A Desforra de Baccarat

O conde não acompanhou sua esposa n’essa noite.

Era quinta-feira.

O inverno rigoroso, céos continuamente emburelados em forros plumbeos, chuvas eternas que não davam guarida, lama pelas ruas, bocejos pelos gabinetes, aspectos constipados, a bronchite tripudiando a sua impunidade pelos narizes das familias, e em S. Carlos a Varezi trillando divinamente, com aquelle sorriso que parecia uma esperança e que se tornou desde que ella partiu, n’um desespero. No Gremio, Alberto de Selvas esperava o conde; além d’isso apostára no Club a queda do ministerio; e por fim, elle não queria dizer, mas Fatime esperava-o, queria cear com elle, a Fatime do corpo de baile, uma loira picante, de carnes friamente impuras, cujo olhar, de um pardo inerte, possuia nos accessos de cólera, fulgurações de adoravel maldade. Razões que impuzeram resistencia ás supplicas da condessinha e diante de cuja teimosia ella fez beicinho, com uma expressão de candura inimitavel. De modo que, mal Charmille, o velho criado grave, serviu o café no pavilhão chinez, e o conde bebeu o seu velho cognac digestivo, pediu o prussiano, accendeu um carvajal pequenino, de um aroma penetrante, e beijando a condessa partiu.

No pateo ouvimol-o cantarolar as coplas dos Sinos, e as suas botas rangerem no xadrez do atrio. Depois o coupé rodou e ficamos sós. A tarde cahia, e sobre o terraço para onde rasgavam as janellas do gabinete de trabalho, um raio do sol peneirado através das moitas de trepadeiras, tinha uma luz harmonica, ineffavel, discreta, em que se sentia a confidencia, em que se sonhava o idyllio, de uma pureza archangelica, nas regiões phantasticas do incommensuravel, sobre o dorso de cometas desgrenhados. Uma arara monotona chalreava, suspensa por um só pé a um supporte metallico, patenteando no arrojo das pennas, de brilhos ardentemente metallicos, matizes inconcebiveis, divinos cambiantes de um mordente estranho, tons apaixonadamente fulvos, em todas as gradações do espectro, com saturações vivas de escarlate e violencias de verde, de um caustico exaltado. A condessa fechou o livro e olhou para mim. Era uma criança anemica, fina belleza aristocratica, crescida como uma avenca australiana, no molle ambiente impregnado de essencias, dos boudoirs, dos salões e das largas galerias claras, em que antepassados graves, olham dos seus quadros poentos, ridiculos ou funereos nos seus vestuarios de todas as idades.

O seu typo bourbonico, pallidamente senhoril tinha um cunho real que feria, e sentindo-a respirar e sorrir, todo o mundo se abalava por ella n’uma sympathia enthusiasta, n’um vasto amor infinito e terrivel como a morte. Umas religiosas irlandesas haviam-na educado no Bom Successo: por toda a parte grades, a austeridade da clausura, frias pedagogas embiocadas em negro, o sino batendo as suas pancadas cortantes, as preguiças de levantar cedo, as tristes harmonias que lhe ensinavam nas harpas douradas, e em que pareciam soluçar tormentosas legendas de amores mythicos, e rolarem pelas escadarias dos cadafalsos vermelhas cabeças palpitantes.

Sahiu de lá fallando menos mal as linguas, bordando jardins suspensos em almofadas de apparato, com um vicio, o piano, e um vacuo diante da sua alma—a vida em que ia entrar. Sua mãi, uma rainha de bailes, lia romances dias inteiros, em chambre, deitada n’um divan opulento, o cabello por cima das mesas, perfumes caros na epiderme e meias de sêda esticadas acima do joelho.

E ella afez-se tambem ás leituras.

Belot, que uma amiga lhe emprestára, poz em vibração na sua alma uma corda mysteriosa, e pela primeira vez na sua vida de virgem, se abrasou em impetos. E o seu sangue impetuoso teve allucinações candentes, em que passavam homens brancos, virginaes, athleticos, nús e vívidos, que lhe estendiam os braços.

Desceu com o visconde Ponson, com o scelerado Capendu e com o patife Zaccone, aos pavores dos subterraneos em que se despenhavam protogonistas heroicos; quiz sofrer com elles as inclemencias dos carceres e as agonias da tortura, escamugindo-se quando pôde pelas sahidas mysteriosas em que molas occultas fazem girar portões de rochedos; subiu as escadas de corda, mascarada de velludo negro, com um frasquinho de saes no bolso e um punhal nos dentes; penetrou conclaves lobregos em que conspiradores avançam solemnemente para fazer phrases, e se pronunciam juramentos terriveis com as espadas núas sobre braseiros consagrados, á luz de tochas de cêra amarella. E romanticamente decorou phrases pomposas das heroinas, teve attitudes theatraes de uma exhibição ridicula, esgares e lyrismos. Pintava de bistre, olheiras sentimentaes, e sobre os hombros semi-nús em gaze vaporoso, deixou revolutear os cabellos turbulentos, seccos, crespos, em tons hilariantes.

Mas uma tarde parou uma carruagem á porta.

Um rapaz que ella vira em S. Carlos, de luneta de oiro, na Havaneza puxando punhos de apparato, nos chás do ministro d’Allemanha declamando theorias, no parlamento pedindo caminhos de ferro em nome do progresso e da civilisação, entrou com um velho.

Vinham pedil-a em casamento.

O pai de Beatrice fazia politica, pedia tambem caminhos de ferro e moralidade nas provincias da publica administração, mal sabia o nome dos filhos e só ao jantar estava com a familia, não obstante lamentar a decadencia da sociedade portugueza, nos artigos de fundo.

A mãi por causa d’ella, não podia installar commodamente os amantes, tinha por isso birras, rogava pragas em voz alta. Vida do diabo! Raio de filhos!

