A serenidade d'uns e o desalento de muitos
Chegado o momento da justiça militar pedir contas dos seus actos aos individuos presos por effeito da revolta, houve o maximo cuidado, nas regiões officiaes, em impedir que os depoimentos dos principaes culpados salientassem o condemnavel procedimento de varias personalidades consideradas sustentaculos do throno. Procurou-se assim dar ao grande publico, á nação inteira e até ao estrangeiro, a impressão falsissima de que a revolta de 31 de Janeiro brotára apenas dos cerebros de meia duzia de tresloucados, creaturas apagadas e de nullo valor social, sem ligação com outros elementos de superior importancia. Ao mesmo tempo, a imprensa monarchica tentou insinuar, falsamente tambem, que a maioria dos individuos presos como revolucionarios experimentára, ao embarcar nos navios-prisões, o arrependimento do seu[{150}] gesto nobre e patriotico e só anceiava por alijar as responsabilidades que lhe cabiam á face das leis.
Se é certo que no decorrer da instrucção do processo e mesmo durante o julgamento em conselho de guerra alguns d'esses homens mostraram falhas de animo e de coragem, devidas essencialmente á torturante atmosphera moral que os agentes da monarchia lhes tinham creado, muitos houve—e esses constituiram o maior numero—que evidenciaram não só incomparavel dignidade como uma presença de espirito, uma serenidade verdadeiramente heroicas.
João Chagas, por exemplo, conservou uma placidez digna de registo. Dil-o um jornal da epoca:
«O brilhante escriptor não afasta de si todas as responsabilidades nem as assume todas. Acceita as que tem e não as declina, antes entende que deve ufanar-se d'ellas. Essas responsabilidades versam principalmente sobre o que elle escreveu e sobre o que se publicou no jornal que dirigia: a Republica Portugueza».
E como circulasse que no seu depoimento feito perante a auctoridade militar, o illustre pamphletario commentára acremente a attitude dubia de diversos individuos compromettidos na revolta, o mesmo jornal a que acima nos referimos accrescentou dias depois:
«É inexacto que o depoimento de João Chagas contenha censuras. Elle julga simplesmente que é nobre que responda cada qual corajosamente pelos seus actos. É correcto. João Chagas mantem a serenidade e a tranquilidade dos primeiros dias. Dorme pouco em virtude d'uma tosse que contrahiu na frialdade humida da cadeia. Será visto por um medico. Um amigo do fogoso jornalista, desejoso[{151}] de lhe provar a consideração e a estima em que o tem, fez-lhe, por intermedio do digno director da cadeia, alguns offerecimentos que elle agradeceu e recusou. Consta até que affirmou, mostrando desprendimento pela vida:
Os prisioneiros a bordo
—O ser condemnado pouco me importa. Estava um pouco cançado e o governo, mandando-me prender, offereceu-me descanço por alguns annos».
D'uma vez, porém, a serenidade de João Chagas estremeceu ao de leve. Foi no dia, em que já encarcerado a bordo, viu passar, a curta distancia do local onde se encontrava, o famoso director da[{152}] Justiça Portugueza. Então, voltando-se para um companheiro de prisão, disse, apontando Santos Cardoso:
—Estamos aqui a pagar as antipathias que aquelle homem provocou...
E já que falamos de Santos Cardoso: o seu depoimento confiado ao instructor do processo não correspondeu ao que se esperava do seu aspecto energico, quasi feroz. Mostrando-se muito abatido e desanimado, declarou que não tomára parte activa no movimento insurreccional, que nada soubera antecipadamente do complot revolucionario e que apenas sahira á rua na madrugada de 31 de Janeiro depois de ter ouvido tocar a rebate na egreja da Lapa. Mais tarde descera á praça de D. Pedro e assistira na camara á proclamação da Republica. Contou, n'esta altura, um insignificante episodio occorrido dentro do edificio municipal. A seu lado, na sala, encontrava-se no momento da proclamação, um individuo envolto na bandeira do Club Democratico 15 de Novembro. Esse individuo, pretendendo deslocar-se para ir á varanda, ensarilhou o cordel da bandeira na espingarda d'um soldado e a arma cahiu no sobrado. A multidão, receiando que a espingarda se disparasse, afastou-se pressurosa do local...
Decorridos alguns dias apoz o depoimento, a esposa de Santos Cardoso foi visital-o á prisão. O antigo director da Justiça Portugueza soffreu tal choque com essa visita, que chorou desabaladamente, lamentando a sua situação e pedindo a todos que d'ella se apiedassem. «Ignorava, disse, a responsabilidade em que incorria, tomando parte no movimento; do contrario, não o teria feito». E quando teve conhecimento das declarações de Homem Christo, prestadas á policia, declarações que[{153}] relatavam minuciosamente os seus trabalhos na preparação revolucionaria, então o seu desanimo tornou-se mais profundo. Succumbiu.
O jornalista Eduardo de Sousa, que collaborara na Republica Portugueza sob o pseudonymo de Gualter, esse, pretendendo fazer um depoimento revelador d'uma virilidade intemerata, lançou a policia na peugada de varios republicanos egualmente implicados no complot. A imprensa noticiosa da epoca chegou a asseverar que a defeza desse reu servira simplesmente a comprometter diversas personalidades, algumas das quaes tinham sido presas ao mesmo tempo que elle. Cremos, porem, que muito se exagerou a tal respeito e que a verdade do caso reside no proposito de atrevido exhibicionismo que acima registamos.
O sargento Abilio, n'uma carta que escreveu ao juiz affirmou desassombradamente: «sou culpado, mas ha superiores meus mais culpados do que eu».
