I

IDADE—Unico segredo que as mulheres sabem guardar, segundo asseveram os maldizentes.

IDÉA—Fonte subterranea; quando rebenta vem quasi sempre turva.

IDÉA-NOVA—Demolir sem reedificar.

IDEALISMO—Religião dos que chegam com a cabeça á lua.{132}

IDILLIO—Tisana que produz dispepsias no gosto. Exemplo: os versos do poeta V. que já não teem sabor possivel.

IDIOTA—Pessoa que tem boa fé em politica.

IDOLATRIA—A religião das maiorias parlamentares, quando o idolo é de ouro, como diz a opposição.

IGNOMINIA—Sujidade na alma.

ILLUSÃO—Vacca de muitas mil tetas, onde todos mamam sem dar por isso.

ILLUSTRAÇÃO—Verniz que por vezes estraga os trastes que o teem.

IMAGINAÇÃO—Uma bebeda que nos faz amargar quasi sempre o tempo que empregâmos a seguil-a.{133}

IMPORTUNO—A carraça da humanidade.

—Sinapismo da paciencia.

IMPOSTO—Drastico violento.

IMPOSTURA—A taboleta da moda.

IMPRUDENCIA—Os tres ultimos copos ou decilitros. Se não fossem elles, nunca se saberia se o senhor F. é dado a casos tristes.

IMPUDENCIA—Meio muito em voga, desde que se reconheceu a inutilidade da vergonha.

INCENDIO—Um innovador atroz.

INCONSTANCIA—Borboleta do amor e da politica.{134}

INDEPENDENTES—Vampiros da peior especie, quando sabem fingir bem que não amam o sangue... de burra.

INDIFFERENTISMO—Caruncho que está comendo o tutano da dignidade nacional dos portuguezes.

INDIGESTÃO—Barometro do estomago; ao inverso dos outros, é quando este sobe que promette tempestade.

INDIGNO—Apanhador frequente do que devia dar-se aos dignos.

INDIRECTO (IMPOSTO)—Um calumniado. Vae direito ás algibeiras dos governos e chamam-lhe indirecto!

INDULGENCIA—Arte de fazer desculpar as proprias faltas.{135}

INDULGENCIAS—Letras de cambio sacadas contra o céu. São de cobrança duvidosa, por falta do acceito.

INFALLIBILIDADE—Qualidade que não impede de enganar os outros.

INFANTICIDIO—Coice de burra adormecida.

INFERNO—Visualidade em narrativa.

—A terra dos albuns, para quem for poeta.

INFINITO—O mais antigo dos logogriphos.

—Livro sem fim, onde o homem treslê.

INGRATIDÃO—Arte de saldar contas sem as pagar.

INIMIGO—Amigo assanhado.{136}

INNOCENCIA—Avesinha que a malicia afugenta.

INOFFENSIVO—Abstracto; ou defuncto, antes de entrar em decomposição.

INSCRIPÇÃO (DE DIVIDA PUBLICA)—Diacho de palavra, que tem mais valor escripta em papel do que em marmore ou bronze.

INSIPIDO—Folhetim do senhor V.

INSOLENCIA—Zurro humano.

INSOLENTE—Pessoa que pede murros.

INTELLIGENCIA—Luz que Deus accende quasi sempre no cerebro dos menos felizes.{137}

INTIMO—Cautela com elle! Sabe o nosso lado fraco, e os nossos segredos.

INTRIGANTE—Cozinheiro que salga e apimenta de mais os molhos.

INTRUJÃO—Palavra nova posta a uma qualidade velha.

—Explorador da tolice humana.

INVEJA—Não bulam com a bicha, que morde e é venenosa.

—Ferrugem de certos trastes.

—Barata que roe uma sombra.

—Raiva dos infinitamente pequenos.

INVEJOSO—Figo passado da humanidade.

—Lombriga do talento.

INVERNO—Porta do sepulchro á vista.{138}

IODURETO (DE POTASSIO)—Pagamento de letra vencida.

IRA—Mãe da apoplexia.

IRONIA—Confeito... de amendoa amarga.

—Fel da bexiga da inveja.

ISCA—Duzentos contos de dote. Eu dou cincoenta a quem me arranjar o resto.{139}