Um dos apaixonados, o conego D. Venancio, queixára-se até ás criadas, que aquillo não podia continuar assim, que nem uma pessoa era senhor de levar a sua capa de trazer e os seus solidéos de retroz preto, com uma borlasinha na nuca.

De modo que o casamento fez-se.

O Illustrado fallou com boas orações incidentes explicativas e adjectivos novos, da festa, dos convidados, a fina flôr, das toilettes, tudo de aprimorado gosto, publicava com pompa.

E havia dois annos que Beatrice era condessa, a condessinha, e que eu, o melhor amigo do conde, assistia ás suas matinées e ás suas desillusões.

Na bocca pequenina d’ella, vermelhamente lasciva, uma contracção ironica dizia as suas impaciencias, os seus arrebatamentos, as suas fluctuantes predilecções, os seus languores e os seus desdens. Amava os vestidos decotados e os largos collarinhos de cretone azul, que permittem a viagem mystica do olhar artista ou sacrilego, até á promessa, aos esplendores de um seio...

O meu olhar casualmente, innocentemente—dou a minha palavra de honra,—como uma ave ferida, foi de manso e pouco a pouco, como quem quer reter o vôo e não tem forças, cahir tambem n’esse abysmo de alabastro, e ao reparar attonito no sacrilegio, viu a condessinha sorrir, um risinho lancinante que dizia:

—Então... que é lá isso, tambem...

A carne é fragil. Fragil e petulante.

N’aquelle momento quizera ter cegado. Depois—não vão dizer nada—senti pena de não ter olhado melhor. Mas era shocking!

Lançava as culpas para a condessinha; para que punha aquelles collarinhos? E olhando-me aos espelhos das paredes, via-me chammejante, em tons apopleticos de lagosta, o frisson das grandes culpas pela espinha dorsal.

Assim chegou aquella tarde.


Beatrice continuava abandonada no fauteil, a sorrir.

E o maldito collarinho aberto, o sicario, aberto, aberto!...

A tarde esmaecia nos longes, sobre o mar, e no silencio a noite condensava escuridades no ar com um methodismo severo, imperturbavel, gradual.

O relogio feriu cinco horas.

Por uma janella aberta o rumor da cidade entrava; carruagens sentiam-se ao longe, e no vasto negro, pontinhos de gaz bordavam evoluções caprichosas, marcando as curvas das ruas, o afunilamento dos beccos, as dilatações das praças lamacentas.

Não pedimos luz.

Eu fumava na causeuse. A condessinha distrahida agora, absorta e com o olhar perdido nos relêvos do tecto abandonava-se; e na penumbra das coisas, o seu busto adquiria linhas ideaes de visão benigna, a morbideza calida de certas organisações doentias.

Ergueu a voz:

—Meu marido...

—Para que diabo vem agora o marido? pensei phrenetico, com um embate audaz no cerebro.

—Meu marido diz-me sempre ter em si, Armando, o seu melhor amigo.—Curvei-me.

—É uma honra...

—Cale-se, é apenas gratidão. O conde é sincero.

E mudando de tom:

—Armando, que idade tem?

—Vinte, condessa, bem monotonos na verdade.

—Vinte annos!—E a sua voz, de uma inflexão musica, era suave como uma caricia.

Eu sentia-me todo levado para ella...; mas de subito lembrei-me do conde, o meu melhor amigo.

Pobre Carlos! Áquella hora, jogava talvez no Gremio com os seus intimos, e perdia. Bello rapaz! Tinhamos sido condiscipulos no collegio, elle era casmurro nos seus significados de latim, levava puxões d’orelhas.

De uma vez, lembrava-me, haviamos jogado a tapona; elle tivera um gallo na testa, feito com um compendio de logica, a que nunca pudera chegar. E tinhamos ficado mal, indifferentes, todo o anno. E via-o magro e bonito na sua blusa de riscado cheia de tinta de escrever, um molho de chaves de bahús na algibeira, tilintando.

Ás onze horas ia ao club fallar em politica, altivo na sua opinião respeitada, entre conselheiros graves de calva e suiças claras. Á meia noite, Fatime, o vampiro, esperal-o-hia n’um coupé, a S. Roque, para irem ao Restaurant Club cear, e fazer depois a digestão entre beijos e champagne até madrugada, hora em que a bailarina costumava receber um trintanario loiro, trescalando a cavallariça.

E reatando a palestra, para dizer alguma coisa, perguntei:

—E a condessa, quantas primaveras?—Olhava de soslaio o seu largo collarinho azul e vinham-me suspiros evaporados d’uma grande indolencia.

—Dezoito, respondeu, mas estou velha, sabe?

—Uma aurora! disse eu com a petulancia de quem lapidou uma phrase com o meu tom de mais effeito, de que usava nos grandes momentos. O meu olhar cahia sobre ella, como uma má sina. Na penumbra, brancuras de seios empallideciam. E continuando:

—Quem tem dezoito annos é sempre feliz, innocente; aos dezoito annos a vida é uma benção, um aroma, uma perola... E queria ser eloquente, mas estendia-me, fazia má figura. Ella ria com os seus dentinhos brancos que recortavam de alvuras gulosas o escarlate lascivo da sua bocca humida.

E grave, passado tempo:

—Sabe, Armando, que essa sua prosa sujeita a rimas, dava bellos endecasyllabos?

Fiquei todo corrido, uma larga desconsolação espasmodica, as fontes aos baques.

—Oh! condessinha, é cruel. E sentia-me córar como um cabula.

—Olhe, quer que sejamos francos? A minha vida é bem triste. O conde é um rapaz adoravel. Vestidos, quantos appeteço. Manda vir joias de Paris. Não me recusa cousa alguma. Eu não queria tanto sim, vê? Porque isto mostra-me que elle me esqueceu cedo, que se não interessa por mim, que se não preoccupa dos meus caprichos, entende? Que me deixa ir assim, ao Deus dará. E juro, Armando—eu não lhe merecia isto.

