A feira franca

(21 DE AGOSTO DE 1904)

Na grande varzea em parte arborisada faz-se esta feira muito concorrida pela gente d’aquelles sitios; a região de Torres Vedras é bastante povoada; aldeias e logarejos, boas quintas, casaes, matizam os campos accidentados, as collinas entremeadas de valles e varzeas ferteis.

Este rocio onde se faz a feira tem ao lado a casaria da villa, ao norte o monte onde se ergue o castello, entre olivedo e paredões negros alveja a egreja de Santa Maria, muito caiada; mais longe e mais alto o monte de S. Vicente; a poente do rocio a serra do Varatojo, vestida de vinhedos. Na parte arborisada enfileiram-se barracas e tendas, no rocio nú é a feira de gados e a corredoura.

As barracas de ourivesaria agrupam-se com as dos utensilios de arame, cobre, ferro estanhado, latoaria. As dos vidros estão perto do grande estendal de louças branca e vermelha.

A louça ordinaria, popular, provém das differentes olarias do termo de Mafra, a branca vem de Alcobaça.

A notar um especialista de buzinas de moinhos de vento, aquellas vasilhas de barro, que assobiam e zumbem quando o vento apressa o movimento das quatro velas triangulares.

Vende-se calçado grosso, bastante correaria, não faltando as sogas ornadas, bordadas a pita colorida.

Pequenas quinquilherias, modestas roletas variadas formam uma rua, leiloeiros de varias qualidades chamam a gritos a attenção do povinho, perto das barracas de tiro ao alvo.

Num espaço grande estão as madeiras; o que mais dá na vista é o material vinario; é natural, estamos numa grande região vinhateira.

Cubas, toneis, balseiros, barris, celhas, tinas em abundancia; de castanho, as mais; algumas de pinho da terra, genero barato. Carros para bois, e tambem de pequenas dimensões e de construcção mais leve para burricos. Ha especialistas em arcos, e negociantes de varedo, assim como de crivos e peneiras.

Menos importante a feira do gado; bastantes porcas com leitões, poucas juntas de bois, pouco e inferior o gado cavallar e asinino.

Pareceu-me em geral mal tratado o gado, tanto na feira como no que observei fóra.

É mais a pancada que a alimentação regular.

Já se vê não faltavam as barracas de comer e beber, com os seus fritos alourados, e constante freguezia.

Comia-se bem, bebia-se melhor; homens e mulheres espatifavam acerejadas gallinhas, consumiam patos com arroz cheirando que era uma delicia, e sorviam as talhadas dos sumarentos e aromaticos melões, atirando as cascas aos porcos e leitões grunhindo pela gulodice.

A impressão geral é de atrazo, de educação nulla ou rudimentar; de trabalho mau com inferior alfaia, todavia gosto de vêr o povo rural nestas feiras; é naturalmente são; um tanto brutal nos costumes, se ninguem trata d’elle! mas de bom fundo.

Estamos longe d’aquelles camponios insolentes, turbulentos, cupidos, eivados d’alcoolismo, devastados por seitas ferozes, que preoccupam em Allemanha, na Italia, na França a gente que pensa e vê alguma cousa.