Beatas—Procissões e Romarias

Terminára a faina do dia.

O fogo que elevára a temperatura nos grandes caldeirões do Olympo, onde se manipulava a Humanidade, consumia, apenas, carvões isolados que, pouco a pouco, se transformavam em cinzas.

Os cyclopes, destacados por Vulcano para essa secção da grandiosa fabrica da Natureza, que o proprio Jupiter dirigia, raspavam, apressadamente, nos grandes extendedores, a massa, que ficara collada, e deitavam-n’a, como inutil, nos baldes do lixo e da immundicie.

Jupiter encastellava o dinheiro das ferias; fechava a escrevaninha; trocava a japona da fabrica pelo manto de arminho, e dispunha-se a sahir, tocando de passagem a sineta, para se fechar o estabelecimento.

Mas n’isto, principiou a elevar-se do caldeirão que estava proximo, cheiro activo e nauseabundo, (como o do esturro em guisado francez) que, espalhando-se na atmosphera, seriamente incommodou a regia pituitaria.

Aproximou-se Jupiter e olhou.

No fundo do pote, já com a côr do carbonisado, estrugia o resto da massa que ficára, da que n’esse dia se tinha dosado para a preparação dos hypocritas. Pouco valor aquillo tinha, porque era da mistella mais vulgar e mais facil de preparar; mas Jupiter não perdia ensejo de incutir nos seus operarios os deveres d’uma administração rigorosa e economica.

Ordenou, pois, a dois cyclopes que trouxessem do barril do lixo algumas aparas, recommendando que preferissem as mal-cheirosas e de côr escura, que pertenciam á massa dos invejosos e dos usurarios.

Avivaram o fogo; deitaram os novos elementos no caldeirão; remexeram com o cabo d’uma vassoira, porque a ferramenta já estava guardada e limpa; e, depois de cinco minutos de ebullição, Jupiter provou a mixordia. Estava sobre o insipido.

Deitou-lhe umas pitaditas de sal e de pimenta, com que preparava os maldizentes.

Provou de novo. Estava picante de mais.

Temperou, então, com o betume dos ociosos; e deixou ferver tudo, durante outros cinco minutos.

Os cyclopes retiraram o caldeirão. Trouxeram os moldes; vazaram n’elles a massa, que se conservava no estado pastoso e esperaram.

Pouco tempo depois, Jupiter aproximou-se; arrotou, e dos moldes sahiram duas coisas, duas formas humanas, com movimento, côr e vida.

Eram duas mulheres.

Ora Jupiter não se podia demorar, porque combinára, para aquella hora, uma entrevista com Europa, e os cyclopes principiavam a murmurar, porque dera a hora e tinham as familias á espera.

Assim, mandou Jupiter abrir o postigo do Olympo, empurrou até lá as mulheres e atirou com ellas, cá para baixo, com um valente pontapé.

Por esse ether fóra, assustaram-se as creaturas; agarraram-se uma á outra afflictivamente; principiaram a rezar a Magnificat, a Ladainha, e assim foram cahir sobre o telhado d’uma egreja, aterrando o escorropicha-galhetas, que se deliciava, occultamente, com os restos do precioso sangue de Christo.

Aqui tem V. Ex.ª como chegaram as beatas ao globo terraqueo, e ahi fica a formula da sua composição molecular: aparas de hypocritas, de usurarios, de invejosos, de maldizentes e de ociosos.

Representando esses elementos pelos respectivos symbolos, poderemos estabelecer:

H⁵ + M⁴ + I³ + O² + U = Beatas

*

Aquellas moleculas da Hypocrisia e da Ociosidade deram-lhes facil e rapida admissão na sociedade.

Casaram; reproduziram-se; e, em pouco tempo, estava a raça extraordinariamente desenvolvida e disseminada por toda a parte, desde a cidade populosa e civilizada, até á aldeia humilde e rude.

Cá as temos e cá as aturamos... Submettendo-as agora, para as descrever, a rigorosa analyse, encontrei-lhes todas as propriedades dos primitivos elementos.

Vão á missa das sete—uma missinha que faz muito arranjo, porque dá tempo de arranjar a casa e de se mandar, á praça, cedo.

Rezam; inspeccionam tudo o que se faz e tudo o que entra na egreja; communicam e transmittem as novidades do soalheiro; e, entre o cochichar do Padre Nosso, segue uma enfiada de casos novos e de commentarios:

Padre Nosso, que estaes no céo (e o vestido novo que hontem levou a X ao jardim! É da Torrona. Ficou a dever. O Blanco é que as canta...) santificado seja o Vosso Nome (acabou o namoro da filha do Y, porque a Mãe bateu-lhe. Diz que o rapaz gosta muito de mulherinhas) venha a nós o vosso reino e seja feita (sahiu a creada da casa do W. Oh menina! Sempre ella conta coisas... Diz que tem a casa como um ôvo! Comem todos os dias prato de meio!) a vossa vontade, assim na terra, como no ceu (Lá entrou o Velloso... que raio de homem! Tem mais de vinte namoros. É como o Prado! Elle é elegante, isso é! Já lhe reparaste nas pernas?) o Pão nosso de cada dia nos dae, Senhor, perdoae-nos (oh... Faltava aquelle... o Leopoldo. Tambem já podia casar... Para o que anda por ahi a fazer...) as nossas dividas, assim na terra, como (agora é o dos pombos correios... Tambem é fresco, com aquella cara de santo...)

Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus...

Como V. Ex.ª póde suppôr, a fervorosa oração foi cortada pelo badalo do sachrista, que tocou a Santos. Se elle não interrompe, o que teriamos nós de ouvir...

*

Este beaterio é muito casto e excessivamente pudibundo.

Na egreja de S. Estevão ha uma Virgem do Leite, que, se não é, realmente, uma preciosidade artistica, é, com certeza, a melhor tela que existe em Valença, não falando—já se vê—n’aquellas caras de malagueta e colorau, todas com a mesma fórma e feitio, que o sr. Julião exporta, mensalmente, para as salas nobres dos hospitaes minhotos, a soberano por caveira, com dez por cento de abatimento, por duzia.

Pois o beaterio escandalizou-se com a nudez dos peitos da imagem, isto é, repugnou-lhe que se visse o que na mulher representa a sua missão mais nobre, mais elevada e mais santa—a maternidade. E a instancias d’esses respeitaveis camafeus, muito castos e muito pudibundos, mas que nunca faltam á Rosinha Ferreira, quando ella representa; e mandam logo de manhã comprar bilhete, e dão pançadinhas com riso, e coram (não de pudôr) e se apimentam, e se agitam, nervosas, na cadeira, quando Lili conta as suas coisas—a instancias e reclamações d’essa gente, repito, uma auctoridade ecclesiastica, que eu agora respeito, porque já não está entre vivos, mandou, por um caiador de Arão, borrar os peitos da imagem!!!

Isto, minhas senhoras e senhores, em pleno seculo XIX, n’uma terra que tem dois jornaes, correspondentes varios de ditos, representantes de Sua Magestade El-Rei, Vigarios geraes e não geraes, Conegos Presidentes, e não Presidentes, Capellães, etc., etc.! E entre toda essa gente, que sabe ler e escrever, segundo se diz, não houve um unico homem que corresse a pontapés o cafre de Arão, reproduzindo-lhe com a biqueira da bota, ahi pelas alturas do coccyx, os borrões com que profanou a imagem!

*

O beaterio communga quinzenalmente e confessa-se duas vezes por semana, a padres velhos, surdos e rançosos.

Padres novos são o diabo!

Até os Patriarchas fazem das suas... Ainda não ha muito tempo, que os apparelhos de Morse, de Bandot, de Hugues e os telephones da Hespanha e França, não designavam outras palavras, alem de: as botas?

José Luciano perguntava a Vega d’Armijo: as botas? Vega d’Armijo perguntava a Carnot: as botas? Carnot reperguntava ao Luciano: as botas?

Em Pariz, Madrid e Lisboa não se falava n’outra coisa.

Averiguado o caso, fôra o Patriarcha das Gandricas que, em Salamanca, se enamorára perdidamente dos ojos negros d’uma andaluza. Gargalinho, seu companheiro, arrastava a aza á sopeira.

A andaluza dava, com certo recato, nocturnas entrevistas. Uma vez, quando o Patriarcha se inebriava com os effluvios do amor... platonico, surgiu o protector da niña, de cuchilla toledana em punho.

O Patriarcha saltou, em meias, pela janella. Gargalinho sumiu-se debaixo da cama; quando de lá o tiraram, tanto puxaram pelo pescoço, que ficou como o do P. Alexandre.

Do Alcalde reclamou o Patriarcha as botas; o Alcalde officiou ao Consul; o Consul officiou ao Ministro. Não appareceram as botas e o Patriarcha andou na Exposição, subiu á Eiffel, visitou o Carnot, com o seu inseparavel capote de forro vermelho e golla de pelle, chapéo braguez, chinelo de liga, calça dobrada em baixo, deixando ver os atilhos das ceroilas, symetricamente apartados e dispostos em cuidadosa laçada. Nos boulevards, quando elles passavam, diziam as mundanas:

C’est um Hottentot et son petit:... mais quel cou, mon Dieu![23]

*

O Soares, no principio ainda agradou, porque dizia a sua missinha de Santo Antonio a muito boa hora e era pontual; mas, depois, principiou a desleixar-se e a vir para a egreja, tarde e a más horas.

Foi o Albino, que andava sempre com elle, quem o fez peco. Principiou a dizer-lhe que estava n’uma boa posição official, que se devia apresentar sempre muito limpo e lavado, porque o conego velho nem ceroilas usava, apresentando-se n’um desarranjo completo, com a barba por fazer, amarello, completamente deitado abaixo, a ponto de a gente recear, ás vezes, que fosse de bruços; e que era bom, aos sabbados, preparar-se e lavar-se de vespera; levantar-se depois cedo, lavar-se novamente muito lavado, tomar a sua chavenasinha de café com a sua colhér de prata; e nunca chamar a attenção das más linguas, que estão sempre a postos, porque a missa sempre dava os seus sete e vinte, que já chegavam para uma posição graduada; mais isto, mais aquillo, com outros periúdos,—de fórma que o rapaz gastava duas horas a lavar-se, a vestir-se, e a gente que esperasse, só com um café bebido!

O resultado foi perder a missa de S. Antonio, porque já não tinha freguezia.

O Magalhães será muito boa pessoa, mas... não se dá com o sr. Joaquim.

Ora o sr. Joaquim é um homem muito temente a Deus. No inverno, quando ha mais frio e fome, anda por ahi, de porta em porta, com a subscripção... da Semana Santa, para que a pobreza possa curtir... na egreja, as suas maguas e dôres.

Alem d’isso, não se poupa a despezas, quando é Juiz da Senhora da Saude, da Urgeira, e vê probabilidades de (tudo pela santa religião) fazer uma pirraça ao diabo... do João Cabral!

Um homem assim, é um philanthropo e deve andar de bem com Deus. Quem com elle não se dá, não se dá com Deus; ergo: Padre Magalhães não serve.

Depois, prega uns sermões que ninguem entende. Parece que não fala portuguez!

Nem, sequer, faz chorar a gente na Semana Santa!

Resumindo: não serve.

*

Eu falei na Semana Santa...

É o carnaval do beaterio. N’aquelles ultimos sete dias as beatas dão ar ás mantilhas, e largas á bisbilhotice, á curiosidade e... ao flato.

Quinta e sexta feira santas são em Valença, para a egreja de S. Estevão, o mesmo que domingo gordo e terça feira de entrudo são para a Assemblea.

Ha musica, serviço variado de pastilhas de chocolate, rebuçados e amendoas; confidencias, intrigas, sorrisos, trocas de cartas perfumadas, ciumes, arrufos, apertos de mão e—sobretudo—esta cavaqueira intima, expansiva, franca e alegre d’uma verdadeira reunião de familias.

A gente está alli, perfeitamente bem, e á sua vontade.

Com as temperaturas da egreja e das salas da Assemblea eleva-se, consideravelmente, o mercurio no thermometro dos affectos, em que o zero é—o arrufo, e os 100°—o casamento.

O Christo, já se vê, como dono da casa, lá está no alto da Cruz, recebendo sempre, com reconhecimento cordial, tão fervorosas e animadas manifestações de amor e respeito...

As beatas arranjam, com a Semana Santa, que contar para um mez.

Quando os escorropicha-galhetas abrem, de manhã, as portas do templo, já ellas entram apressadas e remelosas, escolhendo o melhor logar «onde o bruto do povo e os pobres não incommodem, onde se esteja á vontade e se veja tudo». Levam as suas pastilhas de chocolate para a debilidade, a caixa do rapé, o banquinho de tapete, agasalho para os pés e lenço para as lagrimas, que são da praxe, quando o Padre mostra o Santo Sudario.

Installadas assim, com todas as commodidades (tudo pelo amor de Christo, que tanto soffreu na Cruz) no seu ponto de devoção e de observação, gozam á tripa-forra não perdendo um olhar, um sorriso, um vestido novo, uma tournure mais arrebitada...

Á noite vão para casa, consideravelmente alliviadas da consciencia, mas pouco satisfeitas com o Magalhães, que falou em problemas sociaes, em pauperismo, em Philosophia da Historia, em altruismo, em protoplasma e outras coisas, que nem o sr. Joaquim entendeu, apesar de, por vezes, (certamente por delícadeza) abaixar a cabeça, como quem diz: comprehendo, approvo e... estou satisfeito.

O Palmeirão, quando conta imbecilmente pela decima vigesima vez, a tragedia do Calvario—tragedia sublime e benefica para as agruras da nossa existencia, se todos a soubessemos comprehender, mas que por ahi anda como o libretto estafado, nas epochas lyricas da egreja, para especulação, para immoralidades e para descrenças—esse percebe-se e agrada muito mais!

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O beaterio tem uns Santos da sua particular estima.

Os Santos, a final, são como a gente, com quem se lida. Ha physionomias que logo inspiram sympathia e ha outras que, sem a gente saber como, nem porque, provocam embirração.

Isto é razoavel e intuitivo. Diga-me, por exemplo, V. Ex.ª quem ha-de gostar do S. Christovão, com aquella grande cara arrenegada, parecendo dizer ás gentes que, se lhe chegam a mostarda ao nariz, corre tudo com a vara, pela egreja fóra, como o Pau-real na feira de S. Bento da Porta-aberta!

Assim, quando rareiam as festas e as bolsas andam exhaustas, com as frequentes subscripções da Assemblea, não havendo possibilidade de se organizar a Semana Santa, então, promove o beaterio umas novenas á Senhora de tal.

«São umas festasinhas muito razoaveis, porque a musica é mais alegre, são de dia e sempre ha probabilidades de, terminadas as ladainhas e as encommendações, se dar, ainda, um passeio até ao Jardim. Emfim, n’uma terra, que tem poucas distracções e onde a Rosinha se não póde sustentar, tudo se aproveita.»

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O caso da Santa alarmou vivamente os animos d’estas esgrouviadas bisbilhoteiras.

«Parece impossivel que se não abrisse a Terra, que não viesse um raio, um diabo, que castigasse aquelle pedreiro-livre, aquelle atheu do administrador!»

