João Chagas abandona enojado a imprensa monarchica
Mas sobreveiu o ultimatum e esse conflicto diplomatico exerceu egualmente consideravel influencia nas condições politicas da sociedade portugueza. O patriotismo, offendido, encorporou-se nas fileiras democraticas e engrossou-as. Brotaram da indignação do momento varios jornaes que foram outros tantos pamphletos revolucionarios: a Patria, de Lisboa, o Rebate, do Porto, fundado pelo sr. Eduardo de Sousa, o Ultimatum, de Coimbra, fundado pelo sr. Antonio José de Almeida. Com essa erupção jornalistica coincidiu a formação, na Universidade, d'uma geração de propagadores do ideal, que apoz os dias luctuosos de 1890 publicou um manifesto vigoroso, aggredindo directamente o regimen monarchico e reclamando a bem da patria uma mudança de instituições. A policia não deixou circular esse documento, mas dois diarios reproduziram-no immediatamente nas suas columnas. Assignavam o manifesto, entre outros, estes estudantes:[{55}]
A guarda municipal entrincheirada na egreja de Santo Ildefonso
Fernando Brederode, João de Menezes, Agostinho de Campos, Cunha e Costa, Couceiro da Costa, Antonio José de Almeida, Pires de Carvalho, Lomelino de Freitas, Antonio Cabral, Mario Monteiro, Augusto Barreto, Silvestre Falcão, João de Freitas, Paulo Falcão, Francisco Valle, Julio Paulo de Freitas, Malva do Valle, Evaristo Cutileiro, Luiz Soares de Sousa Henriques, Affonso Costa, Manuel Galvão, Lucio Paes[{56}] Abranches, Julio de Mello e Mattos, Fausto Guedes, Bessa de Carvalho, Alberto de Oliveira, Bernardo Leite, Carneiro de Moura, Antão de Carvalho, Arthur Leitão e Virgilio Poyares.
É tempo de nos referirmos á entrada de João Chagas na scena politica, facto que se produziu em 20 de fevereiro de 1890. O eminente publicista, que até então trabalhara na imprensa monarchica, revoltado ou, melhor, enojado com o espectaculo que presenceara durante os dias agitados que se seguiram ao ultimatum, dirigiu n'aquella data esta carta ao Correio da Noite:
«Meu caro amigo:—Não me convindo continuar a collaborar em jornaes da imprensa monarchica, nos quaes, aliás, tenho tido apenas collaboração litteraria, peço a v... me julgue desde hoje desligado da redacção d'essa folha. Aproveito o ensejo para lhe agradecer as provas de consideração que constantemente me tem dispensado.—Seu amigo e collega: João Chagas.»
Egual declaração foi publicada no Tempo e na Provincia e no dia 21 um jornal republicano da manhã accrescentava, fazendo allusão ao facto: «desde já affirmamos que João Chagas traz ao nosso partido toda a sua intelligencia, toda a sua dedicação e todo o seu ulterior trabalho; é uma adhesão valiosissima, que mostra bem o que ha de diamantino no caracter do nosso amigo, que não hesita sacrificar interesses egoistas nas aras sacrosantas da patria, cuja remodelação é incompativel com a subsistencia do affrontoso regimen que nos vae explorando».
Na Historia da Revolta do Porto, que escreveu de collaboração com o ex-tenente Coelho, João[{57}] Chagas descreve assim os seus primeiros passos na propaganda do ideal republicano:
«Em fevereiro de 1890, como um dos auctores d'esta obra, ao tempo joven e fazendo um jornalismo sem paixão e sem ambições, se decidisse a encetar o jornalismo politico e a adoptar a causa que era então de toda a gente, reuniu-se a um, egualmente joven—tudo foi juventude n'esse movimento!—alumno do curso de engenharia civil, Chrispiniano Fonseca, que mais tarde veiu a morrer no Brazil, de febre amarella, sob a republica de Floriano Peixoto; e tendo os dois concertado «que era preciso fazer alguma coisa», como se dizia por essa grande epocha, começaram por ir espionar a provincia do Algarve, onde certo dia se affirmou com alarme que rebentara uma sedição militar e, havendo reconhecido que tal sedição estava longe de ser um facto, voltaram as vistas para outro lado e decidiram, apoz diversas machinações, que o que havia a fazer era propaganda muito activa e muito eloquente.