Chispavam scentelhas do meu olhar na ampla dobra azul do collarinho. A sua tunica branca, immensa, apertada na cintura sem esforço, quebrava-se toda em dobras á roda, aos seus movimentos rapidos. E contra a luz os seus cabellos crespos, cortados em borla na fronte, lembravam fios de ouro sem liga. A sua voz tinha uma resignação penitente, afogada n’uma tristeza passiva e sem resolução.

Commentei:

—Oh! é injusta. Não é isso que o conde me confessa todos os dias.

O labio teve um escarneo cheio de meigas censuras.

—Realmente? Olhe cá. E elle diz então que me ama? Entendo. Armando pensa que o amor que elle lhe narra é consagrado a sua mulher? Porque, diga, Carlos nunca pronunciou o meu nome durante essas expansões. Seja franco, vamos. Mas diga então.

—De certo que pronuncía, condessa: é bem claro, é lógico.

Ergueu-se vivamente, a mão crispára-se-lhe.

—Mente, Armando, mente! Perdôe-me a injuria, mas falta á verdade. Elle ama apenas estas coisas, ouça:

E contava pelos dedos.—O seu cavallo arabe, o jogo de fundos e... digo?

Ria-se nervosa, desafiando.

—Condessa!

—Fatime. A dançarina judia.

Exaltava-se.

—Oh illude-se, juro que se illude. O conde está no Gremio.

—Armando, olhe bem para mim. Ousa enganar-me, então? E rapida, suffocada, risonha:

—Hoje á meia noite, elles cêam ambos. Quer saber aonde?

—Mas...

—É desleal occultando-me a verdade, repare.

—Como soube...

—Comprei os criados. Póde ir dizer a meu marido. Quando se é trocada por uma bailarina, fica-nos o direito de chegarmos até onde nos aprouver. Não lhe parece?

E atravessava-me com o olhar. O seio batia. Fugitivamente, os meus olhos iam casar-se na côr do seu collarinho. Curvei a cabeça sem responder. A condessinha insistiu com doçura, quasi em segredo:

—Não acha?

Fechei os olhos sem dar palavra. Sentia-me perturbado. Onde ia ella chegar? E depois lentamente, respondendo á sua pergunta, os meus labios disseram não, mas todo eu affirmei que sim.

Podem clamar quanto quizerem, mas a condessinha desejava-me, queria-me, ella, a esposa do meu melhor amigo, e a minha fragilidade sentia-se attrahida para ella, como uma aza de penna para um iman, sem remedio, sem consciencia e sem destino. Para que nos deixava o conde todas as noites sós? Para que a desgostava a ella, pobre criança innocente e caprichosa?

Havia uma semana que eu andava perturbado diante de Beatrice. Notára que os seus collarinhos de serão eram cada vez mais largos, e que o seu seio de um marmore fatal, em que destacaria bem o sangue d’uma punhalada, arfava impetuoso, se proximo de mim. As minhas noites entraram a ser riscadas com a phosphorescencia d’aquelle desejo, como um profundo mar entenebrecido e sombrio. Os seus olhos fixos e humidos de ancia, grandes como dois mundos, estavam sempre diante da minha vista. E o peor não era isso.

Mas aquelle diabo do collarinho...

—Armando, disse ella, bem sabe como eu sou supersticiosa. Vai acontecer desgraça por certo.

Olhe. Hontem, uma borboleta negra entrou-me no boudoir, em quanto tomava o meu banho tepido. Tudo estava fechado, as cortinas e as vidraças unidas, os stores pendentes. De modo que da rua, aquella fatal mensageira não veio, com certeza. Digo-lh’o eu, Armando, vai succeder desgraça. Não dormi esta noite, pensando horrores. O conde veio tão tarde!...

E baixinho, só para eu ouvir:

—E sabe, trazia no fato um aroma que não era o dos seus sachets. Eram os beijos de Fatime. Escusa de olhar para mim, Armando. Não tenho ciumes nenhuns. Ainda ha poucas noites, na walsa do Roberto, eu atirei flôres á bailarina. Porque é uma artista. E que belleza!

E lenta:

—Não tenho ciumes, não. Pobre conde! faz o que póde. Todos fazem o mesmo. Fosse eu homem, t’o cantaria...

E feito um silencio curto, os olhos baixos:

—A minha vingança é outra!

E lentamente, deixando cahir as palavras:

—Pena—de—talião!—Apre!

Ouvia-se o tic-tic da pendula. Eu erguera-me agitado, a tremer, sem uma palavra, sem uma idéa, sem uma resolução. Estavamos quasi ás escuras, e mesmo assim, eu via o seu collarinho decotado e a scintillação caustica dos brincos. Accendi sobre o fogão, duas serpentinas de bronze.

A condessinha immovel, de pé na sua pallidez fascinante, o penteado desmanchado, tinha um sorriso vago; e vendo a impressão que as suas palavras violentas me causavam, disse:

—Se o offendessem, Armando vingar-se-hia.

Eu ia protestar; ella juntou logo:

—Sou filha dos marquezes de Penha Longa; dez vezes mais orgulhosa por isso, que qualquer outra.

—Orgulho fatal! exclamei eu.

—Quero a desforra! Estou cançada de humilhações.

Eu avancei e disse com força:

—Seria indigno!

Beatrice resentiu-se, os olhos encheram-se-lhe de grandes lagrimas sublimes. Balbuciou:

—Armando!

Tornei asperamente:

—Seria cobarde!

E aproximando-me com voz curta, rapida e vibrante, como a d’um vingador colerico:

—É loucura ou crime? Hein?

Cahiu aniquilada no fauteil, terrivelmente pallida, os labios tremulos, dizendo imperceptivel:

—Oh Armando, Armando!... Fui amparal-a. Meu Deus! O peso do seu corpo enlouquecia-me; eu amava-a, eu queria-a! Atirei-me chorando a seus pés. Ah! que infame, que infame eu era!


