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SABEDORIA—É a arte de ser tolo sem que os outros percebam. «Sabenças para que servem?» Disse o Camões, ou não sei quem. Portanto, é chiar do papo e deixar gyrar o marfim.
SABER—A desgraça da humanidade. Quanto mais o individuo se afasta da sua esphera, maior numero de necessidades cria e mais difficuldades achará para satisfazel-as.{250} Os apostolos da instrucção a todo o trance nunca pensaram n'isto. Quanto maior for o numero dos instruidos, menos emprego haverá para elles, e a sociedade terá tornado mais insoluvel o problema da felicidade humana. O que na ignorancia se contentava com cigarros e mau vinho, illustrado quererá Champagne e charutos havanos. Aonde os tendes para lhe dar, oh! prégadores do ensino obrigatorio?! Acaso a vossa sociedade póde satisfazer as aspirações ambiciosas de um povo de sabios?! Julgaes que os communistas de Paris não sabiam ler nem escrever? Ora mettei a viola no sacco, que eu faço o mesmo.
SABIO—Aquelle que chegou a conhecer a sua inepcia e ignorancia. Creio que não ha nenhum.
SABUJO—Cão que engraixa botas.{251}
SADIO—Natural de terras em que não ha boticas nem medicos.
SAGUÃO—Foco de infecção, alimentado em Lisboa pelo patrocinio da policia.
SAL—A maior necessidade litteraria do nosso tempo.
SALADA—Discursos parlamentares.
SANDICE—Senhora do meu maior respeito.
SANGUE—Moeda circulante dos corpos. Está todo falsificado pelos alimentos venenosos e pelos canos de esgoto, que são as medalhas de honra da cidade de Lisboa.
—Liquido composto actualmente de tanta cousa suspeita, que bem se lhe póde chamar lavadura de tijela da casa.
—O que ha n'elle de singular é que temos{252} muito menos desde que os medicos nos não tiram nenhum. Provavelmente porque tinham extrahido demasiado a nossos paes, por adiantamento.
SANGUENTO—É assim que eu amo o beef e que os conquistadores amam os povos.
SARCASMO—Aplainadela com ferro amolado de novo.
—Vespa do intellecto.
SATYRA—A pimenta da litteratura.
SAUDADE—O estado de quem tem o capote empenhado, depois de jogar a ultima libra que lhe deram sobre elle, quando sente apertar o frio.
SAUDE—Planta rara que os medicos{253} não conseguiram ainda extinguir inteiramente.
SCEPTICO—Paladar estragado por generos falsificados.
SEDA (BICHO DE)—Se esses pobres vermes soubessem para quem trabalham ás vezes!...
SÊDE—É tambem um dos motivos por que a gente bebe. Mas entre a agua dos canos de chumbo e os vinhos das nossas tascas deve haver hesitações dolorosas!
SEGREDO—Se não queres morrer solteira, nem ao teu travesseiro reveles o que te aloira os cabellos, ou te arredonda graciosamente o seio. Um olhar desconfiado adivinha trouxas e chumaços, até onde elles nunca existiram! As tintas claras são perfidas;{254} o algodão em rama tem achatamentos imprevistos, de denunciante vilão; não te fies senão no roast-beef inglez, no salpicão de Castello de Vide, no bom Bairrada e no velho Porto. Só elles são discretos e generosos. Pede-lhes o que te falta, e serás feliz se te attenderem.
SELVAGEM—Sujeito que não doura pilulas.
SEMENTEIRA—Fonte da esperança.
SENSO (COMMUM)—Velharia. A idéa nova promette dar cabo d'elle.
SENSUAL—Pessoa que tem o diabo no corpo.
SENTIR—Padecer.
SEPULTURA—Logar onde se arrumam{255} cousas inuteis, que não tornam a servir.
—Caixa do esquecimento.
SEREIA—Ministro cantando á maioria quando ella se mostra esquiva.
SERIEDADE—Quasi que já ninguem acredita n'ella, nem sequer os que a teem!
—Indicio de decadencia.
SERINGA—A musa dos intestinos.
—Sacca-rolhas das tripas.
SERPENTE—Mulher que assobia.
SERTANEJO—Transição do homem para o bruto.