O malandro que trazia a imagem e a metteu na taberna da Esplanada, expondo-a ás chufas e obscenidades avinhadas dos comparsas, esperando que o contra-regra desse o signal de subir o panno, para essa asquerosa comedia, da nossa asquerosissima Politica,—o malandro que, com um sebento balandrau, de imagem e prato na mão, por ahi chatina semanalmente, a meias, com as crenças do povo, e não hesita em transpôr os humbraes do bordel, pedindo para a bemdita e milagrosa Senhora de tal, interessando assim, a religião de Christo no producto que a barregan obtem da venda, em publico, do corpo e da honra—esse icha-corvos torpe e vil, d’uma ganancia mais vil e mais torpe, do que os trinta dinheiros de Judas, que por ahi esfarrapa as poucas crenças, que ainda existem no povo—esse:

«coitadinho! Mettia dó vêl-o. Estava amarello, aterrado. Foi preciso leval-o, quasi em braços, e dar-lhe café quente, porque lhe podia dar alguma coisa»!

Ah, baratas de sacristia! Como eu desejava possuir o açoite, com que Christo expulsou os phariseus e de que côr eu vos poria as nadegas...

*

As procissões...

Eu não conheço coisa mais estupida, barbara e deshumana.

Felizmente, sou, n’esta opinião, apoiado pelo espirito do seculo que, pouco a pouco, vae terminando com ellas.

Qual é o fim das procissões?

Qual a sua necessidade?

São para avivar as crenças?

Que ha, por esse mundo de Christo, mais ridiculo e caricato do que Santas Cocas, bois bentos, S. Jorges de carne ou de madeira, isto é, com tarracha, ou sem ella, prophetas com barbas de crina, pendões em varas de pinheiro por descascar, gaiteiros aos pinotes, matulões de cara aparvalhada e cabello empastado com gomma de pevides de marmelo?

Que ha, por ahi, de mais barbaro e deshumano, senhoras de Valença, do que essa perigosissima exposição a que, por vaidade, condemnaes os membros ainda tenros das creanças, carregadas com adereços de pechisbeque e diamantes de vintem, peito e braços nus, tiritando e caminhando custosamente, com os pesitos entalados nos escarpes do uniforme, e atiradas, por essas ruas, á voracidade das bronchites e pneumonias que o frio origina, ou das febres e meningites que o calor provoca?

Dizei-me: a Christo, se é a Christo que desejaes honrar, não seria mais agradavel que essas duas libras, com que entraes em ajuste d’uma pneumonia para vossos filhos, lhes fossem entregues para, com ellas, na bemdita missão da Caridade, penetrarem n’uma d’essas barracas da Parada-velha e as deporem nas mãos tremulas e descarnadas do pobre velho que tem fome e frio aos 80 annos, illuminando-lhe assim com a luz do céo, com a luz de Deus, aquelle tenebroso occaso de soffrimento e dôr?

E quando a creança voltasse a casa, risonha e feliz, como Deus a sabe dispôr, ao fazer d’ella a mensageira do Bem, não seriam para vós mais agradaveis as lagrimas da gratidão do pobre entrevado que, como perolas, deslizassem ainda nas mãos pequeninas, do que esse immundo cartucho de papel mata-morrão com doces de farinha de milho e assucar mascavado—suprema delicia dos matulões da Urgeira—com que o boçal e estupido Juiz da festa lhe paga o papel de comparsa?

Senhoras de Valença, que tendes filhos! Pensae n’isto...

*

A procissão, que os Paes de familia mais respeitam, é a de Corpus-Christi.

Quando se approxima, é inevitavel a contribuição de chapéos novos para as senhoras. É uma coisa feia, na verdade, o apparecer-se n’esse dia, consagrado a Deus, com chapéos de inverno...

Pois se o Blanco os tem tanto em conta... Já se não fala em vestidos, porque emfim, dá-se uma volta ao do anno passado e ainda póde escapar; mas o chapéo é da praxe.

As janellas guarnecem-se, n’esse dia, de caras bonitas. Nas ruas, vae e vem, chibante e taful, a juventude da terra; os aspirantes aduaneiros, com Velloso á frente, pimpam o oiro dos seus uniformes; barrigudos camaristas passam, atados á banda bicolor; ha muita gente do povo; colchas espaventosas, flammulas, etc., etc., e, no fim de tudo, a tropa e as descargas.

N’este anno, então, essa ultima parte esteve magestosa. Digo a verdade: manobras assim, tão complicadas e com tanta tactica, só as tenho visto em França, no campo de Chalons, e em Portugal... no largo de S. João. Consta-me, até, que para o anno cá temos officiaes dos exercitos europeus, em commissão de estudo.

Pelo menos, assim m’o asseveram Moltke, Carnot, o Czar de todas as Russias, o Schah da Persia e o Bey de Tunis. Se o affirmam por lisonja, sabendo que sou de Valença, isso é com elles.

Vae pelo preço...

*

Agora as romarias.

Diversos pensadores e philosophos consideram as romarias, como indispensaveis e necessarias, attendendo a que o povo que, durante seis dias, labuta e trabalha, necessita de descanço e distracção ao setimo, para que possa retemperar as forças.

Concordo com isso, mas não colhe o argumento na defeza d’ellas, como elemento vivificador de crenças.

Quem é que vae á Urgeira, a Ganfey, ao Faro, a Segadães, que não seja por mero divertimento, por distracção, pela novidade de um caso ruidoso e differente na pacata vida da provincia?

Quem annuncia em casa á familia a visita á Senhora da Cabeça, ou a S. Campio, que isso não signifique um dia de borga e de folgança?

Vejamos as coisas como são, limpando o prisma da observação e da critica, das teias de aranha, com que a rotina, o uso e a tradição lhe mancham a transparencia.

O que é a «Senhora da Cabeça»?

Um concurso legal de caceteiros.

Perguntem ao meu amigo Joaquim Queiroz, se elle de lá veiu com mais crenças, apesar dos esforços que os salta-pocinhas de Lara e de Lapella fizeram, para lh’as introduzir na massa cerebral.

Perguntem a esse amigo, imprudentemente envolvido por generosa dedicação e por nobre arrebatamento, na batalha de Montes Claros, se essas mulheres, que uivavam como hyenas e clamavam em furia horrenda, contra tres homens, não eram as mesmas que se espojavam pelo adro da capella, e se arrastavam de joelhos nas cinco voltas da promessa, com que, sentindo estoirar o bandulho nos arrancos de brutal indigestão, recorreram á fama milagreira da Santa...

Perguntem-lhe se esses matulões, que á porta do Chico Mello o cercavam, embrutecidos pelo vinho, apertando o circulo dos varapaus ferrados, com gritos de chacal e esgares sensuaes de anthropophagos, não eram os mesmos que, horas antes, carregavam, como bestas, com o andor da Santa e abalavam o solo com o poisar da pata na marcha truanesca, pelos atalhos do logarejo.

O que é S. Campio?

A prostituição ao ar livre, sob o manto estrellado da noite, como diria qualquer poeta; e a charlatanice, fazendo suar o Santo e... os milheiraes.

*

A pequena distancia d’esta villa ha um burgo chamado—Urgeira. É feudo do sr. Joaquim. Descendem em linha recta, os seus habitantes, d’aquelles antigos cultivadores de cebolas do Egypto.

Formam um elemento importante na Politica do nosso Hospital e prestam assaz reconhecido serviço, nas procissões da Semana Santa. Chegam em mesnadas, marcham bem, formam, com os seus balandraus, duas alas, já muito razoaveis e, além d’isso, são faceis de contentar: quaesquer tres patacos de borôa e zurrapa lhes enchem as panças, depois da procissão, na sacristia da Misericordia, provocando-lhes sonoro arrôto.

No verão, rara é a noite de sabbado, em que estes pacovios não queimam algumas duzias de libras, com foguetes de lagrimas e bombas de dynamite.

Ora, no burgo ha pobreza e ha miseria; ha velhos, que gemem na cama com o frio do inverno e ha creanças esfarrapadas, que chafurdam no lamaçal dos becos; ha aleijados, que se arrastam até á villa mendigando o chabo.

Com esses 500, ou 600 mil réis, que annualmente se gastam em festas, podia a Junta de Parochia fundar um Hospicio para os velhos, e estabelecer uma sopa economica para os famintos.

Mas a pandega? O grande brodio da vespera da festa? A figura que se faz na procissão com a vara de Juiz?

*

Necessita o povo de distracções.

Verdade é, mas dêem-lh’as que o civilizem e não que o embruteçam. Festas, Romarias e Procissões são ainda vestigios d’aquelles primitivos tempos, em que era necessario inveterar pelo mysticismo, pelo apparato e sumptuosidade das manifestações, o espirito da crença.

Mas hoje, em que para o plebeu entrar no templo até á grade, onde a aristocracia aninha, se lhe exige roupa lavada e calçado decente; hoje, em que elle vae á romaria para jogar o pau, beber vinho e entregar fielmente á Batota a féria da semana—acabem com tudo isso e deixem ficar a Religião nos templos, e só nos templos, d’onde nunca devera ter sahido.

E, para divertir o povo, substituam, então, esses grotescos cortejos de Santos, entre espelhos de pataco e plumas de gallo, por verdadeiras procissões civicas, onde figurem os heroes da nossa Patria, que os temos tantos e tão dignos d’essa apotheose.

Em vez de pulpitos ao ar livre, levantem-se tablados, onde se reproduzam os factos mais gloriosos das gloriosissimas epopéas que, a um paiz de tão acanhadas dimensões, deram a celebridade das grandes nacionalidades.

Organizem-se-lhe jogos, luctas, em que se adestre no exercicio das armas e possa desenvolver os musculos e a energia, de que tanto necessita para a constante lucta da existencia.

Conte-se e mostre-se ao povo o que fomos, e assim, distrahindo-o, lhe incutiremos os germens d’esse sentimento, que é o principal impulsor dos grandes feitos e das grandes civilizações—o amor da patria.[24]

Basta de coisas de egreja. E agora,—beaterio da minha terra!—um Padre Nosso e uma Ave-Maria por este Zinão, que já está ás portas do inferno... mas esperando que entreis, para atrancar solidamente a porta e assim vos acabar com a raça!

Pater Noster...


VII
Litteraturas
(DUAS PALAVRAS)

Claro é que, tendo subordinado o programma d’este livro ao titulo de Estudos sobre a actual sociedade valenciana, me não posso esquivar a fazer incidir, por momentos, na minha lente de observação, os raios luminosos que os nossos homens de lettras, semanalmente, fazem convergir no fóco das lamparinas cá da terra.

N’esta epocha, em que legalmente está em uso, reconhecida e sanccionada, essa nojenta e nociva convenção litteraria do elogio-mutuo, que tanto talento atrophia, que tanta intelligencia embriaga com os aromas d’um incenso macanjo, parvoiçada é—reconheço—o meu proposito, que significa perigo eminente nas cannelas, irremediavelmente condemnadas á dentuça dos critiqueiros.

Limito a area da observação com as muralhas da Praça e d’ella exceptuo, ainda, algumas individualidades que, demasiado, me ferem a retina com o seu talento, e que a insignificante distancia focal da lente me não permitte abranger.

*

N’esta nossa terra, a penna serve, unicamente, para estadulho de deslombar politicos, ou nas protervias e diatribes, originadas em questiunculas ridiculas e comicas, como as da Prisão da Santa, ou nas pacholices rimadas, com que se visa á critica galhofeira.

A penna photographa a Idéa. A Idéa póde evolar-se, librar-se sobre todas as manifestações da actividade humana, consoante as aspirações que a orientam e as intelligencias que a esclarecem. Póde fixar-se na Arte, na Sociedade, no Homem, etc. Entre nós, embirrou com a Politica e não a larga.

Por isso, chafurda na insulsez parrana, na graçola afadistada, na metaphora besuntona.

Ao brazileiro barato, ao fidalgo sem pergaminhos e a outros escarros-piadas, que por ahi fluctuam á tona da enxurrada, corresponde esse constante martellar de bordões estafados, do gaiteiro, do João Bernardo, com que ainda hoje a fedelhada sahe á estacada, empunhando a babuzeira e acenando a quem passa com outro Ideal e com outras armas: não o insulto soez á familia, mas o sorriso caustico do epigramma á individualidade social.

A Imaginação e a Phantasia vasam-se, por ahi, nos moldes d’uma linguagem mascavada, em que pullula o neologismo pretencioso, d’onde resalta a phrase de sensação dos ultimos figurinos, que o francez atira, por cima dos Pyreneus, como uma bota cambada e velha, e que o rabiscador, prestes, enfia nos pesunhos para, coxeante e rufião, seguir em truanesca marcha, campos fóra da critica e da... tolice.

Esfuzia, frequentemente, o gallicismo inutil nas espalmadas linhas; é constante a referencia ôca á lombada das recentes publicações francezas; e, n’uma epocha em que o mercieiro fala na Sapho, de Daudet, ri com as frescuras de Catulle, estremece com as Blasphemias de Richepin, salta com as pinturas realistas de Zola, entretem a familia com os Goncourt e auxilia a chylificação com Maupassant ou Coppee, a arlequinada do rabisca, não só denuncia ignorancia completa da nossa litteratura e dos recursos da nossa lingua, mas, ainda,—com a impropriedade dos termos, apanhados a dente e atacados a soquete sublinhado nos periodos—uma deploravel vaidade e tristissima inconsciencia.

Não ha orientação litteraria, nem eschola definida, nem percepção nitida da idea, nem consciencia na phrase, nem centelha de imaginação que desperte a vibratilidade da nossa alma. Ha, d’um lado, a atrophia voluntaria e criminosa, a que se condemnam faculdades intellectuaes de superior quilate, e d’outro, a ambição ridicula e chatissima de se mostrar á familia—ao papá e á mana, ao titi e á prima, ao namoro e á sopeira—o nome em lettra redonda, claro, ou nas malhas transparentes d’um pseudonymo, que o sorrisinho immodesto descobre ao primeiro e desejado ensejo.

*

Poderá alguem suppôr com estas minhas reflexões, tão discordantes na fórma, das hosannas, que por ahi se entoam, impostas pela nojenta convenção do elogio mutuo, que nego merecimentos, ou repudio aptidões intellectuaes?

Tal não succede.

De quando em quando, aqui e acolá, mesmo n’esses a quem a vaidade e o pedantismo desnorteiam, descubro e reconheço os vestigios d’uma expontaneidade de phrase, evidente; d’um colorido de expressão, notavel; d’uma receptividade emocional, definida; d’uma accommodação visual para a analyse, apreciavel;—propriedades que, vigorizadas pelo trabalho, orientadas pelo estudo persistente nos bons modelos e impulsionadas para um Ideal, podiam educar-lhes o espirito e eleval-os, porventura, á consideração que ambicionam e que criminosamente lhes attribuem.

O que eu desconheço é:—o trabalho; o que eu censuro é:—a inercia; o que eu repudio e calco aos pés, é essa perfida e nojentissima convenção, que faz do cinco reis de gente um Adamastor, do balbuciante bebé um polemista, do Rosalino Candido, um Ramalho Ortigão, ou, como elles diriam, de Prudhomme, um Pierre Veron, ou Albert Wolff.

A penna exprime a Idea. A Idea parte do cerebro. O cerebro significa a Intelligencia, a Alma, isto é, o conjuncto da sensações e sentimentos, que na sua phenomenalidade, separam o Homem do bruto.

A faculdade de sentir e a expressão nitida e clara, pela penna e pela palavra, de todos os phenomenos da natureza psychica, são o que o homem tem de mais nobre.