O relogio deu meia noite. Áquella hora, o conde ceava com Fatime, n’um gabinete côr de rosa, do Restaurant Club. Bebiam talvez o seu champagne; o conde teria ditos de uma mordacidade equivoca; a judia gargalhadas sonoramente soltas. Resoaria um beijo... Nós ambos, a condessinha e eu, sentados no mesmo fauteil ceavamos alguma coisa excitante e bebiamos pelo mesmo copo, aos golinhos.

Beijos quentes, prolongados e devoradores, uniam os nossos labios impuros. De sobre o fogão, o retrato de Carlos olhava sorrindo o grupo. E um perfume mysterioso fluctuava.

Beatrice lembrou-se de repente:

—E o conde?

—Ora! Tenha juizo. Tambem, para que foi cear com Fatime? E rindo:—compraste então os criados; peça bem pregada! Nada de dar cavaco, percebes, nada de dar cavaco... Shut!

—Amo-te tanto, tanto! Aborreço o conde por tua causa. Quando elle apresentou aqui os seus amigos, lembras-te? Trazias as tuas polainas de caça, um nickerbokar de Pool, n’uma bonita e fresca manhã. Iam caçar. Eu fiquei á janella, em roupão, os cabellos despregados.

Bebia devagar, e ao cabo:

—Ah! Esta liberdade inebria-me, meu Deus; não póde ser um crime. Amar um homem que se viu depois de casada!... E muito baixo, phrenetica:

—Os teus cabellos, a tua bocca tão fresca, a tua pelle tão fina! Deixa-me morder, uma dentadinha pequena, para não fazer sangue.—Eu deitava champagne.—Mas perturbas-me, convulsionas-me, Armando! Um beijo: cala-te, cala-te, meu Deus! É preciso que me sintas: quereria morrer comtigo, no mesmo instante, dormir no mesmo caixão, n’um cemiterio de grandes arvores e sombras frescas. Endoudeço, enlouqueces-me!

E com os seus brancos braços de esculptura, fortes, sinselados e quentes, enlaçava-me o pescoço, um rubor febril na face, os olhos afogados n’um languor amoravel. E dizia-me terna, ternissimamente, como só as mulheres dizem na noite de nupcias:

—Tenho tanto peso na cabeça, Armando! Um somno tão grande!...

E toda ella vergava pesando sobre mim, a cabeça decahida no meu hombro.

—Vês como sou tão humilde, tão tua, nem eu sei... uma escrava.

Abandonava-se, suspirando. Os meus beijos desciam pouco a pouco pelo seu pescoço, em direcção ao seu collo.

Repetia:

—Uma escrava!...

—Mas ha pouco, louquinha, dizias-me tu tão altiva: Sou filha dos marquezes de Penha Longa, dez vezes mais orgulhosa por isso, que qualquer outra mulher. E agora? Incoherente...

E torcia-lhe o labiosinho amuado, côr de rosa.

Ella bebia. E fazendo estalar a lingua:

—Ah! Não repares no que eu disse. Nós fallamos sempre em orgulho e antepassados, quando não temos que dizer outra cousa. O papá era assim: nós aprendemos.

—Oh condessa! disse eu espantado.

—Ora! De mais o sabes tu. Dá-me champagne!

—Olha. E um beijo, outro, outro...

O conde ceava com Fatime, provavelmente.

Quatro Épocas
(CONTADO POR UM MISANTHROPO)

Por detraz da nossa casa, passado o laranjal, ficavam as oliveiras, manchando de pardo o terreno ondulante que uma herva espessa e florida cobria. As primeiras sezões que tive, por um verão de ha quarenta annos, agradeci-as aos calores insupportaveis a que durante uma semana me expuz sem chapéo, sem véstia e sem sapatos. No campo, segundo o costume patriarchal da gente pobre, mal o sino da igreja dá meio dia, o pai senta-se á mesa, defronte da mulher, os filhos á roda, e janta-se. Findo o jantar, a familia levanta-se conservando o seu lugar e cada qual põe as mãos. O pai e a mãi rezam em voz baixa, emquanto os filhos recitam alto a oração de graças pelo alimento d’aquelle dia. «Muitas graças e louvores sejam dadas ao meu Senhor Jesus Christo, pelos muitos bens e esmolas que me faz, tem feito e tem para fazer em quanto fôr servido.

Padre Nosso...»

Depois, o chefe abençôa os pequenos e manda-os tratar da vida; os mais velhos para o trabalho, os mais novos para a escóla. O mestre que tive era um relapso sem emenda. Dia sim, dia não, gazeta sabida! Que jubilo o meu quando, ao chegar com a pasta e a cantarinha d’agua, ouvia pelo taboado da escóla o sapatear rebelde dos rapazes e as vozes bramirem n’um côro estridente que dizia:

—Não ha escóla, não ha escóla!

Iamos em bandos depois, cantando praça abaixo, aos sôcos, aos empurrões e aos berros.

Uma vida de bezerros circulava nas nossas arterias sadias; uns atiravam com terra á cara dos outros, com pedras e com as pastas. Alguns dos mais graciosos arremedavam o mestre, fazendo carantonhas de estoirar de riso. Vários ainda, dos que moravam perto, iam jogar o botão, arrancando sem piedade as marcas das ceroulas e das calças e os botões das jaquetas e colletes. D’uma vez que appareci sem botões, minha mãi deu-me açoites com tão aspero chinello que nunca mais tive vontade de jogar. Aquella sova explica por ventura o asco que ainda hoje sinto pelos jogos—tão abençoada foi ella!

Já n’aquellas idades, que uma alegria embebeda de exuberantes e puras phantasias, armavamos panelinhas de tres, quatro e cinco, para a brincadeira. Succedia ás vezes, que essas pequenas sociedades eram surprehendidas pelo mestre em pagodes reaes. Levavam todos com a regoa ou iam de joelhos todos, conforme.

