A costa

Da ponta da Lamparoeira corre a costa de norte a sul, por mais de 8 milhas, quasi toda de rocha escarpada até á foz da ribeira do Porto. A 1,5 milhas a N. da dita foz fica a Ericeira. A sul da villa uma pequena enseada com boa praia, a norte outra praia; ambas separadas pela grande massa de rochedos do portinho onde entram os barcos de pesca. Este porto é desabrigado dos ventos NNE a SSO por O.

Ha duas luzes de enfiamento, branca e vermelha, a 37,ᵐ7 de altitude.

O monumento de Mafra com suas elevadas torres e zimborio, a 270 metros sobre o nivel do mar, serve de reconhecimento e marca para este porto, avistando-se a 30,5 milhas.

Da foz da ribeira do Porto a costa a S 25° O, até ao cabo da Roca, a 10,3 milhas, quasi toda escarpada e elevada, apenas rota na praia das Maçãs na foz da ribeira de Collares, e na praia Grande a S d’esta. No Focinho da Roca o rochedo levanta-se a mais de 125 metros; sobre essa escarpa está o pharol da Roca, a 137 metros acima do nivel do mar. A meia milha ao mar do cabo está a pedra d’Arca: ha outros recifes que tornam perigosa a approximação.

A serra de Cintra eleva-se sobranceira ao Cabo, correndo para o interior na direcção de ENE. A sua maior altitude é no seu estremo E no castello da Pena, que tem 529 metros de cota.

O convento da Peninha, no extremo SO, está a 488 metros, e deve avistar-se a 42 milhas. A serra de Cintra é ponto excellente para reconhecimento da costa. Os pescadores da Ericeira dão nomes ás saliencias principaes da serra, e pelo enfiamento e aspecto marcam approximadamente a sua posição no mar.

A pesca na Ericeira chegou a grande decadencia, parece querer levantar-se agora. Antigamente, ha 50 annos, não só a pescaria tinha ali grande importancia, mas a Ericeira era um viveiro de homens do mar; chegou a ser celebre pelos seus maritimos pedidos para os melhores navios da nossa marinha mercante. Eu conheço a Ericeira ha quatro annos apenas, em rapidas visitas na época dos banhos. Ha quatro annos havia uma armação, em frente do porto, e os botes de pesca, as focinheiras, pouco iam ao mar. Não havia pescada, muitos dias só havia sardinha e carapau apanhado na armação. Agora ha duas armações, e todos os dias vão barcos ao alto, que por vezes trazem muito peixe. A exploração da lagosta tambem augmentou.

Os pescadores das armações são quasi todos estranhos á Ericeira; e tem vida áparte dos naturaes da villa. É no norte, quer dizer no bairro do norte da villa, em casas abarracadas, caiadas, algumas com o chão forrado de plantas aromaticas, que habitam os pescadores. Casas pobres, aceiadas, com estampas de navios e santinhos nas paredes. A grande embarcação de pesca, antiga, era a rasca, que eu vi pintada em quadros de milagres, na egreja de Santa Martha.

Era um barco seguro e veleiro, de borda alta, pôpa redonda e prôa arrufada; convez corrido de vante á ré, cinginda em volta do costado por um espesso cinto com forte pregaria, apparelhando com quatro vélas latinas triangulares, traquete, véla grande, véla de prôa, e catita; com tripulação numerosa para a manobra.

O mastro de traquete pendia para vante, o de ré era vertical, da prôa lançava um páo para amurar a véla de prôa, á ré encostado á amurada um pequeno mastro para a verga da catita, que caçava no laes de um páo deitado pela popa servindo de retranca: singrava veloz, chegando-se muito ao vento, e aguentando-se bem nas borrascas.

A focinheira é typo unicamente usado na Ericeira, para a pesca costeira, e que vae tambem ao largo. Tem um mastro á prôa que apparelha com um latino; a prôa e a pôpa da pequena embarcação teem fórma especial, e no fundo chato e arqueado tem umas reguas ou reforços longitudinaes. É differente da chata de Cascaes ainda que se lhe avisinha.

Tenho visto na Ericeira sardinha, fataça, carapau, faneca, goraz, pargo, capatão, pescada, peixe espada, peixe gallo, cação, moreia, arraia, polvo e lagosta.

Uma vez entrou na armação um cardume de grandes pargos e capatões; e eu vi na pequena praia a fila de oitenta grandes peixes vermelhos de que os menores tinham 7 ou 8 kilos.

