HEGEMONIA DE ESPARTA
Vencida Athenas, os Espartanos procuraram completar a sua hegemonia sobre as ilhas e as cidades do litoral, conquistando a soberania do mar. Apoderaram-se de Samos, obrigando os cidadãos a emigrar e a abandonarem as suas riquezas; tiraram aos habitantes de Chio os seus navios, e mataram por traição 80 democratas de Mileto; subjugaram Elis; expulsaram novamente de Naupacta os infelizes Messenios; lançaram pezadissimos impostos ás cidades maritimas e substituiram em toda a parte as constituições democraticas pela sua organização aristocratica. Com as contribuições formaram o seu thesouro publico; as populações do Peloponeso forneciam-lhe soldados; as das cidades do litoral e das ilhas, esquadras e marinheiros.
O seu dominio era mais oppressor para os povos subjugados do que fôra o de Athenas, mais duro, mais cruel, e sem ter ao menos a compensação de manter n'uma alta esphera intellectual a cultura dos espiritos. Era a prepotencia da força,{54} o desprezo da justiça, o anniquilamento do direito. Era a decadencia inexoravel, sem remedio.
Decadencia em tudo, rapida, nas instituições, na grandeza, na civilização, no prestigio! Os éphoros tinham usurpado a auctoridade toda; os reis estavam reduzidos á condição de uns simples generaes hereditarios; uns mil cidadãos, quando muito, constituiam toda a oligarchia soberana. A propriedade estava em meia duzia de mãos; as classes servis, cada dia mais numerosas, principiaram a conhecer a força de que poderiam dispôr contra os seus oppressores, se conseguissem unir-se.
De toda a Grecia, apenas Argos, Corintho, Thebas, e a Etolia, não reconheciam o jugo terrivel de Esparta, e em breve haviam de ser o nucleo de uma formidavel coalisão.
A retirada dos Dez Mil.—No throno da Persia tinham-se succedido, a Xerxes, Artaxerxes Longomano (465-424), Xerxes II e Sogdiano (424), Dario II Nothos (ou o Bastardo) (423-404), e Artaxerxes II Mnémon, que deu a satrapia da Asia-Menor a seu irmão Cyro «o Moço». Este, pretendendo ter mais direitos ao throno do que seu irmão, intentou arrancar-lhe o poder; e, para isso, juntou um formidavel exercito, no qual tomou a seu soldo treze mil mercenarios gregos, tropas que lhe foi facil juntar, pois com o termo da grande guerra muitas forças militares estavam desoccupadas.
Esparta, pelo seu lado, tinha interesse em favorecer a guerra civil na Persia, como uma garantia da sua propria tranquilidade e segurança do seu dominio; e por esse motivo não só permittiu o levantamento das tropas, como tambem poz á disposição de Cyro 25 galeras e um corpo de septecentos hoplitas.
Cyro invadiu a Persia, penetrou até ás portas de Babylonia; e ahi, na planicie de Cunaxa, travou-se uma grande batalha, na qual os Gregos ficaram victoriosos, mas onde o régio aventureiro foi morto (401).
Cercados por todos os lados, os Gregos começaram a sua famosa retirada. Clearoo, seu general, e outros officiaes, foram aleivosamente assassinados n'uma conferencia a que os Persas os convidaram; mas o atheniense Xenophonte, que tinha tomado parte, como voluntario, na campanha, poz-se á frente das tropas, e, de accordo com o espartano Cheirisopho, conduziu-as; no meio das mais incriveis difficuldades, atravez de quatrocentas leguas de paiz inimigo, por meio das montanhas impracticaveis da alta Mesopotâmia, da Armenia e do{55} Ponto, até ás praias do Mar Negro. Quinze mezes durou esta extraordinaria operação militar, assignalada por cem combates, realizada por um punhado de homens, sem conhecimento do paiz nem da lingua, sem guias, passando a vau torrentes impetuosas, subindo cerros escalvados, atravessando vastidões inhospitas, cobertas de neve espessa, soffrendo toda a especie de privações, acossados de perto pelos inimigos, inquietados a todo o momento pelos habitantes.