A minha era composta, do Chico Rato cujo pai era feitor em nossa casa, do Manel da Pomba, um loiro de olhos sinceros, mau como os demonios, e do Zé Estrello, hoje pastor.

Em dias de feriado ou de gazio toca para o olival dançar nos baloiços, fazer caça aos ninhos ou atirar pedrada velha aos telhados das adegas fronteiras.

D’uma vez apanhámos um gato que todas as noites nos ia roubar as crias dos coelhos. Atámos-lhe um baraço ao gasnete, pendurámol-o n’uma oliveira e foi pedrada até que morreu. Eu chorava de pena.

—Oh minha lesma! dizia com desprezo o Manel da Pomba, descarregando ás tres e ás quatro, sobre o pobre animal meio morto.

Mas o que mais nos divertia era o baloiço. Atavamos as arreatas das mulas umas nas pontas das outras; Zé Estrello, que era o mais possante, dava o laço na pernada solida de uma oliveira secular.

As pontas pendentes da corda eram atadas a uma cortiça rija, que servia de assento.

E estava prompto—um! dois! tres!

Começava a frescata.

Durante os cinco ou seis annos que serviu aos nossos prazeres, a velha arvore nem por um instante nos trahiu. A cortiça do baloiço era occupada ás vezes por tres rapazes. Quebravam-se as cordas e vinhamos ao chão; a arvore porém nem nos mettia susto, estalando. Boa e velha amiga que parecia feliz deixando-nos pender dos seus ramos metallicos, como esses cachos vivos de que fallam as historias maravilhosas!...

Uma noite, depois da cêa, estando todos ainda sentados á roda da mesa, meu pai fazendo a voz solemne, disse-me que eu estava um homem e precisava cuidar do futuro. Eu tinha uma forte admiração pelos carpinteiros, n’aquelle tempo. A arte com que elles punham branca, nova e polida uma velha tábua com que o meu canivete nada podia!... A habilidade para tudo ajustar e o gosto com que arranjavam os carros com que brincavamos, arrastando carretadas de trigo, pelas eiras—davam-me um pasmo sem limites e um desejo serio de lhes seguir a profissão.

—Eu cá quero ser carpinteiro! disse eu todo grave.

Meu pai bateu na mesa, e o senhor prior que estava presente, riu da minha ambição.

—Estás tolo, ou que diabo tens? disse meu pai de sobr’olho hirsuto, olhando-me.

—Vaes mas é para o collegio, como os meninos do cirurgião, ajuntou o prior com bondade.

Eu abri os olhos sem entender, ou tremendo de entender. Ir para o collegio, n’uma terra distante onde ninguem me queria, deixar o Manel da Pomba e o Zé Estrello, e a horta, a casa, o olival, o baloiço e a arvore amiga e tolerante? Que? De cabeça baixa, minha mãi não dizia nada. Puxei-lhe a sáia devagarinho, ferido de grande medo:

—Não quero ir, mãi, não quero ir!

Os olhos d’ella fecharam-se, e aos cantos das palpebras comprimidas, lagrimas silenciosas cahiram, de uma saudade que ainda hoje me entristece.

Tinha já nove annos e parti.

A lembrança que no collegio, á noite e após todo um dia de aulas, que a dureza dos prefeitos me enlutava de amargos desalentos, me vinha mais viva, mais inconsolavel e mais triste, era a da arvore velha do olival, que sem queixa me aturára tanto!

Bons tempos da infancia purpureados de risos e cheios do casto aroma da innocencia—que vos não verei mais!...


No collegio, á medida que os annos corriam e enraizava d’essas leaes estimas que servem para toda a vida, as puerilidades da aldêa apagavam-se-me pouco a pouco, como lampadas sem oleo em templos desertos. Da segunda vez que vim a ferias vestido como um pequeno senhor, de luvas e relogio, pareceram-me despreziveis as minhas velhas affeições. Fui uma tarde á escóla de chapéo na cabeça e bengalinha de junco. O mestre tratou-me por senhor e sentou-me a seu lado, córando da superioridade desdenhosa que eu mostrava. Os rapazes ergueram-se respeitosamente como se tivesse chegado o commissario dos estudos. Aquella gentalha de sapatos cardados, véstias de saragoça e camisas de pano crú fez-me nojo, e tive humilhação pensando que fôra assim tambem, por tanto tempo. Lá estavam nos seus bancos de pinho o Zé Estrello, o Manel da Pomba e o Rato, de cabello hirsuto, punhos sebentos e livros amachucados, olhando-me com esses grandes olhos dôces que certos cães d’agua fitam nos donos em os vendo a comer. Pouca gente entrára de novo na escóla. De vez em quando, o mestre batia com a regoa na mesa e gritava:

—Ólá do canto! Temos paulada não tarda um instante.

A casa immunda, cheia de cuspo e papeis rasgados, era de uma nudez ignobil.

—Aqui não aprendem francez? perguntei eu com uma superioridade que os meus dez valores na disciplina não justificavam muito.

E n’essa noite á cêa, em quanto meu pai olhava para mim n’um extasi e a ternura de minha mãi orvalhava de lagrimas o casto lenço branco que se lhe encruzava no seio, disse passando a mão pela testa e cabello, como via ás vezes fazer aos de Mathematica, no collegio:

—Lá fui á escóla, fazer o meu bocado de troça.

Aos quatorze annos estava um homem, espigado e pallido, com as olheiras symptomaticas da transição de idade. Era bonito e meigo, com mãos de mulher que veios azues reticulavam, como em certos marmores sagrados. As gengivas tinham-se-me descarnado um pouco, fazendo mais compridos os dentes.