Triste é, portanto que, na critica d’um facto, na discussão d’uma idea, no desforço d’uma aggressão, eu vá encontrar aptidões intellectuaes com elementos tão apreciaveis, na choldra da Politica, ou descendo, ainda, tanto e tanto, que se não pejam com a pasquinada a carvão nos logares, onde o carrejão usualmente se encosta, para... ensalitrar as paredes.

*

E no grupo dos que a inercia atrophia, dos que deviam libertar-se para outras espheras mais luminosas e mais puras, porque já possuem na Imaginação e na Phantasia a vigorosa organização do condor, vejo eu um homem—que sabe burilar preciosamente a idea, que filigrana artisticamente a palavra—debater-se, na triste condição de bonifrate, movimentado pelas guitas dos especuladores, transformando o cerebro, d’onde arranca chispas d’um verdadeiro talento, na bola ensebada e porca dos jogos malabares que os politiqueiros por ahi exhibem, visando á esportula dos magnates.

E como se não fosse profanação bastante, o manchar a penna nos bispotes, em que essa megéra—a Politica—diariamente evacua, ainda ha pouco manchou tambem os labios d’onde, palpitante, quente, phantasiosa e bella, lhe resalta a palavra, na dentuça cariada e porca d’um salta-pocinhas eleitoral agargalado!

Suprema humilhação do talento!

Pudesse eu agarrar-te pela golla do casaco e, applicando-te em certa parte do corpo duas palmadas, fazer actuar no teu espirito, incisiva e caustica, a affectuosa indignação, com que d’aqui te brado:

Livra-te d’esse chiqueiro, homem de Deus![25]


VIII
Quimtilinarias[26]

Diz algures Macaulay:

«É nas grandes crises politicas, nas grandes agitações populares, que se denunciam os grandes homens e se manifestam os grandes genios.»

Cá temos a confirmação d’esse periodo do eminente historiador inglez.

Ruge, infrene, a colera do povo por causa do mandado: e no meio d’essa espantosa effervescencia da nossa politica, ergue-se aos céos da posteridade, dardejando raios mortiferos de oratoria epistolar, um homem, até hoje ignorado na republica das lettras: Quim Fonseca!

Tenho lido muita epistola e muita carta; li as epistolas de S. Paulo aos corinthios; as de Horacio e Cicero; as de Racine e Pascal; as de M.ᵐᵉ de Sevigné e de Girardin; as do Rosalino e Jayme José; mas, coisa tão puxada de rhetorica, tão desembolada de logica, tão frecheira, de estylo—é que ainda não pude encontrar nas litteraturas passadas e presentes, desde a sanskrita, até á dos papuas, ou á das gentes do Molembo-Kuango!

Sempre desconfiei que, no cerebro d’este Fonseca, vascolejava algo de extraordinario e de superior. Quando, por ahi, aventavam deformidades psychicas, amesquinhantes do intellecto, affirmava eu sempre:

Fonseca tem lume no olho! O futuro o dirá.

Ahi estão as suas sessenta epistolas engranzadas nas gazetas da terra, confirmando, plenamente, os meus presentimentos.

*

Estudei durante muito tempo o Quim Fonseca, auscultando as minucias da sua existencia social e as subtis ramificações da sua politica.

Considero-o como um dos vultos mais importantes da minha terra, porque é o fulcro diamantino, onde se apoia a alavanca civilizadora (?) do Progresso. Impõe-se, portanto, á minha observação e ao meu respeito.

Consumi annos n’esse estudo, sem poder formular uma classificação exacta e rigorosa.

Mas, um dia, descobri que Fonseca usava... suspensorios!

Ora, os suspensorios teem para mim uma grande significação; considero-os como elemento precioso e infallivel na investigação do caracter individual—elemento mais precioso e mais infallivel, do que as protuberancias do craneo, na theoria de Gall; os traços physionomicos na de Lavater, ou o volume do cerebro na de Broca. Após minuciosas analyses e confrontações, cheguei á conclusão, de que os suspensorios pódem significar: reflexão, sobriedade, economia, previdencia, sensatez, paz do espirito, pureza de costumes, existencia de virtudes civicas.

Homem que usa suspensorios, sabe de cór quanto produz, livre do imposto de rendimento, o capital de doze moedas d’oiro a tres e meio por cento; sabe em que lua se cortam as madeiras; sabe em que epocha convém semear a couve penca, o rábano, a nabiça e as pevides de marmelo; sabe em que mez se capam os gatos; sabe salgar um porco, dispôr os presuntos no fumeiro, encher um chouriço; sabe coisas de emphyteuta, de fóros, de aguas de rega, de bacellos, de alpórcas e de bens de mão-morta; sabe aparar um callo e applicar um crystel; conhece remedios para o gôgo e para as bichas; conhece as propriedades do sebo de Hollanda; sabe—emfim—de tudo um boccadinho, porque é encyclopedico em Sciencias caseiras e perito em questões de vida pratica.

E V. Ex.ª, que conhece o Fonseca, diga-me, agora, se as aptidões do seu intellecto não estão ahi, nitidamente inventariadas.

*

Eu venero as commendas.

Quando, em Quinta-feira santa, na vizita ás casas do Senhor, encontro o sr. V. de Moraes, deslumbrando a gente com a sua casaca e com as scintillações da Gran-cruz gallega, onde o sol poente arranca chispas—tiro humildemente o meu chapéo e curvo-me submisso.

Venero a banda bicolor, diagonalando a obesa pança d’um senador; venero a vara d’um juiz de irmandade.

Reconheço tambem, a importancia social dos titulos honorificos.

Um Visconde foi, é, e será, sempre, um homem de massa mais afinada do que qualquer Zinão; um homem estremado entre a peonagem; um homem de sangue cruzadico, de alta sabença, de apurado senso. Ahi está o sr. V. da Torre, que, ainda de molleirinha e a fazer tem-tem, escrevia os Preconceitos, para... despreconceituar a heraldica dos viscondados.

Venero e respeito tudo isso, repito, porque, emfim, Deus que resolveu distinguir na sociedade umas certas pessoas, com titulos e com penduricalhos, lá se entende e lá tem as suas razões...

Mas cá no fôro intimo, nada provoca, mais fortemente, a minha consideração, como umas alças, uns suspensorios, d’aquelles de tres cores, como a bandeira franceza—com as suas fivelas doiradas, as suas prezilhas de coiro unidas, symetricamente, aos quatro botões alinhados pelo buraquinho do umbigo.

*

Este meu culto ás alças já me originou grave desgosto na familia.

Minha filha mais velha, D. Fagundes, namoriscava o filho do nosso procurador em Monsão. Ha cinco annos entra o mocinho na sala de visitas e, deante da rapariga, balbucia trémulo de commoção:

—Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!

O Senhor passou bem?

Eu vinha pedir a mão de sua filha D. Fagundes d’Atouguia. Tenho 25 annos; sou camarista na minha terra; as minhas propriedades rendem 40 carros e 60 pipas; tenho doze contos nominaes em inscripções; vinte obrigações das Aguas de Melgaço e de S. Pedro, cinco acções do piano da Assemblea e dez do Theatro Valenciano...

—Perdão, interrompi eu; e emquanto ás ultimas, pagou todas as prestações?

—Não, senhor; assignei, mas só paguei a primeira prestação de 10 p. c.

(O homem convem-me, disse com os meus botões, já vejo que é agostinhado.)

—Serve-me para genro; mas, um esclarecimento apenas, que é o mais importante: o meu amigo usa suspensorios?

—Ora essa! exclama o joven, acaso é isso importante no meu futuro marital? Pois a minha barriga é que tem de crescer...

—Basta, senhor! Visto que ridiculariza uma coisa tão seria,—nada feito! Queira bater a outra porta.

E Fagundes ficou solteira...

Ora ella está longe de ser uma belleza e, ás vezes, tem telha; mas para Monsão servia e, servia, até, muito bem.

*

Recebi hontem á noite um telegramma de Bismarck, pedindo informações urgentes ácerca das sessenta cartas. Como sou correspondente da Gazeta da Allemanha, tratei de averiguar o caso inspirador d’aquellas Catili—digo—Quimtilinarias.

Eis o que descobri:

Na ultima reunião dos quarenta-maiores, o Fonseca, subitamente atacado de violenta verborrhea, poz em pratos limpos a historia do mandado, segredada ao bichinho do ouvido por um amphibio.

Os senadores ficaram aterrados e os municipes bateram palmas, porque tinham farejado escandalo.

Fonseca exaltou-se, berrou, vociferou; e, por vezes, para o acalmar no furor do seu zelo pelos interesses do Municipio, teve um prestimoso amigo de lhe molhar a palavra, com agua da Fonte de S. Sebastião, que é a mais fresquinha[27].

A final serenou e retirou-se satisfeito.

Jantou e soube-lhe bem; mesmo muito bem. Com o enthusiasmo entrou de mais n’um arrozito de berberichos.

Retirou-se para o seu escriptorio.

Os berberichos principiaram, porém, a repontar com elle, provocando-lhe, em certo apparelho, uns beliscões diabolicos.

Lembrou-se de ir convidar o Leopoldo a dar um passeio nas muralhas; mas, por outro lado, a rigidez e a austeridade dos seus habitos aconselhavam-n’o a ir ter com o Capellão, certamente para se desobrigar dos peccados do dia.

Mas, n’isto, no lusco-fusco da sua somnolencia, viu apparecer e avançar o vertice d’um angulo de 25°, angulo que foi alargando, alargando, sustentando sempre, um dos seus lados, em parallelismo com os olhos do Fonseca.

Linhas irregulares, verticalmente dispostas, desenharam, depois, uma cabeça collada a esse grande appendice angular; novas linhas configuraram um corpo, como appendice d’aquelle primitivo appendice.

Appareceu um nariz com perninhas!

Em seguida, surgiu uma coisa redonda, muito arrebitada e rechonchuda, que foi, tambem, crescendo, crescendo...

Rebolava-se uma pança que, avançando, exclamou:—Oh Quim! Tu falaste bem; mas foi e Zé, quem te deu o papel!

Approxima-se o nariz, aos saltinhos, e diz tambem, roçando pelo respeitavel dito, do Fonseca:

Sim! O Zé deu-te o papel! Foi o Zé! Foi o Zé! Foi o Zé!

Ah, Morãeses do diabo! Bofé, que mentis! A mim, gentes de Verdoejo e de Taião!

E arremessando para longe as lubricas tentações, o chale-manta e o barretinho bordado com a sua borlinha toda repenicada, a dar-a-dar,—foi-se á escrevaninha e principiou a escrever uma carta; depois, outra; depois, outra;—total sessenta cartas!

No intellecto do Fonseca deu-se, então, aquelle phenomeno da scissiparidade por segmentação.

Cidadãos pacatos e sisudos, pouco versados na mechanica epistolar e affeitos á bolorenta erudição do:

«Muito estimarei que ao receber estas mal esboçadas regras, esteja gozando perfeita saude, em companhia de quem mais deseja, pois a minha, graças a Deus, ao fazer d’esta, é boa...»

sahiram-se com puxadas de estylo de rachar tudo, graças á communicabilidade galvanica do intellecto fonsecoide, saturado de rhetorica e prenhe de syllogismos irrefutaveis.

*

Mas vem cá—oh Fonseca—O que é, afinal, que pretendes dizer na tua, com essas sessenta epistolas?

Que diabo te disse o Noticioso, que tão violentamente arrepiou a tua espinha, como se te communicasse a irritabilidade nervosa do galvanismo?

Offendeste-te por elle affirmar, que na sessão dos quarenta-maiores, o teu esplendido discurso não foi improvisado e que houve, até, quem te desse o ponto?

Mas—oh filho—suppões, acaso, que no intimo da alma dos nossos conterraneos não existe, profundamente radicada, a absoluta confiança nos teus dotes oratorios, embora se reconheça, sem desdoiro, que não és, precisamente, o que se póde chamar um Pico de Mirandola?

Então não está ahi, bem pronunciado, no teu luzidio craneo, o extraordinario desenvolvimento da terceira circumvolução cerebral, em que Broca localizou a eloquencia e a arte oratoria?

Olha, Quim, um conselho de amigo:

As tuas sessenta epistolas,—embora, verdadeiramente, se não saiba, ainda, para que as escreveste e para que incommodaste tanto cidadão pacato, tanto cerebro, tanta caneta, tanto bico e tanto papel de chupeta—estão boas; isso estão. Mas ouve, filho, a respeito de litteratices, de cartas—isto é—de escripturas e de lettras, manda-n’os algumas, mas d’essas que tens com hypothecas e com fiadores.

As que para ahi estás a publicar, guarda-as, para quando não tiveres quem te chegue o papel...

Não maces mais a gente, que tem de aturar bissemanalmente o Noticioso, diariamente o Marilio[28] e—aos domingos,

o João de Ganfey.


IX
Politiquices[29]

Anda coisa no ar...

A horas mortas, nas sombras da noite, quando as venerandas paternidades desatam pachorrentamente os nastros das ceroilas e extendem as delgadas tibias entre a alvura dos lençoes, deliciando-se com a voluptuosa sensação do linho—quando os technicaphilas experimentam a potencia dynamica do coice e a rigidez do craneo contra os muros e bancos de praça, e as sopeiras, sedentas de luxuria e amor, abrem sorrateiramente a janella para sentimentaes gargarejos com almiscarados artilheiros—quando o beateiro resmunga entre bocejos, n’este meio cá—meio lá, da somnolencia, o ultimo Paternoster, e dois amigos meus, dos respeitaveis e probos, depois do nocturno repasto, se entregam, extramuros, a indigestos estudos de anatomia... patriotica—n’essas horas da noite, repito, nota-se nas ruas de Valença um movimento desusado, extraordinario e inquietador para quem de perto conhece, como nós, a indole pacifica e a habitual obediencia dos nossos conterraneos ao toque militar das oito e meia.

Cruzam-se vultos mysteriosos e sombrios, murmurando rapidamente palavras convencionaes; a frouxa luz dos candieiros projecta nas calçadas a sombra de longos capindós, de amplos libertés com que, indubitalmente, conspiradores sinistros, caras patibulares e alvellicas, se disfarçam e acobertam.

Denuncia-se, emfim, a effervescencia d’uma agitação occulta, surda, quiçá perigosa e violentissima, que prepara para breve, na historia d’este brioso povo, acontecimentos extraordinarios e imprevistos, que hão-de suscitar aos pósteros um ponto de exclamação tão elevado, tão grande e tão alto, como o sr. professor de Verdoejo, como o nariz do sr. dr. Ladislau, ou como um chapéo siamez que, ha um bom quarto de seculo, eu por ahi vejo, nos dias festivos do anno, luzidio e repontante, contra o ether dos céos.

Mercê da perspicacia e actividade do zeloso Commissario das Policias, o sr. Sampaio, está já conhecida a causa de tal agitação; e á amizade, com que esse cavalheiro me distingue, devo eu a possibilidade de aqui a communicar aos meus conterraneos, para tranquillidade das damas nervosas, das donzellas chloroticas e hystericas, que se tenham inquietado com o que acabo de denunciar.

Trata-se d’uma conspiração politica.

Preparam-se traças; urdem-se planos; consultam-se esphinges; interrogam-se oraculos; assediam-se as potestades eleitoraes; arietam-se as opiniões renitentes; hypnotisam-se os refractarios á conversão desejada, e tudo com a intenção sinistra e machiavelica de attentar, nas proximas eleições, contra a soberania e omnipotencia do senhor feudal d’este burgo, de quem tudo-lo-manda, o muito alto, poderoso, e excellentissimo Senhor Administrador do Concelho!!