«D'este accordo partiu a ideia de fundar um jornal republicano, já se vê, que tomasse a dianteira a todos os que já existiam e que, para a nossa impaciencia, pareciam excessivamente deficientes.
«Alvitrou-se que se lançasse o jornal a publico o mais rapidamente possivel, dentro de quinze dias, dentro de um mez—e quando se discutiam as bases d'essa publicação imprevista e fulminante, lembrámos que um jornal, tal como o sonhavamos, desencadeando uma tormenta de paixões populares, só poderia nascer e cobrir-se de gloria no Porto, que até então não dera grandes signaes de vida civica, mas que se nos affigurava, pela sua tradicção e pelas nossas superstições, o unico centro de população portugueza susceptivel de soltar o primeiro[{58}] de liberdade de que nos propunhamos ser os interpretes.
«Lisboa, inçada de uma população heterogenea, disseminada n'uma grande área e dividida pelas opiniões mais diversas, foi posta de parte, como pouco propicia para o exito do nosso emprehendimento, e adoptou-se o Porto com enthusiasmo e esperança. Estes dois homens não dispunham, porém, de uma moeda de cobre que lhes permittisse acalentar tão vasto sonho, e, por outro lado, não tinham um nome que os auctorisasse a lançar-se nas luctas politicas, em meio da confiança dos que iam ser seus amigos e cumplices.»
Apesar d'isso, João Chagas poz-se a caminho da capital do Norte, alcançou o concurso do velho democrata José Sampaio (Bruno) e em breve formou-se uma modesta empreza com o capital sufficiente para a fundação da ambicionada gazeta. O primeiro numero da Republica—tal era o titulo do novo jornal—sahiu a 18 de abril de 1890 e, embora esse e os numeros seguintes traduzissem ás claras o radicalismo das aspirações do seu director, a verdade é que o diario logrou pouca vida e pouco tempo depois suspendia a publicação. Em setembro do mesmo anno, João Chagas, recebendo o auxilio efficaz de tres democratas, Dyonisio dos Santos Silva, Joaquim Leitão e Alvarim Pimenta, voltou a insistir na creação d'uma folha demolidora e fez sahir a Republica Portugueza, que acolheu na sua redacção toda uma pleiade de velhos e jovens combatentes, animados por egual do desejo de derrubar o regimen. O artigo de apresentação inserto no primeiro numero dizia assim:
«A obra d'este jornal será inteiramente e desassombradamente revolucionaria. Tanto vale dizer[{59}] que será um jornal de combate e dirá tudo o que fôr mister:
«a despeito da vontade pessoal do rei;
«a despeito da tyrannia dos governos;
«a despeito do odio e da antipathia dos homens e dos partidos que exploram o paiz.»
No primeiro numero da Republica Portugueza tambem foram estampados os retratos do rei e de dois dos ministros, precedidos d'estas palavras: Pelourinho: Os tres de Inglaterra. Nos outros logares do jornal explodia a incitação á revolta, usando-se d'uma linguagem que nunca até ali fôra empregada com tanta franqueza. D'aqui resultou o crear-se, pelo estimulo do exemplo, uma atmosphera de decisiva batalha, que nem os acontecimentos nem os homens haviam ainda preparado. Affirma-o João Chagas:
«A revolta de 31 de janeiro pode attribuir-se em grande parte ás instigações directas d'esse jornal, o qual, por seu turno, se veiu a publico, não foi senão em virtude de circumstancias que não se produziriam sem o conflicto diplomatico anglo-portuguez. Por isso reputamos esse conflicto a causa unica do movimento revolucionario do Porto, que, sem elle, nem encontraria meio idoneo em que se consumasse, nem agentes que o provocassem. Dar-se-hia outro, mais tarde, e em outras circumstancias. Esse não».