SERVIÇO—Cousa que se esquece tanto como o chapéu de sol.{256}
SEVANDIJA—Especie de lagarta que infesta as antecamaras dos ministros.
SILENCIO—Parede feita pelos meus collegas Joões Fernandes em torno de todas as obras que não saem do seu gremio, com o louvavel intuito de impedir que se lhes vejam os defeitos. Ah! meu pobre diccionario!... Elles te ensinarão a ter juizo.
SIMPLICIDADE—É persuadir-se a gente de que ainda ha generos não falsificados, policia que puna os vendedores que nos envenenam, agiotas de coração, meninas que não queiram casar, sujeitos que façam cara a um grande dote, ainda que a noiva seja tout ce qu'il y a de plus... chose; e muchas cosas mas.
SINAPISMO—Cataplasma que se damnou.{257}
—Remorso da pelle, quando sente a mostarda tomar o freio nos dentes.
SINECURA—Lobinho tornado em têta.
SINEIRO—Encarregado de espantar as almas, quando toca a finados, para que ellas não voltem aos corpos, caso em que poderiam surprehender muitos segredos de familia, que lhes tirariam as illusões que levaram da terra.
SINISTRO—Crédor que quer que lhe paguem.
SINO—A voz da igreja sem a poesia da religião.
—Vizinho insupportavel, sobretudo quando nos repete sem parar a noticia da morte de pessoa querida.
—Berrador que nunca enrouquece.{258}
—Amigo que saúda o nosso nascimento, e chora a nossa morte... quando pagâmos a quem o faça alegrar ou entristecer.
—Actor da farça da vida e da comedia da morte.
—Pantomineiro alugado para fazer um papel que elle recita sempre no mesmo tom.
SOCIO—Companheiro de cama, que muitas vezes quer puxar a roupa toda para si.
SOLDADO—Qualificação atrozmente ironica. Para familiarisar o homem com a idéa de que ha de ser partido, começa-se pelo aterrar, apenas senta praça, com a affirmativa de que já não está inteiro!
SOLTEIRO—Passaro que sonha com a gaiola.
SOMNO—Esquecimento.{259}
—Porta, atrás da qual a gente se esconde dos desgostos.
SOMNOLENCIA—Enfermidade passageira. Acommette muito as pessoas que ouvem louvar os seus amigos.
SORRISO (DAS CREANÇAS)—Flor do paraizo.
—(DAS NAMORADEIRAS) Rede de apanhar patos.
—(DA MULHER AMADA) Sol que nos aquece.
—(DOS QUE PRECISAM) Armadilha.
—(DOS HYPOCRITAS) Careta a que se deve responder com dois pontapés, em sitio que a gravidade dos leitores, e a minha propria, me impede de revelar, mas que facilmente adivinhará a sua perspicacia.
SUBORNO—Azeite que se dá nas molas para que os trastes funccionem á nossa vontade.{260}
SUBRIPIO—Verbo latino conjugado por todas as nações modernas. Póde traduzir-se por «abafar o alheio».
SUICIDIO—A ultima loucura. Mulher que eu adoro, pela tua salvação te peço que não me estragues os phosphoros! Está tudo pela hora da morte! E desde já te previno que se me saires pela janella, não dou nem dois patacos a um padre para te fazer o enterro. Esperarás na rua pela tumba da misericordia ou pela carroça do lixo. Os suicidas não valem uma pitada de tabaco.
SUOR—Producto natural das bestas do carga e dos constipados felizes
SUPPLICIO—Rouxinol cantando na gaiola a aria da liberdade.
—Gato contemplando a frigideira cheia de carapaus mergulhados em azeite fervendo.{261}
—Romeu corrido a cacete pelo pae de Julieta.
SUSCEPTIBILIDADE—Noli me tangere. Traduzido em portuguez diz assim: «Não bulam com o bicho que se assanha!»
SUSPEITA—Nodoa difficil de lavar.
SUSPENSÃO—Compassos de espera nos pagamentos.
SUSPENSORIOS—Adriças das calças.
SYLLABUS—Papão, filho de Papa.
SYSTEMA—Cada individuo tem o seu. É a melhor maneira de chegarmos a um accordo!{262}
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