CANTO IIII.

Foise em folias a seguinte noite.

Mas asim que a lus alma avermelhando

No orizonte as globozas nuvemzinhas

Comesou a doirar o cume aos montes,

A vensedora jente enfurecida

Respirando outra ves carnajem, sangue,

Vai de rota batida, e compasada

Ao som dos belicozos instrumentos

Demandar do Mondego as marjems frescas.

A seu salvo xegando se alojárão.

Fas-se conselho, e por comum acórdaõ

Para a um tempo levar ao Porto, e Aveiro

O terror, e a vitoria Nerêo parte.

Em quanto isto asim pasa, ja Coimbra

Bem como um formigueiro fervelhava

Atonita bradando. Eis muito conxo

Correndo á présa contra seu costume,

Vem um cambaio tutelar das aguas,

O gago Vitorino, e o Santareno

[6]

Fanfarrão desta sorte dezafia.

Cá-cá fora me'amigo, cu na rua;

Á de ir aqui tu-udo c'o a maleita.

E ve-ve-ve veremos, e veremos

Quem-quem leva a melhor: xê-xegá'gora

Um nunca visto inzercito de jente;

Saõ co-como mosquitos: se tem barbas,

S'hé-s'hé-s'hé-s'hé capás ponhase em campo.

Qual grande Ferrabrás no xaõ deitado

Desprezando do garrulo Oliveiros

O louco dezafio, o Eroi prestante

Do Rino desprezou o stultiloquio.

Naõ se altera; em seu rubido semblante

Naõ poim o Mêdo as cores da fraqueza.

Lijeiro, quanto sofre a corpulencia,

Á trapeira alta sobe onde vijia;

E axando ser serta a guerra em caza,

Maõs perdidas, dis ele, saõ: ja'gora

Ou venser, ou morrer. Xamase ás armas,

E toda a jente sua acode prestes.

Acodem d'Alemtejo, e Estremadura

Bizarros Campioins: da Vidigueira,

Vila de Frades, Borba, de Vilalva,

Setubal, e Palmela. De Lisboa

Axaõ-se os Carcavélicos mansebos

De furibundo senho. Estaõ do Algarve

Mil Soldados d'embarque destemidos,

Mil de sima do Doiro, e das Bairradas;

E saõ mais de dés mil Coimbricenses.

Toda esta Soldadesca, he bem verdade,

Cavaleiros naõ saõ d'aureas esporas:

Saõ rotos, bandalhoins, babozos, porcos;

Mas qualquer deles um Eroi xapado

De inaudito valor, corajem suma,

Capás de se avansar ao mesmo Alcides.

N'uma palavra bebados eternos.

Entrase a rezenhar: cazo estupendo!

Inda a mais d'um milhaõ monta a rezenha.

Formarse vaõ da Feira ao grande largo.

[7]

A linda variedade em farda, e armas

Os olhos encantava: grande parte

Em cambudos capotes romendados

A trouxe mouxe postos se rebusa:

Parte em mangas, e pernas, sem sombreiro,

Xeia de impavidês caminha aos tombos.

Este trás um pixel, este trás quatro

No alforje a tiracolo: um tres borraxas

De admiravel grandeza, e tudo xeio.

Armados todos vem muito á lijeira:

Nada de arnezes, peito descuberto;

Á excesaõ dos rompentes granadeiros

Que feitos vaõ ali cabides d'armas.

Com grevas, bacinetes, e lorigas

Bem poucos se embarasaõ: a rodela,

A talhante farrusca colubrina,

A adaga, o varapáo, a masa, o xuso,

Comforme cada um melhor se ajeita,

He tudo quanto importa á mais da tropa.

Nas pezadas carretas rexinantes

Temivel ali vai das bocas negras

A ignívoma tormenta: até naõ falta

Quem leve junto a si seu caõ de fila.

Entaõ sobre um jumento de atafona

Ricamente ajaezado, o Santareno

As odreas pernas escarranxa a custo.

Veste de bode um tresdobrado coiro;

Poim um elmo de vides enlasadas

Na caveira d'um tigre tremebundo

Que lhe a grande carranca asombra, e adorna,

E empunhando na dextra uma tarasca

De dilatada folha, vai bizarro

Puxando os batalhoins para o combate.

Tanto que do lugar alcanse ouveraõ,

E os raivozos imigos avistaraõ,

Fas alto o Santareno, expede as ordems,

As fileiras divide, o campo asenta.

Depois entre um salseiro procelozo

De perdigotos que da boca xove,

Da sua jente á testa asim troveja:

Lembrar-vos, generozos Camaradas,

O que ides a fazer, fôra esqueserme

Até de quem vós fois: eu sei que o brio

A cada um de vós outros alentados

Na ponta do naris brilhando salta.

Ou morrer, ou venser: a cauza he nosa.

As Aguas de bazofia em vaõ naõ se enxaõ,

Custelhes caro se venser quizerem.

Corajem, meus amigos, oje a gloria

Q'ate'qui se ganhou naõ vá perder-se.

Nos animos calou vinhi-potentes

De tal sorte a razaõ destas palavras,

Que cada um deles se reputa um raio,

E ja para envestir as trélas roem.

Agora, ó Muzas, naõ falteis ao Vate,

Asopraime no peito o extinto fogo,

Que he precizo cantar melhor que nunca

O combate maior que os evos viraõ.

Deu sinal a trombeta Neptunina

Aspero, forte, atrós, e formidavel:

Nas cabesas as grenhas se arripiaõ,

Bate mais forte o corasaõ nos peitos.

Comesaõ-se a mover as longas alas;

O medonho alarido se levanta;

Daõ fogo os mosqueteiros; da descarga

Sobe rapido aos Ceos enovelado

O denso negro fumo; c'o estampido

Os cavernozos montes retumbando

Enxem tudo de orror. Dos grandes eixos

Parecia que a máquina do mundo

Sacodida, em pedasos se fazia.