Quem diria, senhores, o que no ultimo quartel do seculo teriamos de presenciar n’esta nossa terra tradicionalmente fiel ás instituições, cégamente obediente aos poderes constituidos, amante do seu Rei e de toda a sua Excellentissima familia (como se diz em Monsão)—n’esta terra onde, depois que os legendarios 7:500 bravos implantaram e regaram com o seu sangue o systema constitucional, inaugurando essas grotescas bambochatas, chamadas eleições, nunca os nossos antepassados tiveram a ousadia de contestar a opinião, as ideas do Senhor Administrador, embora ellas fossem tão extraordinarias e tão estramboticas como o dizer-se agora—por exemplo—que o sr. José Narciso não acceita a legitimidade dos direitos do Senhor D. Miguel de Bragança; que o Senhor Velloso, com o seu bigode negro e a alvura immaculada do seu collete branco, não é, para as damas, o mais esbelto e airoso joven, que terras de Portugal téem exportado para a nossa galeria aduaneira, ou ainda, que o Senhor Agostinho não significa na politica um caudilho poderoso, um sectario fiel, seguro e intransigente do partido progressista—regenerador—constituinte—reformista esquerdista—republicano—socialista.

Mas, perguntarão Vossas Excellencias, não faz Valença parte d’um circulo? Não téem os seus habitantes, como os d’outras terras, semelhantemente illustres—Fornos de Algodres, Terras de Bouro, Cannas de Senhorim—direitos e regalias que a Carta Constitucional da Monarchia concede para a amplissima e plenissima liberdade da opinião, em materia de eleições?

Verdade é.

Temos os mesmos direitos e á custa do mesmo preço...

Pagamos religiosamente as nossas decimas, as nossas congruas, sem contestações, nem aggravos, desprezando, até, com generosa e espartana altivez os quebrados, os dois, tres e quatro reis—uma ninharia—que o Senhor Recebedor, escravo dos dictames da sua consciencia, á força nos quer devolver.

Mas, eu recorro á Historia, a que Thierry chama «espelho da verdade» e Michelet «guia do futuro» para affirmar e provar, urbi et orbi, a inflexivel immutabilidade das opiniões politicas da nossa terra, recordando factos que, fiel e genuinamente, exprimem e caracterisam a superior orientação, que aqui existe sobre os direitos do cidadão—factos que não architecto com materiaes da Phanthasia, nem illumino nas penumbras dos tempos remotos, porque são rigorosamente exactos e coevos da geração que passa.

Approximava-se, ha annos, o dia em que o povo soberano, forte nos seus direitos, em troca do liberrimo voto a uma tarraçada de vinho, ou a indigestão de calhos na cantina eleitoral de Mestre Pedro era chamado a influir nos destinos da Patria e a metter a sua colherada n’essa sordida e nojenta palangãna, chamada urna, onde com putridas exhalações, referve e azeda a mixordia das ambições estultas, das vaidades irritantes, das pressões odiosas, das promessas fementidas, e em que os ambiciosos e especuladores—os Pausanias e Wilsons de todos os tempos—se refocillam e afocinham, disputando, á dentada, o appetecido osso do arranjo...

Nos campanarios sertanejos agitava-se o badalo chamando o servo da gleba que, de roupa domingueira e quinzena nova, se dispunha a, mais uma vez, com boçal inconsciencia, conspurcar o direito do voto—uma das mais bellas conquistas da liberdade na sua sangrenta evolução atravez de seculos de lucta, producto abençoado da laboriosissima reacção que n’essa enorme retorta, a França, na inferioridade do sudra, na degradação de ilota, nas algemas do escravo, na dependencia humilhante do servo—como elementos componentes—provocaram os raios chimicos da formosissima luz d’essa bemdita, mil vezes bemdita, alvorada de noventa e...

Mas, perdão.

Que diabo estou eu a escrever? Ridendo... Eis o meu programma.

Ao largo, pois, logares communs de estafada Historia!

Pensamentos tristes, arredae! Acoitae-vos e multiplicae-vos no cerebro do Padre Capellão para, nos sermões de sexta-feira santa, com que, tão auspiciosamente, inaugurou a sua eloquencia n’esta terra, nos descrever mais uma vez, com a voz embargada pelo sentimento, o martyrio da MÃE, as afflicções da MÃE a dôr da dita MÃE.

Continuemos, pois, a rir, senhores, um riso bom, sonóro, vibrante e desafogado, que o riso é das poucas coisas que ainda escapam á rede tributaria, e representa, n’este arido deserto da vida, a frescura vivificante e consoladora do oasis.

Ha annos, ia eu dizendo, em vesperas de eleição, teve um vizionario estranho a ingenuidade de tentar combater o sr. Administrador do Concelho, arrepiando-lhe a submissão dos eleitores, em determinadas freguezias.

O caso engatinhou ás culminancias do desafôro; alcandorou-se nos topes do escandalo!

Apimentaram-se os animos; esturraram-se os genios; apopleticaram-se os mais sisudos e conspicuos habitantes da rua de S. João—esses santos varões, que são na nossa terra os genuinos representantes dos ricos-homens e infanções dos tempos medievaes, sobrios de costumes, austeros no porte, d’um puritanismo feroz; tementes a Deus, ao diabo, ao abbade e ao sr. Joaquim Apollinario.

Reuniram-se, em conclave mysterioso, os mais valentes e poderosos homens d’armas do partido governamental—o unico, n’estes reinos, legalmente constituido.

Mensageiros esbaforidos chegavam, tressuando, de toda a parte com informações sobre os manejos do inimigo e, praça aberta á discussão, depois de grave ponderação e demorada concentração dos espiritos, sahiu d’aquellas venerandas cabeças o plano de combate que, para efficaz execução, para infallivel resultado, urgia communicar immediatamente, sem demoras, nem hesitações, a um rico-homem de Coura.

—Ora, n’aquella epocha, se bem que já estivesse iniciado o caminho das grandes descobertas geographicas e scientificas, que constituem a epopeia gloriosa da humanidade, e se conhecessem já, a America, a Africa, o phonographo, os camarões, o xarope do dr. Gibert e o sabão do sr. Moutinho; existindo já Pasteur, Jenner, João da Gaiteira, Edison, os srs. Zé da Rosa e Roldão; se bem que a Sciencia, em todos os seus ramos, estivesse consideravelmente aperfeiçoada, como por exemplo, a Jurisprudencia em que, no Direito penal, Lombroso, Garofalo, Aubry, attenuavam a responsabilidade criminal, combatendo essas brutaes penas da forca, da guilhotina, do pôtro, e substituindo-as, quando o crime tinha as revoltantes particularidades de Pantin, de Fuencarral, ou de White-Chapel, por uma audição, mais ou menos demorada, do drama do sr. C. Barros, ou d’um discurso do sr. Presidente da Camara—n’essa epocha, repito, ainda o sr. Miguel Dantas não tinha inventado Coura, a preciosa povoação, que tanto deu que matutar aos srs. Fontes e Bismarck, nos procellosos dias da revolução de Bico.

A Mesologia estava, ainda, no estado rudimentar e não tinha definido e aproveitado a extraordinaria influencia procreadora do clima, que n’aquellas uberrimas paragens, melhor do que a Physiologia de Debay, do que qualquer intervenção abbacial, ou leopoldica, mantem nas robustas camponezas uma fecundidade tal que, annullando por completo as theorias de Fourier, na resolução do importante problema do pauperismo, estabelece para a pittoresca povoação a reputação invejavel e, sobremodo honrosa, de fabrica permanente de amas para bebés.

Coura, emfim, meus senhores, a indispensavel Coura, estava ainda no casulo das sociedades modernas, na pevide das povoações minhotas, no caroço dos baluartes eleitoraes e não podia, portanto, alli influir a civilização como agora, em que o luxo das edificações principia a abandonar o colmo na cobertura das casas, substituindo-o por umas coisas vermelhas e arqueadas chamadas telhas, e em que ha Correio e Telegrapho, com um movimento tão extraordinario e assombroso, que a gente guinda-se aos mastaréos da popularidade, trepa aos carrapitos de um semi-deus, escarrancha-se na celebridade do proprio Boulanger se, n’um só dia, recebe da familia duas cartas e um telegramma!!

Mas... era necessario lá mandar um proprio, unico recurso d’aquelles felizes tempos, em que estavamos livres da Companhia real, e podiamos, sem despeza de testamento, nem afflicções de quem está nas garras da Morte, tentar qualquer viagem.

E tal era a urgencia, a imprescindibilidade da communicação, que o portador devia ir a cavallo!

Ora, esta urgencia, formulada na intervenção do rocinante e lançada á discussão na maior effervescencia do furôr opposicionista, despertou no espirito dos mais sensatos e perspicazes ricos-homens e abbades um subito resfriamento de enthusiasmo.

Perceberam o quer que fosse de sombrio e tetrico, que baixou a zero a ebullição tumultuosa da sua dedicação partidaria.

Como o Mane, Thecel, Phares, que entupiu Balthazar, ou a sombra de Banco que engasgou Macbeth, ou a estatua do Commendador, que foi para o D. Juan, de Molière, o que o vulto do capitão Teixeira de Moraes foi em noite procellosa de inverno, nas cercanias do solar da Balagota, para o Sr. Sampaio[30] a lembrança do cavallo aterrou os mais ousados d’aquelles ricos-homens, que representavam, no seu conjuncto, feudos e rendas superiores a muitas centenas de mil cruzados.

Empallideceram, subitamente, as faces até alli purpurinas e rubras de excitação; baixaram-se, evitando-se, os olhos, até alli coruscantes de furôr; cerraram-se os labios, como se uma pressão de muitas atmospheras actuasse brutalmente sobre as maxillas. Os mais ousados coçavam nervosamente a região occipital...

É que ao longe, lá muito ao longe, na sombra do magro rocinante, percebiam elles, já, as formas indecisas e vagas do burriqueiro, reclamando, com humilde postura—vergado o corpo n’aquelle respeitoso angulo de 65° com que o nosso homem, o supracitado Sr. Sampaio fala, cheio de blandicias e ternuras, ao Sr. Dr. Brito—o meio pinto da tabella para uma viagem a Coura.

Meio pinto, senhores!

Menos do que o Sr. Seixas ganhava n’uma caixa de amendoas, quando mostrava a factura; coisa de dois conselhos do Dr. João Cabral; meia dose florindica, pagando á Rotschild; o lucro do sr. Fontoura n’uma tisana de treze vintens.

Meio pinto, senhores!

..............................

Rapida foi a dissolução do conclave. Pretextos futeis, encapotados com razões imprevistas, fizeram debandar, como corvos açoitados pelo furacão, os graves maioraes da politica concelhia.

Foi o mensageiro a Coura, e durante muito tempo, nas altas e transcendentes concepções philosophicas, em que o animalejo constantemente se absorvia—(indecifraveis para nós, os mortaes, como a opinião politica do Sr. Vigario Geral, ou como a origem do subito rejuvenescimento do nosso muito querido Sr. Sampaio ao ler nos jornaes a palavra Cordão)—entrou a influir grave ponderação sobre o alcance dos decretos da Providencia, que se apraz em confiar de um misero sendeiro a salvação d’um partido, como do nada, do pó, do humus empapado da chuva, que demorou Grouchy, forjou o camartello possante, que em Waterloo esmigalhou o pedestal d’esse feroz açoite da Humanidade, chamado Napoleão.

..............................

Creio inutil dizer que, depois da eleição, para a gamella do burriqueiro havia mais um commensal... um cão![31]

*

Prosigamos n’este escabroso trilho da Historia em que, para fiel e rigorosa exposição dos factos, temos de executar os milagres do equilibrio de Blondin, ou de Leonne Doré, entre os exaggeros dos informadores apaixonados e as erroneas reflexões de commentadores pouco escrupulosos.

Serve-nos de maromba a consciencia e oxalá ella nos guie até ao fim d’esta penosa caminhada, atravez da original e curiosissima politica da nossa terra[32].

*

Indubitavelmente, o dia 22 de Novembro de 1879 é um dos mais memoraveis para os habitantes d’esta antiga e mui nobre povoação.

Essa data deve estar indelevelmente gravada no livro d’oiro dos grandes acontecimentos historicos; insculpida, a traços diamantinos, na epopea das grandes solemnidades de Valença, ao lado das procissões de S. Sebastião e Corpus Christi, grotescas mascaradas, com que no Minho se avivam as descrenças, digo, as crenças, a ociosidade, a pasmaceira, o ar marcial e aguerrido das tropas, os namoros, as bambinelas dos armadores e as transacções do commercio, na sua importantissima secção de: birimbaus, peixe frito e... limonada de cavallinho.

Foi um dia festivo, solemne; d’aquelles em que o caiado das casas nos parece mais branco; a porcaria das ruas menos escandalosa; a atmosphera mais diaphana; o verde das campinas mais vivo; a abobada celeste mais limpida; o aroma das flôres mais penetrante; a cara dos amigos mais risonha—um d’estes dias, em que a gente se sente mais feliz, com menos dinheiro e mais tentações, e em que as fibras do coração que movem o badalo do enthusiasmo, bruscamente se agitam, como se ouvissemos o hymno da Carta, um discurso do sr. conselheiro Silvestre Ribeiro, ou como se os canhões da Coroada, os sinos de Santo Estevão, a bandeira real desfraldada aos quatro ventos, celebrassem festivamente o anniversario da Restauração!

Acotovelava-se nas ruas uma multidão expansiva, ruidosa, com a alegria a pinotear na mioleira; com todos os macaquinhos do sr. Palhares, em borga infernal no sotão; expondo por ahi, escandalosamente, a habitual gravidade, de saia arregaçada e peitos descobertos, em desenfreado e lascivo minuete com as posições officiaes.

Para exprimir tudo, emfim, havia no intimo de cada um, tanta satisfação e tanta alegria, como hoje sentiria o sr. Joaquim se recebesse auctorisação do Ministro do Reino para obsequiar o dr. Cabral com todas as trombetas de Josaphat, sopradas por innumeras legiões d’aquelles anjos e seraphins de bochechinha gorda e purpurina, que por ahi vemos em S. Estevão,—embora, para esse justissimo desforço de cidadão offendido nos seus direitos, de Juiz da Senhora da Saude, affectado nas suas crenças, tivesse de arredar, das suas arcas de nababo, com arrebatado impulso de perdulario enthusiasmo, coisa de doze vintens—captivos a troco!

N’esse dia, meus senhores, era restituido o batalhão de caçadores 7 a Valença, chyprado ao berço da monarchia, á terra dos condes, dos conegos, das cruzes e dos cutileiros, por Sua Excellencia, o sr. Ministro da Guerra.

Nada faltou no programma das recepções festivas: coroas de loiros; discursos do sr. Presidente da Camara; mensagens de congratulação; odes e alexandrinos do vate Aurelio Victor Hugo; bailes; regabofe nos presidios; bodo aos pobres; arcos de triumpho forrados a gazetas; musica, foguetes e luminarias.

O enthusiasmo estonteava os cerebros; alcoolizava os espiritos; absinthava os animos.

O sr. Francisco Durães, homem sério, pacato e já na escala para camarista, deitava foguetes na muralha, como qualquer careca sertanejo em arraial da festeira Urgeira.

