Luz

Da egreja de Nossa Senhora da Luz resta-nos o cruzeiro, e a capella-mór; o corpo da egreja abateu por occasião do terremoto de 1755. É da fundação da infanta D. Maria, senhora opulenta e de alta cultura d’espirito. Nesta egreja ha obras d’arte notaveis em esculptura de madeira e pedra, em architectura, e em pintura. A capella-mór tem 12 x 8 metros; o cruzeiro 21 x 10.

A capella-mór é ampla, alta, coberta de abobada revestida, assim como as paredes, de marmores diversos formando quadrellas; é o conhecido estylo classico dominante no findar do seculo XVI. Nichos com estatuas animam as grandes paredes. Na parede que olha ao sul estão rasgadas janellas que dão bastante claridade.

O altar-mór está elevado, sobre o pavimento da capella; quatro degraus se sobem para lá chegar.

Além do altar-mór abre-se um grande arco que abriga o sacrario, soberba obra d’arte muito elegante, em madeira entalhada e dourada; atraz fica o vasto côro, agora sacristia, no mesmo nivel da egreja. Proximo do grande altar, no chão, ha uma abertura circular que diz para a fonte de agua milagrosa.

A meio da capella-mór o singelo tumulo da fundadora.

Na capella-mór ha duas capellas lateraes; outras duas no cruzeiro.

Empregaram na construcção marmores branco e vermelho, servindo-se da pedra d’Arrabida na ornamentação; nos frisos e molduras sobresahem quadrados, losangos, ellipses feitos n’essa pedra, bem trabalhada e polida. A pedra vermelha fórma o fundo, a branca a parte saliente e ornamental.

Nos grandes nichos da capella-mór estão dezesete estatuas em marmore: Nossa Senhora com o Menino de Jesus, S. Thomé, S. André, S. João, S. Lucas, S. Matheus, S. Marcos, S. Simão, S. Mathias; estas á direita, olhando para o altar-mór; á esquerda, S. Filippe, S. Thiago Maior, S. Pedro, S. Judas Thadeu, S. Thiago Menor e S. Bartholomeu. As estatuas da Virgem e dos Evangelistas são maiores.

Estas estatuas são em marmore branco d’Estremoz, lindo marmore; o trabalho é muito pegado, os artistas não se atreveram a desligar, a destacar braços ou mãos.

No exterior do edificio, lado sul, ha outra estatua de Nossa Senhora com o Menino e, ainda uma terceira na frontaria do Collegio Militar; todas da mesma época e do mesmo estylo acanhado. São todavia de bom trabalho, e representam excellentemente o estado da estatuaria em Portugal naquelle tempo.

No altar-mór admiramos alguns baixos relevos em fino jaspe, em seis pequenas pilastras; são figuras symbolicas da Fé, Justiça, Fortaleza, etc.

Sobre a figura da Fortaleza ha um medalhão com Hercules, o leão e o centauro finamente executado.

Uma das figuras é a Astronomia, outra a Medicina. Nas pilastras que formam as esquinas do altar, as faces lateraes mostram fructas e flores, escudos e peças d’armadura. Estes bellos baixos relevos são de pura renascença, d’um estylo muito anterior ao frio classicismo da capella-mór.

Alguns dos symbolos destoam da ideia christã, parecem deslocados na ornamentação d’um altar-mór. É possivel que sejam peças destinadas a outra obra d’arte, que foram aqui aproveitadas. Nas duas capellas lateraes do cruzeiro de Santa Maria de Belem (Jeronymos) ha uns lindos baixos relevos nos altares, pouco vistos, que passam mesmo despercebidos porque teem luz escassa, que, me parece, se relacionam com estes da Luz na qualidade da pedra, e no estylo do trabalho. E no portico do poente, nos Jeronymos, superiormente, ha duas pilastras que dizem com estas da Luz[1].

[1] Devemos lembrar que Jeronymo de Ruão, architecto da Luz, tambem o foi da capella-mór dos Jeronymos

Na alta parede da frente da capella-mór ha oito quadros em disposição symetrica; o maior occupa o centro, é Nossa Senhora da Luz com o Menino, que apparecem ao pobre Pedro Martins; o milagre que deu origem á fundação da ermida primitiva.

Este quadro está assignado: Franciscus Venegas, Regius pictor faciebat.

Sobre este quadro está outro painel de moldura circular, que representa a Coroação da Virgem; está tambem assignado: F. Venegas. f. Como estes dois quadros estão bastante altos as assignaturas não se descobrem á primeira vista, mas é facil a leitura com um binoculo regular.

Á esquerda da Coroação está a Adoração dos Reis, á direita a Apresentação no Templo, em molduras ellipticas; não lhes descubro assignatura. Aos lados do grande quadro do milagre de Pedro Martins, está a Visitação á esquerda, e á direita a Adoração dos pastores; não lhes vejo assignatura; por baixo á esquerda Nossa Senhora e S. Joaquim, á direita a Annunciação, este assignado: F. Venegas f.

Os paineis não assignados podem ser do mesmo artista Venegas; são pinturas em madeira, bem desenhadas e pintadas, em boa conservação. Á primeira vista estas pinturas destoam, divergem entre si; a meu vêr porque o pintor, que era excellente executante, não tratou de inventar, contentando-se em copiar, ou quasi, os bons quadros que conhecia.