Este anno foi fisgado de uma focinheira um grande peixe agulha que pesou nove arrobas.

Havia muitos annos que não apparecia um peixe agulha na Ericeira, e é trivial em Setubal.

Quem visitar reparando os mercados de peixe na Ericeira, Cascaes, Setubal nota singulares differenças; nesse bocado de oceano que se avista do Cabo da Roca, ha regiões definidas, onde apparecem ou não determinadas especies de peixe.

O generoso mar dá ainda outro producto que elle traz do seu seio e vem depôr, arrumar, na areia da praia; chamam-lhe sargaço e moliço ou golfo; são as algas, os corriões, bodelha, verdelho e sebas, que o agricultor utilisa para adubo.

Em todas as praias aqui d’esta costa, Baleal, Peniche de cima e de baixo, Portinho da areia, Consolação, Seixal, Atalaya, Ribamar, Porto novo, Santa Cruz e Assenta andam os sargaceiros apanhando os vegetaes arrojados á areia, escolhem um pouco, carregam, formam medas, que entram em fermentação e se transformam em excellente adubo.

Em outros pontos do paiz a rapeira é uma furia louca que prejudica a creação do peixe, mas aqui não se dá esse caso, os sargaceiros não chegam para arrecadar a massa enorme de algas que o mar lhes offerece.


Banheiros.—Praia do sul: Antonio Garamanha, Braulio da Silva, Francisco Piloto, Francisco Jorge Alturas e Servando da Silva.

Praia do norte: Agostinho Alves Camacho, José Alves Camacho, José Coco e José d’Almeida Rato.

As praias são muito frequentadas nos mezes de agosto, setembro e outubro. Ha duas series de banhistas: a mais tardia é a que vem depois da vindima.

Bons typos estes banheiros, nadadores de primeira ordem, valentes sem precipitação.

Na praia do norte o mar bate um pouco mais; na do sul a força da vaga é em parte quebrada por uma restinga que surge a pouca distancia, 80 a 100 metros da praia de areia.

Na praia do norte em manhã de vaga um tanto rija vi espectaculo raro; os banhistas não tomaram banho, e os banheiros resolveram ir brincar nas vagas; brincadeira um tanto forte.

Eram tritões mythologicos, peixes não, porque estes não caem em taes experiencias; por vezes sumiam-se no concavo da vaga proxima a desabar, logo appareciam, o corpo meio fóra da agua, na cabelleira cristallina, logo destacavam na branca espumarada fervente.

É arriscado, ha movimentos enrolantes na vaga d’arrebentação, e ai do que se deixar enrolar pela onda.


No termo da Ericeira, na encosta voltada ao mar, ha grande numero de pequenas propriedades, e muitos muros de pedra solta. Fazem esses muros para arrumar a pedra e tambem para defeza contra a rajada do mar, e não bastam; fazem ainda sebes de urzes, de ramos de pinho, de caniço; e nesses canteiros vi cepas boas, com bellos cachos.

A phylloxera estragou os vinhedos, mas nos ultimos annos teem replantado; nas chans da ribeira de Chileiros ha vinhas de importancia. Para os lados da Fonte dos Nabos, Santo Isidoro, Paço d’Ilhas vi culturas mimosas. Na Ericeira só as flexiveis hastes das araucarias resistem á furia do vendaval. Ás vezes quando no temporal as grandes vagas estouram nas arribas passam flocos de espuma por cima da povoação.


Nomes de barcos.—S. Joaquim, vulgo o Bailharito, Feliz Raul, Boa Viagem, Flor da Ericeira, Pombinho, etc.


Pombos-bravos.—São raros nesta costa; numa época vi dois casaes que pousavam nas altas rochas, sob a villa. Pouco adiante de S. Sebastião tenho-os visto tambem, poucos. São pardos-escuros, esguios, muito desconfiados; creio que é na costa algarvia, Sagres, S. Vicente, que apparecem mais; na costa da Arrabida são raros.


Pharoes.—Berlenga. Começou em 1840. Alcance 30 milhas.

Cabo Carvoeiro. Data de 1790. Alcance 9 milhas.

Ericeira. Luzes de direcção, anterior branca, posterior vermelha. Começaram em 1864. Avistam-se a 5 milhas.

Cabo da Roca. Data de 1772. Alcance 30 milhas.


