SUPREMACIA DA MACEDONIA

Os antigos reis da Macedonia haviam sido tributarios dos Persas. Alexandre I (498-454) ora alliado dos Persas, ora alliado dos Gregos, atacou e desbaratou parte do exercito persa, quando este fugia atravez da Macedonia, depois da batalha de Platéa. Os reis que se lhe seguiram, taes como Perdiccas II (425), introduziram nas altas classes do paiz os costumes civilizados dos Gregos. Archeláu (413-399) deu hospitalidade a Euripides e convidou Zeuxis a pintar-lhe o palacio e o templo de Pella. A este succedeu Amyntas II (399-369), cujo reinado foi muito tempestuoso. O filho mais novo d'este monarcha, Philippe, viveu algum tempo, como refens, em Thebas, em casa de Epaminondas, e ahi se familiarizou com a organização e os costumes dos Hellenos, estudando ao mesmo passo o segredo da força e da fraqueza das republicas gregas.

Chamado ao throno, por morte de seus irmãos, bate os seus competidores, compra a alliança de Athenas, estabelece amizade com os Thracios, derrota os barbaros Peonios e Illyrios, e consegue restituir á Macedonia as suas fronteiras naturaes (358). Feito isto, pensa logo em alargál-as. Começa por conquistar umas apoz outras as colonias gregas assentes no littoral dos seus Estados, e organiza uma esquadra. Penetra na Thracia e chega até ás proximidades de Byzancio; involve-se nos negocios da Thessalia onde então lavrava a guerra sagrada, e transforma insensivelmente este paiz n'uma provincia macedonica. Avança, em seguida, para as Thermopylas; mas ahi os Athenienses, cuja vigilancia era despertada pela eloquencia do grande Demosthenes, oppõem-se-lhe á passagem, desconcertando-lhe os projectos, e Philippe tem, prudentemente, o cuidado de retirar-se (352).

Demosthenes redobra de energia, solta do alto da tribuna grega as suas vigorosas Philippicas, e durante quinze annos lucta com toda a força do seu genio e com toda a sua penetração contra os designios do seu temivel adversario. Mas se a palavra do maior dos oradores impunha respeito á astucia do monarcha ambicioso, não teve força para conjurar a catastrophe.{60} Em 348, Philippe vibrou o seu grande golpe, tomando Olyntho, a poderosa metropole das cidades gregas da Chalcidica, que Athenas protegia e que Demosthenes tinha querido salvar.

Athenas, ameaçada na Eubéa e até mesmo na Attica, teve de assignar um tratado de paz. Mas Philippe, deixando de cumprir as clausulas juradas, ataca as Thermopylas, termina a guerra sagrada que lavrava entre os Phocidios e os Thebanos, subjuga os primeiros arrasando-lhes as cidades, e toma assento no conselho amphictyonico onde se arroga os dois votos que os Phocidios alli possuiam (346).

Eis, pois, Philippe, arbitro da Grecia, pela posse da Thessalia, das Thermopylas, e da influencia no conselho amphictyonico. Sabendo esperar, não quiz precipitar-se na conquista definitiva, afim de evitar qualquer reacção geral perigosa. Dirigiu-se para a Thracia, onde o atheniense Phocion, aliás seu partidario, o impediu de se apoderar das colonias gregas do Hellesponto; chegou até ao Danubio e ahi assentou os limites septentrionaes do seu reino; levou a guerra á Illyria, ao Epiro, ao Chersoneso, sitiou Perintho e Byzancio, que Phocion defendeu efficazmente. Os Athenienses apoderam-se da Eubéa, emquanto Demosthenes organizava ligas das diversas cidades, sublevando-as contra o inimigo commum.

Mas o orador atheniense Eschines, rival de Demosthenes, subornado pelo oiro de Philippe, consegue no conselho amphictyonico a investidura do rei da Macedonia no commando e direcção de uma nova guerra sagrada contra os Locrios. Philippe volta immediatamente á Grecia (338), esquece o pretexto da sua intervenção, apodera-se de Elatéa e dos desfiladeiros que conduziam á Beocia, e chega quasi ás portas de Athenas.

Demosthenes realiza então um supremo esforço, e obtém, á força de eloquencia, a alliança de Thebas. As duas cidades apresentam-se unidas no ultimo campo de batalha da liberdade e da independencia grega. Esparta conservou-se isolada no seu perpetuo egoismo. Incontraram-se os exercitos junto a Cheronéa, na Beocia. Os hoplitas athenienses, o batalhão sagrado dos Thebanos, despedaçaram-se contra a phalange macedonica. Demosthenes tomou parte na acção. A victoria de Philippe foi decisiva e completa.

O vencedor foi de uma desusada e honrosa moderação; reuniu uma assembléa geral dos povos em Corintho, e, para legitimar até certo ponto o seu dominio sobre a Grecia, renovou o projecto de uma grande expedição nacional contra os{61} Persas, e fez-se nomear generalissimo de todas as forças gregas. Quando estava a ponto de realizar os seus vastos designios, um dos seus guardas assassinou-o, crê-se que por suggestões da rainha repudiada, Olympias.

Alexandre Magno.—Philippe legava a seu filho, Alexandre, mancebo de vinte annos apenas, elementos preciosos para este levar a cabo a impresa por elle concebida. Deixava-lhe um exercito numeroso e aguerrido, generaes habeis e thesouros accumulados para aquelle fim.

Demosthenes conseguiu sublevar de novo as cidades á noticia da morte de Philippe. Alexandre, que tinha acabado de submetter as tribus illyricas, atravessou a Macedonia, a Thessalia, e chegando em frente de Thebas atacou a cidade e tomou-a, arrasando-lhe em seguida os muros. Os Gregos, aterrados, declaram-n'o, em Corintho, generalissimo e dão-lhe soccorros para a invasão da Asia. Não o acompanharemos na sua marcha triumphal, que determinou a destruição perpetua do Imperio dos Persas. A morte surprehendeu-o em Babylonia (328) no meio dos seus ambiciosos sonhos de grandeza e de monarchia universal. Este homem assombroso, que ao expirar contava apenas 33 annos incompletos, intregou, no leito da morte, o seu annel a Perdiccas. E quando os seus generaes lhe perguntaram a quem deixava a corôa, respondeu:—Ao mais digno.

[CAPITULO XIII]