C'um asoite na maõ de duro ferro

Os cruentos cavalos instigando

Girava a impia Guerra o campo todo.

Os Soldados que a viaõ se animavaõ.

A Dezesperasaõ á redea solta

Corria furibunda, e sem maneira.

As incendidas balas estridentes,

As mortíferas xusas enristadas,

Gemidos arrancando aos mizeraveis,

Um inferno faziaõ. Alastrado

De sangue viu-se em breve, e corpos mortos

Da orroroza batalha o sitio extenso.

[8]

Rocio, que em razaõ de vizinhansa

O nome erdado tems de Santa Clara,

Se gloria ganhas oje em ser teatro

De taõ sanguinolenta brava guerra,

O nome mudarás, e dos vindoiros

Virás a ser xamado o campo Marcio.

De forsa neste dia altos prodijios

A gente Bacanal fes mais que nunca.

Qual, semelhante ao gato entre podengos

Que o lombo em arco tendo enxorisado

Fas provar velosmente em pulos destro

Aos audazes fucinhos circumstantes

Das curvas fisgas os lembrados golpes,

Para um, e outro lado dezenvolto

Murros, e pontapés fervendo atira:

Qual d'um talho c'o a espada aos dentes xega:

Qual d'uma vês c'o a xusa quatro enfia.

Mas ja um Foca enorme e gueludo,

De dente anavalhado, unha rompente,

Cujo coiro entezado e verde-negro

Se ria das mais fortes cutiladas,

Um vinheo Capitaõ tragando estava,

Quando o intrepido Andrade irozo acode.

[9]

Aqui ainda viu do mizeravel

Engolir os restantes calcanhares.

Da vingansa o furor lhe sobe aos olhos,

Avansa ao monstro, e sobre o craneo rijo

Da inimiga cabesa vensedora

Com um buxo roliso (arma cazeira)

Mil golpes fulminando, o quebra, e esmaga.

Tremeu convulso o monstro; e o bruto sprito

Aos ares se soltou envolto em sangue.

Acodem muitos Focas, o Eroi cercaõ.

Os aquozos Soldados trepidantes

De fila cem membrudos cains lhe asulaõ;

E, quais sobre a bigorna os malhos batem,

As dentadas sobre ele a miudo fervem.

Andrade volta a um tempo a todas partes

O braso vingador: destróe, derruba,

Atropela, maxuca, abola, mata.

Mas sendo ja sem conto os inimigos,

Depois de longo espaso de conflito,

Falto de forsas vai beijar a santa.

Aqui (quem crerá tal?) a todo o trance

Com mais de quatro mil inda combate.

Grandemente bufando aflito espuma,

Revolvese, braseja, e o xaõ mordendo

Pasmozos coices enraivado atira.

Forma mil carantonhas formidaveis,

Qual trovaõ rujidor medonho berra.

Das dentadas a orrivel tempestade

Ja quazi o sosobrava; eis dando um pinxo

Em pé se torna a pôr, e a brava xusma.

Em fanicos desfás c'o a masa dura.

Naõ te déraõ da fonte as alimarias,

Valente Palmeirim, tanto trabalho;

Bem que viste o broquel feito em pedasos

C'o as leoninas unhas; bem que o tigre,

Que a mal cortada perna inda arrojava,

Te fes afucinhar c'o a garra ardente.

N'outra banda com obra azafamado

O ferós Damiaõ como um corisco

[10]

Cae sobre o inimigo: aqui o atacaõ,

Aqui destro acomete, rompe, asola.

Cada pedra que solta he uma granada

Onde vai desfarsada a orrenda morte.

Destrosa seis Delfims mesmo a pé quedo:

Fas rosto a dés varoins dos tais pixozos,

E do primeiro encontro os desbarata.

Xovem nele os pelouros abrazados

Dos áqueos Soldados impelidos,

Como sobre os telhados em Janeiro

A saltante saraiva que Euro impele.

Ante os muros de Pérgamo mais bravo

O filho naõ pugnou da branca Thétis.

Nem eu te calarei, Caetano ilustre,

[11]

Asombro de valor, peito de Marte.

Tu ali sobre a terra o pé batendo,

Pancraciasta acérrimo, insofrivel

Mais de mil desqueixaste a murro sêco.

Mesmo o Duque Nemé famozo em murros

De deitar-te agua ás maõs capás naõ era.

Mas naõ soprava a pérfida Fortuna

Com ventos de servir á gente aquatil;

E sendo ja sensivel a derrota

Tocar a recolher manda Oceano.

[6] Vitorino, ou Rino: Aguadeiro de mal semeadas barbas, de gambias escanxadisimas, de gaguês inexplicavel, e de uma paxôrra inata na condusaõ de seus carretos.

[7] Ao grande largo. Tudo vai das ipotezes.

[8] O sitio extenso. Repito o cavaco que dei respetivamente ao largo da Feira.

[9] Andrade. Uma afetada doudice, ou uma continua bebedeira, um tezaõ arrogante, uma catadura tôrva, e uma eterna bandalhise, saõ os caratéres que fazem sempre formidavel este fasanhozo Sapateiro.

[10] Damiaõ. Ha tres especes de embriaguês; de leaõ, de galo, e de porco. A 1.ª pare os disturbios: a 2.ª as galhofas: a 3.ª o deleixamento. A deste Pedreiro he da 1.ª espese; e conseguintemente funestos os seus efeitos.

[11] Caetano. He um quidam sexagenario, bebado da 2.ª espese, cujas dezencaixadas xocarrises nos fazem ver, que he um daqueles genios que sempre estaõ de caninha n'agua.