Um camarista illustre luctava duas horas, para enfiar no par de luvas, que por engano lhe tinham vendido para a mesma mão—o dedo mata-parasitas na casa do mindinho.

O sr. Abilio, nos paroxysmos de um enorme enthusiasmo, apparecia de gravata branca, casaca, no pé direito uma bota de polimento, no esquerdo um chinelo de liga, representando a Associação Artistica!

E no meio de todo este contentamento, nas expansões de todo este delirio, um unico nome soava, tangido constantemente pelo enthusiasmo popular, nas praças, nas ruas, nas lojas, nos clubs,—nome que parecia ser o fóco convergente para todas aquellas ruidosas manifestações, nome que n’esse dia tinha mais prestigio que o da Senhora do Faro, nome aureolado, nome querido de—Elyseu de Serpa!

Victoriava-seElyseu de Serpa
Discursava-se sobreElyseu de Serpa
Telegraphava-se aElyseu de Serpa
Rezava-se aElyseu de Serpa

e Clero, Nobreza e Povo, fraternizando, hombreando, felicitando-se, davam largas á plenitude da sua gratidão a Elyseu de Serpa.

Jurava-se aos deuses, pela nossa consciencia, assim dardos de Jupiter nos partissem, se durante a nossa existencia, embora ella attingisse a longevidade de um Mathusalem, que viveu, segundo diz a Biblia, 900 annos (o que eu acredito) outro homem se sentasse nas cadeiras de S. Bento com o nosso mandato, porque Valença tinha contrahido com elle uma divida sagrada, immorredoira, imperecivel, immensa, de profunda, eterna e vivissima gratidão.

E se alguem, mais pratico em coisas do mundo se atrevesse a revelar pouca confiança na estabilidade d’aquelles fervorosos protestos, recordando que já lá vae o tempo dos Eros, dos Scevolas, dos Martins de Freitas, dos Egas, etc.,—oh Christos de Villar!—corria grave risco de ser lançado aos fossos, empalado no pau da bandeira, ou esquartejado pelo primeiro magarefe, que por ahi apparecesse, em ociosa disponibilidade.

Pois, meus senhores, ahi vae a Moral do conto mais um tento para a marca preta e um documento para a nossa historia politica. Poucos mezes depois, mettia o sr. dr. Lopes o seu nariz na Administração do Concelho e aquelle grande vulto (não o do nariz) absorvia, completamente, todos os enthusiasmos que descrevi!

A urna entrou mais uma vez no templo, para servir de leito nas sensuaes orgias do voto com a immoralidade e o sr. Elyseu de Serpa, o mesmo, em carne e osso, a que me referi—obtinha em todas as assembleas eleitoraes do nosso concelho:—cinco votos!

Ora, um povo que denuncia tão vehemente firmeza de convicções e de sentimentos, está—digam lá o que disserem—reservado para grandes destinos.

Abençoado torrão este, da Patria minha!

*

Com os argumentos irrefutaveis, que os factos nos fornecem, estudamos até aqui a politica de Valença nas suas espheras mais elevadas, isto é, na villa e entre as camadas illustradas; e, indubitavelmente, não existe no nosso espirito outro sentimento, que não seja o baseado em tristissimo desalento...

Vejamos agora, em breves palavras, antes das considerações geraes, o que o povo imagina e sabe de toda esta engrenagem que lhe rouba os filhos, dinheiro e... os votos.

Ha annos, Ramos Paz, que aqui dignamente exerceu as funcções de Sub-Inspector de Instrucção, presidia a uma conferencia pedagogica nos Paços do Concelho. Extranhando as theorias apresentadas por um professor, sob a intervenção da auctoridade administrativa na legislação municipal, relativa ao professorado, perguntou alizando aquellas grandes barbas á D. João de Castro:

—Então quem nomeia os professores?

—O Sr. Administrador—respondeu o homem.

—Ora essa! Então as Camaras?

—As Camaras são tambem nomeadas pelo sr. Administrador—confirmou ainda, com a má interpretação que dera á pergunta.

Meditemos, senhores.

De feito; na ignorancia d’aquelle pedagogo havia uma grande verdade, que nós, rigorosamente, não podemos refutar.

Luiz XI disse uma vez ao Parlamento, levantando o chicote:

L’etat c’est moi!

Rodrigues Sampaio, não ha ainda muito tempo, que bradava ao paiz:

«O unico poder que entre nós existe é o Rei!»

Nós poderemos plagiar Luiz XI, Rodrigues Sampaio e o pedagogo, asseverando:

N’este concelho de Valença ha só uma força, uma vontade, um poder:—o Senhor Administrador[33]—quer o represente a taciturnidade esphingica do sr. Dr. Lopes, ou a gulliverica estatura do sr. Dr. Ladislau, ou a inoffensiva bandido-mania do sr. Dr. Malheiro, ou a feroz iconoclastia do sr. Dr. Cabral, ou... a paz d’alma e de corpo do sr. Dr. Brandão-Malheiro-Lopes da Cunha-Cabral!

Abençoado torrão este, da Patria minha!

*

Historiamos até aqui. Philosophemos agora, porque a Historia sem a Philosophia pouco vale e não póde servir, como disse Michelet, para guia do futuro.

É evidente que não temos organização pulmonar, que desafogadamente possa funccionar na atmosphera das nossas liberdades civis.

É evidente que, seja qual fôr o proceder da auctoridade administrativa, só ella póde, quer e manda; e que, no campo a que hoje Vossas Excellencias são chamados—as eleições—, ella exerce para qualquer opposição o mesmo terrifico effeito que, em dilatado feijoal, produz para os pardaes e pardocas, o espantalho armado com dous rabos de vassoira em cruz, cartola velha no vertice e casacão enfiado nos braços, com as mangas pendentes e á mercê do vento.

E, evidenciado isto, para que precisamos nós de deputados, seja qual fôr a chancella que tragam? Que temos nós com o que vae por esse paiz, com o nariz do sr. Beirão, com a marreca do sr. Hintze, com a somnolencia do sr. Henrique de Macedo, ou com os chouriços do sr. José Luciano?

Que necessidade temos nós de fazer perder a gravidade aos Ministros, pondo-os aos saltinhos de contentes, quando o sr. Zagallo, com os seus Mentores e correligionarios lhes officiam, annunciando que... deliberaram apoiar a marcha do Governo—ou que diabo lucramos com a mudança de ceroilas, a que os obrigamos, enviando uma representação dos tres mil negociantes da terra[34] contra a Companhia vinicola, communicando, pelo telegrapho, que estão fechadas as quitandas de Valença e que vate Aurelio Victor Hugo fala ás massas, em imponente e assaz concorrida reunião politica?

Senhores! Por Deus, simplifiquemos tudo isto; todas estas inuteis formalidades, que são proprias para terras civilizadas. Fazem perder tempo, e tempo é dinheiro, como diz o bretão.

Qual é, em ultima analyse, o regimen em que vivemos? O feudal.

Adaptemo-nos, pois, ao que elle nos estabelece e concede. Ahi vae um alvitre:

Sabem Vossas Excellencias o que eram as antigas behetrias da epocha medieva: povoações que tinham o direito de escolher o senhor, que viviam independentes e de portas cerradas, até, aos senhores estranhos. Aqui estava um modelo, mas lá vae outro, talvez preferivel.

Na vertente meridional dos Pyrineus ha uma amostra de estados autonomos—a republica de Andorra.

Tem approximadamente, sem escandalosa differença, a população d’este Concelho. Tem legislação civil, militar e religiosa. Tem Governo civil e militar; Alfandega, Repartições de Fazenda; Camara; Junta de Parochia; o seu Cordão sanitario de quando em quando; lazareto com respectivas rações; reforma de matrizes; irmandades e confrarias; isto é, nicho para todos os pretendentes.

Ora aqui está o que nos serve. É uma organização baratinha e fica em casa.

Proclamemos hoje mesmo a nossa independencia! Behetriemo-nos! Andorriemo-nos! Entregue-se o poder a um só homem, que se denomine Rei, Imperador, Presidente, Syndico, Regulo, Papa, Bispo, Soba ou Cabinda!

Precisamos, verdade é, d’uma auctoridade, para regular as nossas questões e moderar as nossas exigencias.

É necessario que, quando alguem se lembrar de dizer, que as aguas da fonte de S. Sebastião pertencem á Camara, haja quem garanta as reclamações justissimas com que o sr. Joaquim prova á evidencia que são suas, muito suas, embora não se recorde da gaveta onde conserva as provas, o que póde succeder a toda a gente; quando a vizinhança do sr. C. Dias, incluindo a Excellentissima Camara, continue a esticar a guita dos limites das suas propriedades, avançando sobre a que aquelle bom e innocente amigo possue no Caes, haja quem faça respeitar os seus direitos e impedir, que nas terras da Saibreira se não possa continuar a observar o extraordinario effeito da dilatabilidade da Materia sob a acção dos raios solares, phenomeno alli tão evidente e precioso para o estudo das revoluções geologicas do globo; quando o sr. Agostinho se lembrar de mandar vir do extrangeiro casas feitas para os seus terrenos, haja quem lhe apresente esse doirado codigo, que é o palladio das nossas liberdades civis—o regulamento do Senhor Conde de Lippe dado ás gentes em 1700 e tantos.

É preciso, emfim, um braço e uma cabeça.

E quem devemos escolher?

Quando me lembro que estou n’uma terra que não quiz o legado do Conde de Ferreira; n’uma terra em que, se a gente tiver um nariz, como os dos srs. Cunha ou Ladislau, e se collocar em noite de eclypse, sobre o telhado da sua casa, para espreitar a lua, ou escutar a harmonia das espheras, vem logo o estalão do Conde de Lippe verificar, se dos cabellinhos da venta á soleira da porta existe, realmente, maior distancia de que 4 metros, 5 decimetros e 6 millimetros e meio do regulamento;—eu, meus senhores, para o poder supremo da nova organização politica que proponho, só me lembro de dois homens, que tenho a honra de apresentar á vossa apreciação e para os quaes, desde já, peço o vosso suffragio, porque estou plenamente convencido de que hão-de satisfazer ás exigencias e aos deveres da actividade, firmeza de convicções e orientação politica, que a vossa orientação politica, a vossa firmeza de convicções e a vossa actividade lhes impoem.

Eil-os:

O Fileiras,
ou o
Cachimbo dos melros.

Em 20 de outubro de 1889.
Dia da eleição de deputados.


X
Violetas

As imagens até aqui reflectidas no foco da minha lente ficam delevelmente estereotypadas n’essas paginas, porque é indeciso o traço, debil o colorido, irregular o contorno e imperfeitissimo o relevo.

Falta ahi a luz indispensavel á nitida percepção de todas as minucias das individualidades sociaes, que a minha critica envolve, porque não é dado a espiritos vulgares o emittil-a.

Encontro na expressão escripta as difficuldades caracteristicas d’essa lesão cerebral, que os physiologistas incluem na classe das aphasias motoras, sob o nome de agraphia; e, se até aqui deplorei as consequencias d’essa lesão, que se oppõe á reproducção fiel das minhas impressões sobre a sociedade em que vivo, sincero é o meu pesar, reconhecendo-me incapaz de avivar a imagem d’um vulto, que já desappareceu sob a loisa dos tumulos, mas que deixou luminoso rasto de bondade e de honradez nas sombrias atmospheras onde, implacavel e feroz, se trava a eterna lucta pela existencia.

*

Schopenhauer filia-se n’essa eschola philosophica, que poderemos denominar pessimista, em que sarcasticamente se dissecam as fibras do coração humano, negando-se-lhe sentimentos affectivos e a possibilidade de alimentar aspirações puras e nobres.

Na fria analyse, que o philosopho allemão nos apresenta do homem na sociedade e na familia, resaltam os exaggeros d’um espirito sombrio, em que poderosamente influiram a acção morbida de temperamento e a acção do meio: mas ha tambem nas suas paginas grandes verdades que nós, dissipada a má impressão originada na rudeza da phrase, intimamente não podemos refutar.

«O nosso mundo civilizado não passa de uma grande mascarada. Encontram-se n’elle cavalleiros, frades, soldados, doutores, advogados, padres, philosophos, que mais sei eu? Mas não são o que representam ser; são simples mascaras, debaixo das quaes se occultam, a maior parte das vezes, especuladores de dinheiro.

Um toma, assim, a mascara da justiça para melhor ferir o seu semelhante; outro, com o mesmo fim, escolheu a mascara do bem publico e do patriotismo; um terceiro a da religião, da fé immaculada.

Para toda a especie de fins secretos, mais de um se occultou sob a mascara da philosophia, como tambem sob a da philanthropia. Ha tambem mascaras vulgares, sem caracter especial, como os dominós nos bailes, e que se encontram por toda a parte; estes representam a rigida honestidade; a polidez; a sympathia sincera e a amizade fingida.»

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*

Ora, observando a nossa actual sociedade, n’esta epocha de egoismo, de ambições, de illegalidades, com que por ahi se conspurcam e desprestigiam as mais nobres instituições,—n’esta epocha de Wilsons, de Hersents, de bonds e de processos da fava—poderemos, com intima convicção, acoimar de exaggeradas essas linhas do pensador allemão?

A consideração social chatina-se vilmente nas Bolsas, onde se expõe á venda com as inscripções de tres por cento. Os titulos do governo teem, como bonus, uma certa maquia de respeito publico; por consequencia, o valor d’este está na razão directa da quantidade total, que cada um possue dos outros.

Quem tiver duzentos contos, póde ser um larapio e um canalha; mas, com certeza, é um homem de consideração.

*

Antonio da Silva, aquelle carpinteirito da Esplanada, ganhava dezoito vintens por dia; sustentava mulher e tres filhos.

Adoeceu: contrahiu dividas no mercieiro, na botica e na padaria; deixou de pagar ao senhorio; pôz no prego, a pataco por corôa ao mez, o relogio de prata, os brincos da mulher, os cobertores do inverno e a ferramenta.

Esteve dois mezes de cama.

Voltou fraco e abatido para o trabalho. Tentou desempenhar-se. Fazia serões. Não poude pagar uma divida.

Os credores perseguiam-no.

As mulheres e os filhos não tinham roupa; tiritavam e... choravam.

Um crédor requereu a penhora; levaram-lhe a cama.

Na alma d’aquelle homem havia um inferno porque era honrado—o pateta!—e era doido pela familia.

Um dia, collou a massa encephalica nas paredes da latrina com a balla do rewolver.

—Um criminoso—disse o abbade.

—Um caloteiro—disseram os do pataco por mez.

—Um pobre diabo—responsaram as almas piedosas.

—Um pateta de menos—resmungou a sociedade.

A Santa Madre Egreja, toda Caridade e Amôr, recusou-lhe o latim da padralhada—esse latim tão sonoro, tão vibrante, tão repenicado, quando responsa o negreiro e o ladrão de gravata, que deixaram quarenta moedas, para missas de pinto a duzia.

Foi enterrado no fosso, ao lado d’uma pileca do Guilherme; como responso, teve uma enfiada de pragas dos coveiros, porque estava realmente muito frio e ainda não tinham matado o bicho.

Oh estupor—disse o Coruja—podias arrebentar a pinha no verão. Não tinhas agora tanto frio!