Soccorros a naufragos.—Dizem que existe um posto montado, com espingarda Delvine para lançamento do cabo de vae-vem.

De barco salva-vidas nunca ouvi fallar, nem de qualquer melhoramento do acanhado portinho entre bravias rochas, muito pittorescas e perigosissimas.

Numa das ribas vi uma caixa verde com letreiro branco, assim:

Secorros

a

naufragus

Deve ser orthographia official. (Este anno, 1905, vi o letreiro já emendado).


O facho do peixe.—Se o barco que vem do alto, ou da armação, traz peixe, arvóra á prôa o facho, que é uma japona ou oleado de marujo; logo que das arribas avistam o reclamo descem homens e mulheres com as gigas e burrinhos para transporte da mercadoria.


Aroeira.—É com o suco da aroeira que tingem as redes. A planta verde é moida num lagar, por galgas movidas a braço. Na Ericeira vi um lagar, que não trabalhava. É em Ribamar que hoje moem mais. Em Santo Isidoro encontrei eu umas saloias com seus burrinhos carregados de aroeira, que iam para Ribamar.

E vi tambem ramos de aroeira ornamentando carros carregados de tojo; o verde viçoso da aroeira alegrando o tom escuro do tojo secco.


Phosphorescencia.—Na costa da Ericeira o mar apparece algumas vezes phosphorescente; acho isto notavel; porque no littoral portuguez em muitos sitios nunca se dá este phenomeno, na costa do Algarve é rarissimo.

A gente do mar chama-lhe ardencia. Nas noites de 24 e 25 de agosto de 1900 o espectaculo foi admiravel. As grandes ondas luminosas, de brilho e intensidade differentes, produziam effeito phantastico. Durou muitas horas o esplendido aspecto do mar, especialmente na arrebentação.

Em setembro de 1902 tambem houve ardencia, mas fraca e durando apenas umas tres horas. No livro de A. F. Simões: Cartas da beira-mar, descreve-se um caso de ardentia ou ardencia observado por elle na Figueira da Foz no mez de setembro de 1864.


Cartas nauticas.—Conversando uma vez a respeito de antigas cartas nauticas, indicaram-me uma senhora que possuia algumas, de parentes que tinham navegado em largas viagens. Eu pedi o favor de as vêr.

Um dia, na sua casa de jantar, escolhida por ser mais facil na grande meza desdobrar as cartas maiores, a senhora D. Maria disse á serviçal que fosse lá acima, ao quarto do Oratorio, buscar as pastas e os rolos, forrados de linhagem.

A creada voltou ajoujada porque era pesado o fardo da papelada. Eram as cartas que tinham servido ao avô, ao pae, aos tios e aos irmãos na vida maritima, porque durante gerações, n’aquella familia, fôra tradicional a vida do mar; ora de pilotos, ora de capitães de navio, muitos dos parentes daquella senhora fizeram longas viagens. As cartas usadas, amarelladas, conservavam o cheiro a breu; tinham as rotas marcadas a lapis, em linhas onduladas ou em zig-zagues, com pequenas cruzes e datas, nas mudanças dos rumos ou marcando singraduras; viagens da Ericeira para Larache ou Casa Branca na costa marroquina, á Terra Nova, á Irlanda, ou de Lisboa para o Brazil, Açores, Madeira, por essa costa d’Africa fóra, ou entre o Funchal e Demerára.

Ha coisas d’estas, ás vezes; começa-se por simples curiosidade, entre phrases banaes e logares communs, e de subito surge o drama. Se eu visse aquellas cartas n’uma loja nada sentiria, mas lentamente mostradas pela santa mulher! Eu ia dizendo o que via e lia, e ella ia lembrando. A carta passou a ser um documento vivo. E quanto mais recordava mais subia a commoção, avivavam-se saudades, as lembranças de anciedades passadas, as longas espéras de noticias. Certa cruz marcava um grande golpe de mar, outra o sitio em que faltou agua de beber, e a comida; esta agora um incendio a bordo.

De uma vez não houve noticias do parente nem do navio por mais de seis mezes.

Eu dobrava ou enrolava lentamente a carta, e passava-se a outra. Agora era a que servira a bordo do palhabote onde o irmão ia por piloto na sua primeira viagem, e surgiam outras recordações.

Desdobrava-se nova carta, era a de um segundo tio, capitão do navio tal, que andou trinta annos no mar, soffrendo vendavaes e calmarias, e terminou em naufragio em longinqua paragem.