Na Republica Portugueza collaboraram José Sampaio (Bruno), Julio de Mattos, Basilio Telles, Latino Coelho, Elias Garcia, Gomes Leal, Heliodoro Salgado e, o que é mais interessante fixar, varios officiaes do exercito—um dos quaes, em serviço na guarda municipal, teve um dia ensejo de ver querellada a sua prosa. A par d'essa collaboração,[{60}] logo que a Republica Portugueza viu a luz da publicidade, arremettendo violentamente contra as instituições, appareceram um sem numero de communicações «sob a forma de cartas e manifestos, de soldados, cabos e sargentos da guarnição portuense, a principio, depois de militares das guarnições da provincia, por ultimo de officiaes de todas as graduações já do Porto já de Lisboa». E os que as enviavam ao jornal faziam-no de modo tão explicito que, em certa altura, houve necessidade de destruir uma boa parte da papelada, receiando-se que ella cahisse em poder dos defensores do regimen e collocasse os signatarios em situação compromettida. Como amostra da linguagem empregada n'esses documentos, damos a seguir o trecho d'uma carta enviada n'essa occasião á Republica Portugueza por um grupo de officiaes transmontanos:
Camaradas: A mãe-patria agonisa. É preciso que seus filhos a salvem sem demora, porque a sua salvação é do nosso dever. Salvemos a patria proclamando a Republica. Camaradas: Não ha tempo a perder.
D'aqui se deprehende facilmente que os acontecimentos de janeiro de 1890 não tinham apenas perturbado a massa generosa do povo, mas egualmente o exercito, que se sentira molestado nos seus brios. Como toda a nação, o exercito reclamava o desaggravo. E esse estado de animos não se revelava simplesmente nas communicações dirigidas á Republica Portugueza, mas tambem em dois orgãos da classe militar, o Sargento e a Vedeta, que deram á imprensa democratica um forte contingente para a sua propaganda subversiva. O Sargento, por exemplo, exclamava com uma audacia que ia a todo o genero de infracções disciplinares:[{61}]
«O exercito aguarda o plebiscito da nação, sem as restricções, as formulas e os sophismas constitucionaes; o plebiscito dos cidadãos livres e honrados na urna livre e honrada; o plebiscito de protesto e da representação nos comicios; ou o plebiscito da revolução nas barricadas.
«O povo é o poder legislativo; o exercito é o poder executivo. O povo é a vontade; o exercito é a acção. O povo é a soberania; o exercito é a força. O exercito não é uma guarda de suissos; o exercito não é uma casta. O exercito é a nação armada e é a democracia armada».
A linguagem da Vedeta não era menos arrojada e expressiva. A irritação na classe militar augmentava de dia para dia, e porque o governo de Hintze Ribeiro, sempre cuidadoso de rodear o throno do maior numero de garantias, entrara a valer no caminho das repressões, transferindo officiaes e mandando para o serviço do cordão sanitario, que então guarnecia a fronteira, certos contingentes de corpos suspeitos de rebeldia. Por outro lado, em agosto, o mesmo governo apresentava ao parlamento o tratado com a Inglaterra e esse novo acto de vergonhosa submissão ante a fiel alliada, longe de acalmar os espiritos, aguçara extraordinariamente as ideias revolucionarias.
A medida ia a trasbordar... N'uma noite d'aquelle mez, um grupo de segundos sargentos e cabos de infantaria e caçadores, sem que a sua démarche correspondesse a qualquer trabalho previo de alliciação, apresentou-se na redacção da Republica Portugueza e um d'elles, Annibal Cunha, formulou o plano da rebellião. Tratava-se de fazer sahir infantaria 18, para o que diziam contar com o apoio de grande numero dos seus camaradas, depositando antecipadamente na alameda da Lapa, proxima do quartel, uma certa quantidade de espingardas[{62}] de velho typo, existentes na arrecadação do regimento. As espingardas serviriam para armar os cidadãos que fosse possivel ligar á aventura.
Exposto o plano, o grupo prometteu voltar ao jornal e voltou, com effeito, desferindo então mais largos vôos, ampliando a esphera do seu emprehendimento. Não era facil, porém, realisar na occasião qualquer tentativa e, apoz acalorada discussão, foi decidido aguardar o regresso ao Porto das tropas empregadas no cordão sanitario. Mas esse grupo, tendo iniciado o contacto directo com os homens que propagavam pela palavra e pela escripta o ideal republicano, não tardou que outros militares o imitassem e, dentro de semanas, a redacção da Republica Portugueza passou a ser frequentada por dezenas de sargentos, cabos e soldados da guarnição do Porto, todos dispostos a collaborar na obra da revolução. Quer dizer: o complot militar formava-se e avolumava-se gradualmente, espontaneamente, sem que os dirigentes da politica democratica para elle houvessem contribuido com o mais insignificante pedido de concurso.