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Á mesma hora, Henrique de tal, Conde de Burnay, mandava photographar os bonds do sr. Hersent e mais de trezentas carruagens com fidalgos, bispos, padres, conegos e escorropicha-galhetas varios, acompanharam até aos Prazeres o cadaver d’um beneficiado na falcatrua hersentica, portuguez abrazileirado, que mantinha relações illicitas com a irmã—o que era publico e notorio na freguezia, alli para os lados de Penafiel—e que, n’uma terrifica visualidade do inferno, apartára trezentos mil reis, adquiridos n’esse infamissimo trafico de carne humana, para missas cantadas e por cantar.

Viremos folha...

*

—Mas, Senhor Zinão,—diz Vossa Excellencia—isso é velho, é sediço, é estafado e massador...

—Esta jeremiada veia a lume, meu Senhor, porque no meio da reles pataqueirice da nossa actual sociedade onde pullulam os Iagos, os Tartufos, os Pausanias, os Wilsons, os Tamandarés—toda essa corja de falsarios, de perjuros e de traidores, que Dante implacavelmente esfarrapa e esphacela com as torturas do nono circulo—a gente póde soltar uma exclamação de surpreza tão ruidosa e tão violenta, como aquella trombetada de Rolando na batalha de Roncesvalles, quando encontra um homem, caminhando sempre, sem tergiversar, no caminho da Honra e da Dignidade.

Consagro estas linhas á memoria d’um valenciano, que não deixou fortuna nem filhos governadores civis, ou deputados, que possam premiar esta homenagem com um naco do orçamento, como é da praxe pedir e conceder.

Não me conhece a familia que elle deixou; e não é, portanto, o vil interesse, ou a lisonja porca, ou a torpissima adulação, que actuam na minha penna, obrigando-a a vergar-se, a perder a inflexibilidade com que, até aqui, tem fustigado muita importancia ridicula e chata.

Ninguem, no concelho de Valença, até hoje adquiriu maior estima e maior consideração do que esse homem.

Ninguem, como elle, poderia, mais proveitosamente, especular com o affectuoso prestigio, que o seu nome alcançou por essas freguezias.

Era, porém, nobilissimo o seu caracter para que lhe permittisse manchar o nome n’esse bordel de pantomineiros e de histriões que por ahi especulam com a ignorancia do aldeão, fazendo do voto degrau para chegarem á mesa do orçamento e poderem roer as codeas babadas, que os Gargantuas politicos abandonam, ou lamber os productos do vomito, que a orgia e a indigestão provocam.

*

Esse homem morreu pobre; não é vergonha dizel-o; mas levem o aldeão acolá, ao cemiterio, mostrem-lhe todos esses mausoleus de marmore e de granito, e perguntem-lhe qual é o nome que, ainda hoje, mais affectuosamente vibra na sua alma rude, mas sincera.

Dizem que as mulheres de Sparta, fazendo ajoelhar os filhos sobre o tumulo dos grandes heroes, alli lhes referiam os feitos gloriosos que insculpiram os seus nomes no livro d’oiro da Patria.

Era assim que ellas preparavam a vigorosa musculatura dos futuros cidadãos da grande republica.

Como ellas, valencianos dignos, quando a razão dos vossos filhos estiver preparada para receber os germens, que mais tarde devem fructificar na Honradez, apontae-lhes para essa pagina que, por escrupuloso respeito e por enthusiastica veneração, separo das outras, onde escouceiam ridiculos.

*

Zinão descobre-se, perante o nome que alli vêdes.


XI
Os Quadros da Collegiada

A Arte nasceu d’esta nobilissima aspiração do espirito humano para, na investigação do Bello, dar á Materia a fórma das suas idêas e das suas crenças.

O desenvolvimento intellectual de um povo e a sua influencia na obra da Civilização, podem estudar-se nos diversos productos, em que se reproduziu o genio dos seus artistas.

Aos dolmens e menhires, aos toscos instrumentos das edades paleonlithica e neolithica succedem essas colossaes construcções das margens do Nilo, as pyramides, os templos, as esphinges; os bronzes, as loiças e esmaltes, já de notavel perfeição, dos antigos egypcios.

Surge, depois, o povo helleno com a sua admiravel architectura; com as formosissimas e inimitaveis estatuas de Phidias e de Lysippo; com a Venus de Milo e o Apollo de Belveder; com as formosas telas de Zeuxis e de Parrhasio; com todas as maravilhas, emfim, d’essa assombrosa civilização tão alta e tão brilhante, que ainda depois de passados vinte seculos, quando no horisonte despontavam os primeiros clarões da ridentissima alvorada—a Renascença—era ainda d’ella que, para geniaes concepções, recebiam inspiração e luz esses divinos artistas, que se chamaram Vinci, Raphael, Ticiano, Carrachio e Miguel Angelo.

Com a Renascença accelerou-se a marcha evolutiva da Civilização; e o espirito do homem, depois de enriquecer as sciencias com preciosas descobertas, de desenvolver as industrias com novas e utilissimas applicações, crystallisa-se em fulgidas creações onde, com toda a nitidez de contornos, com toda a opulência de colorido, com toda a fidelidade de cambiantes e com todos os esbatidos do iris se reproduzem as mais extraordinarias maravilhas da formosissima Mãe—a Natureza.

A Historia da Arte é a Historia da Civilização; é a Historia do Homem no seu meio, nas suas crenças, nas manifestações da sua intelligencia, nas aspirações da sua alma, na grandeza dos seus affectos.

Estudando o Homem, estuda-se a Nação e a influencia que ella exerceu nas outras sociedades constituidas.

São, pois, d’uma benemerencia incontestavel os esforços e os auxilios com que n’um paiz se tenta colleccionar, agrupar, reunir todos os elementos que possam reconstruir a sua historia artistica; e como essa empreza, de larga magnitude e importancia, só é cabalmente desempenhada pelo Estado, dever é do cidadão illustrado cooperar, quanto possivel, no desenvolvimento das instituições que possam mostrar aos extranhos o que o genio nacional produziu e creou.

Com uma vergonhosa teimosia e deploravel inconsciencia, a esse dever se nega a actual Junta de Parochia de Valença, recusando-se a entregar ao delegado do Governo os quadros e a cadeira, que pertenceram á extincta collegiada de S. Estevão.

*

Senhores da Junta,

ou antes

Senhores Agostinho e Sampaio:[35]

conversemos.

Vossas Senhorias, n’essa manifestação volitiva, (saberão Vossas Senhorias que volitiva significa: emanada da vontade) n’essa tenaz opposição as ordens do Governo, devem estribar-se n’uma razão, n’um argumento, n’uma conclusão qualquer. Mas eu—com franqueza—como conheço perfeitamente, por dentro e por fóra, (deixem-me assim dizer) o que Vossas Senhorias valem em materia de zelo pelas instituições, que estão dependentes das suas luminosas e peregrinas deliberações,—eu, que me recordo muito bem que Vossas Senhorias, que hoje energicamente bradam aos céos contra a reclamação do Governo, são exactissimamente os mesmos que, ha quatro ou cinco annos, deixavam estragar esses mesmos quadros e essa mesma cadeira, consentindo que um Terrinha as borrasse com verniz de portão, depois de borrar, tambem, os peitos da Virgem do leite,—eu que me recordo ainda, que foram tambem Vossas Senhorias os engenheiros n’aquella boçal mutilação da fachada de Santa Maria, parvoamente restaurada ha annos,—eu, emfim, que (sem offensa) avalio a capacidade intellectual dos seus, aliás preciosos cerebros, como insufficiente para conter umas tristes cellulasitas, onde se aniche um errante atomo de intuição artística; porque, afinal de contas, estas coisas de Arte não são precisamente o mesmo que coisas de bombas, ou de receitas eventuaes e decimas de juros,—eu, repito, não posso explicar satisfactoriamente ao meu espirito a causa do proceder de Vossas Senhorias.

Por zelo nos interesses da Junta não é—com toda a certeza—que Vossas Senhorias se revoltam contra o Governo. Isso é coisa averiguada, conhecida, evidente, que não admitte réplicas e a que não convém, mesmo, contestações.

Recearão Vossas Senhorias que esses objectos, passando para as mãos do Estado, se extraviem, ou percam?

Repillo, como absurda, a hypothese, porque só com tristissimo desalento veria dois funccionarios publicos suspeitarem de larapio o Governo que lhes paga.

O que é, pois, que actua nos seus cerebros?

Não o sabem, mas sei-o eu.

O que obriga Vossas Senhorias a esse tristissimo papel é isto:—o rheumatismo, o barretinho de seda preto, o cano das botas, os suspensorios, o alçapão das calças, a caixa do rapé, o pingo, a caspa; é essa maldicta enfermidade epidemica, peor do que a actual influenza, porque não ha profilaticos que a debellem, e que se origina nas exhalações mephiticas e deleterias dos fossos e das muralhas que teem musgo, ratos, corujas, toupeiras, morcegos e silvados coevos do mammuth; é essa coisa que sendo incorporea, invisivel, imponderavel, tem a rigidez bastante para encravar a roda do Progresso; que sendo inerte e fria, tem a temperatura sufficiente para caldear os embolos da Civilização; é—finalmente—a rotina!

Vossas Senhorias, com essa teimosia, recordam-me (salvo o devido respeito) aquella conhecida anedocta do gallego:

Alonso Perez y Perez ouvira dizer na sua terra que em Portugal se ganhava muito dinheiro, mas que era necessario pedir, exigir e reclamar sempre mais do que se recebesse por qualquer serviço.

Perez y Perez entregou a mulher ao diabo, digo, ao Abbade e atravessou a fronteira, dilatando os póros de todo o corpanzil para, como ventosas de tentaculos cephalopodes, absorverem quantas pesetas e perras chicas fosse possivel.

Caminhando por essas estradas fóra, ao terceiro dia, veiu o cansaço; vergava-se-lhe o corpo, dobravam-se-lhe os joelhos, incharam-lhe os pés, pesava-lhe a cabeça: prostrado e doente, abeirou-se da valeta e cahiu succumbido, recordando com saudade as veigas da sua terra, a familia, a vacca e os bezerros, a missa do domingo, o recorte das montanhas, as columnas de fumo que, ao toque das Trindades, se evolavam no esbatido azul dos céos, o balido das ovelhas, o piar das avesinhas, todas essas coisas—emfim—saturadas d’um sentimentalismo feroz e piegas, que tão violentamente agitavam a alma do Justininho, quando elle concebia aquelles preciosos folhetins do Noticioso.

N’isto, passa na estrada um almocreve com a sua enfiada de machos e, vendo o gallego n’aquelle misero estado, convida-o carinhosamente a escarranchar-se n’um dos animaes.

E quanto xe me dá?

—pergunta o bruto.

*

Vossas Senhorias, n’esta estrada do Progresso, são (salvo o devido respeito) uns verdadeiros Alonsos.

Como portuguezes, que põem luminarias á janella no 1.º de dezembro e no anniversario da Carta, devem amar a sua patria; como funccionarios publicos devem interessar-se no engrandecimento d’ella; como homens do seculo XIX, que usufruem todas as vantagens e liberdades que tanto sangue custaram, n’essa sangrenta lucta do despotismo e das trevas contra a luz, devem contribuir para que aos seus filhos seja entregue intacto, pelo menos, o inestimavel patrimonio da Civilização, que herdaram dos seus Papás.

Ora, uns homens que por esse mundo de Christo, consagram toda a sua existencia no estudo dos meios, que podem elevar e engrandecer os povos, reconheceram a enorme utilidade das collecções artisticas, das bibliothecas, dos museus, de todas as instituições, onde se enthesoiram os productos do espirito humano na sua marcha evolutiva atravez dos seculos.

Esses homens dizem a Vossas Senhorias:

Pretendemos reconstruir a historia da Arte portugueza, reunindo e dispondo convenientemente, chronologicamente e por distincção de escholas, n’uma boa sala com ar e com luz, essas telas, que Vossas Senhorias por ahi inconscientemente dependuram em paredes humidas, e imbecilmente inutilizam, mandando, de quando em quando, envernizar, a brocha, pelos Terrinhas.

O Estado toma conta d’isso que lhe pertence; e, quando Vossas Senhorias tiverem uns amigos hespanhoes, francezes, inglezes, turcos ou moiros, que lhes perguntem, fazendo obra pelos mais aperfeiçoados diccionarios geographicos extrangeiros, se Portugal é provincia hespanhola, ou ingleza—podem leval-os ao Museu nacional, onde lhes provarão que somos livres, que temos Historia mais brilhante que a d’elles, que temos Arte, que temos Civilização, que temos alma nacional que já se expandiu pelo mundo inteiro com o genio dos grandes heroes e dos grandes artistas.

Dirão mais a Vossas Senhorias:

Se tiverem filhos que necessitem de estudar a Pintura, ou as Artes decorativas, ahi ficam á disposição d’elles todos esses productos que permaneciam dispersos, ignorados e inuteis pelas egrejas sertanejas. Ahi encontrarão, tambem, para o estudo comparativo, exemplares da eschola hespanhola, com as telas de Velasquez, de Murillo e de Ribera; ahi está a eschola flamenga com Rubens; a hollandeza com Rembrandt; a italiana com Raphael, Ticiano, Tintoreto, Miguel Angelo; podem entrar, ver, estudar minuciosamente, copiar—nada pagam.

E, apesar de todas estas incalculaveis vantagens, exclamam Vossas Senhorias:

e quanto xe nos dão?

*

Vossas Senhorias teem ido, por vezes, a Lisboa.

Lembro-me, até, que muito antes que Succi fosse conhecido com os seus jejuns, já a gente por cá admirava as especialissimas propriedades da membrana mucosa do estomago do sr. Sampaio, que não segrega sómente succo gastrico, mas, tambem, succos nutritivos, como se evidenciou n’aquella viagem, em que Sua Senhoria, tendo sahido da Balagota com o cabazinho repleto de pastelinhos de bacalhau e de girimu, pitos assados, rabanadas e cornuchos, com elle intacto, depois d’uma ausencia de oito dias, na Balagota entrou.

Vossas Senhorias teem ido, por vezes, repito, a Lisboa. Conhecem tudo o que existe na capital.

Extasiaram-se perante a pujança granular do regio corcel no Terreiro do Paço; viram subir o balão que indica o meio-dia; ouviram o carrilhão de Mafra; estiveram no curro de S. Bento; admiraram o leão da Estrella e os macaquinhos do Jardim Zoologico; visitaram a esquadra ingleza no Tejo; sopesaram a Paulo Cordeiro; saudaram o Senhor Rei e a Senhora Rainha; viram as mulas do paço e o bicho municipal; conheceram o Rosa Araujo e o marquez de Vallada; foram a todos os theatros; mas o que—com certeza—não viram foi o Museu Nacional, e isso porque... não tiveram tempo.

Teem ido a Lisboa, por vezes; assistiram aos festejos das bodas e dos baptisados reaes, aos da chegada dos reis de tal e tal; foram, até, engrossar a pasmaceira indigena na recepção do Principe de Galles, d’esse exemplar com encadernação de luxo de John Bull—o eterno larapio das nossas colonias, o traiçoeiro Johnston dos makololos, o perfido Wellington de 1828, o astucioso Canning, o desleal alliado da nossa Politica, o insolente comedor dos nossos dinheiros, a quem todo o bom portuguez devia, respeitando as conveniencias da hospitalidade, voltar, com despreso, as costas; mas quando n’aquella capital se realisou a Exposição de Arte ornamental, que foi como o livro aberto onde se descreveu a riquissima epopea das nossas glorias artisticas, então... ficaram na Balagota e na rua Direita porque... não valia a pena!