E assim estivemos a ver cartas, algumas horas, e a lembrar anciedades passadas; saudades, receios, que é o manjar de quem tem parentes queridos no mar. Depois a serviçal foi levar, com muita cautella, como cousas sagradas, a pasta e os grandes rolos para o quarto de cima, ao pé do Oratorio.


Os primeiros christãos.—As duas inscripções romanas que ainda hoje felizmente se conservam em S. Miguel de Odrinhas teem servido de base a dissertações de auctores considerados sobre o apparecimento do christianismo n’esta região a norte de Lisboa. Principalmente a do Seneca.

O nosso D. Rodrigo da Cunha na Historia ecclesiastica da egreja de Lisboa, disserta sobre a pregação de S. Pedro de Rates pela beira mar até Cintra, e dá muita attenção ás duas inscripções romanas.

A razão de julgar que taes inscripções commemoram pessoas christans é porque lhes falta o D. M. S. (consagrado aos deuses manes), inicio vulgar dos lettreiros pagãos.

Base ou principal ponto de partida a respeito da existencia de christãos logo no 1.ᵒ seculo, neste extremo da peninsula, é a chronica de Flavio Dextro, que diz: Lucius Seneca Centurio verus christianus Sintriae occumbit. (Ann. Chr. 50).

Numa edição de 1619, vê-se Senticae, emendado para Sintriae na edição de Leão (Lugduni, 1627 pag. 103).

Ora esta chronica de ha muito está mal afamada, mas percorrendo-a quasi me convenço de que merece alguma attenção; parece-me um texto antigo muito alterado e interpolado.

Ambrosio de Morales, continuador de Floriam de Ocampo, na Coronica general de Hespana (Alcalá de Henares, 1575, 2.ᵒ vol. pag. 245 e segg.) consagra um capitulo a esta questão:==El tiempo del Emperador Neron con todo lo de Seneca (Lib IX. C. 9) e reproduz a inscripção grande de Odrinhas. Não acho base alguma para affirmar a existencia de christãos logo no primeiro seculo no occidente da peninsula; porque é certo que os lettreiros sepulcraes de individuos christãos começam muito mais tarde; lendas, tradições devotas, sim; mas é difficil tambem marcar datas á creação de lendas piedosas.


Bolos.—As confeiteiras fazem cavacas, pão de ló, esquecidos, suspiros, biscoitos e marmelada. Tambem fazem queijadas, inferiores ás de Cintra. A região da queijada é outra, vae de Cintra a Bemfica, conservando o mesmo typo. Tambem ha queijadas no Alemtejo, excellentes, mas de esthetica mui diversa. O dominio do pão de ló é ao longo da costa maritima ao norte do Tejo, e o da cavaca quasi na mesma região, variando de fórma e densidade, de villa para villa; quasi se póde dizer cada terra com sua cavaca.

S. Antonio.—É uma pequena ermida, toda caiada, que está sobre a muralha da arriba do porto.

Está ahi na parede do occidente voltada ao mar uma cruz formada por azulejos, e tambem em azulejos as imagens de Nossa Senhora da Boa Viagem e a de Santo Antonio, e data 1789.

No nicho ardia d’antes uma grande lanterna, guia dos pescadores, e ainda lá está a sineta que toca quando ha nevoeiro na costa.

Egreja de S. Pedro.—Foi restaurada em tempo de D. João v. As pinturas do tecto teem o caracter d’essa época. O cruzeiro ante a porta principal está datado de 1782. O prior Manuel Maria Ferreira fez obras na egreja, e o arcaz da sacristia em 1660.

Creio que a obra d’arte mais antiga que existe nesta egreja é a pequena estatua de S. Pedro, em marmore, com o seu livro e grande chave, que está sobre a porta lateral. Proximo a esta porta está o seguinte letreiro:


—Aqui jazem José Pereira da Cruz e sua mulher Eulalia da Costa e a filha d’estes Maria Rosa e seu marido o professor Antonio Luiz Delgado e alguns filhos d’estes, entre elles o padre Octaviano Augusto Pereira Delgado primeiro e principal promotor do acrescentamento e reforma d’esta egreja o qual pede por esmola se compadeçam das almas dos que aqui jazem, 1872.—

Segundo o recenseamento official tem esta freguezia 737 fogos, com 2:519 habitantes.

Santa Casa da Misericordia.—Foi fundada a irmandade d’esta Misericordia em 1678.