Ardia na aspiração intensa de usar cabello crescido e fatos de casimira clara. O uniforme negro do collegio e o cabello á escovinha da ordem, torturavam-me o orgulho de rapazinho elegante. O meu grande desejo era ser externo, fumar e ir ao theatro. Um de Introducção já crescido, cahira uma vez d’um cavallo e a queda fizera-o idolo da rapaziada. Quem pudera tambem gozar de semelhante triumpho!—pensava eu por vezes, sentindo um ciume ardente do heroe. Uma magica das Variedades, onde fomos todos n’uma noite de carnaval, patenteou para mim o amplo scenario de um mundo com que o meu temperamento nervoso já sonhára confusamente. O de Introducção emprestára-me um binoculo, o que me permittiu observar meudamente as decorações, os figurantes e os camarotes. As bailarinas e os deuses vestidos de malha apertada, que lhes desenhava todas as linhas dos corpos, fizeram mo palpitações de arterias e seccuras de garganta. Havia um principe loiro de uma belleza sem rival. Amei-o cá fora, annos depois, quando já perdera a frescura e subira em preço—ai de mim! Era uma actrizita de dezesete annos, bocca vermelha e fallas musicaes, vestida de rapaz. Nada mais gracioso que os seus pequenos pés ligeiros que pulavam ondas, rochedos, abysmos e perigos—tudo de lona, é claro. A sua cinta era fina e flexivel, e as ondulações do seio scintillavam n’uma armadura de galão, ás escamas. Essa noite foi uma febre para mim, impetuosa, allucinada e tremenda. Que revolta, Santo Deus! Estendido no leito do dormitorio, onde seis ou sete dos meus condiscipulos tranquillamente dormiam, eu experimentava dentro de mim o quer que era de um desabamento. Faltava-me o ar e tudo me andava á roda. Que miseravel aquella clausura regulada a sopa, vacca, arroz e duas peras verdes! E dez horas de estudo, madrugadas peniveis, reprehensões, oppressões e malquerenças!... Sim, para além do collegio com a sua monotonia de claustro, as suas apostillas, as quintas, os domingos de folga e a roupa lavada duas vezes por semana, outra existencia auriflammante tumultuava em amores, em pompas, em perigos, e doidas phantasias preconcebidas e logo realisadas. E aquelle principe loiro, aquellas fadas azues, e as apparições que o magnesium idealisava de uma fascinação irresistivel, viviam, cantavam, amavam a seu bel-prazer assim vestidos, lançando á roda o cheiro da carne viva e sadia que chama os famintos de deleites, e faz rolar as libras dos perdularios. O candieiro apagou-se por noite velha. Ergui-me cautelosamente, em camisa de dormir.

—Que anda ahi? perguntou com voz de porta-machado o Carvalho, prefeito, que fôra de lanceiros.

Aquella voz enregelou-me, e tornei para traz como se por mim houvesse passado a maldição de Israel. O de Introducção trouxe-me romances.

E a leitura fructificou no campo que a magica das Variedades havia irrigado. A Filha do Parricida—que esplendido!—Já léste? dizia eu a toda a gente. O Filho do Diabo fez-me sonhar. E os Bastidores do Mundo, o Doutor Negro, e os Mysterios de Londres! Todo eu era escadas de corda, alçapões, raptos, personagens mascarados e juramentos solemnes.

No quintal ás vezes, reproduziamos as scenas terriveis que iamos lendo ás escondidas. Fingindo irmos a cavallo, encontravamo’-nos n’um recanto de rua.

—Quem sois? perguntava um.

A lua romperá, respondia outro.

Deixai passar, irmãos, fazia o primeiro, e cada qual seguia o seu destino.

D’outras vezes ao chá, um de nós exclamava arremessando ao outro um lenço:

—O senhor é um cobarde!

O insultado erguia o trapo, bramindo:

—Ah, que essa affronta só se póde apagar com sangue. Ámanhã no Bosque de Bolonha, ás sete.

—Lá estarei, senhor!

E iamos dormir em seguida, com o maior socego.

Estes devaneios eram positivamente um estado pathologico. Estavamos magros e pallidos, adoravamos as noites de luar e as inglezas de olhos claros e tornozêlo masculo, que nos domingos de inverno viamos sahir da missa dos Cyprestes, loiras e frescas, apanhando os vestidos. Um piano, uma voz de mulher, qualquer namoro e o menor promenor da vida das ruas, era para nós um thema de sentimentalidade. Suspiravamos por cousas ethereas e por aventuras trovadorescas. Estudavamos pouco e tomavamos oleo de bacalhau e ferro em pilulas. Aos quinze annos acabei os preparatorios, e nas ferias grandes que se seguiram, meu pai falleceu. Nas cidades, a morte do chefe da casa, chega a ser um episodio sem consequencias mais altas que o luto da praxe e duas missas rezadas—quando a familia não fica a morrer de fome. Muda-se logo de casa por via de regra, os filhos alargam a esphera dos seus habitos livres, e fazem acquisição dos vicios que não tinham. Em quatro mezes, o fim de cada membro da casa destroncada é comer alegremente as rendas que um trabalho agro por ventura accumulou, no espaço de uma existencia de acerrima labuta. O campo porém, conservando muitas das virtudes patriarchaes, dá a esta perda um caracter de fatalidade sem conciliação. A viuva envelhece de lagrimas e estiola como uma trepadeira queimada; um dos filhos se é homem, emprehende e continúa a tarefa do pai, adquirindo nos habitos, no amor e no respeito da familia o mesmo grau de fervor cego e de obediencia dedicada. Senta-se á cabeceira da mesa nas refeições, dirige os trabalhos do campo, recebendo as rendas, ordenando as colheitas e levantando-se mal o buraco luza. Mas o seu governo é todo nominal. Quem alli impera, quem a tudo preside, quem julga tudo e tudo ordena, é o velho, o marido, o pai, o outro, querido phantasma evocado a toda a hora e a proposito de tudo, cujo sudario até, vem estender-se de noite, n’uma alvura de nebrina a encher de fecundante orvalho as vegetações que elle proprio plantou. Quando meu pai fechou os olhos, eu estava bem pouco apto a retomar o arado que a sua mão exhausta deixára cahir. Era franzino e branco, de um temperamento irritavel á menor emoção, medroso, phantasista e indolente, a quem as duras profissões repugnavam como uma vileza, e a idéa da vulgaridade enchia de um terror supersticioso. Minha mãi chorava a toda a hora com dois irmãositos ao collo. A casa silenciosa parecia um tumulo profanado. Pobres como eramos, se um dia não velassemos a horta e o olival, a miseria bater-nos-hia á porta. E justamente quando eu ia entrar na Polytechnica!... Não sei como aquelle tempo passou. Ha coisas que até em idéa são sinistras. Lembro-me que perdi o anno e amei minha prima Martha, uma loira diaphana que viera para nossa casa, da herdade em que nascera.