Assim este quadro recorda Raphael, outro o Sarto, aquelle o Parmesão; na Coroação da Virgem, singelo grupo em fundo dourado, parece vêr-se a reproducção de quadro muito antigo de um primitivo; na grande composição central lembra logo a Transfiguração de Raphael; na Annunciação, que tem grande vigor de colorido, e luz intensa de grande effeito, recorda o Mazuoli. Isto é, este Venegas, excellente pintor, está completamente dominado pela escola italiana.

Na capella da esquerda está o quadro da Circumcisão. O fundo é formado por apparatoso edificio do renascimento. A figura da Virgem é admiravel; á esquerda, a Caridade, mulher com duas creanças, de bom effeito; á direita, no fundo escuro, a Humildade. No primeiro plano vê-se um tapete persa e um cãosinho felpudo, de luxo, pintado com muito cuidado.

Na capella á direita a Sacra Familia, Anjos coroando: fundos claros, edificio do renascimento em ruina. Detalhes minuciosos.

O trabalho d’esculptura em madeira dourada que reveste a grande parede da capella-mór faz bom effeito; é desegual, talvez em parte material aproveitado para encher o vão. Mas o sacrario é uma peça de grande elegancia; renascença classica de cuidadosa execução.

Na capella esquerda do cruzeiro está um quadro notabilissimo. S. Bento dá a regra aos seus monges. No primeiro plano á esquerda el-rei D. Manuel, á direita a infanta D. Maria. Um fidalgo e diversos monges formam grupo atraz da figura do rei, uma dama e muitas freiras estão depois da infanta. Todas as figuras estendem o braço direito, a palma da mão para cima como signal de acceitação da regra. O pintor para evitar monotonia variou muito as posições dos dedos; foi um verdadeiro esforço, um trabalho habilidoso e paciente o desenho de tantas mãos; a mão fina e lisa das damas novas, a nodosa e enrugada das velhas, a robusta e a gorducha dos fortes monges. D. Manuel tem o collar de Christo. A infanta veste com fausto; vestido de tissu lavrado, apertado na frente com laços de fitas com agulhetas; joias com pedras preciosas, gorgeira de fina renda, gola muito alta, collar com fita pendente de ouro e pedras. O lindo rosto juvenil da dama de côrte, vestida mais modestamente, pintado n’um tom menos brilhante, succede muito bem á magestosa grande dama, e prepara para o aspecto ascetico do grupo de freiras. Tanto estas como os frades teem phisionomias estudadas; são retratos. Por isto este painel tem o duplo valor de obra d’arte, e de documento historico, dando-nos ainda preciosos elementos de indumentaria. Ha outros retratos da infanta; e o busto de prata que se conserva em Santa Engracia (antiga egreja dos Barbadinhos) harmonisa com este em aspecto e vestuario.

As grades da capella-mór e das outras capellas são em pau santo com torcidos.

No cruzeiro á direita fica outro altar. É a capella do Senhor dos Afflictos; é a imagem de Jesus Crucificado, esculptura em madeira de boa execução, corpo robusto com anatomia estudada. Sob a imagem, n’um friso, ha duas taboas pintadas que merecem attenção. Em uma Santo Antonio e S. João Baptista; na outra as santas Agueda e Luzia, com os seus emblemas. São pinturas talvez do começo do seculo XVI alli applicadas.

No cruzeiro, á direita, uma porta singela dá para uma pequenina capella, agora sem culto; construcção do começo do seculo XVII. Tem rodapé de azulejos, altar e chão de boa pedra. Está aqui um tumulo com escudo de armas sem lettreiro; outro com brazão e a seguinte legenda:

—Aqui está sepultado o religiosiss.ᵒ varão da ordem de Chr.ᵒ D. F. Martinho de Ulhoa bispo que foi de S. Thomé, Congo e Angola juntamente que mandou fazer esta capella em a qual se lhe diz missa quotidiana falleceo a 8 d’agosto de 1606.—

Guarda-se na sacristia (antigo côro) um grande retabulo que servia de tapar o vão do arco da capella-mór. Representa o milagre de Nossa Senhora a Pedro Martins. É fraca pintura. Está assignado e datado: Anno de 1714. Henrique Ferreira fez.

Sobre o altar da sacristia está a imagem de Nossa Senhora dos Remedios.

É esculpida em madeira, e por nesta ter dado o caruncho a vestiram de seda para occultar as lesões. Merece toda a attenção. É pintada e dourada; luxuoso vestido rodado de mangas perdidas, fita de joias em relevo com imitação de pedras finas. No vestido o artista imitou rico tissu floreado.

O vestuario d’esta imagem recorda o do retrato da infanta. Deve ser esculptura do fim do seculo XVI.

Da mesma época deve ser um grande frontal com o brazão da infanta bordado no centro e aos lados; tem fachas de velludo vermelho com bordado alto a ouro e prata, sendo os vãos ou entrefachas de seda branca.


Junto do altar-mór a abertura do poço ou fonte da agua milagrosa, um simples bocal raso com tampa de madeira.

A fonte é bem curiosa. A entrada deita para um quintal contiguo. Descemos a escada e na parede vemos alguns azulejos antigos, mouriscos, de fino esmalte e relevos. Um portico em estylo manuelino dá para o espaço onde nasce a agua; uma abobada forrada de azulejos brancos com estrellas azues; outros revestem os rodapés e paredes, em pequenos quadros formados de quatro azulejos, de diversos typos, alguns raros. O portico tem columnas torcidas e no intercolumnio uma facha com romans.