Triste balanço: o das victimas da insurreição

Vinte e quatro horas apoz a liquidação do movimento, espalhou-se que o numero de mortos na refrega não passara de doze—na sua maioria guardas municipaes. Entretanto, na população portuense ficou durante muito tempo a impressão de que esse numero não representava a verdade e que os cadaveres de revoltosos sepultados nos cemiterios da capital do Norte se tinham contado por centenas. O Primeiro de Janeiro, do dia immediato ao da revolta, forneceu aos seus leitores esta lista de feridos graves—muitos dos quaes vieram a fallecer dos ferimentos recebidos:

«Recolhidos no hospital do Terço.—Manuel Canedo, soldado de infantaria 10; Manuel Barreira, guarda municipal; Francisco Joaquim, guarda municipal; Manuel Maria, soldado do 10; José Joaquim Teixeira, guarda fiscal; João Manuel Gomes, guarda fiscal; Antonio Carneiro, soldado do[{145}] 18; Pedro da Rocha, soldado do 10; Manuel Cardoso, cabo da municipal; João Nepomuceno, guarda fiscal; Antonio Pereira de Almeida, civil; Francisco José e José Antonio Carneiro, municipaes; João José Pereira de Azevedo Lobo e Joaquim Gomes, cabos da municipal; dr. João Henrique da Rocha, redactor da Luz; Maria Custodia Alves, costureira. Esta rapariga estava á janella da casa do sr. Henrique de Mello quando rebentou o tiroteio e recebeu uma bala no pescoço.

«Recolhidos no hospital da Misericordia. Victorino da Assumpção e Domingos da Cunha, guardas fiscaes; Antonio Joaquim, municipal; Bernardino Gonçalves Losa, cabo da municipal; Albino Cardoso, guarda fiscal; Julio Cordeiro, sargento do 18; João Aleixo, corticeiro; José Manuel da Silva Monteiro, charuteiro; Joaquim Sant'Anna, pedreiro; João de Castro, empregado forense; Antonio Gomes Junior, alfaiate; Manuel Pereira da Fonseca, chapelleiro; Cosme Campos Cabral, estudante; Marianna Rosa, serviçal.

«Recolhidos no hospital militar.—Lemos Junior, cabo do 10; um soldado do 9 e tres soldados da guarda municipal.»

Sobre o numero de mortos, dizia:

«No hospital do Terço.—Um soldado da guarda fiscal.

«No hospital da Misericordia.—José Joaquim d'Almeida, tamanqueiro; João de Carvalho, trolha; um desconhecido e José Gustavo Adolpho Alves de Almeida Guimarães.

«Nas ruas—Um desconhecido; Silverio d'Almeida Santos, guarda fiscal; Taveira, 2.º sargento; Domingos Nogueira; João, entalhador e um empregado do commercio, irmão do redactor da Republica Jayme Filinto.»[{146}]

Evidentemente, esta lista era deficientissima. Tanto assim que d'ahi a dias uma nota do commissariado geral da policia indicava como despojos dos militares compromettidos no movimento:

«147 espingardas, 147 terçados, 1 espadim de official, 3 espadins de musicos, 1 bainha de espada de cavallaria, 147 patronas, 176 cinturões completos, 197 cananas, 14 cantis, 12 mochilas, 92 capacetes grandes, parte dos quaes sem a corôa real, 13 bonets da guarda fiscal, 9 instrumentos musicos, uma corneta, dois tambores, 39 capotes, um capote de official, 23 jaquetas, a maior parte das quaes pertencentes a sargentos, 173 massos de cartuchame embalado com vinte tiros cada um, 227 massos com dez tiros e uma grande porção de balas soltas.»

Reproduzindo esta nota, não queremos dizer com isso que cada um dos objectos acima enumerados tenha realmente correspondido a um morto pela revolução. A nota, em primeiro logar, expressa por uma maneira bem flagrante a intensidade do panico que se desenvolveu ao principiar o recontro na rua de Santo Antonio. Por outro lado, muitos dos militares que empunhavam esse armamento recolhido pela policia, tendo conseguido escapar á fusilaria da municipal, abrigaram-se fóra do Porto e uma grande porção d'elles fugiu para Lisboa. Em resumo: se não foram apenas doze as victimas do movimento republicano—como se pretendeu affirmar no dia seguinte ao da derrota—tambem não cremos que tivessem passado de cincoenta os cadaveres enterrados nos cemiterios.