Esse amor que era dôce, sincero e casto, deu a nota mais alta na escala romantica d’aquelle periodo da minha vida. Envergonho-me de o dizer, mas lemos Paulo e Virginia, Raphael, e o Atala em commum, ella vestida de branco porque eu lh’o pedia, eu de cabellos crescidos e grande lustro de pomada nas poupas.

Martha com a sua natureza contemplativa e triste, propendia áquelles lances patheticos da minha imaginação de collegial. Era de uma simplicidade dôce e de uma serena belleza, que os seus olhos azues enchiam de esplendores religiosos. Em ella olhando para mim, eu córava. Toda a minha ambição agora era fazer-me bonito e cidadão para me impôr á sua ingenuidade. Que primavera a d’aquelle anno! Depois do jantar iamos de braço dado através dos laranjaes em flôr, n’um tapete de campainhas, fumarias e malmequeres, ao rumor das noras e sentindo cahir a agua nos tanques da horta. Meus irmãos corriam adiante, com chapéos de palha, fazendo chiar os seus carros de pinho. Nós devagar, sentiamos no aroma nupcial das arvores o quer que era de benção que vinha em golfadas, sobre nossas cabeças. E debaixo da velha oliveira secular que já me protegera os brinquedos de garoto e cujas ramarias artisticas, de tons cinzentos, abriam ao sol o seu toldo amigo, o nosso amor efflorescia tranquillo como se de cima o olhasse, das folhas e dos ramos, o bom Deus de bondade com que os pequeninos sonham a sorrir.


Aos vinte annos o meu espirito soffrera mais uma transformação. Creára amor pelo estudo e sentira a necessidade de um ponto de vista em sciencia, que lhe permittisse sugar dos seus asperos labores um certo numero de noções praticas para a vida de cada dia. O curso de sciencias naturaes conseguiu destruir todo o mundo romanesco e labyrinthico que eu idolatrava em arte, dando-me um certo gosto a final pelos estudos de observação. Comecei por queimar todos os romances inverosimeis dos snrs. Terrail, Reynolds, Feval, Montepin e Zaccone. Depois executei os snrs. Feuillet e Feydeau; em seguida fui-me aos poetas e vendi-os a oitenta reis o volume—por escarneo. Nas ferias herborisava com um amor de que um anno antes me julgaria incapaz; partia de manhãsinha levando os cadernos de dissecação na bolsa de caça, e um estojo de tubos de vidro munido de compridos alfinetes no bolso—para as collecções de insectos. Ao cahir da noite voltava com duas perdizes á cinta e alguns coelhos, os tubos cheios dos coleopteros caçados, uma multidão de plantas curiosas esmagadas no album.

Minha mãi que não comprehendia o meu interesse pelos bichitos, muita vez me olhava surpreza, vendo-me estar horas esquecidas com um aptero no alvo de um microscopio de Raspail que eu adquirira no leilão de um classificador. Como se ergue lentamente o store colorido de uma janella, através de que um panorama vivo se enxerga, assim os estudos de analyse erguiam de sobre o meu cerebro as phantasias bizarras e piegas permittindo-me palpar e surprehender a natureza no drama da sua gestação colossal. Longe de me deseccarem as faculdades creadoras e as aspirações saltitantes da imaginação, aquelles trabalhos minuciosos, pacientes e nem sempre coroados de exito, davam-me ás vezes concepções delicadas, de larga elegancia artistica. Adquiri na phrase uma precisão incisiva, de pensador.

E cheguei a classificar um homem ao primeiro golpe de vista, como fazia a um insecto posto no foco de uma bella lente de crown-glass. A aridez das primeiras tentativas não me arrastou a essa tristeza morna e aborrecida de certos padecentes de dyspepsias chronicas. Por esse tempo era eu um grand gaillard vermelho e forte, com mãos solidas e afeitas indifferentemente ás argolas do trapesio, ao cabo da enxada e aos escalpellos do amphitheatro. Comia, como vulgarmente se diz—como um alarve, tinha o sangue vivo e sadio, casto além d’isso. A residencia no campo, após a morte de meu pai, operára a metamorphose do individuo anemico, secco e propenso aos delirios da imaginação voluptuosa, no util primate de sangue quente e respiração pulmonar, capaz de derrubar a Sé com um socco e ser levado á morte pela mão de uma criança. A reclusão dos livros reporta o homem a uma simplicidade dôce e austera de habitos e emoções, e fal-o bom depois de o haver feito grande.

Nenhum tonico mais efficaz á saude do espirito que a saude do corpo. Uma enformatura de athleta tem de ordinario um rouxinol por alma. De fórma que eu sentia a bondade extravasar de mim como nos tempos biblicos o oleo de naphta da urna da santa mulher, que ajoelhada ungia os pés de Jesus. Os violentos exercicios em que o esforço muscular se despende, a carreira, a gymnastica e a caça, faziam a minha paixão dando-me o culto da minha propria fórma. Erguia verticalmente os dois braços, tendo em cada mão sentado um dos meus irmãositos—cousa que assombrava o Zé Rato e fazia contentes os garotos. Diante dos grandes espectaculos em que a natureza expende a mãos plenas o jogo icaro das suas forças harmonicas, a minha alma tinha fremitos d’azas como as andorinhas que vão atravessar o oceano. A vacillação fatalista do periodo lamartmiano fôra substituida por uma comprehensão logica dos factos, por uma tranquillidade honrada á idéa do futuro e pelo testemunho da mais sã consciencia. Entrei a fazer religião do trabalho, o que me permittiu não pensar mais em Deus, tendo-o sempre no coração. As mulheres eram concordes em que a minha belleza era superior á minha amabilidade. Uma senhora achou-me uma noite a conversação de um lente. E algumas diziam de mim:

—Pretencioso!—porque lhes não fallava das locaes amorosas e das revistas de modas.

