Athenas e Eretria, que tinham auxiliado os revoltosos.

Primeiras expedições dos Persas.—Resolvido a pôr em práctica os seus projectos de vingança contra os Gregos, Dario, excitado tambem pelas instancias do antigo tyranno de Athenas, Hippias, deu a seu genro Mardonio (492) o commando de um exercito, que devia penetrar na Europa pela Thracia, seguindo a esquadra ao longo das costas. Ao mesmo tempo os arautos do grande rei reclamavam dos diversos Estados gregos a terra e a agua, symbolos de submissão.

Mardonio, por uma habil medida politica, assegurou a sua retaguarda e as suas bases de operações, acabando de pacificar a Jonia por meio de uma concessão singular: depoz em todas as cidades os tyrannos, e restabeleceu o regimen democratico, ou pelo menos o governo das cidades pelos seus proprios cidadãos.

Nada lhe valeu, porque todas as circumstancias conspiraram contra elle. A esquadra submetteu a ilha de Thasos,{35} mas foi despedaçar-se quasi toda por uma tempestade ao dobrar o promontorio do monte Athos. Perderam-se trezentas galeras e vinte mil homens; e Mardonio, que tinha já subjugado parte da Macedonia, reconhecendo que não podia continuar a conquista, voltou para a Asia (492), com o resto do seu exercito.

Os arautos que, em nome de Dario, se adeantavam reclamando a terra e a agua, segundo a formula de homenagem que os Persas exigiam dos povos que subjugavam, não foram melhor succedidos. Egina e muitas outras cidades obedeceram-lhes; mas, quando elles se apresentaram com a mesma exigencia deante de Esparta e de Athenas, a indignação dos habitantes d'estas cidades foi tão grande que, olvidando o direito das gentes, mandaram-n'os matar. Os Espartanos atiraram-n'os a um poço, dizendo que procurassem no fundo d'elle a terra e a agua que quizessem.

Dario, cheio de indignação com um tal insulto, inviou logo segunda esquadra, com muitas tropas de desimbarque, sob o commando de Datis e de Artaphernes. Esta atravessou o Archipelago, onde obrigou Naxos e as outras Cyclades a submetterem-se, e chegou em seguida á Eubéa, onde bloqueou Eretria, capital da ilha, a qual lhe foi intregue pela facção aristocratica. A cidade foi arrasada e os habitantes remettidos como escravos para o interior da Asia (490). Em seguida os Persas, conduzidos por Hippias, desimbarcaram nas costas da Attica, e acamparam, a algumas leguas de Athenas, na planicie de Marathona, habilmente escolhida como favoravel para as grandes evoluções de cavallaria.

Batalha de Marathona.—Mandou Athenas, n'este grande aperto, pedir o auxilio de Esparta; mas os Espartanos, detidos por um uso supersticioso, que lhes não permittia partir para a guerra antes da lua-cheia, pediram dez dias de espera. Os Athenienses, a quem a difficuldade das circumstancias não permittia delongas, marcharam ao incontro do inimigo. As dez tribus forneceram cada uma mil homens e um stratégo ou general, sendo o commando em chefe conferido a Milciades. O exercito dos Persas era dez vezes mais consideravel, o que não obstou a que a sua derrota fôsse completa. A batalha de Marathona (490) inaugurou com gloria o imperio e o prestigio da democracia atheniense.

Morte de Milciades.—Em seguida, Milciades convenceu os Athenienses a armarem uma esquadra para conquistarem as{36} ilhas do Mar Egeu que tinham prestado homenagem aos Persas. Foi sitiar Paros; mas teve de levantar o bloqueio com perdas, regressando com a esquadra a Athenas. Ahi foi accusado por Xantippo, um dos primeiros personagens da cidade, pae de Pericles, de ter inganado o povo, lesado o thesouro publico, e causado a morte de um grande numero de cidadãos. Milciades não poude comparecer no tribunal, por estar gravemente doente de uns ferimentos recebidos em Paros, e foi condemnado ao pagamento de uma multa equivalente ao dispendio que tinha feito a expedição. Morreu da sua ferida pouco depois,—e seu filho pagou a multa, para não ficar incurso na incapacidade legal para o exercicio de qualquer cargo publico.

Aristides e Themistocles.—Athenas subiu ao primeiro logar entre as nações gregas, e no seu seio travou-se em breve o conflicto de duas ambições rivaes. Dois homens, Aristides e Themistocles, disputavam um ao outro a influencia e o credito:—Aristides, dotado de tal rectidão que recebeu o nome da Justo; Themistocles, homem de genio militar o politico, tendo as mais altas qualidades, infelizmente maculadas por grandes defeitos. Themistocles era o chefe do partido popular. Quando se tratou de dar successor a Milciades no commando da esquadra, elle obteve a preferencia sobre o seu rival. Submetteu algumas das ilhas do Mar Egeu; mas, quando voltou a Athenas, incontrou Aristides á frente de um grande partido (o aristocratico) que o apoiava. Romperam grandes desintelligencias entre as duas parcialidades, e porfim Themistocles conseguiu obter a expulsão de Aristides, por meio do ostracismo. O povo não teve em vista, com esta medida, castigar um homem cujas virtudes apreciava; o que pretendeu foi enfraquecer o partido da nobreza, tirando-lhe o chefe.