No dia 3, á meia noite, correu no Porto que o regimento de infantaria 3, aquartelado em Santo Ovidio de camaradagem com o 18—fôra para ali[{147}] horas depois de suffocada a revolta—se insubordinara e pretendia sahir á rua dando vivas á Liberdade e á Republica. A capital do Norte tornou a viver momentos de angustiosa espectativa. Pelo espirito da população portuense de novo perpassou a visão d'outros cadaveres empilhados no Prado do Repouso... A guarda municipal, prevenida dos boatos correntes, encaminhou-se sem demora para o Campo de Santo Ovidio. Ahi, reconhecendo que nada tinha a fazer, evolucionou em varias direcções e por fim desceu á Praça de D. Pedro, ostentando a pose irritante adequada a salvadores da monarchia. De madrugada recolheu ao quartel e a cidade recuperou o socego.

Antonio José de Almeida (1891)

Nos dias immediatos, ainda os cemiterios receberam os corpos de algumas das victimas da Revolução. Tratava-se de feridos graves operados nos hospitaes e que não tinham resistido a amputações dolorosissimas, ás trepanações e outros trabalhos cirurgicos. A par d'essa liquidação funebre, a policia e as auctoridades militares procediam a uma outra: a das creaturas que se lhes affiguravam suspeitas de republicanismo. Para mais, nas buscas realisadas em diversas casas de revoltosos haviam sido apprehendidos documentos provando a adhesão[{148}] ao movimento não só de quasi todos os officiaes inferiores da guarnição do Porto mas de dezenas de militares residentes n'outros pontos do paiz. E assim, a rede lançada pelos agentes da ordem procurou abranger o maior numero possivel de elementos accusatorios, collocando ao mesmo tempo os presos politicos em situação de esmorecerem de animo pelo effeito do tratamento que lhes dispensavam.

Dil-o um testemunho insuspeito:

«Punge-me a triste situação em que se acham os revoltosos do 31 de Janeiro. Aos presos apenas é dada uma triste açorda; não teem cama nem uma enxerga ou maca, nem uma pouca de palha em que se deitem, nem uma manta em que se embrulhem. Os que dispõem d'alguns recursos mandam ir das suas casas roupas e enxergas, mas os restantes, que são o maior numero, estão dormindo nas tabuas nuas, tiritando e morrendo com frio.»

Pelo que respeita á assistencia judiciaria foram os revoltosos mais felizes. O curso do 5.º anno da Faculdade de Direito, n'um impulso de vehemente generosidade, offereceu-se em massa para defender os réus, explicando, porém, pela bocca do seu camarada dr. Lomelino de Freitas—o porta-voz do bizarro offerecimento—que «a sua attitude não implicava de modo algum profissão de fé politica nem approvação ou desapprovação dos acontecimentos.»

Os republicanos que tinham conseguido abrigar-se em Hespanha, esses, depois de socorridos pelo governo do paiz visinho, haviam recebido ordem de se afastar da fronteira, internando-se—exactamente o contrario do que succedeu mais tarde, estando no poder o sr. Canalejas e tentando o ex-capitão[{149}] de artilharia Paiva Couceiro restaurar a monarchia brigantina.

A situação, em resumo, tornara-se difficil e penosa para todos os que, não partilhando da subserviencia incondicional ao regimen monarchico, se viam forçados a procurar no isolamento ou no exilio a tranquilidade que o mesmo regimen lhes negava. O governo, no proposito firme de cortar as azas á mais insignificante velleidade de resistencia, dissolvia os clubs republicanos e punha a guarda municipal constantemente de prevenção. E a sua furia contra as aggremiações democraticas attingiu taes proporções que só n'um dia mandou fechar quatorze das que então existiam em Lisboa.