ZT!
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NOTA FINAL
OU A
ULTIMA PALAVRA DA SCIENCIA
Amaveis leitoras e benevolos leitores:—O homem que acaba de dotar tão generosamente a nação portugueza, e tambem a brazileira, com obra de tamanho prestimo e valia, pede-vos que não a largueis da mão sem vos terdes deliciado com estas linhas, que são remate e corôa do edificio consagrado á vossa admiração e regosijo.
Congratulae-vos commigo, povos d'aquem e d'alem mar! O monumento está concluido. Apesar das difficuldades da empreza, foi levado{316} ao cabo pela energia da vontade e pelo poder maravilhoso do genio, que o levantou sobre alicerces de diamante. A fama vae tomar conta d'elle para o tornar eternamente celebre; e os editores disputarão, de faca em punho, a honra de o reimprimir cincoenta vezes por anno.
Oh! gloria! oh! loureiros e palmares... onde tendes rama que chegue para tal triumpho?!
Jornalistas illustres, aparae as vossas pennas; academias e institutos scientificos, abri as vossas portas; povos, que vos prezaes de civilisados, saudae o Diccionario de João Fernandes!
—Viva João Fernandes!—Ouço eu já d'aqui gritar ás multidões enthusiasmadas.
—Viva!
—Mas quem é João Fernandes?!
A esta perfida e insidiosa pergunta cala-se tudo; os sabios entreolham-se de bôca aberta; e os outros suspendem a respiração, receiando{317} serem elles os predestinados. Por fim, responde uma voz:
—João Fernandes é um grande homem!
—Immenso!—apoia outra.
—Incommensuravel!—acode terceira.
—Sublime!
—Unico!
—Engraçadissimo!
—Sapientissimo!
—Immortalissimo!
—Foi elle quem mandou dar para baixo no povo, á porta do Passeio Publico.
—E quem matou o projecto da avenida para o Campo Grande.
—E quem levantou a questão dos muros...
—E quem embirra com as grades...
—E quem diz...
—Bolas, meus amigos! bolas!—exclama o auctor do Diccionario.—Essas obras são de outros Joões Fernandes; não confundam a minha com as dos meus collegas. Todos somos de grande força; mas eu não trato{318} as cousas tanto em absoluto. É verdade que não deixei ir o Polyphemo com um só olho, no artigo orçamento; que deixei escorregar a mão, ás vezes sem querer, no modo por que tratei os meus amigos medicos, a medicina e a botica, que Deus afaste da minha porta por todos os seculos dos seculos, amen; que escovei soffrivelmente a poesia e a politica; e que fui assás sincero com as mulheres... Porém nada d'isso vos auctorisa para me impingirdes filhos alheios. Que se aguente cada João Fernandes d'esta terra com os seus feitos. O meu é este. Vanglorio-me d'elle; e, attendendo a que não convem alargar mais o cavaco, declaro-o a ultima palavra da sciencia, e recommendo-vos que o elogieis com alma, se não quizerdes fazer má figura passando por ignorantes em materia de gosto.
No fim d'este discurso recrudesce o enthusiasmo, repetem-se os vivas e quebram-se á pedrada as vidraças de todos os livreiros{319} que não teem o Diccionario á venda. O auctor, enternecido com essas demonstrações, diz modestamente, começando a fazer a barba a si:
—Já vêem que não sou dos taes Joões Fernandes de tres ao vintem...
—Não—acodem os fanatisados;—é dos de pataco!
—Macanjo.—rosna um patife que não gostou do livro.
—Olhem esse maroto que está a dizer mal de mim!
—Quem foi?!
—Que é d'elle?!
—Calumniador!
—Invejoso!
—Vibora damnada!
E a multidão invade a casa do auctor, péga n'elle e passeia-o em triumpho pela cidade, com meia cara rapada, e a outra meia com barba de tres centimetros coberta de espuma de sabão. Este pormenor commove o resto{320} da população de Lisboa, que segue immediatamente o triumphador.
Ouve-se grande algazarra nas livrarias e vendem-se dez mil exemplares da obra em dez minutos. Vendo este successo, o tal sujeito, que fallára em macanjo, chega-se ao pé do auctor e diz-lhe, fulo de raiva:
—Eu chamo-me a critica... e vou fazer-te o resto da barba.
—Pois faze, mas compra o livro.
O povo, que percebe a cousa, salta por cima da critica, esborracha-a e esgota o resto da edição—outros dez mil exemplares!
João Fernandes volta rico para casa, e grita de longe á familia:
—Dei-a em cheio! «Posteridade, és minha!»
E cae o panno.
FIM
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