Capella dos Castros
==He a obra da Capella dorica, a proporção dupla, com quarenta palmos de largo, mais de setenta de comprimento. He de huma só nave de pedraria brunida, o lageamento de pedras de cores, tambem brunidas: funda-se a mais architetura della em hum proporcionado pedestal, que em torno a circunda interiormente. Tem seis arcos com pilares interpostos sobre bases: capiteis, e simalhas tambem em torno, com seis luzes obradas com respeito á architectura. A porta principal tem no claustro do Convento, e sobre ella pende hum escudo relevado das armas do Fundador. O tecto, despois de coroado com a simalha, he tambem de pedraria, apainelada com artezães, e molduras: os dous primeiros arcos de seis, que a compoem, ficam nos Presbiterios; no da parte do Evangelho está huma porta, que dá serventia pera a Tribuna, e aposentos do Fundador: no outro da parte da Epistola, outra pera o serviço da Sachristia, os outros quatro occupão quatro sumptuosas sepulturas, de pedras de cores lustradas, que sobre as costas sustentão elefantes de pedras negras.
No primeiro arco, que fica junto ao do Presbiterio da parte do Evangelho, está a sepultura de Dom João de Castro, com o seguinte Epitaphio.
D. Ioannes de Castro XX. Pro Religione in vtraque Mauritania stipendijs factis, nauata strenue opera Thunetano bello fœlicibus armis penetrato; debellatis inter Euphratem, et Indum nationibus: Gendrosico Reye, Persis, Turcis vno prœlio fusis; seruato Dio, imo Reipublicæ reddito, dormit in magnum diem, non sibi, sed Deo triumphator: publicis lachrimis compositus, publico sumptu prœ paupertate funeratus: obijt Octauo Id. Iunij. Anno 1548. Aetatis 48.
Estão em o seguinte arco, junto a este os ossos de D. Leonor Coutinho, sua mulher.
Da parte da Epistola, em o arco que responde ao da sepultura de Dom João de Castro, está a de Dom Alvaro seu filho, com o Epitaphio seguinte.
D. Aluarus de Castro. Magni Ioannis primogenitus, cui pené ab infantia discriminum factus pugnaram prœcursor, triumphorum Consors, œmulus fortitudinis, hœres virtutum, non opum: Regum prostrator, et restitutor in Sinai veatice eques fœliciter inauguratus: a Rege Sebastiano Summis Regni auctus honoribus; bis Romæ, semel Castellæ, Galliæ, Sabaudiæ, legatione perfunctus, obijt 4. Kalend. Septemb. Anno. 1575. Aetatis suæ 50.
Logo no outro arco junto a este está Dona Anna de Atayde, mulher do mesmo D. Alvaro.
No vão desta Capella se fez um Carneiro com seis arcos de pedraria, em hum dos quais ha Altar pera se dizer Missa, e os mais tem repartimentos pera os ossos, e corpos dos defunctos.
Sóbe-se do pavimento d’esta Capella por seis degráos entre dous presbiterios, nos quais estão as sepulturas do Fundador, e sua Irmam: a primeira da parte do Evangelho com o Epitaphio que se segue.
D. Franciscus á Castro, Episcopus olim Aegitanensis, hujusce Sanctuarij, ac interioris Cœnobij fundator, hunc sibi, dum viueret, tumulum posuit, in quo et requiescet post mortem.
A segunda, com este, da parte da Epistola.
D. Violante de Castro Cometissa relicta vidua Domini Alfonsi de Noronha, Comitis Odomirensis hic quiescit, obijt XIV, Kalendis Iulij, anno Domini DC. XXXXVI. Sorori optimæ, seu verius matri, Frater amantissimus dedit, posuit.
Sobre estes degráos está o Altar de jaspes brunidos, apartado do retabolo, em forma que fica emparando a entrada do Choro, que detraz do mesmo Altar tem os Irmãos da casa de Noviços; e a que se entra por entre dous pedestaes de jaspes brunidos de treze palmos de alto, nove de largura, onze de grossura. No fronstispicio delles se veem duas tarjas embutidas de jaspes brancos, cercadas de suas faxas de outros pretos, na que fica da parte do Evangelho está escripta a instituição da Capella na forma seguinte.
