Imagens de Santos
Pouca attenção se tem prestado entre nós ás imagens religiosas; refiro-me a dois pontos de vista, artistico e archeologico. No Museu das Bellas-Artes e no Carmo poucos exemplares ha. É preciso examinar as egrejas, para descobrir um ou outro trabalho interessante.
É enorme a quantidade de imagens de santos ainda existentes, atravez diversas causas de destruição; tem havido modas tambem na estatuaria religiosa; as imagens do renascimento fizeram pôr de parte as mais antigas que pareciam rudes; as luxuosas estatuetas á hespanhola, de roupagens agitadas todas bordadas a ouro, foram vencidas pelas á italiana, mais artisticas e expressivas.
Imagens gothicas de gesto solemne, hirtas, de vago olhar, esculpidas em pedra, vieram até nossos dias; em quasi todas as sés ha imagens de Nossa Senhora, do seculo XII. A da Sé de Evora com o seu collar e fita pendente que parece formada de moedas romanas, as cercaduras bordadas do vestuario, os sapatos de bico, tem ares de uma rainha medieval.
No claustro da mesma sé ha estatuas de santos, e o apostolado no portico, dos seculos XIII a XV.
Do renascimento, com anatomia estudada, posição ao natural, temos um exemplar esplendido no celebre S. Jeronymo, que está no cruzeiro de Santa Maria de Belem.
Seguem-se as estatuetas em madeira com lavores a ouro sobre fundo preto, ou vermelho, o estofado, genero que foi muito empregado em Portugal.
Dos italianos, largas roupagens, cabeças de expressão, attitudes artisticas, póses estudadas, ha modelos mui significativos na antiga egreja dos Barbadinhos onde actualmente está a parochial de Santa Engracia. No seculo xviii a estatuaria religiosa segue a corrente da época; no seculo xix, a meio, começa a esculptura franceza a dominar com as suas fórmas gentis; vem a imagem fina, bem gravada, suavemente colorida; vem a elegante estatua da Salette, depois Lourdes, a fina dama, de cabeça pequena, fórma esguia, expressão de sonho. Nos templos agora por toda a parte domina a estatueta de gesso, e a oleographia franceza; o lindo santo risonho e muito penteado, a gentil santinha branca, a pretenciosa oleographia na sua moldura de baguette dourada. O Senhor dos Passos, de tez livida, negros cabellos, olhar severo, passaria de moda, se não estivesse firme em antiga tradição.
Na iconographia religiosa ha, atravez as idades, séries determinadas, e assim se póde vêr como os artistas de varias épocas executaram as figuras de Jesus Menino, ou imaginaram os rostos de anjos e seraphins.
Quando ha pouco se agitou a questão do santo sudario de Turim viu-se bem onde póde chegar o interesse d’estes estudos; n’este caso á origem da pintura, e dos seus processos.
Certas imagens, por exemplo, Senhor dos Passos, Senhor Morto, são, na grande maioria, da mesma época; outras são de todas as épocas, a Virgem, o Crucificado, Jesus Menino. Póde reunir-se uma série de imagens da Virgem do seculo XII para cá. E assim do rosto e cabeça do divino Nazareno. É interessante vêr como os artistas, atravez os tempos, trataram de interpretar o aspecto do sublime mestre.
Ha pouco, n’uma estação de banhos dos Cucus, tive occasião de passeiar por Torres Vedras, e andei pelas egrejas a vêr esculpturas e pinturas, inscripções, velharias.
A imagem da Senhora do Sobreiro, no Varatojo, é antiga; segundo a tradição é do seculo XII; póde ser, e todavia não me parece tão antiga como a da Sé de Evora, ou a de Santa Maria da Oliveira, em Guimarães (a primitiva imagem).
Na egreja de S. Pedro vi a imagem de S. Pedro d’Alcantara; rosto, garganta e mãos bem esculpidas, expressão de fervor na oração, arrebatamento; roupagem larga, em grandes pregas; no todo uma estatua elegante, que prende a attenção; talvez de artista italiano.
Na egreja da Graça reparei mais nas estatuas de Santa Monica e Santo Agostinho, que estão em nichos no grande retabulo de obra de talha, do seculo XVII, interessante exemplo de transição do estylo classico para o rococó usado na época de D. João V.
N’essas estatuas de Santa Monica e Santo Agostinho o estofado, ouro sobre branco e vermelho, é accentuado por fino relevo, que dá ás vestes aspecto opulento; a esculptura é muito correcta.
A estatua de S. Gonçalo de Lagos, na sua capella, é elegante: o santeiro fez-lhe a cabeça um tanto pequena, e a cintura delicada; a roupagem está bem lançada.
Na Misericordia dei mais attenção ao Senhor Morto, porque me parece o mais antigo que conheço; não se repare na encarnação; é uma estatua rigida, hirta, feita com certa rudeza mas com attenção. Parece-me anterior ao seculo XVI.
Em Santa Maria do Castello vi esculpturas boas: um Jesus Menino bem notavel e antigo.
E mais antigas ainda me parecem algumas imagens que vi na ermida da Senhora do Amial, a Senhora do Ó, o S. Vicente, e especialmente a Senhora de Rocamador talvez do seculo XIII.
Será bom reparar n’estas obras d’arte, mórmente agora por causa da invasão franceza de estatuetas e oleographias baratas.