Themistocles, ficando chefe da republica, e comprehendendo, ao contrario de todo o povo, que a derrota dos Persas em Marathoha não era o termo da lucta, mas sim o começo de guerras novas, viu com admiravel penetração que o futuro da Grecia dependia do seu ingrandecimento maritimo, e não deixou um momento de pugnar pela creação da marinha atheniense, afim de oppôl-a um dia a novas invasões dos Asiaticos, e ao mesmo tempo para garantir a Athenas o senhorio do mar e a preponderancia sobre os outros Estados gregos.

Para conseguir a realização dos seus projectos, obteve de Delphos uma sentença que o favorecia. O oraculo declarou que a salvação dos Athenienses dependia de se abrigarem cobertos{37} por «muros de madeira». Por estes muros o povo intendeu «navios». O producto das minas de prata do Laurion era até então consumido em festejos publicos ou distribuido pelos cidadãos. Themistocles obteve que fosse empregado na construcção de cem triremes de guerra, e para melhor fazer acceitar a sua proposta valeu-se do profundo rancor que os seus concidadãos tinham á ilha de Egina, por se haver rendido espontaneamente aos Persas, e levou-os a approvarem o augmento das forças navaes com a mira no castigo dos Eginetas.

Expedição de Xerxes.—Dario, o orgulhoso monarcha persa, humilhado com o desastre de Marathona, estava preparando os elementos para uma desforra memoravel quando a morte o surprehendeu. Seu filho e successor, Xerxes, herdeiro do seu odio e dos seus sentimentos de vingança, adoptou os projectos paternos e proseguiu nos armamentos que, em larga escala, se estavam accumulando havia tres annos. Segundo a narrativa de Herodoto, fundada na tradição popular e poetica, o exercito asiatico attingiu o numero de 1.700:000 homens, sendo a esquadra de mais de 1:200 navios de alto bordo.

Em 481, depois de ter atravessado o territorio de Ilion, chegou aquella immensa mole de gente ás praias do Hellesponto. Septe dias, sem interrupção, levou o exercito a passar sobre duas pontes de barcos. Era um mixto de povos e nações diversas: Persas, Médos, Assyrios, Arabes, Sacios, Indios, Mongoes, Ethiopes, etc. Depois da passagem do Hellesponto, dirigiu-se do Chersoneso para a Macedonia e para a Thessalia atravez da Thracia. Os povos das differentes regiões atravessadas, taes como os montanhezes da Dorida, do Pindo, do Ossa, do Pélion, do Olympo, os Thessalianos, uma parte doa Beocios, correram a offerecer ao grande rei as suas homenagens. A esquadra, n'este meio tempo, ia avassallando os mares e apossando-se das ilhas.

Themistocles conseguiu, com os seus esforços patrioticos, fundar uma liga composta dos restantes Estados gregos, que o terror do inimigo não abalára de todo. Formou-se uma dieta, sob a hegemonia de Esparta, no isthmo de Corintho. Por um momento foram esquecidas todas as dissensões internas.

As Thermopylas.—Em Julho de 480, exactamente quando se celebravam os jogos olympicos, appareceram as avançadas do exercito de Xerxes em frente do desfiladeiro das Thermopylas. Ahi as esperava Leonidas, um dos dois reis de Esparta, o qual, segundo o plano de defesa combinado, tinha por{38} missão deter os Persas n'essa estreita garganta, que conduzia da Thessalia para a Locrida, cobrindo ao mesmo tempo a Grecia central. Ao mesmo tempo o exercito naval dos Gregos esperava as esquadras de Xerxes no estreito de Artemision. Para defender o Peloponeso, ultimo refugio da independencia hellenica, estava um exercito de reserva acampado no isthmo.

O rei lacedemonio commandava septe mil homens, entre os quaes se distinguiam trezentos Espartanos. Foi com estes que Leonidas se postou no desfiladeiro, prompto a fazer frente a toda a inundação asiatica. Intimado a intregar as armas, Leonidas respondeu:—«Vem buscál-as!» Quando o inimigo appareceu á vista, disse um grego:—«Os Persas estão ao pé de nós», a que Leonidas replicou:—«Porque não dirás antes que nós estamos ao pé dos Persas?» Os soldados valiam tanto como o chefe. Disse um d'elles, atemorizado, que os inimigos eram em tão grande numero, que as suas flechas escureceriam o sol.—«Tanto melhor, respondeu outro, combateremos á sombra». Leonidas desejava salvar dois mancebos espartanos; deu a um d'elles uma carta, a outro uma commissão para os éphoros.—«Não estamos aqui para levar recados; estamos para combater».