Ad maiorem ineffabilis Eucharistiæ venerationem, peculiarem Deiparæ Virginis de Rosario honorem; indiuiduam Patriarchæ Dominici, Martyrum Nazarij, Celsi, Victoris, ac Innocentij confessoris memoriam, ædem hanc in penetralibus Sacratiorem Erexit, Condidit, Dicauit D. Franciscus á Castro Episcopus olim Aegitanensis, Regis, ad status consilia adsidens, rerum fidei moderator supremus. Anno Domini M.DC.XLVIII.
Na outra tarja, que fica da parte da Epistola, se contém as obrigações dos suffragios, que por si deixou o Fundador, diz assim:
Instituit ad altare triplex iuge sacrificium annuas pro defunctis vigilias, iuniorum cœnobitarum adsciuit excubias, habitacula coœdificauit: sibi religiose ante Dominum sepultura prouisa; maioribus suis posuit monumenta, magis pie, quam magnifice, quorum posteris subtus aram Condictorium fecit, legauit in hæc opera pietatis sexcentos annuos aureos.
Sobre estes pedestais se levantão de cada parte tres columnas de folhagem até o meio, que proseguem em estriado, as dos cantos mais recolhidas, as outras duas mais sahidas pera fóra, e corpulentas, entre ellas se abrem nichos de alto abaixo, que recolhem varias reliquias de Sanctos engastadas em custodias de preço. Estas seis colunas, que todas são de lavores, vão receber a simalha do Altar, sobre a qual se presenta á vista um quadro da Cea do Senhor, de singular pintura acompanhado de duas colunas de macenaria galantemente lavradas, que vão receber hum remate do mesmo quadro, unido já com a abobada da Capella. Aos lados destas colunas ficão dous quartões ornados com duas pyramides exteriores.
Por entre as tres colunas de huma, e outra parte, que estão sobre os pedestais, se fecha hum arco quasi da mesma altura das colunas, que fica fazendo lugar ao Sacrario (em que sempre está o Sanctissimo Sacramento alumiado com duas alampadas de prata). Do pavimento que fica debaixo deste arco se levantão oito colunas em estylo oitavado, que recebem huma charola alterosa com seu zimborio, que se remata com hum Pelicano polla banda de fóra. Debaixo desta charola se levanta hum throno em forma quadrada com quatro colunas pequenas, que fazem os cantos, com que se forma a primeira peça, na qual se abrem dous nichos, hum pera a parte do Choro, outro pera a Capella; o do Choro tem uma Imagem de nosso Padre S. Domingos, o que fica pera a Capella occupa outra de nossa Senhora de singular estimação por antiguidade, e feitio; he um meio corpo de alabastro, com o braço esquerdo abraça o minino que se sustenta em pé sobre uma almofada, e na mão direita tem hum livro, tudo da mesma pedra. Dá a estas imagens inestimavel valor a antiguidade, que em outras nações, com mais primor, e felicidade, que na nossa, avalia semelhantes obras; porque segundo a certeza que disto ha, e o Bispo tinha, estiverão estas imagens occultas, e sepultadas no muro da Cidade de Tunes, desde o tempo, que os mouros a tomarão aos Christãos, até que o Emperador Carlos Quinto lha ganhou, que então se descobriram, não sem mysteriosa circumstancia, porque batendo a artilharia o muro, e arruinando parte d’elle, cahiram as imagens sem padecer lesão alguma. O Infante Dom Luiz, que n’esta empresa se achou com o soccorro de Portugal, grandiosamente abreviado naquelle celebre galeão de 366 peças, e ajudou a ganhar a victoria, por despojo d’ella escolheo só estas imagens, que despois deu a Dom João de Castro, Avô do Bispo fundador.==
(Historia de S. Domingos particular do reino e conquistas de Portugal, por fr. Luis de Cacegas, reformada por fr. Luis de Sousa, filho do convento de Bemfica. Ampliada por fr. Antonio da Encarnação. Lisboa, 1866; 2.ᵃ parte do 3.ᵒ vol., pag. 198).
Quantas recordações nobilissimas nesta capella! Agora a elegante construcção está ameaçando ruina. Parece-me todavia facil acudir-lhe. A frontaria desligou-se um pouco do corpo do edificio, entra agua de chuva pela fenda produzida pelo desvio. Alguns annos de desleixo e a ruina será enorme, o concerto dispendioso. Dizem-me que esta capella está na posse de um particular, ha tempos ausente de Portugal. E não sei se ainda ha culto ahi; essa parte do edificio está habitada por uma congregação feminina, estrangeira; nada dizem, respondem sempre que não sabem da chave.