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Aqui tem Vossa Excellencia, sr. Macedo, os homens que se negam a entregar-lhe os quadros e a cadeira de S. Estevão.

Segreda-se por ahi que muita coisa, reclamada pelo Governo, desapparece antes de entrar no Museu Nacional. Pena é que o Governo não denuncie os roubos, que tem encontrado quando procede ao arrolamento dos bens pertencentes ás collegiadas e congregações religiosas extinctas.

A teimosia da Junta é mais um caso porco, para engranzar no rosario das vergonhas de Valença, onde já brilham a recusa da Eschola Conde Ferreira, a eleição do sr. Serpa... do Batalhão, a Prisão da Santa, a Questão da Musica e essas curiosissimas eleições...

Mas Vossa Excellencia, sr. Macedo, resolve facilmente todas as duvidas; como ellas, em ultima analyse querem dizer:

Quanto xe nos dão?

Digne-se Vossa Excellencia mandar ao sr. Agostinho meia duzia de trutas leopoldicas, de S. Mamede, e obtenha Vossa Excellencia do Governo de Sua Magestade, que ao sr. Sampaio seja concedido o diploma do unico cargo rendoso, que lhe falta: o de

sineiro de S. Estevão.


XII
O Senhor Deputado

Mais uma vez manifestou o Circulo eleitoral n.º 3 a sua opinião politica e, pela acção liberrima e independente do suffragio popular, tem hoje uma cadeira em S. Bento, o sr. dr. Queiroz Ribeiro.

Nos campos do partido opposicionista lavra o descontentamento com a decisão dos eleitores; nos arraiaes, em que tremula a bandeira progressista, erguem-se os clamores da victoria e entoam-se hosannas ao novo representante do povo.

Os regeneradores negam a competencia de Sua Excellencia para tão elevado cargo, fundamentando a insufficiencia na pouca edade e escassa madureza para os negocios publicos; alguns, até, os do respeitabilissimo grupo da rua de S. João, exprimem e synthetisam todo o valor e força dos seus argumentos em tres palavras:—até faz versos!

Os progressistas exaltam a aptidão intellectual do seu correligionario; affirmam que é um rapaz que deve dar alguma coisa; servem-se do proprio argumento dos adversarios—os versos—, impondo-o á consideração dos eleitores; citam os seus conhecimentos sobre Direito penal, o seu enthusiasmo pela nova eschola italiana, etc., etc., e rematam por asseverar que a escolha foi felicissima.

Ora eu, meus senhores, sou tambem eleitor e recenseado na freguezia de S. Maria dos Anjos; não estou filiado em partido militante da actual politica, porque sou, como os srs. José Narciso e Santa Clara: legitimista, genuinamente legitimista, por convicção e por tradição. Acceitar, n’estas condições, a faculdade do voto equivaleria a approvar e reconhecer, tacitamente, a legalidade dos poderes que nos regem e, procedendo assim, faltaria ás minhas convicções e ao respeito que tenho e devo ao meu Rei, a Sua Magestade Fidelissima o Senhor Dom Miguel de Bragança, que Deus guarde.

Estou, portanto, n’um campo perfeitamente neutral e insuspeito, ao abrigo do tumultuar das paixões partidarias, n’uma região serena de paz e livre reflexão e posso, n’estas circumstancias, dar a minha opinião sobre a escolha dos eleitores, depois da rigorosa apreciação que fiz dos argumentos apresentados pelos dois partidos.

Vou ter a honra de a apresentar a Vossas Excellencias.

Na futura Camara electiva devem reunir-se cento e tantos deputados. N’esse numero entram estrellas de primeira grandeza na constellação brilhantissima da nossa politica. Ha talentos de raça; espiritos previlegiados, que honram e ennobrecem o paiz; ha oradores fluentissimos como os srs. Oliveira Mattos e Visconde da Torre; ha polemistas de irresistivel logica de argumentação, como os srs. Ferreira d’Almeida; ha celebridades em todos os ramos das sciencias e da publica administração.

Pois, meus senhores, com verdade lhes digo, que é a seguinte a minha convicção:—entre todos esses homens, entre todas as individualidades aptas no nosso paiz para as funcções da representação popular, ninguem—absolutamente ninguem—nos poderia satisfazer tanto, comprehender as nossas ideias, adaptar-se melhor á nossa politica, interpretando-a e assimilando-a nas suas aspirações—como Sua Excellencia o sr. Dr. Queiroz Ribeiro.

—Ora essa! (ouço eu bradar aos meus amigos, os srs. Joaquim e Abilio, os mais fogosos caudilhos da politica regeneradora), fará o favor de provar.

A isso vou, meus senhores, e com argumentos leaes, solidos, porque os sustento com a irrefutavel demonstração, que vou estabelecer dentro do campo positivo das sciencias abstractas: a logica e a mathematica.

Vejamos, meus senhores, o que é a Politica em Valença? O que foi, o que é, d’onde vem e para onde vae? Como se poderá e deverá classificar n’uma terra em que, se a gente vae á estação do caminho de ferro assistir á recepção do sr. Marianno de Carvalho, ou do sr. Barjona, ou do sr. Lopo Vaz, ou do sr. José Dias Ferreira, ou do sr. Rodrigues de Freitas, ou do sr. Consiglieri Pedroso, vê sempre na gare—além dos engajadores dos hoteis e do sr. Capellão[36]—as mesmas caras, as mesmas casacas e as mesmas cartolas, que, depois, vão acompanhar Suas Excellencias até Cerveira, com ruidosas e enthusiasticas demonstrações de adhesão e fidelidade partidarias?

O que poderemos julgar da Politica d’um concelho em que a padralhada, com o seu rebanho de carneiros votantes, vae, submissa, para onde a toca a aguilhada da Administração, sem consciencia, nem orientação, nem ideal politico?

N’uma terra, em que os mais importantes caudilhos teem, na opinião, a variabilidade constante do catavento de Santo Estevão e em que ha potestades eleitoraes que, vistas de Coura, são regeneradoras, vistas de Valença são progressistas e não são barjonaceas e republicanas, porque ninguem as examinou ainda de Gandra ou de S. Pedro da Torre?

Estudemos os chefes, senhores, que devem representar as tradições, a opinião, a respeitabilidade dos partidos. Temos d’um lado—o progressista—o Sr. Dr. Ladislau; temos do outro—o regenerador—o Sr. Dr. Pestana.[37]

O Sr. Dr. Ladislau sahiu, approximadamente ha seis annos, dos bancos da Universidade e filiou-se, franca e desassombradamente, no partido do sr. José Dias Ferreira; hoje obedece ao sr. José Luciano, isto é, duas opiniões diversas, oppostas, heterogeneas, como as que separaram e dividiram os guelfos dos gibelinos, os armagnacs dos borguinhões, os jacobinos dos girondinos, os da rosa branca dos da rosa vermelha, os malhados dos realistas.

Ora, consultando os trabalhos estatisticos dos mais eminentes socialistas, sobre a longevidade da vida humana, observamos que a media actual é de sessenta annos. (Deus n’este caso a prolongue e livre o Sr. Doutor de dyspepsias hermogenicas, que tão prejudiciaes são á juventude...)

Se quizermos, pois, avaliar rigorosamente a capacidade opinativa de Sua Excellencia, nada mais teremos do que estabelecer uma proporção, admittindo a hypothese mais favoravel—que em egual espaço de tempo não augmentará a volubilidade. Representando, pois, por a os seis annos decorridos e os trinta que a Sua Excellencia faltam, por op as opiniões conhecidas e por x as desconhecidas, teremos:

6 a : 2 op :: 30 a : x.

Operando, encontramos:

x = 10 op.

Reunindo as opiniões conhecidas, temos

x = 12

quer dizer: teremos de pedir, por emprestimo, alguns partidos á Hespanha, porque cá não os ha para tanta opinião; e, aos sessenta annos, o Sr. Dr. Ladislau attingirá um grau de saturação partidaria muito superior á que hoje possue o Sr. Agostinho, que é a coisa mais perfeita e acabada em Politica, que terras de Valença teem produzido.

Agora, o sr. dr. Pestana...

Eu desejava fazer identica demonstração com referencia a Sua Excellencia, e tenho, para isso, elementos e factores ordenados; mas são d’uma tal complexidade e obrigam a operações algebricas tão complicadas, que me abstenho de aqui as reproduzir, limitando-mo a dar conhecimento a Vossa Excellencia do resultado obtido.

Para o sr. dr. Ladislau tivemos: x = 10.

Com o Sr. Dr. Pestana chegamos a: x = ∞ isto é, x = infinito. E como o infinito existe muito para lá dos limites, a que a intelligencia humana póde levar a analyse, está prejudicado o raciocinio.

Temos, pois, n’estas condições, os dois chefes politicos da nossa terra e ha vinte e cinco annos, em que aqui resido, os sub-chefes, as potestades, os abbades e as patrulhas seguem exactamente o mesmo systema.

Os que hontem eram regeneradores, são hoje progressistas, serão ámanhã barjonaceos e no dia seguinte socialistas. No mundo politico somos cosmopolitas, e Valença é para o paiz, o que a casa do Sr. Agostinho é para Valença—um perfeito caravanserail!

Synthetisando, eu repito a pergunta, que deu logar a estas considerações, com que desejo fundamentar a minha demonstração:

Como se deve classificar a nossa Politica?

Politica voluvel, incolôr, de... contradança!

Repito:

de contradança.

Ora aqui está, justamente, o ponto de reunião entre ella e a individualidade do nosso deputado. Aqui está, onde uma e outra se coadunam, se consubstanciam, se identificam.

Em Politica somos dançarinos. Pois para representar dançarinos e para comprehender as suas aspirações, como o Justino Soares, ou os srs. Roldão e dr. João Cabral se não habilitam a um circulo, claro é que se devia escolher um estranho, versado e perito nos segredos da arte de Terpsichore. E, para satisfazer cabalmente a estas condições (creio que os srs. Joaquim e Abilio se não atreverão a refutar esta minha proposição) ninguem—absolutamente ninguem—se encontraria mais habilitado, do que o nosso actual representante.

Isto não é uma asserção gratuita. A vizinha villa de Cerveira a confirmará, quando se torne necessario.

Porque é que o sr. Visconde da Torre não provou bem, como deputado? Porque nunca poderia representar dignamente Valença, com o seu volumoso abdomen, com a abundancia do seu tecido adiposo, com o pouco desempeno dos seus movimentos, com a pouca elegancia (perdoe Sua Excellencia) da sua linha. Dançava pouco e mal. Era, mesmo, detestavel a sua posição quando, pela complicadissima tactica das danças, era obrigado a fazer um en avant. Não tinha ropia nem salero, nem entrain.

Mas o nosso actual representante...

Que saudosas recordações não originarão estes periodos ás tricanas e sopeiras de Villa Nova—a chiquita!

Que dulcissimas reminiscencias não entristecerão, por momentos, aquelles formosissimos rostos da terra das solhas!

Que pranto amargo e copioso não verterá a estas horas o bom e fiel Maldonado, socio commandita nos bailes do sopeirame!

A Meca, a terna e legendaria Meca, com que acerbo pungir, não enxugará das mimosas e assetinadas faces as perolas crystallinas, como as do rocio matutino, que a lembrança de Sua Excellencia, a cada momento lhe faz brotar das glandulas lacrimaes!

Redomoinhar vertiginoso das valsas; suave enleio de pequeninas cinturas; exhalações dulcissimas; doces fragrancias de solha e azeite, bacalhau e alho, das formosas tricanas; noites de amor e de phantasia em que vós, encantadoras filhas da—Chiquita—vos deliciaveis com os papos d’anjo de Caminha e as roscas da Galliza; noites inolvidaveis de luar, em que os vossos castos seios se alvoroçavam com desconhecidas sensações, quando Sua Excellencia, sob as janellas, acompanhado ao violão pelo fiel Maldonado e pela artistica cohorte dos Figaros, soltava ás brisas, com voz maguada e terna, as melancholicas trovas do:

Gondoleiro, a noite é bella!

Recordações saudosas, miragens gratas e fugitivas... adeus!

Tudo se sumiu na voragem da urna eleitoral!

*

Eleitores do concelho de Valença!

Nos annaes da benemerita Sociedade Artistica, Harmonia e Recreio Cerveirense, registra-se, como um periodo aureo de engrandecimento e prosperidade, a epocha em que o nosso Deputado honrou, frequentando, os salões da Associação.

A arte de Terpsichore obteve consideravel impulso e desenvolvimento. Á voz auctorizada de Sua Excellencia, transformaram-se os Lanceiros, floreou-se a Franceza e surgiu, vaporosa e louçã, a moderna valsa a dous tempos. Abandonaram-se marcas velhas e rançosas, substituiudo-se por elegantes couronnes de dames e graciosos moulinets de chevaliers.

Foi, pois, profundamente civilizadora a influencia que Sua Excellencia exerceu nas classes medianamente abastadas:—sopeiras e tricanas—, porque lhes incutiu os germens d’uma larga intuição artistica e senso esthetico, já com as brilhantes manifestações da arte de Terpsichore, já com mimosas producções musicaes, com que Sua Excellencia as deliciava, acompanhado pelo fiel Maldonado e—em occasiões solemnes—pela brilhantissima cohorte dos Figaros cerveirenses.

Quem, pois, se atreverá a dizer, quem ousará ahi, dos arraiaes da opposição, affirmar que não foi acertada e felicissima a escolha?

Concluo a demonstração, srs. Lucas e Abilio. Pódem Vossas Excellencias refutal-a?

Eleitores do concelho de Valença! Damas e cavalheiros do Club e da Assemblea! Ditas e ditos do Gremio artistico; tricanagem, technicaphilas e paradas-velhas dos bailes do Theatro, eu—Zinão—vos felicito!

E vós, vizionarios, descrentes, que por ahi apregoaes a incompetencia do sr. Deputado, em breve,—eu vol-o affirmo—se dissiparão as vossas duvidas e os vossos applausos hão-de juntar-se, fervorosos e delirantes ás acclamações enthusiasticas da grei progressista quando, no proximo carnaval, assistirdes, nos bailes do Theatro, á verdadeira consagração, á apotheose do nosso Deputado, vendo-o, como par marcante, offuscar a fama, até hoje immaculada, dos srs. Trincheiras e Zé do Caes, gritando ás multidões, radiante e enthusiasmado, em francez adoptado nos nossos tricanés:

An ivant! Chevaliers dão as mãos e les Dames ó miliú.

*

Ah Esteves! Ah Caetano!

Que futuro brilhante e glorioso não está reservado para os vossos violões!

Emquanto a nós:

vá de redrò, Senhor Doutor!


XIII
Carta ao Zé Senso

Terras da Parvalheira

Burgo de Paysandu. Terça-feira,
17 de Dezembro de 1887.

Meu Zé.

Recebeu-se, hontem á noite, o 2.º fasciculo dos Sinapismos.

Não sei ainda como te conte o que se passou. Ha onze horas que estou de cama, a caldos de gallinha e copinhos de geleia.

O Dr. Pacheco só me deixa chuchar uma azinha de pito, de seis em seis horas, tal é o estado de fraqueza e abatimento em que me deixaram as violentas commoções, que hontem agitaram este pobre corpo.

Vou coordenar as ideas para te descrever o caso mais extraordinario, que fastos de Valença podem mencionar ás gerações vindoiras.