Comprehende-se que o meu enthusiasmo puritano por tudo quanto era grande, não sobrasse para o espartilho das serigaitas que se me agitavam no caminho.

Assim modificado, tinha agora o mais completo desprendimento pelo que se chama gozar. Apagára-se-me o ideal pelintra de muito folhetinista imberbe, que consiste em ser comprimentado á porta da Havaneza por tres burguezes que passem, mostrar todos os invernos tres pares de calças novas sobre dois de botas velhas, e um plastron vistoso n’um seio tuberculado.

A ostentação e a exterioridade enfastiavam-me como certos cheiros de acidos vegetaes. Odiava em geral o ruido e o luxo, não achando digna de um homem serio qualquer das languidas que nos passeios e nos theatros via desfilarem, monotonas e sorvadas, por diante de mim. No seio dos meus papeis ou na intimidade flagrante da natureza em festa, sentia-me outro homem, respirando saudavelmente e digerindo ás mil maravilhas; uma alegria penetrava-me com essa entoxicação anodina do gaz hilariante, nos organismos nervosos, e eu crescia e revigorava sentindo a vida como um beneficio sem preço. Foi durante esse tempo, o mais laborioso, o mais infatigavel, o mais util e o melhor de toda a minha vida, que pude realisar as collecções de insectos que hoje pertencem á Escóla Polytechnica e me valeram os emboras dos grandes trabalhadores da Europa, e estudar quasi completamente a flora continental que Brotero deixára lacunosa. N’estes trabalhos depurára-se a minha sensibilidade ao extremo de me commover perante uma bella arvore ou ao cabo do estudo de qualquer complicado coleoptero. Um individuo vegetal captivára o meu amor ardente, apaixonado e ingenuo. Era ainda a oliveira que desde a infancia me offerecia a sua sombra benefica, a sua ramaria frondente e a enorme corpolencia secular do seu tronco. Que grandeza, a d’esse gigante que uma especie de bondade envolvia e divinisava!...


Aos cincoenta annos tinha os cabellos brancos e a pelle rugosa. Minha mulher, de compleição doentia dera-me filhos sem saude e de sensibilidade estranha. Eram pequenos pallidos de grandes olhos ardentes e mãos febris, frageis e curiosos, cujo futuro me fazia tremer.

Estava cançado e velho. Toda a vida sentira pelo dinheiro um desprezo sem limites, não lhe dando a honra sequer de o accumular. Perdera a vista do olho direito, aos trabalhos do microscopio. Era mais pobre que no tempo de meu pai—tinha apenas de meu o olival. Para economisar, dirigia eu mesmo os trabalhos do campo e andava vestido de saragoça. Ás vezes, vinha-me o remorso de não ter alcançado uma fortuna para essas pobres crianças, que a perpetua contemplação do mesmo panorama parecia enlutar de melancolias negras e de presentimentos funestos. Pouco a pouco, á medida que os annos me polvilhavam de neve os cabellos, ia experimentando uma irritação surda pelo meu passado laborioso, mas esteril d’essa cousa vil e preciosa chamada moeda. Não tinha senão despezas; lucros, raros! Então reneguei da heroica abnegação de outros tempos, tornando-me vulgar, macambuzio e cheio de admiração pelos lavradores opulentos da visinhança, que recolhiam vinho ás adegas e trigo aos celleiros. Os filhos d’elles espesinhariam talvez um dia os meus filhos, vingando a imbecilidade dos paes da orgulhosa superioridade com que eu os tratára. Os filhos d’elles seriam felizes, cheios de confortos e prazeres, com a faculdade de estudarem onde bem quizessem, e de fazerem fortuna como bem lhes parecesse. E os meus, mal enroupados, doentios e invejosos—quem sabe!—se conhecendo um dia a minha historia maldiriam a intransigencia do meu caracter e a pouca solicitude com que lhes tratára dos interesses!

Os meus dias então eram levados em percorrer o olival, no calculo dos litros de azeite que me renderia a colheita. Que desalento aquelle meu! As arvores não carregavam todos os annos: enchia-as de pragas, e maldizia a minha vida.

A oliveira secular sómente, comprehendendo a minha situação e adivinhando a angustia d’aquelles passeios solitarios, procurava com fructos abundantes compensar o modesto tributo que as outras arvores tão custosamente me pagavam. Fôra para mim a eterna mãi affectuosa, de cujos ramos pendera criança, a benevola confidente que cobrira do seu docel de folhagens o meu amor por Martha, o esplendido e victorioso vegetal diante de que o meu extasi de botanico tantas e tamanhas vezes tinha exultado. O amor que eu lhe votára soffrera as quatro phases de todos os amores da vida humana, em transigencia sempre com a orientação do caracter e com o progredir dos annos. Fôra primeiro, o amor de criança incoherente e doido; fôra mais tarde o amor de adolescente, idealista e reveur, representativo da idade em que o homem desaggrega da alma as crenças innocentes e começa a participar da influencia dos primeiros instinctos masculos. Transfeito no amor de sabio elevára-me até regiões altivolas.—Depois, no inverno da vida, aquella emoção archangelica primeiro, impregnada de poesia radiosa depois, e tornada sublime por fim, decahira no vil egoismo que mais prefere aquillo que mais rende, impressão sem grandeza e sem ideal, derradeira efflorescencia da alma obcecada pelos interesses, pelas amarguras e pelas oppressões!