CANTO VI.

Geme o Padre Oceano inconsolavel

No fundo de seu peito, e mais aguda

Comesa a renovarse a dôr antiga.

O malogrado fim de seus dezenhos

He um dardo punjente, que as entranhas

Lhe pica, e despedasa; e quem naõ soube

Dos purpureos Erois ceder ás forsas,

Em fim cede á mortal melancolia.

Tanto póde a paixaõ n'uma alma grande!

Fexase triste no tentorio Regio;

Nimguem ouza falarlhe; solitario

Só quer por companhia o pensamento.

Pasadas oito oras em silencio

Manda entrar os seus Cabos: pensativo

Sobre a meza encostado o cotovelo

Na maõ esquerda descansava o rosto,

Gotejandolhe em lagrimas banhadas

As venerandas cans da longa barba.

Amados filhos (vagarozamente

Tendo erguido o semblante macilento

Asim lhes dis) Amados filhos, nunca

Taõ fera atasalhou meu peito forte

A tirana Paixaõ! Nunca minh'alma

Tanto vi afracar!... Fatal derrota

Foi esta que no livro do Destino

Lavrada estava em caratéres negros

Pela férrea maõ da atrós Desgrasa!

Nosas forsas (as forsas invenciveis

Que tem amedrentado o mundo inteiro!)

Abatidas as vedes, destrosadas

Por barbaros Salvajems, por ums brutos

Que nada por si tem mais que fortuna.

He pois tempo, surjâmos acordados

Deste pelago vil de cobardia

Onde a triste vergonha nos asoita.

Para o imigo venser quem se embarasa

Que aja esforso, e valor, ou que aja dolo?

O que forsas naõ daõ, ardís alcansem.

Todo aquele que vir que melhor póde

Ao exito xegar do que intentamos

Meta maõs ao trabalho, dêse présa

E reduza a pedasos esta canga

Que tanto no caxaso nos carrega.

Levantase do asento entaõ pacato

O Velho guardador dos grandes Focas,

E no meio do cónclave luzido

Dest'arte descarrega a consciencia.

Até'gora eu naõ quis a colherada

Nestas coizas meter; vós tendes feito,

Tendes acontecido, sem quererdes

Pedirme, nem ouvir os meus concelhos,

Porem quando a tortura a tal extremo

As coizas vai levando, oporme devo,

E servir a meu Rei, qual poso, e valho.

Os Deuzes, caro Pai, tem-me ensinado

As coizas do por-vir caliginozo,

Eu antevi estes dezastres feios,

Mas eu sem ser forsado naõ predigo.

Por castigo talvês dos Deuzes fose

Ao voso dezacordo.... Porem basta,

Ja tudo se pasou, agora eu mesmo

Tomar á minha conta a empreza quero.

Socega, amado Pai, o Eroi da pinga

De meus tiros o alvo a ser comesa.

Recobrou novos animos o Padre,

E do filho nos ombros sempre firmes

O pezo descansou da grande guerra.

Proteo, que nos ardís exp'rimentado

Fôra sempre instrumento a mil fasanhas;

E cuja calva frente laureada

De importantes facsoins sempre saíra,

Um pouco sobre o cazo consid'rando,

Este acordo felis contente abrasa.

Vaise ter com a Astucia enganadora.

He esta uma rolisa Mosatona,

Que vestida de peles de rapoza,

E empunhando na dextra um rico cetro

Domina sobre os omems; manda, impera

Os indomitos tigres, quais cordeiros.

Em quanto pois bulindo dezenvolta

Lhe xamejaõ os olhos inquietos

Por ouvir o que quer dizerlhe o Velho,

Eu quero, lhe dis ele, que te empenhes

Agora em socorrerme quanto pódes.

De Baco um General meu inimigo,

Xamado por alcunha o Santareno,

Do esforso ou da fortuna socorrido

Tem triumfado das aguas. Oceano

Ja derrotada a flor de sua jente

Suspira inconsolavel. Mas dos livros

Do tremendo Destino irrevogavel

Eu sei que o Santareno ao ferro ao fogo

Naõ tem de dar a vida nas batalhas;

Pois uma pouca d'agua em ora infausta

Bebida, ha de arrancarlhe ao corpo o sprito.