Tu sabes o que é o indigena sem illustração: corpo amanhado com borras de nababo, betume de Prudhomme, com leucocytos de Tartufo e cellulas philosophicas de Sganarello; alma ingenua, pura, immaculada, feita de arminho, gesso cré, grude de sapateiro e saliva de Zé Povo; no todo, uma mescla de tanso, de rufião e de sacripanta.

Sabendo isto, certamente não te admirarás do que vaes lêr.

Quando hontem á noite, já em ceroilas, punha o barretinho de dormir, ouvi na rua um enorme barulho: tropel desusado, gritos, rodar de carretas, patadas de mula, tiros, etc.

Como estava em fralda, disse ao Zéca que fosse á janella vêr o que era, e na minha mente surgiu a idea de que teriamos uma invasão ingleza por causa dos makololos.

São os mokololos? perguntei ao menino.

Não sei, Papá. São muitos homens que passam correndo; uns com espadas, outros com chuços, outros com chicotes, rewolvers, punhaes, facalhões e espetos, gritando:

mata! mata!

Vão todos com o sim-senhor á mostra e levam nas nadegas duas manchas vermelhas, como ficam nas pernas, quando o Papá me deita sinapismos. Atraz d’elles vem um diabo vestido de amarello, que traz na mão esquerda umas disciplinas de coiro, com que os fustiga, e na direita um ferro em braza.

*

Calcei á pressa as piugas e approximei-me da janella para presenciar tão inesperado acontecimento. Com o ruido que fiz, abrindo-a, a multidão parou subitamente. Todas as cabeças se ergueram, todos os punhos se levantaram, fechados com crispações nervosas; abriram-se mil boccas, onde rangiam sinistramente os dentes; insultaram-me; chamaram-me porco e chulo; berravam que me haviam de matar, de escuchinar, de virar de dentro para fóra, de arrancar as barbas, as orelhas e mais isto e mais aquillo.

Reparei que aquella medonha e terrivel multidão se dividia em tres grupos distinctos.

O primeiro era composto de maltrapilhos com feitio afadistado, que uma collareja porca e abandalhada, a quem ouvi chamar D. Politica, segurava pelos cabrestos. Zurzia n’elles, com uma aguilhada de ponta d’oiro, El-Rei buffo, D. Milhão.

O segundo era formado por patetinhas, d’estes infelizes, que nos hospitaes de alienados são conhecidos por doidos mansos.

Guinchavam, mostravam papelinhos, davam saltinhos, faziam esgares burlescos, descobrindo os dentes sujos. Tinha conta n’elles, dando-lhes, de quando em quando, um pontapé, outra mulher em desalinho e que parecia soffrer de grande myopia. Conheci D. Idiotice.

No terceiro, então, misturaram-se fedelhos e cães; d’estes tótós pequeninos de pello branco e encaracolado, muito nojentos e muito libidinosos, que mostram sempre a linguinha quando veem as amas, que trazem os focinhos molhados com um liquido que lembra, pelo cheiro, a cal e o peixe da Noruega, e que por ahi chamam, fraldiqueiros. Ladravam, davam ao rabinho, levantavam-se sobre as patinhas de traz, agitando para cima e para baixo a linguinha, d’onde escorria um fio de baba mal cheirante.

Aquella multidão saturava a atmosphera de aromas insupportaveis; distinguiam-se os do bafio, do arroto dyspeptico; este cheiro particular do azebre, do mofo, da catinga, de pé gallego, de coisas lippicas e rançosas, que tresandam a raposinho e a chulé.

No ruido ensurdecedor de tanto grito e de tanta explosão de colera, apenas se percebiam estas palavras:

Mata! Mata o Zinão!

*

O meu cerebro illuminou-se, então, com aquelles vividos clarões das grandes angustias; pinoteavam-me na imaginação, em infernal dança macabra, todas as vibrações das grandes dôres; vergalhadas cyclopicas açoitavam-me as ideias; a alma rebentava-me com explosões terriveis, minada pela robulite do terror; o coração desfibrava-se esphacelado pelas garras do susto; as cellulas nervosas achatavam-se sob a prensa hydraulica do pavor; o cordão espinal estoirava, esticado pelas furias da raiva; as saliencias do corpo sumiam-se arietadas pela allucinação; na trompa de Eustachio trovejavam as maldições; na retina faiscavam punhaes de odio; na pituitaria abriam chagas os atomos do rancôr; as cordas vocaes rebentavam com a tensão da ira; as papillas da derme eram esmagadas pelos martellões da colera; diabos vestidos de vermelho arrancavam-me os cabellos; harpias esgrouviadas furavam-me a cornea; satanazes com rabo reviravam-me as unhas; demonios acephalos rasgavam-me a bocca; morcegos sinistros esfarrapavam-me as carnes; lebreus hydrophobos roiam-me as cannelas; corujas esfomeadas espicaçavam-me as orelhas; chacaes lazarentos mordiam-me as nadegas; corcodilos e jacarandés trituravam-me os ossos.

*

E no meio de toda essa coisa phantastica, apocalyptica, satanica, horripilante, onde havia carcavões, fragoas, tenazes, forcas, venenos de Borgias, estyletes ervados, lanças quichotescas, navalhas de ponta e mola, balas de papel, espadas de pau, caçoletas e obuzes, explosões sulfuradas, bofes de leão, tricornios de gazeta, furores de Ugolino, ciumes de Othello, terrores de Machbet, perfidias de Iago, risos de Voltaire, astucias de Loyola, sarcasmos de Erasmo, pançadas de capoeira, chulipas de fadista, rugidos de Adamastor, pedradas de garoto, cobras e lagartos, viscosidades de lesmas, virus de serpente, commissões de quinzes e de paysanducos, protestos, duellos, policias correccionaes, boquilhas, aguas sebastianicas, beliscões kilometricos, musas hystericas, zoilos epilepticos...

—quando contemplava aquelle horroroso quadro em que, as tintas de Miguel Angelo, o pincel de Rembrandt e a phantasia de Hans Mackart, pintavam a sede de Tantalo, a insaciabilidade de Gargantua, a podridão de Imperia, o odio de D. Bibas, o servilismo do eunucho e o calcanhar d’Achilles,

—entre aquelle côro infernal de uivar de feras, clamar de moiros, ulular de caraibas, guinchar de idiotas, urrar de quadrupedes, pinchar de macacos, zunir de vespas, silvar de cascaveis, ladrar de bulldogs, d’onde apenas se destacava:

Mata! Mata o Zinão!

—senti alguem ao meu lado.

O tal diabo vermelho pinchára da rua para a janella; extendia-me o braço e dizia:

Oh Coisa! dá cá um cigarro. Casca n’elles, que ainda bolem!

e desapertando a carcela das calças, voltou-se para a turba e...

esguichou-a.

Já sabes, Zé amigo, quem elle era:

O Ridiculo.


XIV
A Questão da Musica
(LEITURA PARA HOMENS)

Ha poucos annos, alli pelo Maio, quando a Primavera floresce os campos e a Natureza parece despertar, com novo vigor, da somnolencia invernal, Dona Politica sentiu pular o sangue nas veias, reclamando folia e brodio.

Teve uns arrebiques eroticos de matrona insensivel á influencia lunar e amancebou-se, clandestinamente, com o Conde de Lippe e com o Senhor Administrador.

Noitadas com um, barrigadas de camarões com outro, lá se arranjou de tal fórma que, d’essas relações, resultou um producto hybrido:—A Questão da Musica.

Parto acabado, os amantes disputaram a paternidade do aborto:

—É meu!

—É teu!

—Parece-se commigo!

—Não se parece comtigo!

Zangaram-se e ficaram de mal.

Nunca mais se puderam vêr.

A desavergonhada, ora sorri para um, ora para outro; acirrando, assim, pela sua inconstancia e bandalhice acadellada, o odio dos dois rivaes.

O mostrengo (sahiu femea) veiu ao mundo com todos os defeitos dos Papás e da Mamã: vaidosa, ridicula, traiçoeira, caprichosa e porca.

Ao nascer, embirrou que não queria Musica. Papás e Mamã teem-lhe feito a vontade. Qualquer dia, embirra que quer Musica; teremos, então, de soffrer e pagar as furias dos paus-tesos, até hoje refreadas.

O que por ahi não irá!

*

A Comedia da Santa, ou antes, a Comedia da Musica, absorveu e absorve toda a actividade dos nossos politicos—dos homens que se apresentam á consideração do povo, allegando serviços e pedindo votos.

E em que diabo hão de pensar esses santos varões, se o Concelho voga em mar de rosas, com vento fresco e bons timoneiros?

Examinemos, de relance, as instituições da nossa terra:

Camara Municipal

Praça de toiros com serviço permanente. Emprezario: o Senhor Administrador. Intelligentes: o Senhor Joaquim (por procuração), ou João Cabral.

N’este anno, as corridas promettem. O primeiro espada, Senhor Abilio, foi occultamente a Madrid adestrar-se com Lagartijo e com Frascuelo. O gado, do lavrador Ladislau, é manso. Tem fraca pinta e pouco . A casa está passada para as primeiras corridas semanaes. Ha toiros para curiosos.

*

Agora, duas tiradas a serio:

A administração do nosso Municipio anda como V. Ex.ª sabe, querido leitor, em bolandas e ao deus-dará. Muito lhe poderia dizer a tal respeito; mas esta gente séria da terra, tanto me tem soprado aos ouvidos com aquella preventiva phrase de:

Nem todas as verdades se dizem

que, por emquanto, ainda me resolvo a conservar na minha carteira os curiosos apontamentos que d’estas coisas de Valença, cuidadosamente tenho colligido. Prosigamos.

—Approvou-se ultimamente um novo traçado de estradas para o districto; todos os concelhos foram contemplados, menos o de Valença. Pelos modos, lá nas secretarias das Obras publicas ainda se não descobriu, ao certo, se isto pertence a Portugal, se á Galliza. A Camara podia elucidar este caso e requerer, ou instar por concessões a que tem direito. Os politicos, porém, teem mais em que pensar... Ainda se não decidiu a Questão da Musica.

—Alli, na Esplanada, amontoam-se, sem ordem nem regularidade, as novas construcções. Ora, apesar da opposição dos paysanducos, a futura povoação de Valença ha de extender-se por esses campos fóra, e esta latrina acastellada com muralhas, poternas e tenalhas, passará a ter o merecimento historico das ruinas de Lapella, hoje excellentes para ninhos de morcegos, luras de toupeira e tocas de grillos.

Portanto, a qualquer cerebro medianamente esclarecido parecerá urgente e indispensavel o levantamento d’uma planta, que desde já disponha, com regularidade, as arterias da futura povoação.

Não se pensa em tal, nem é preciso. Temos a lei das expropriações. A ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em que pensar. Temos a Questão da Musica.

—No centro da villa, ao lado da Ex.ᵐᵃ Camara, existe uma commua, que chamam: Eschola municipal.

Quando quizerdes avaliar a civilização d’este povo, que se ri de vós—oh gentes de Monsão e de Coura!—vinde cá, embebei o lenço em agua de Colonia e entrae alli, na Eschola, onde sem ar, sem luz, sem condições hygienicas de qualquer natureza, se atrophiam diariamente dezenas de creanças.

Os rapazes, cá na terra, sahem da barriga das mães, já com a caneta atraz da orelha para escreverem á familia; não precisamos, portanto, de subsidios do Conde de Ferreira, nem de utensilios escholares.

Corre tudo muito bem. Só falta uma coisa: um pelourinho, alli ao pé da Sexta, com os nomes dos philanthropos que responderam aos testamenteiros do Conde:

Dispensamos o subsidio; não temos terreno para a eschola; está tudo occupado com cacos de guerra e com o Assento dos militares!

—Diz-se que é util o saber lêr e, n’esta crença, auxilia-se em toda a parte a instrucção do povo, fiscalizando-se o serviço das escholas, animando-se as creanças e estimulando-se os professores.

O pelouro da instrucção (?) no concelho de Valença é um mytho, uma coisa nominal e hypothetica.

Regateiam, por ahi, miseravelmente, os dois patacos de expediente; e na Eschola, como verdadeira commua, não ha mobilia, não ha um mappa, não ha uma esphera, uma loisa, um diccionario. A Camara não gasta dinheiro n’essas ridicularias; gasta-o, mas com outras applicações, que fazem parte dos meus apontamentos particulares...

De quando em quando o bandalho da Politica entra tambem nas Escholas; e d’essa visita, nascem as perseguições torpissimas e ineptas contra homens que, politicamente podem ter todos os defeitos, mas que para o exercicio do cargo que exercem, possuem incontestavel aptidão.

—Construiram-se, no largo principal da terra, os Paços do Concelho. O edificio ficou uma gaiola de grillos, com uma unica porta, para elles não fugirem, quando lhes appetecer a serradela.

As divisões interiores são d’uma disposição perfeitamente apatetada. Com as dependencias do Tribunal, repetiu-se aquelle caso dos moinhos de Coura. Lá, só pensaram na agua, quando os moinhos estavam promptos; cá, só depois do Tribunal concluido, é que surgiu na mente dos illustres senadores a necessidade provavel d’uma sala para jurados.

Mas o defeito remediou-se e bem.

Fez-se uma especie de espigueiro, um sotão, como os que a gente tem para extender as batatas por causa do grelo e para lá se manda o Jury. Está alli muito bem, livre de correntes d’ar, e com grande vantagem para os curiosos da terra: muito antes que se pronuncie a sentença, já se póde saber, pela janella das escadas, se o réo vae para a rua, ou para o cavallinho de pau.

Não ha dinheiro que pague esta commodidade.

—Na Coroada, admiram os forasteiros a desconjunctada architectura d’uns cortelhos, onde, em nauseabunda promiscuidade, se aconchegam de noite: mulheres, porcos, creanças, bacorinhos, gatos com tinha e cadellas com sarna.

Em terra menos civilizada, já o senado teria estudado o meio de, por uma operação financeira possivel de realizar, sem graves encargos, transformar esses focos de immundicie em habitações economicas, mas hygienicas.

Mas, então, V. Ex.ª não viu na Exposição de Paris, entre tantas maravilhas da Arte, as primitivas construcções dos differentes povos? Pois cá, em Valença, não precisamos de arranjar artificialmente essa exposição. Alli estão os cortelhos da Parada velha, immundos, doentios, nojentos,—como nota caracteristica do nosso Progresso moral e material.

—A gente das cidades tem a mania da Civilização. Abre mercados, rasga ruas espaçosas, aformoseia praças, alinha os edificios e varre as ruas.

Com o pretexto da hygiene e da limpeza faz dinheiro até do esterco.

Miserias humanas!—dizem os nossos camaristas. Nas ruas de Valença, o que cai, deixa-se ficar. Podem-nos chamar immundos, mas ao menos, não somos dos futres que vendem carros de lixo.

Cá, a gente é assim...

—O concelho precisa de estradas que unam as freguezias e facilitem as communicações. A estrada de A para B foi considerada, como a mais urgente, pela importancia (politica, já se vê) de B.

Principiou-se a estrada: terraplenagens, aterros, desaterros, etc.

A folhas tantas, desabou a caranguejola ministerial e o que era politicamente positivo em B passou para negativo. Suspendeu-se a construcção da estrada.

Chegou o inverno: lamas, enxurradas, desmoronamentos. O que estava feito inutilizou-se, mas não importa: a ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em que pensar: a Questão da Musica.

*