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LABÉO—Doença que roe muitas excellencias.

LABIA—Sciencia de pescar incautos.

LACAIO—Imitador servil de certos amos.

LACONISMO—Um sôcco, em resposta a uma insolencia.{156}

LADRÃO—Amador de curiosidades alheias.

—Artista modesto e discreto, que encobre as inclinações.

—(EM PONTO GRANDE) Predestinado á consideração dos governos.

LADRAR—Dizer mal de alguem, por inveja. Zurrar é synonymo.

LAGRIMAS—Ultima rasão da mulher.

—Secreção da glandula do olho, que muitas pessoas abrem, como torneira, a proposito de tudo.

—Ha quem séque as da mulher com as da ostra.

LANGUIDEZ—Estado da bolsa do empregado publico passado o dia 15 de cada mez.{157}

LARAPIO—Homem que busca aventuras.

—Synonymo de cavalheiro... de industria.

LAVAR-SE—Ruim manha, na opinião de muita gente.

LEILÃO—Quem dá mais pela minha belleza?!

(Uma mulher moça.)

—Quem compra o meu voto?!

(Um eleitor.)

—Quem quer a minha honra?!

(Um sujeito que deseja enriquecer depressa.)

—Quem quer pretos, e brancos, e moeda falsa?!

(Aspirante a barão.)

—Quem compra empregos e honras?!

(Pessoa influente.)

—Quem quer enriquecer sem trabalhar?!

(Um cauteleiro.)

—Quem quer moralidade, progresso e economias?!{158}

(Aspirantes a ministros.)

Nota.—O povo, não sabendo para que lado se ha de voltar, nem tendo dinheiro para taes mercadorias, grita por sua vez:

—Quem quer o diabo que os leve a todos?!

E o leilão continúa.

LEITE—Liquido suspeito, que se vende publicamente em Lisboa.

LEITURA, DE PEÇA (OUVIR)—Pesadello, depois de se ter ceiado carneiro com batatas.

LEMBRANÇA—A mais duradoura é a que nos recorda as belliscaduras feitas ao nosso amor proprio.{159}

LIBERALISMO—O pesadello de Roma e dos que gostam do arroxo.

LIBERDADE—Um horror, segundo a opinião dos jornaes que mais usam e abusam d'ella.

—Faculdade que cada um tem de fazer com que o mettam na cadeia.

LIGA—Juncção de metaes, formando um todo impuro.

LIMOEIRO (CADEIA)—Arvore de má sombra. Os que a apanham são quasi todos obrigados a mudar de ares, e raros se restabelecem.

LIMPEZA—Ha mais nas ruas do que nas mãos.

LINGUA—A arma de maior alcance.{160}

—Instrumento sem cordas, que muitas vezes faz encordoar.

—(CLASSICA) É a guizada.

—(CORRUPTA) Quando se chama de vacca, sendo de boi. Outros dizem ser synonymo idioma de vacca.

LINGUADO—Discurso chato.

LISBOA—Vasto cemiterio de podridão e lentejoulas, como chamou ao reinado de el-rei D. Manuel o senhor A. Herculano.

—Cousa immunda e pestifera.

—Tapem os narizes e fujam!

LITTERATO (DE BOTEQUIM)—Sujeito sem vintem, sem instrucção e sem officio.

LIVRARIA—Unico logar em que é permittido confundirem-se os mortos com os vivos.{161}

—Exercitos de mudos, que exprimem idéas de todos os diabos.

—Instrumento, cujas cordas vibram no coração de todos os seculos.

—A Babel das idéas.

—Gazometro do espirito.

LIVRO—Soporifero dos parvos.

LOBISHOMEM—Cantor que vae perdendo a voz.

LOBO—Parlapatão imprudente, que imagina poder tratar com o homem de mano a mano.

LORPA—Homem em projecto.

LOTADOR (DE VINHO)—Envenenador que faz concorrencia ao medico.

LOUREIRO—Emblema de gloria, com{162} que se coroavam antigamente os poetas. Hoje é emblema de escabeche.

LUA—Confidente discreta. Mas nem a ella digas que és pobre, se não queres que até os cães te evitem, com medo de que tu os mordas a elles.

LUGUBRE—Homem que pede dinheiro emprestado.

—Orçamento do estado.

LUNATICO—O que acredita nos outros e duvida de si.

LUPANAR—Casa onde os filhos familias recebem a ultima demão de moral.

LUVA—A mais alta expressão social. Ás vezes é mais limpa do que a mão que a calça.{163}

LUXO—Cancro da sociedade e da familia.

—Perdição de muitas mulheres.

—Sanguesuga de todos os maridos.

LUZEIRO—Qualquer jornal pifio, no conceito dos que o escrevem.

LYCEU—Accumulação de absurdos. Pobres rapazes! Por que insolitos meios fazem de vós os homens do futuro! E queixam-se depois se algumas vezes desatinaes nas academias e nos parlamentos!... Quando chegaes a ser deputados, pares, ministros, sabios de qualquer tamanho, lembraes-vos naturalmente do lyceu, onde a ignorancia e a maldade, o pedantismo e a presumpção estupida vos atrophiaram a intelligencia e perverteram o senso moral, e daes-lhe para baixo com as vossas reformas, que os põem cada vez peior! Mancebos de hoje, tomae o conselho de um amigo prudente, que ama do{164} fundo d'alma a mocidade com todas as suas loucuras e tolices: Quando chegardes um dia a fazer leis, não copieis dos estrangeiros as reformas para a instrucção de vossos filhos. Deitae abaixo o lyceu, e restabelecei o antigo curso de humanidades, que nos deu os grandes homens que sabiam bem das suas especialidades, em vez dos que hoje fazemos, obrigando-os a aprender tudo para ficarem sem saber nada.

Zacharias, toca o bumbo! As tiradas graves afugentam o publico. Deixa brilhar os lyceus, e a rapaziada que os reforma.{165}