O HOMEM DA RABECA
A casa para onde me mudei nada tinha de confortavel e resguardada. Sómente alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol.
Devia já ser velha; os tectos baixos e o soalho carunchoso tremiam em os chinellos arrastando. Pelos buracos do roda-pé, as baratas saltavam de noite aos rebanhos, em cata de alimento. Mas de manhã a coisa mudava—rompia alegremente o sol, como um companheiro folgasão, e no parapeito da varanda, as pombas do marceneiro vinham arrulhar beijando-se, com esse movimento coquette de cabecinhas graciosas, em que parece viver todo um mundo de pequenos segredos de boudoir. Um pé de eloendro florido chamava as abelhas, abrindo-lhes as corollas roseas n’um candido aroma de beijos, e em amphitheatro, alargando-se da Baixa ao cimo das collinas de uma banda, e até ao azul do rio da outra, a casaria da cidade, liberta dos ultimos vapores da noite, expunha as suas fachadas brancas, monotonamente cortadas de janellas, sobre que os tectos cahiam em pyramides alongadas, e de que as chaminés furavam aggressivamente aqui e além, fumando na risonha luz recem-nascida.
A primeira coisa que pude notar na visinhança, foi que não havia uma cara bonita. Em baixo na loja do predio fronteiro, a mulher do logar, suja e gasta, era repellente com os seus enormes sapatos de ourelo e o corpete do vestido constantemente descerrado, mostrando a carne trigueira e chuchada dos seios. No primeiro andar, engommadeiras com cara de homem, cabelludas e amarellas, vinham raro á janella para lançar olhares obliquos sobre as casas alheias. Por cima era uma mestra—ao lado um veterano eternamente á janella, de barrete azul, fumando no seu cachimbo disforme. Na rua estreita e tortuosa, todos se conheciam; creanças brincavam descalças e ranhosas, tocando latas; de manhã era uma gralhada de janella para janella sobre a carestia das coisas e as carraspanas dos maridos—e o mesmo padeiro servia as familias, demorando-se de palestra pelas escadas.
Ás dez horas, em quanto fazia o almoço, sentia um rumor de passos cansados, e uma voz dizer de quando em quando—espera, homem, vae devagarinho. Alguma vez dás comigo pela escada abaixo!
Era o visinho do lado, o cego da rabeca, descendo com o pequeno. Iam para o giro do dia, em quanto a velhota ficava enrolada em cobertores e meio paralytica das pernas. Succedia topar com elles pelas ruas. O pae era velho, typo commum dos cegos famintos, com a saccola pendente, rabeca a tiracollo por um cordão verde e sujo, o chapeu amachucado, véstia de saragoça. O habito de cantar para as janellas havia-o deitado um pouco para traz, os olhos escancarados tinham uma serenidade vitrea, a bocca era um nada atormentada aos cantos...
Em certos dias corriam a cidade inteira, beccos lobregos e ruas humidas dos antigos bairros, onde parece errar ainda agora uma legenda de facadas e a bulha de altercações vadias.
Á noite, internavam-se pelos baixos cafés de operarios, Alfama, Mouraria e Bairro Alto; e alli amachucados a um canto, em quanto gemia a rabeca, o rapaz erguendo a voz dizia as desgraças dos degredados e as lamentações do Vimioso, terminando por estender o chapeu á esmola dos que bebiam. Eram os unicos tristes da rua aquelles expulsos da fortuna, a velha que ninguem via, o cego e o rapaz macilentos.
Voltavam tarde, extenuados.
—Vá homem, vá, parece que não tens força nas pernas! dizia o cego ao pequeno.
Succedia, por vezes, Miguel recordar que não havia petroleo em casa, que as provisões estavam por pagar no João tendeiro, e não seria fiado real na manhã seguinte se não fosse de logo paga a pequena despeza. Detinham-se então na escada ou á bocca de alguma loja. O pequeno estendia a mão tenra e roxa, e n’ella o pae ia deixando cahir vagarosamente e com pena, uma a uma, n’um tlin-tlin methodico, as pobres moedas recolhidas no trajecto do dia.
Ás vezes era pouco, tres, quatro vintens.
—Bemdicto seja Nosso Senhor! suspirava o cego, e passavam sem luz essa noite.
Era nos domingos mais prospera a esmola e triplicava a receita.
Dizia o cego:
—Sempre é dia em que Deus Nosso Senhor descansou.
Por vezes até, uma pobre senhora, compassiva ante a velhice d’aquelle homem, sem queixa mordendo as miserias do desamparo, offerecia-lhe um pouco de fato, restos de refeição. Era um prazer, que se poupava o jantar d’aquelle dia. E deante do pequeno Miguel, cujos olhos vagos e interiores pareciam absortos n’uma contemplação lunatica, o cego desenrolava carinhos doces e meigas insistencias para que trincasse os melhores bocados, perguntas repetidas sobre se tinha frio, dôres de cabeça, os pés molhados... Rareavam de inverno as esmolas; mal se podia andar na rua, que a lama cuspida dos trens enchia tudo, e eram inclementes e eternas as gotteiras dos telhados pingando sobre quem passava sem cobertura. Em tempos d’aquelles nem os garotos da rua queriam musica—as creanças dos varios andares, as melhores freguezas das pobres valsas e cantigas que o velho executava na rabeca não podiam chegar á janella; se pediam esmola, respondiam logo—Tenha paciencia!
Além d’isso um horror que a policia os fisgasse em flagrante mendicidade... que seria depois, da velhota? O asylo glacial em que as cabeças estão cheias de parasitas e os estomagos vazios de alimento, seguir-se-hia enquadrado na pressão soberba e fria dos fiscaes e administradores; separal-os-hiam brutamente, o velho para a caserna com outros invalidos, como elle sem valia, a creança para a Correcção, em que a lividez é patibular. N’esses amargurados dias era necessario comer a rações. D’uma vez tinham feito um pataco. E a velhota, coitada, sem remedio!...
A hora do jantar retardou-se n’aquelle dia. Quando era noite, o velho fallou em irem comer alguma coisa. Queixou-se de não ter vontade, e deu ao Miguel o dinheiro para que fosse comprar pão. A creança olhou-o com uma especie de surpreza ingenua; á luz do gaz d’uma loja viu lagrimas nos cilios tremulos do pae, cuja face cavada tinha uma côr terrena de angustia. E sem saber porque poz-se a soluçar á esquina, longe d’elle, para que não fosse ouvido. Ah! era bem negra aquella vida, era!