A retirada dos Dez Mil foi um dos maiores feitos militares da Antiguidade, e immortalizou duas vezes Xenophonte, como capitão e como historiador. A Anabasis (ou a narrativa da expedição de Cyro «o Moço» contra a Persia e do regresso do exercito grego sob o commando do proprio historiador) é a melhor obra de Xenophonte.
Expedição de Agesiláu.—Os Persas, irritados com os factos que acabamos de narrar, e pretendendo vingar-se, procuraram submetter de novo as cidades jonias do littoral, que eram então tributarias dos Espartanos. Estas pediram auxilio a Esparta, que lhes mandou um exercito, cujas vantagens ao principio foram insignificantes; mas depois mudaram as coisas de feitio quando o rei Agesiláu (398-361) tomou o commando da expedição.
Agesiláu devastou a Phrygia, a Bithynia, a Caria, a Lydia; venceu perto de Sardes (396) o satrapa Tissaphernes, e outros governadores persas em diversos combates; inriqueceu de magnificos despojos os seus soldados. E preparava-se para chegar até ao coração do Imperio pelo caminho traçado pelos Dez Mil, quando recebeu ordem terminante de regressar a Esparta. Eram os Persas que tinham suscitado a Esparta uma guerra no interior da Grecia, e Agesiláu tinha de correr em auxilio da patria ameaçada.
Guerra Corinthia.—Incitada pelo oiro dos Persas, mas principalmente pela tyrannia espartana, Thebas foi a primeira cidade a insurgir-se contra a supremacia de Esparta; com ella se ligaram Corintho, Argos, Athenas, e a Thessalia. Lysandro, que partiu immediatamente para a Beocia, afim de remover o perigo imminente, foi vencido e morto na batalha de Haliarte (395). N'isto chegou Agesiláu, a tempo de ganhar sobre os alliados a batalha de Coronea (394).
A Persia deu ao atheniense Conon uma esquadra phenicia, com a qual foi destruida, em frente de Cnido, a armada lacedemonia. Esparta perdia o dominio do mar, e Athenas concebia{56} a esperança de rehavêl-o, sendo esse o pensamento de Conon. Este restituiu a independencia ás ilhas de Chios, de Lesbos, de Samos, expulsou os governos oligarchicos impostos pelos Espartanos, e, auxiliado pela Persia, effectuou o restabelecimento das fortificações da cidade e do porto de Athenas, e a construcção de mais navios.
A republica atheniense, sentindo-se renascer, inviou Thrasybulo com uma esquadra para reduzir Byzancio, o que elle fez, sendo, porêm, morto na Pamphylia; mas, ao mesmo tempo, Athenas commetteu um grande erro, soccorrendo Evagoras, rei de Chypre, contra os Persas, o que lhe retirou a protecção d'estes, inclinando-os de novo para o lado de Esparta.
Por outro lado, Iphicrates, atheniense, general muito habil, fundou uma tactica nova, servindo-se de soldados armados á ligeira e dando aos hoplitas uma organização e um armamento mais nacionaes. Assim conseguiu derrotar completamente n'um recontro a infantaria, até ahi invencivel, de Lacedemonia.
Esparta atemorizada com as vantagens dos Athenienses, tanto no mar como na terra, negociou com o grande rei o vergonhoso tratado d'Antalcidas.
Paz d'Antalcidas.—Por este tratado (387) foram submettidos aos Persas os Estados Gregos do continente asiatico com a ilha de Chypre, conservadas a Athenas as ilhas de Lemnos, de Imbros e de Scyros, e reconhecidas como independentes umas das outras todas as cidades da Grecia. Argos e Thebas, que se recusavam a obedecer ao tratado, foram a isso constrangidas por Esparta.
Por este tratado, imposto á Grecia por um monarcha extrangeiro, as costas occidentaes da Asia-Menor foram para sempre arrancadas ao dominio hellenico, todas as ligas foram dissolvidas, todas as confederações desmembradas, ficando assim destruidos todos os centros de força e de vida collectiva.{57}