O buzilis porem consiste agora

Em fazerlha beber sem que ele o saiba,

Por quanto este animal temlhe odio eterno.

Todavia a este laso que lhe tramo

Fugir naõ poderá. N'um arrabalde

Naõ lonje da Cidade, brevemente

Farsehá uma funsaõ que ele naõ perde.

Aqui pela canseira do caminho

Moído xegará, suado, e laso.

Forsozo he pedir vinho, isto naõ falha.

Tu pois, que és marralheira, ásde mui prestes

Em sua mesma Môsa transformarte;

E eu tornado em agua facilmente

Na vazilha entrarei que tu lhe deves

Lampeira ministrar. Ele sedento

Nem se he vinho, ou se he agua reparando

A enfuza vazará no grande buxo.

Deste modo a meu salvo os intestinos

Ávido devorando o darei morto,

E terei concluido a grande empreza.

Vamos pois sem demora vem comigo.

Vamos onde quizeres; insofrida

A Astucia respondeu. E logo promptos

Metidos n'uma nuvem negrejante

Tirada por seis Euros rujidores,

Despejando coriscos sentelhantes

Ao orrorozo som d'um trovaõ grande

Sobre a airoza Coimbra em fim baixáraõ.

Mas como do Deleite o Santareno

Estava no país, ordena Próteo

Que a Astucia dali sacar o fasa,

E á Cidade o conduza aonde a trama

Para o pobre cair armar pertende.

Entre os longos Estados da Mentira

Infame Imperatris da maior parte

Da terráquea mole, junto ás fraldas

D'uma verde colina alcantilada,

Sobre um campo espasozo, plano, ameno

A que regaõ d'um rio as mansas aguas,

A galante Cidade encantadora

Do vaidozo Deleite está plantada,

A pálida Doensa, os Desprazeres,

Os Remorsos crueis, a orrivel Morte

O cume senhoreiaõ do alto monte.

Mas o Engano traidor, c'um tolde espêso

Tudo isto ávido encobre á gran Cidade.

Nela tudo he prazer, tudo he descanso.

O povo abitador ao ocio dado

Só cuida em divertirse: o Baile, o Jogo,

Os Cantos, a Luxuria, os Boms-bocados

Aqui abítaõ ledos: pelas ruas

Amplas Satisfasoins andaõ jirando

Ministros de seu Rei: seu Rei parese,

C'o as fraudolentas côres que a Mentira

Arteira sobre modo o tem pintado,

Um rapás mui lousaõ de afavel jesto.

Aqui de toda a parte os povos correm

De seus serios deveres deslembrados

A pedir a este Rei, quais seus dezejos,

Tais as Satisfasoins, que outorga facil.

Aqui a avía vindo o Santareno,

E a meiga sua Espoza a Santarena,

A pasar algums dias satisfeito

Do fim da grande asaõ com que ultimando

A mais árdua vitoria felismente,

Tinha a um nome de impávida memoria

Por entre o ferro, e o fogo alcanse dado.

Mas a doloza Astucia que naõ sabe

Desvelada perder monsaõ de efeito,

Por Próteo instigada, em continente

As cambiantes azas solta aos ares,

Dá nele d'improvizo, e asim o ataca:

Dos remorsos se val acuzadores;

E por uma maneira extravagante

De seu alto saber somente propria,

C'o as cores da razaõ na triste ideia

Seu vil procedimento lhe debuxa.

Faslhe ver com a mesma consciencia

Como he mais justo que um Eroi constante,

Que as desgrasas tratou de bagatela,

Em as prosperidades naõ se infune.

Que naõ dê que falar ao povo rude,

Que murmurante na Cidade o acuza

Pelo ver aos prazeres taõ sensivel.

Que deve a sua caza retirarse,

Tirar do vencimento util proveito,

Naõ confiarse em si, porque inda as Aguas

Estancado naõ tem as forsas vastas.

Aqui do astuto Anibal traslhe á mente

E do Magno Pompeo exemplos vivos,

Que ja devem fazelo escarmentado.

Em fim estas solicitas lembransas

De tal sorte do Eroi fervelhaõ n'alma,

Que em si caindo parte rezoluto.