Durante muitos dias procurou o Rei dos Persas forçar a passagem; e já quasi desesperava de conseguil-o, quando um traidor grego lhe ensinou um atalho por meio do qual se podia tornear a inexpugnavel posição.

No dia seguinte, os Gregos de Leonidas vêem-se cercados pelo inimigo. Os trezentos Espartanos, e septecentos habitantes da cidade de Thespia, resolveram sacrificar-se pela patria. Alli succumbiram todos, combatendo como leões. Xerxes, que tinha perdido vinte mil dos seus melhores soldados, sentiu a humilhação da sua victoria. Pelo contrario, o sentimento nacional dos Gregos exaltou-se com esta derrota gloriosa, e decidiram-se a defender a liberdade e a independencia até á morte.

Batalha de Salamina.—Durante este tempo, conservava-se no estreito de Artemision a esquadra grega, commandada superiormente pelo espartano Eurybiades, commandando Themistocles as galeras athenienses. Fazia-lhe frente a immensa esquadra dos Persas, e entre pequenas fracções das duas armadas haviam-se travado já algumas escaramuças e combates parciaes.

Quando se soube que tinha sido forçado o desfiladeiro das Thermopylas, e que Xerxes, depois de devastar a Phocida e{39} a Beocia, avançava sobre Athenas, determinado a destruil-a, os Athenienses esperavam que todas as forças alliadas tentariam defender a Attica. Mas os outros Gregos, cuidando especialmente em cobrir o Peloponeso, só pensavam em fechar o isthmo de Corintho, já fortificado por uma formidavel muralha.

Themistocles fez então revogar a lei de exilio contra Aristides, e determinou o povo a abandonar Athenas para se não expôr á lei do vencedor; as mulheres e as creanças foram para Trezena, para Egina e para Salamina; os homens recolheram-se á esquadra; e a cidade foi incendiada e devastada.

A esquadra persa ancorou na enseada de Phalera. Os Gregos, assustados, deliberam abandonar o estreito de Salamina e aproximar-se do isthmo onde estão reunidas as forças de terra. Contra esta deliberação insurgiu-se Themistocles, por intender que o combate sería mais favoravel n'umas aguas apertadas, onde a grande esquadra persa, não podendo mover-se á vontade, perderia parte das vantagens do numero. No conselho dos chefes, foi tal a energia da sua opposição, que o almirante-supremo, Eurybiades, levantou contra elle o bastão de commando.—«Bate, mas ouve!» replicou imperturbavel Themistocles, contendo assim o impeto do fogoso espartano.

De nada lhe valeu a perseverança com que procurou dissuadir os outros chefes. Recorreu então a um estratagema que, se não sortisse effeito, poderia ser tomado por uma traição horrorosa. Inviou a Xerxes um mensageiro secreto, a informál-o das divisões dos Gregos e do projecto de retirada, e lembrando-lhe que os fechasse no estreito, onde poderia aniquilál-os com facilidade.

Immediatamente Xerxes deu ordem para bloquear a ilha e a esquadra grega. Foi Aristides quem, regressando do exilio e tendo atravessado a esquadra inimiga, deu aos Gregos a noticia de estarem involvidos. Só restava combater desesperadamente. Foi o que se fez.

O papel de Themistocles, quaesquer que sejam as suspeitas que a Historia tenha de reservar sobre a fidelidade e boa fé d'este homem estranho, é incontestavel que foi decisivo n'esta batalha memoravel. A victoria dos Athenienses foi completa, e salvou a Grecia. Xerxes retirou-se abatido e com precipitação, atravez da Thessalia, da Macedonia e da Thracia, onde grande numero dos seus soldados morreram de fadigas, de frio e de fome; e tornou a atravessar o Hellesponto.{40} Os Espartanos, tão ciosos das glorias alheias, deram espontaneamente uma corôa de oliveira a Themistocles.

Batalhas de Platéa e de Mycale.—Na Thessalia ficaram trezentos mil homens, sob o commando de Mardonio, para effectuarem a submissão da Grecia. Passado o inverno, desceram atravez da Beocia; devastaram a Attica, de novo abandonada pelos confederados; e occuparam Athenas, quasi completamente em ruinas e deshabitada. Mas, na grande batalha de Platéa (479), os Gregos, commandados pelo espartano Pausanias, o qual tinha sob as suas ordens Aristides, general dos Athenienses, obtiveram sobre o exercito inimigo, tres vezes superior em forças, uma victoria tão completa que a maior parte dos inimigos, incluindo o seu general, ficaram no campo de batalha. Apenas 40:000 homens tornaram a atravessar o Hellesponto.

No mesmo dia d'esta assignalada batalha, a esquadra grega, commandada pelo rei espartano Leotychidas, derrotou a esquadra persa em frente do promontorio de Mycale, na Asia-Menor. Xantippo, pae de Pericles, commandante dos navios athenienses, teve uma parte importante na gloria d'esta grande acção naval.

[CAPITULO VI]