O Compromisso actual foi approvado por alvará de 4 de outubro de 1886.

O antigo compromisso era de 7 de julho de 1697.

Capital 34:650$000 em inscripções.

Capital 4:500$000 em acções do Banco de Portugal e da companhia das Lezirias.

Na média entram no hospital uns 70 doentes, annualmente.

Ha pouco teve um legado importante, do sr. Fialho, cavalheiro respeitabilissimo da localidade.


S. Julião.—É uma ermida toda branca, com seu alpendre, erguida na escarpa maritima, a uns tres kilometros a sul da Ericeira. Celebra-se ahi uma festa annual, em setembro, com arraial, a que concorre muita gente dos povos mais visinhos. Proximo do pequeno templo ha casas para os romeiros, para um posto da guarda fiscal, e para venda das offertas.

A disposição da ermida e seus annexos leva-nos a tempos mui antigos. A influencia do convento de Mafra tambem ali chegou, e algumas reparações teem o cunho do seculo XVIII.

A porta da ermida tem a data 1768.

Proximo de S. Julião ha uma fonte milagrosa. Tem duas bicas, que deitam aguas de nascentes diversas, de modo que teem sabôres varios. E seus azulejos com as imagens de S. Julião e Santa Basilissa, e a data 1788.

Teem virtude estas aguas para doenças de olhos, e outras, para todas creio eu, mas é preciso beber, ou lavar-se com as duas aguas. São complementares.

Por occasião da festa foram muitas pessoas beber das duas aguas, outras lavar os olhos nas duas pias, outras com bilhas; mas a virtude principal das duas aguas combinadas é contra as sezões.

No arraial de S. Julião vendiam-se poucos comestiveis: bolos de S. Julião, fartes, queijadas, melões e peras, pevides, favas torradas.

Os fartes ou bolos de S. Julião são feitos de massa de trigo com assucar, me pareceu, e alguma canella. São bolos locaes que segundo me affirmaram só se fabricam por occasião da festa.

Vi ahi algumas portas com fechadura especial composta de uma haste grossa, com sua travinca, e que se abre por meio de um páosinho de feitio vario.

Na Ericeira tambem encontrei essa fechadura que eu não conhecia. Um popular explicou-me:==isto é fecho com cavilhas e chaveta.

As pedras de mysterio em S. Julião.—São umas lapides bem trabalhadas com os nomes de S. Julião, S. Basilisa, e Ave Stella matutina, e outras phrases piedosas, dispostas caprichosamente.

Assim Juliam, Basilissa e matutina, em caracteres capitaes muitas vezes repetidos enchem quadrados tendo no centro as iniciaes J. B. e M. e achando-se a palavra lendo para qualquer lado, até aos vertices da figura.

Proximo da ermida ha um logar, o fojo, grande fenda natural da escarpa, onde se deu um milagre; ahi numa lapide lavraram um monogramma que deve significar Mater Christi. E no angulo do alpendre, superiormente, um cubo de marmore com meridiana muito curiosa.

Algum frade engenhoso fez aquelles quebra-cabeças, para maravilha dos romeiros. A esta ermida se liga a historia do rei da Ericeira.


A bruxa da Arruda.—A celebre bruxa costuma visitar a Ericeira por fins de setembro. É muito respeitada; dizem que é rica, a pobres não leva nada; apresenta-se com muitos oiros. Tem uma filha que já entende de molestias. Em geral leva 300 réis pela consulta. Receita quasi sempre esfregas de aguardente e papas de pão de milho ralado. Mas isto varia em quantidade, tempo, calôr, e no sitio do corpo. Ouvi tambem chamar-lhe a mulher do Casal das Neves, no termo da Arruda dos Vinhos.

Nem precisa ver o doente, levam-lhe roupa do uso do enfermo, uma camisa ou camisola, e ella pelo cheiro conhece a molestia e logo receita. Costuma pousar numa casa do norte da villa, e a sua chegada consta logo entre a pobre gente que a venéra e teme.

==Já teve questões com padres e medicos, já foi aos tribunaes, me disse alguem, e ficou sempre victoriosa!==


O brazão da Ericeira.—Tenho visto representado no brazão da Ericeira um ouriço cacheiro, e outras vezes um ouriço do mar, inteiro, com sua armadura de espinhos, visto de lado, o que me parece mais logico. Na Fonte do Cabo sobre a inscripção está uma pedra esculpida que deve ser a representação mais antiga das armas da villa, e, se me não engano, quizeram ali representar a boca do ouriço maritimo, donde divergem séries de linhas formando cruz, e um lavor ponteado que allude aos espinhos, admittindo o engano ou convenção das quatro fachas divergentes que deveriam ser cinco se o canteiro fosse mais cauteloso.


