D
DAMA—Mysterio, desde que se usa pintar o cabello.
DANÇA—Arte das pessoas de juizo se fingirem doudas.
—Pão de ló das jovens casadouras.
—Invenção para fazer dar urros aos maridos ciosos.
DECADENCIA—Entrada no beaterio. Oh! meu S. Luiz, rei de França, compadecei-vos{76} d'elles, com um bom milagre... passado!
DECENCIA—Uso de certos viajantes, que calçam chinellos, nas carruagens dos caminhos de ferro, depois de terem descalçado as botas.
—Não dormir de bôca aberta... diante de gente.
DECIMA—Vesicatorio politico.
—A fórma menos poetica, e mais detestada pelos contribuintes.
—Estrophe que arranha e franze as barrigas dos funccionarios publicos.
DEFEITO—Esconda os seus, leitora amavel e benevola. Não sonhe aquella pessoa que V. ex.ª lhe prefere o seu jornal de modas... e os pés de porco. Depois de casada é outro cantar!{77}
DEGRAU—O lombo popular.
DEGREDO (TERRA DE)—Tijela da casa, onde se despeja a lavadura dos tribunaes.
DELICADEZA—Ha grande falta no mercado.
DELICADO (HOMEM)—Leão que esconde a garra. É preferivel ao que a mostra, com tanto que nunca mude.
DEMISSÃO (PEDIDA)—Remendo deitado no manto da dignidade.
—(DADA SEM SE PEDIR) Buraco aberto na reputação.
DENTADA—Modo por que os cães imitam varios criticos.
DENTE (POSTIÇO)—Um intruso n'uma reunião de familia.
—(FURADO) Hospede importuno.{78}
DENTISTA—Homem que repõe o que tira.
DEPUTADOS—Deuses em perspectiva.
DESAPPROVAR—Officio das opposições.
DESAVERGONHADO—Papel mata-borrão com muito uso.
DESCARADO—Fazenda a que o sol comeu a côr. Fica peior, tingindo-se... com a hypocrisia.
DESDEM—Mascara que quasi sempre se vê no rosto da inveja.
DESEJAR—Desejar o que pertence ao proximo é um mandamento da cartilha de certa gente. E parece que o proximo fica ás{79} vezes muito lisonjeado e agradecido, segundo a mesma lei novissima.
DESGOSTO—Parece incrivel como se supportam bem os que se causam aos outros!
DESGRAÇA—Pesa-amisade.
—Espantalho de afugentar gente.
DESHARMONIA—É o estado actual dos espiritos, tanto na ordem moral e religiosa, como na politica e na litteraria.
DESINTERESSE—Bonito bicho! D'onde veiu elle?...
DESMAMAR—Demittir de emprego rendoso.
DESPOTISMO—Freio na bôca e espora{80} na barriga. Ainda ha muitos amadores. Que lhes preste!
DESPREZO—Legado que eu deixo aos meus inimigos.
DESTREZA—Meio de arranjar dinheiro... ou cadeia.
DEVASSO—Parafuso que estragou as roscas na porca da consciencia.
DEVER—Não dizermos nunca tudo quanto pensâmos. Quem mostra o coração, mostra o lombo.
—Não emprestarmos dinheiro aos amigos, para nos não arriscarmos a perdel-o. Os amigos são raros; mas o dinheiro é mais raro ainda, e por isso antes perder aquelles do que este.
DEVOTA—Vivandeira da milicia divina,{81} que faz serviço com os olhos no céu, e com o coração na sacristia.
DIABO—Espantalho que já não afugenta passaros da figueira do peccado.
—Nome que se gasta como canella.
DICCIONARIO (DE JOÃO FERNANDES)—Raboleva nacional.
—(EM CINCO VOLUMES) Palheiro incommensuravel.
—(IDEM) Rebanho de sandices.
—(IDEM) Babel da lingua portugueza... e bunda.
—Besta de carga, sendo dos meus collegas.
—Fonte de sciencia, sendo feito por mim.
DIGNIDADE—... Conhecem? Coitadinha! Se sabem onde ella está, calem-se, para não assanhar ninguem.
—Palavra em que o singular nem sempre se põe de accordo com o plural.{82}
DINHEIRO—A prova mais evidente de que a união faz a força.
—Ar de podridão, que corrompe tudo.
—Rival da graça divina, da culpa original e até de Deus. Por causa d'elle veem ao mundo os maiores bens e os maiores males; e sem esse cachorro não ha milagres possiveis! Por isso já quasi ninguem hesita nos meios de o adquirir. O povo diz que quem furta pouco é ladrão, e que a quem furta muito o fazem barão. Lá se avenham.
—Silencio, miseraveis! Sou eu que tenho a palavra.
DIPLOMACIA—Arte de dourar pilulas e de impingir gato por lebre.
DIREITO—Aquillo de que se faz torto... quando calha.
—Um revolver puxado a tempo.
DIREITOS (DE CONSUMO)—Não torçam{83} tanto a escaravelha, olhem que se quebra a corda!
DISCIPULO (DE ALGUEM CELEBRE)—Espelho que deforma a physionomia.
DISCRETO—Pessoa que se finge sabia. Outros lhe chamam urso de sala.
—Um defuncto.
DISCURSO (ACADEMICO)—Rio de flores... de papoula.
—(POLITICO) Musica de arraial.
DITO (SATYRICO)—Pincellada de mostarda.
—(GRACIOSO) Goloseima.
—(INSULSO) Phosphoro molhado.
DIVIDA (PUBLICA)—Dartro canceroso das nações. Come como todos os diabos!{84}
DIVIDAS—Doenças secretas.
DIVIDENDO—Accionista, lembra-te de que S. Thomé queria ver para crer!
DOENTE—Se morre são os medicos que o matam; sarando, é Deus que o cura. Pobres medicos! Felizes d'aquelles que... que escapam das más linguas... e das vossas mãos.
DONZELLA—Ovo que se não póde chocalhar.
DOR—A palavra da enfermidade.
DRAMA—Dois gallos n'um poleiro.
DRAMATURGO—Domesticador de feras, que ás vezes o devoram... com os pés.{85}
DUELLO—Raboleva dos tempos barbaros posto nos costumes modernos.
—Caso em que o insultado se rehabilita e se vinga... fazendo-se matar por quem o insulta.
—Farça em dois actos.
—Ridiculo de que os homens serios não prescindem.
—A mais estupida expressão do amor proprio.
—Quando não degenera em tragedia, o que é raro, farça ridicula, representada quasi sempre por actores de má morte, e, ás vezes, de má vida.
DUVIDA—O mais horrivel dos parasitas do homem. Devora-lhe as crenças.{86}
{87}