Depoimento de Dyonisio Ferreira dos Santos Silva: «Sou republicano desde que me conheço, mas mais accentuadamente desde 11 de janeiro de 1890; no emtanto, nunca fui socio de nenhum club democratico e nunca privei com os homens dirigentes do partido republicano. Não sabia da revolta que se preparava para 31 de janeiro e não podia, portanto, ter alliciado para ella militares ou paisanos. Soube da sublevação horas antes de rebentar, porque era esse o assumpto de todas as conversas nos cafés, restaurantes, etc. Attribuo a minha prisão ao facto de ser pouco conhecido na policia...»
Tambem declarou ter sociedade na empreza do jornal Republica Portugueza; fôra presencear, como curioso, os successos do dia 31, mas não tomára a menor parte n'elles, e sentia-se, por isso[{154}] mesmo, tranquillo, não receiando o resultado do seu julgamento.
Declarações do actor Verdial:« Não alliciei ninguem para a revolta; sabendo que o movimento estava para rebentar, fui ao Campo da Regeneração, onde collaborei nos episodios que ahi occorreram. Parlamentei com o coronel Lencastre, commandante de infantaria 18, e entrei depois na Camara Municipal, onde me conservei até o edificio ser atacado pelas tropas monarchicas. Só me pesa uma cousa: a lembrança de minha mulher e dos meus filhos. Comtudo, aguardo sereno, a sentença do tribunal.»
Do abbade de S. Nicolau: «Tinha por costume recolher a casa todos os dias, ás 7 da tarde, sendo falso que conspirasse na sombra contra as instituições vigentes; para elle eram boas todas as formas de governo, desde que os homens se inspirassem nos verdadeiros principios da moral e da justiça. Desilludido com respeito aos processos governativos até aqui seguidos, a Republica era para elle uma esperança, mas não a queria por meio da anarchia; os comicios realisados no theatro do Principe Real, em que figurara, deram-lhe certa notoriedade, sendo essa a origem das desventuras por que estava passando. Não era homem de acção, porque d'isso o impedia o seu caracter sacerdotal. Tendo ouvido falar no dia 30 a alguns individuos na revolta que se ia dar, sobresaltara-se com a noticia e recolhera a casa. Na manhã seguinte, sahira para fins religiosos, ouvindo então falar na reunião das tropas na praça de D. Pedro. Ao avistarem-n'o, muitos populares ergueram-lhe vivas. Entrara no edificio da camara, mas ao vêr que ali reinava a anarchia, afastara-se do local, encaminhando-se[{155}] novamente para o seu domicilio. Tinha confiança em que justiça lhe seria feita...»
Alvarim Pimenta falou d'este modo: «Nunca commungara nos segredos dos dirigentes do partido democratico; como um dos societarios da empreza litteraria em que exercia o logar de administrador da Republica Portugueza, fôra presencear os factos occorridos no Campo da Regeneração e paços do concelho; mas não assistira ás reuniões preparatorias da revolução ou se envolvera nos acontecimentos que se deram.»
Do aspirante a medico naval Gomes de Faria, accusado de ter tentado revoltar a guarnição da corveta Sagres: «Não tivera o minimo conhecimento dos preparativos da revolta, pois não estava pessoalmente relacionado com os individuos indicados como promotores d'ella; nunca assistira nem fora convidado a assistir a reuniões preparatorias para a sedição. Na madrugada de 31 de janeiro fora a sua casa o 1.º sargento Abilio de caçadores 9 que o convidára a um passeio até Massarellos, afim de ambos visitarem a corveta Sagres. Estranhara a proposta, recusára a principio, mas, instado, terminára por acceder. Quando ia a sahir de casa, acompanhado do sargento Abilio, este dissera-lhe que era melhor vestir o uniforme de aspirante a medico naval, para ter mais facil ingresso na Sagres. Achara natural a observação e vestira o uniforme. Chegados ambos a Massarellos, dirigiram-se para bordo da corveta. Só n'essa occasião é que o sargento Abilio lhe dissera que se tratava de sublevar a tripulação para adherir á revolta que ia rebentar. Hesitou quando soube o papel que lhe destinavam, mas sendo republicano convicto, embora não fosse partidario dos meios violentos, não tivera forças[{156}] para retroceder; por isso fôra a bordo da Sagres tentar, mas sem resultado, sublevar a guarnição. Suppozera sempre não ter incorrido em grande delicto; por esse facto não se homisiara, apesar de o terem aconselhado a fazel-o.»
Por ultimo, o depoimento do commissario geral da policia: «Estava na Praça de D. Pedro e viu alli chegarem os revoltosos. Receiando que elles o prendessem, refugiou-se n'uma casa em obras proximo do restaurante Camanho, onde trocou o fato pela blusa d'um operario. Depois subiu mais um andar e d'ahi presenceou a lucta entre os republicanos e as tropas fieis. Parte dos revoltosos destroçados na rua de Santo Antonio veiu em debandada para a praça de D. Pedro, formando aqui tres pelotões commandados pelo capitão Leitão e recolhendo mais tarde á casa da camara. Tambem viu a fuga precipitada d'um troço de cavallaria da guarda fiscal em direcção aos Clerigos e recorda-se dos nomes de varias pessoas que se envolveram no movimento.»
Escusamos dizer que o commissario geral da policia do Porto não se fez rogado para indicar ás auctoridades militares esses nomes, contribuindo assim com a sua solicitude para augmentar o numero de presos existentes a bordo dos navios fundeados em Leixões.