V

VACCA—Animal que se chama boi antes de entrar no açougue.

VADIO—Peixe que cáe na rede da policia.

—Artista que prepara um quarto no hospital, na cadeia ou n'um asylo, quando não apanha viagem gratuita para o ultramar.

VAIDADE—Estado em que a creatura{284} humana se assimilha a um perú arripiado, ou a uma bexiga assoprada. Outros lhe chamam por isso peruite e bexiguite.

—Desculpa que cada um dá a si proprio da sua parvoice.

VAIDOSO—Papelão pintado.

—Pessoa que insulta o senso commum.

VALSA—Invenção do diabo, que este mette no corpo ás mulheres, e que ellas passam aos homens.

VARREDOR (MUNICIPAL)—O laxante das ruas.

VELA (ACCESA)—Alma em pena.

—(APAGADA) Hibernação.

VELHACO—Especie de garrano de dois pés. Sempre que rincha dá coice.{285}

VELHICE (HUMANA)—Bola de sabão prestes a desfazer-se.

—Trapo que nem sempre vem de bom panno.

—Os que a não respeitam, esquecem-se que vão andando para ella, e que d'esse modo começam a ser dignos de lastima, ainda mais cedo do que aquelles de quem zombam.

VELLUDO—Genio de mulher que pretende casar. Livrem-se d'elle depois de lhe cair o pello!

VENALIDADE—A amiga de ss. ex.as! Suba, que os seus amigos estão impacientes por deitar carruagem.

—Escorregadela.

VENENO—Atmosphera artificial de Lisboa.{286}

VENTOINHA—Pessoa que se forra ao trabalho de ter opinião propria.

VENTREDeus ex machina de todas as patifarias. Segundo o Diccionario de synonymos portuguezes, de José da Fonseca, tem outros significados que a decencia do meu livro não tolera. Aquelle diccionario, destinado á mocidade, e approvado pelos nossos sabios, attesta o que se deve esperar do ensino, dos que ensinam e dos que são ensinados, n'esta classica terra da parvoice. É um acerbo de sandices, proprias para crear sandeus.

VENUS—Pessoa de má nota, segundo a mythologia grega. Modernamente, creada que aspira aos Martes da guarda municipal.

VERDADE—Origem de malquerenças.{287}

—Cão perdido, que anda a fugir de todos com o rabo entre as pernas.

—Pessoa envergonhada diante de saltimbancos.

—Rede de apanhar inimigos.

VERGONHA—Vocabulo sem sentido.

VERME—Bicho que roe as costas das celebridades. Algumas pessoas lhe chamam inveja.

VERNIZ (SOCIAL)—Untura com que se escondem os defeitos da madeira podre.

VERSATILIDADE—Flor cultivada no jardim das conveniencias.

VERSO (HARMONIOSO)—Preludio musical.

—(DURO, OU ERRADO) Chavelho retorcido.{288}

VESPA—Emblema da critica: o ferrão sem o mel.

VIAJANTE—Almocreve de petas.

—Folha levada pelo vento da curiosidade.

VICIO—Racha na louça.

—Escola de aviltamento.

—No proximo é tudo quanto em nós são virtudes.

VIDA—Farça, comedia, drama ou tragedia, conforme a interpretação que cada um dá ao seu papel.

VIDRO—Reputação de mulher, que qualquer cousa embacia ou quebra.

VINAGRE—Em vulgar, vinho de Collares, do que se vende em Lisboa.

—Em estylo campanudo, divorcio.{289}

VINHA—Idéa mãe, d'onde nasce o pae da desordem.

VINHO—Poesia da pipa.

—Espirito que até aos materialistas dá alma quando lhes entra no corpo. É livrar de que elle tome a palavra lá dentro, porque, se falla, vae tudo com os diabos!

VIRTUDE—A violeta humana. Floresce na sombra.

—Substantivo feminino, pouco usado.

VISITA (DE CEREMONIA)—Estreia de botas novas.

—(DE PESSOA AMIGA) Sol em dia de inverno.

—(DE MEDICO) Ponto na mortalha.

—(DE PADRE) Consummatum est!

VISUALIDADE—Arte de virar a casaca diante do publico.{290}

VIUVA—Passaro que chora... pela gaiola.

VIUVEZDe profundis, que se canta quasi sempre com musica da aria: «Oh! querida liberdade!»

VIUVO—Condemnado que obteve commutação de pena.

VIVEIRO—D'antes havia-os de plantas, aves, peixes, etc. A sociedade moderna inventou os de patifes, que são muito mais faceis de aclimatar.

VOLCÕES—Bocas da mãe terra. Quando fallam de mais vae tudo por ares e ventos.

—Corações de namoradas de annuncio e de theatros particulares. Apagam-se com o casamento.{291}

VOTO—Artigo de commercio eleitoral.

—(DE CONFIANÇA) Corda para enforcar quem o deu.{292}
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