O primeiro foral da Ericeira.—Do primeiro foral da Ericeira guarda-se o autographo na Torre do Tombo; está publicado na integra no Port. Mon. Hist. na parte respectiva a foraes, pag. 620. E por esta razão não o transcrevo aqui. É da era 1267 que corresponde ao anno 1229. Foi concedido por D. Fernando mestre da ordem d’Aviz: Ego frater F. magister Avis una cum omni meo conventu do atque concedo populatoribus de Eyrizeira... Note-se que a pronuncia local de hoje é Eiriceira embora toda a gente escreva Ericeira.

Como todos os foraes das povoações da costa maritima este se refere a barcos, a maritimos e pescadores, á pescaria, e aos impostos especiaes do pescado: por exemplo aos pescadores do alto mar, e á baleacion, ou pesca da baleia, então commum a todo o mar português. Faz menção especial de congros, toninhas e golfinhos; e dos apparelhos de pesca, bigeiro, udra et rete de costana; do pescado fresco, recente e secco. No porto entravam mercadorias: de tota merchandia que per mare ad portum venerit et voluerint vendere dent quarentena. Havia revendedores de peixe: de coloneiro qui comparar piscatum pro a revender det I denarium.

O mesmo imposto para o bofon, ou bufarinheiro.

Á vista do foral a condição dos pescadores não tem variado do seculo XIII para cá. Os mesmos perigos, egual miseria, e a mesma incuria, a mesma falta de protecção.


Sentindo a brisa fortemente salgada, alargando o olhar pela magestosa amplidão do oceano, vem o desejo de saber alguma cousa do que se passa ahi, no meio aquatico, onde pullula a vida. O dr. Augusto Filippe Simões fez um livro bem interessante de vulgarisação scientifica com algumas observações pessoaes, as Cartas da beira-mar (Coimbra, 1867).

Simões era um sabio e um litterato erudito, escrevendo com muita consciencia. Em linguagem facil, corrente mas cuidada, descreve-nos o oceano, os seus problemas, a salsugem, os movimentos, as marés; e a vida que se agita n’essas aguas, a zoologia e a botanica marinhas.

Um livro que recommendo para a temporada da Ericeira é o Estado actual das pescas em Portugal, pelo distincto official da armada, sr. A. A. Baldaque da Silva (Lisboa, 1892). Tem estampas coloridas representando peixes, crustaceos, molluscos, muitas gravuras de barcos e apparelhos de pesca; não olvidando a focinhada ou focinheira ericeirense, e a antiga rasca que passou á historia; descreve tambem a costa maritima, tão variada em aspectos e circumstancias.

Recentemente vi um livro bem interessante, de sciencia moderna; é L’Océan. Ses lois et ses problèmes, por J. Thoulet (Paris, Hachette, 1904).

Thoulet é um oceanographo que estuda o mar e sabe expôr com clareza as muitas questões da sciencia do mar, a oceanographia, tão moderna e já tão vasta. A chimica do mar, a formação de sedimentos de origens varias, a temperatura e a pressão nos abysmos, a formação da vaga e a razão das marés, as correntes, a vida nas grandes profundidades quietas e sem luz, apparecem-nos tratadas em largos capitulos de leitura que prende a attenção, sem fatigar o espirito.

No 4.ᵒ volume das Maravilhas da natureza, segundo o plano de Brehm, obra celebre, revista e ampliada na parte relativa a Portugal pelo sr. dr. Balthasar Osorio, sabio lente da Escola Polytechnica de Lisboa, trata-se de peixes, em leitura facil e agradavel.

Como tambem desperta a attenção o aspecto raro das arribas, das suas curvaturas, fendas, aberturas, cavernas, onde apparecem rochas brancas, vermelhas, negras, esverdeadas, cinzentas, umas cheias de fosseis, outras sem vestigio de vida animal ou vegetal, eu lembro a leitura no vol. 2.ᵒ de La face de la terre por Ed. Suess (trad. de E. de Margerie. Paris, 1900), do capitulo intitulado: Os contornos do Oceano Atlantico.